sábado, 18 de dezembro de 2021

Brasil passa por empobrecimento de sua sociabilidade

Diversos episódios de violência contra pessoas indefesas e frágeis revelam um aspecto problemático da realidade social brasileira. São aqueles casos que poderiam ter sido evitados se tomados alguns cuidados autoprotetivos em relação às vítimas potenciais. Se uma desconfiada prudência fosse adotada pelas famílias em face dos perigos da modernidade.

A falta desses cuidados revela-nos uma sociedade ignorante em relação ao que é o mundo moderno. Por isso destituída de uma consciência crítica imprescindível para viver e sobreviver participativamente nos dias de hoje.

Quanto a isso, nos países civilizados as ciências humanas são decisivas na formação da personalidade tanto dos pais quanto dos filhos. Principalmente quanto à consciência social em relação ao que é a sociedade que nos forma e nos conforma.

O mundo atual é o mundo que perdeu ou está perdendo de modo socialmente desigual os valores sociais da tradição e das identidades coletivas e a consciência dos limites e condições do que é e não é possível ser e fazer. O Brasil é um país que passa por acentuado empobrecimento de sua sociabilidade, o que se evidencia nas manifestações de violência autodestrutiva daí decorrente.


Demoramos na resposta à crise social, na elaboração e difusão de uma cultura substitutiva de identificação, localização do risco às vítimas potenciais das situações de distanciamento social invisível no interior dos grupos tradicionalmente de proximidade, como a família e a vizinhança.

Amplia-se uma patológica sociabilidade de pessoas reduzidas à condição de indivíduos, mediada por sua coisificação. Regride e encolhe a historicamente e decisiva sociabilidade comunitária, que, mesmo com a modernização, é socialmente decisiva no equilíbrio das relações sociais. A sociedade está em perigo, ameaçada pela anomia e pela anulação sem inovação das normas sociais.

Essas transformações, na vida cotidiana e interativa, se manifestam na concreta ameaça aos frágeis, como crianças, adolescentes, velhos e, não raro, a mulheres. São as situações em que a vítima e o algoz vivem juntos ou próximos, mas separados pelo desconhecimento da hierarquia social própria da diferença de idade, de posição social e até de gênero, uma questão cultural que facilita sua vitimação.

Vítima e algoz não só estão em tempos desencontrados. A vítima está no lugar errado e na hora errada, em face de pessoas erradas. Não raro de modo permanente, como nos casos de estupro de filhas por pais e padrastos, cada vez mais frequentes entre nós como causa de linchamentos. São situações de convivência marcadas pela banalização do outro e pela supressão da responsabilidade social de cada um quanto aos demais.

Em artigo recente, analisei o caso do jovem negro, pobre e quilombola que, numa cidade interiorana do Rio Grande do Norte, foi amarrado, surrado e pisoteado por um comerciante branco, já envolvido em episódio precedente de racismo. O autor da violência ainda pautado por valores depreciativos da pessoa próprios do regime de escravidão.

Em 2014, Fabiane Maria de Jesus, uma mãe de família, foi brutalmente linchada num bairro em que morava no Guarujá, SP. Fora confundida com a imagem forjada de suposta sequestradora de crianças, divulgada pelas redes sociais. A multidão foi atiçada por uma mulher que dera o grito de que ela estava tentando sequestrar uma criança.

Na verdade, ela estava saindo de uma frutaria e, vendo o menino chorar na calçada, deu-lhe uma fruta. Em poucos minutos, mais de mil pessoas estavam arrastando-a pela rua. Apedrejada, derrubada e espancada, foi morta como se não fosse um ser humano.

Em 2003, num sítio abandonado de Embu-Guaçu, um casal de adolescentes de um colégio de São Paulo acampava quando foi rendido por um pequeno grupo de roceiros liderado por Champinha, menor de idade, morador na região. Durante cinco dias, foram prisioneiros do grupo, seviciados, a moça foi violentada e acabaram mortos.

É possível fazer uma leitura antropológica do que ocorreu. Os jovens de classe média urbana estavam fazendo algo que no mundo rústico dos agressores significava apenas que eram pessoas disponíveis para a violência que as vitimaria. Pessoas supostamente desumanizadas pela liberdade de fazer o que contrariava a cultura repressiva de grupos atrasados.

A própria concepção de vizinhança está substancialmente alterada em relação ao que ela era na geração de nossos avós. Uma indicação nesse sentido é que os linchamentos, forma violenta e não raro cruenta de justiçar alguém, até por motivos banais, ocorrem cada vez mais nos bairros. E pelas mãos dos moradores, que definem como perigo e inimigo o estranho, o recém-chegado, o arredio, o diferente.

Maldições históricas

Quem observa a política e a realidade social no presente, tem razão dese assustar com as maldições que pesam sobre nossa história, é preciso olhar adiante para perceber o potencial que temos, se formos capazes de reorientar nosso destino nacional.

Por sua estupidez e maldade no tratamento da epidemia, pela desmoralização do país no exterior, pela desconstrução de nosso sistema científico, pela desconfiança sobre a as eleições e ameaças à democracia, a presidência de Bolsonaro será vista como uma maldição na história do Brasil. Mas não será a única que caracteriza nossa história, e de fato ela é consequência de outras anteriores que amarram há séculos nossa evolução civilizatória.


A estrutura escravocrata por quase toda nossa história, submetendo parte de nossa população ao trabalho escravo deixou a maldição que até hoje pesa provocando racismo, aceitação da desigualdade, da corrupção e da violência. Como irmão da escravidão, o latifúndio, imposto desde as capitanias hereditárias, deixou a maldição da terra como reserva de valor nas mãos de especuladores e não como fator de produção nas mãos dos trabalhadores.

O Brasil sofre a maldição do desrespeito aos limites dos recursos nacionais: ecológicos, fiscais, urbanos, sociais. Aceitando-se depredar os patrimônios como se fossem infinitos. O resultado é a degradação ambiental, as cidades transformadas em “monstrópoles”, a moeda desvalorizada sistematicamente por inflação.

Em parte, isto foi uma exigência da maldição do desenvolvimento industrial baseado sobretudo na indústria automobilística. Esta opção exigiu concentrar renda, endividar o Estado e as famílias, degradar o meio ambiente, desorganizar as finanças públicas e individuais.

Esta maldição foi possível por causa da aliança maldita entre políticos populistas e economistas irresponsáveis, incapazes de adaptar teorias importadas à nossa realidade cultural.

Talvez a maior e mais permanente maldição esteja no desprezo à educação de base. Por séculos temos descuidado de implantar um sistema educacional que assegure escola com máxima qualidade a cada criança brasileira, independente da renda e do endereço de sua família. Esta opção histórica levou à formação de uma economia com baixa produtividade, e uma sociedade desigual, violenta, sujeita à política corrupta e populista. A maldição da deseducação é a mãe de todas as maldições históricas que caracterizam o Brasil, de Cabral a Bolsonaro.

Da mesma maneira, é na observação do desafio educacional que podemos encontrar otimismo para o futuro do Brasil. Se o païs se une em torno a uma revolução que assegure educação de qualidade para todas nossas crianças, no prazo de uma geração, o Brasil poderá mobilizar o maior de nossos recursos: os cérebros de nossa população. Neste século do Conhecimento, com nossa imensa riqueza natural, com o ativo econômico já implantado apesar dos erros, aliados à população educada, o Brasil pode dar o salto civilizatório que vem sendo impedido pelas maldições do passado

Mediocridade criminosa

 Rucke Souza

Não é tempo de violência, não é tempo de sentimentos menores

Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa  

Pedras da fome

Guardo da semana que passou duas imagens fortes. A primeira, a de uma estante com livros, erguendo-se solitária em meio a um cenário de absoluta devastação, após a passagem de um tornado, em Mayfield, nos Estados Unidos da América. A estante está intacta. Os livros continuam alinhados, uns ao lado dos outros, disponíveis para quem os quiser consultar. Na segunda imagem vêem-se seis girafas mortas, fotografadas a partir do céu, como bailarinas caídas num palco. As girafas morreram de sede, perto da aldeia de Eyrib, no Quênia, vítimas de uma das piores secas já registradas naquele país da África Oriental.

A primeira imagem é uma metáfora pronta, de uma perfeição milagrosa, sobre o papel e a capacidade de resistência da maior invenção da Humanidade — o livro. Depois que tudo desmorona, aquilo que nos resta, e que nos ajuda a responder à angústia do recomeço do mundo, é a literatura.

Como escritor fico sempre assustado quando alguém me diz “seu livro mudou minha vida”, ou, numa versão ainda mais dramática, “seu livro me salvou”. Assusta-me a responsabilidade. Reconheço, contudo, o poder redentor dos livros. Alguns deles também mudaram a minha vida. Estou a pensar, por exemplo, num dos títulos clássicos de Bertrand Russel, “Porque não sou cristão”, ou num dos grandes romances fundadores da literatura sul-africana, “Chora terra bem-amada”, de Alan Paton. Li ambos em plena adolescência. O primeiro fez de mim um pacifista radical e um agnóstico obcecado pelo divino. O segundo ajudou-me a compreender e a combater o apartheid e, de forma mais geral, todas as formas de injustiça racial.


A segunda imagem forte que guardei da semana não permite nenhuma metáfora de esperança. Uma girafa viva, dançando na savana, é a ilustração da graciosidade, da elegância improvável e do extraordinário poder e imaginação da mãe natureza. Uma girafa morta é a própria morte — a humilhação da vida.

As duas imagens, a da estante e a das girafas, retratam uma tragédia comum. Ambas expressam a situação de colapso ambiental que o planeta atravessa. Enquanto certas paisagens são castigadas por ciclones e cheias, outras definham de sede. A destruição das florestas tropicais ou do permafrost, um tipo de solo característico das regiões árticas, ameaça libertar vírus muito mais perigosos do que aqueles que hoje combatemos. Já não temos sequer a desculpa da ignorância. Sabemos exatamente o que é necessário fazer, e não fazer, para atenuar o aquecimento global e evitar a nossa própria extinção.

Lendo “Underland”, de Robert Macfarlane, escritor britânico que escreve sobre paisagens e tudo aquilo que elas ocultam, encontrei outra metáfora assustadora: “Na República Tcheca, os níveis estivais do rio Elba desceram de tal maneira que foram descobertas “pedras da fome”, pedregulhos esculpidos, usados ao longo de séculos para recordar secas e alertar para as suas consequências. Uma destas pedras revelou a seguinte inscrição: se me vires, chora”.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Um colchão por domicílio

O casal mora lá, embaixo de uma longa marquise pintada de verde, a poucos minutos do cruzamento entre a Rebouças e a Faria Lima. Naquele mesmo endereço já funcionou um supermercado de luzes escassas, com ares mofados de entreposto comercial. Hoje, com suas portas de metal bem trancadas, o imóvel não tem mais nenhuma função social ou mercantil. Só a calçada, apenas ela, encontrou uma utilidade: virou dormitório popular. Foi lá que o jovem casal fixou residência, em pacífica vizinhança com outros moradores. Os colchões perfilados, mudos e discretos se organizaram para não incomodar ninguém: tiveram o cuidado de deixar livre uma boa faixa do calçamento para que os pedestres trafeguem, sem virar a cabeça.

A moça é alta, bonita. Dos seus olhos grandes e claros, realçados pelo tom bronzeado do rosto, escorre uma sensação de paz que às vezes alcança quem passa por ali. O nariz descreve um arco pronunciado, numa ponte fina entre a testa e os lábios. Elegante e delgado, o nariz denota personalidade, mas não arrivismo. Quando ela se espreguiça sobre o cobertor bem esticado, no meio da tarde, deixa ver que está feliz. Temos algo a aprender com ela.


A moça, o marido e os vizinhos às vezes almoçam no mesmo lugar em que dormem. Conversam sobre isso e aquilo. Malas puídas fazem as vezes de mesinhas de cabeceira. Caixas de papelão desmontadas e dispostas ao lado, como divisórias, ajudam a cortar o vento e a demarcar os domínios da privacidade de cada um dos lares enfileirados.

Um dia desses estava lá, estacionada ao lado, uma viatura do Samu. Um profissional de saúde examinava a cidadã dos olhos calmos, que, naquela hora, se apertavam numa expressão de dor. Ela estava sentada na beirada de seu endereço, com os pés descalços sobre o piso público. Com as duas mãos, apertava o lado esquerdo do ventre. Duas tardes depois estava lá outra vez, com aquele ar de plenitude que só os seres humanos a quem não falta nada conseguem experimentar. Sim, temos algo a aprender com ela.

E com tantos mais. Os moradores de rua se multiplicaram por São Paulo. Na Amaral Gurgel, sob o Minhocão, há barracas reforçadas com camadas adicionais de lona plástica, ao lado de leitos ao relento. Na ligação entre a Avenida Paulista e a Doutor Arnaldo, naquele túnel avarandado que cruza por baixo a cabeceira da Consolação, as barraquinhas-dormitórios se proliferaram como numa florada. Quem passa por ali vê as rodas de conversa, que lembram as cadeiras na calçada das pequenas cidades do interior.

Emoldurada pelas luzinhas de Natal que eclodem nas fachadas das instituições financeiras, a nova ocupação urbana faz a gente pensar em presépios vivos. A metáfora é piegas, bem se sabe, mas é impositiva.

Nós somos uma cidade que gera desabrigados em escala superindustrial. Nós somos uma cidade que produz pobreza, fome e desamparo, mas não sabemos o que somos e o que fazemos. Não vemos a segregação que fabricamos. Somos uma cidade que fecha os olhos para os presépios de carne e osso e faz orações pungentes diante dos presépios de mentirinha – alguns deles caríssimos, financiados pelos bancos sobre o pavimento da Paulista.

Os moradores de rua se multiplicam na mesma proporção que os lucros dos financistas. Em 2019, o Censo da População em Situação de Rua contabilizou 24,3 mil sem-teto em São Paulo. Agora, as estimativas dão conta de 66 mil paulistanos sem casa para morar. A pandemia piorou o quadro. Dizem as estatísticas que 19 milhões de cidadãos passam fome no Brasil. As estatísticas não têm nem rosto nem coração, mas o mais perturbador é que nós, nós mesmos, os presunçosos aqui que nos gabamos de saber ler as estatísticas, parecemos não ter nem rosto, nem coração, nem responsabilidade. É como se não fosse com a gente.

Nós somos a metrópole que morrerá de insensibilidade. Nós somos a nação que morrerá de meritocracia, sem saber que os famintos e os degredados formam conosco um só corpo. Nós nunca entendemos o que isso significa, encastelados no alto de nossas petulâncias patéticas. Nós ainda estamos longe de saber que pior do que ter um colchão por domicílio é ter a ostentação como ideal de gozo.

Mas não há de ser nada, sejamos otimistas. É Natal, você sabe, então sejamos confiantes no tal do futuro melhor. Imaginemos que a cidade de São Paulo e o Brasil conseguirão atravessar este desfiladeiro de vergonha e horror e que, lá adiante, a gente possa ver o tempo que terá passado em fotografias nos livros de História. Isso na perspectiva otimista, é claro. Imaginemos a retórica que teremos de inventar para explicar o nosso desprezo cruel pelo sofrimento dos nossos iguais. Por que não fizemos nada quando podíamos ter feito tudo?

No futuro, se houver futuro, os retratos dos padecimentos que fabricamos nas ruas e nas periferias do Brasil serão tão chocantes quanto as cenas que hoje guardamos do gueto de Varsóvia. Diremos o quê? Que a culpa não era nossa? Enquanto isso, a moça bonita e seu marido talvez passem o Natal sob a marquise. Contentes, a seu modo. Sem máscara.

Cozinha brasileira do Bozo

 


No escurinho do Planalto, ameaça à democracia continua em alta

No escurinho do Planalto, o golpismo continua em alta. Conselheiro presidencial e crítico contumaz do STF, o general Augusto Heleno reeditou a avaliação de que a corte tenta "esticar a corda até arrebentar" e insinuou que uma reação autoritária ao tribunal é uma carta que está sempre na mesa de Jair Bolsonaro.

"Eu tenho que tomar dois Lexotan na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF", disse o ministro na formatura de um curso para agentes da Abin, na última terça-feira (14). A fala do general foi divulgada pelo site Metrópoles.

Heleno é um personagem recorrente nos sonhos antidemocráticos dos bolsonaristas. Em 2020, ele publicou uma nota em que ameaçava o STF com "consequências imprevisíveis" caso o tribunal determinasse a apreensão do celular do presidente. General da reserva, ele empresta uma coloração militar aos planos autoritários do chefe.


Na conversa com os agentes da Abin, o ministro jogou lenha no radicalismo político de Bolsonaro e seus aliados. "Um atentado ao presidente da República bem-sucedido modifica totalmente a história do Brasil", afirmou. "Tenho uma preocupação muito grande com esse 2022."

Não se deve ignorar perigos nem baixar a guarda na segurança de um presidente, mas o risco à vida do governante é a desculpa favorita de autocratas interessados em tomar medidas fora dos limites da lei.

O próprio Bolsonaro voltou a explorar, nos últimos dias, a expectativa de conflitos políticos e institucionais. Nesta quarta (15), ele criticou ministros do STF que, segundo ele, "agem contra sua pátria" e disse que vai "tomar uma decisão" se o tribunal rejeitar a tese que limita a demarcação de terras indígenas.

Em outras palavras, Bolsonaro ameaçou novamente descumprir uma decisão judicial –ou, no mínimo, retomar o confronto direto com o Supremo. A ruptura ainda é a principal ferramenta do presidente para agitar sua base radical.

Pisando sempre na mesma bosta

Por que repetir os velhos erros, com tantos erros novos que há para cometer?
Bertrand Russell

Vale a pena meditar nesta pequena mas grande amostra de sabedoria, agora que o mundo se está a virar para a extrema-direita, esquecido do que aconteceu entre as duas grandes guerras. Não vale a pena repetir os erros cometidos e a forma de o não fazer NÃO é o apaziguamento: é ter a coragem de cortar o mal pela raiz: não permitir que se aproveitem da democracia para a destruir. Coisas que as ideologias totalitárias, de esquerda e de direita, sempre fizeram. Os ditadores vêm-nos dos longes da história, porque nos apanham desprevenidos, sempre da mesma maneira: abrimos-lhes as portas e eles entram, sem pedir licença. Damos-lhes o palco todo, porque gostamos de os ver fazer e dizer palhaçadas, e eles multiplicam-se, como cancros assanhados. Já está a acontecer de novo. E já estamos a cometer os mesmos erros que permitiram que, no passado, à esquerda e à direita, se produzissem dezenas de milhões de mortos e todo um património destruído. Visitem com frequência o aforismo de Russell, que teve a coragem de ir para a prisão, quando se opôs à primeira grande guerra, e, depois, avisou cedo contra o nazismo e o comunismo soviético. Destemido inimigo de ditadores, não o foi menos de uma América de infame promiscuidade entre políticos, militares e industriais (da guerra). Espíritos intrépidos como Russell são os heróis que verdadeiramente ficam. Os outros são mais ou menos cúmplices, por omissão, dos assassinos.

Eugénio Lisboa

'o tempo do Lula tinha carne'

Há poucos dias, visitei uma mulher em uma favela de Madureira que trabalha no vasto setor informal do Brasil. O nome dela é Aline Conceição, tem 39 anos e vende café, doces e sanduíches em uma estação de BRT. Trabalha sete horas por dia, de segunda a sábado. No entanto, é pobre. Assim como todos os outros cerca de 35 milhões de brasileiros no setor informal. Eles representam cerca de 40% da população ativa e formam a espinha dorsal da sociedade, que entraria em colapso sem eles.

Antes da pandemia, os informais nunca ganharam o suficiente para ascender socialmente, mas sempre conseguiram sobreviver. Isso mudou. Pessoas como Aline Conceição correm o risco de passar fome e desnutrição.


Isso se deve à crise econômica, à alta inflação e à falta de empregos, bem como à fatal política econômica, social e sanitária do governo Bolsonaro, que mais uma vez esconde toda a sua incompetência por trás de todas as ruidosas tiradas e provocações.

Aline Conceição só já não passa fome porque recebe cestas básicas da organização católica Pastoral da Criança na favela de Campinho. Quando perguntei a ela sobre seu candidato na eleição presidencial do ano que vem, ela respondeu com uma frase só: "Durante o Lula, a gente comia carne!"

A frase contém todo o dilema dos chamados candidatos da terceira via, sobretudo Sergio Moro. Nas eleições, os temas principais serão pobreza, desemprego e fome. Em contraste com as eleições na Alemanha, por exemplo, questões futuras como mudança climática, proteção ambiental, digitalização e mobilidade não terão grande influência.

O candidato que tiver a melhor resposta para as antigas pragas brasileiras vencerá a eleição. Já parece claro que não será Sergio Moro ou João Doria. É como escreveu a revista satírica Sensacionalista: "Eles têm discutido a união de forças para perder a eleição de 2022." Embora a grande mídia do Brasil e a elite econômica de São Paulo tenham declarado os dois como seus favoritos, eles quase não têm apelo fora da engravatada classe alta urbana.

Quem quiser vencer eleições no Brasil tem que falar a língua do povo. Ele tem que entender como os brasileiros pensam, sentem, se expressam e o que os move. Imagine Sergio Moro ou João Doria no casebre de Aline Conceição na favela de Campinho, prometendo uma melhora na situação; ou visitando pequenos agricultores do sertão pernambucano ou comerciantes na feira de Manaus. Dificilmente é possível imaginar maiores abismos culturais.

Faz parte do dilema brasileiro que grande parte da classe política e da mídia do país viva completamente desligada da realidade da população. Quase ninguém nela já disse a frase ou mesmo a ouviu na família: "Não tem carne, porque é muito cara."

Embora tenha havido alguns desdobramentos promissores nas últimas eleições para trazer mais representatividade aos parlamentos brasileiros (a eleição de algumas mulheres negras em particular é animadora), basta olhar para a lista das deputadas mais jovens no Congresso em Brasília para se desesperar. Dos 40 parlamentares com menos de 35 anos, 32 são filhos, filhas, netos, sobrinhos ou sobrinhas de políticos. Parece que os assentos no parlamento são herdados. Com eles, a visão elitista e a falta de conhecimento do que significa trabalho duro e mal remunerado, privação e fome.

Em Brasília e na avenida Faria Lima, formaram-se bolhas nas quais podem florescer ideias malucas como a candidatura de um Sergio Moro. Algumas pessoas podem realmente acreditar que Moro tem alguma chance contra Lula ou Bolsonaro.

A eleição vai ficar entre os dois por um motivo simples. Eles falam a língua do povo e não têm problemas em se mover entre pessoas comuns. Mesmo aqueles que não gostam de Bolsonaro têm que admitir que ele consegue se comunicar com seus apoiadores, embora muitas vezes apelando aos piores instintos: ressentimento, intolerância, agressão, comportamentos antissociais.

Há um núcleo duro, quase sectário, de bolsonaristas no Brasil; segundo as pesquisas são cerca de 20% do eleitorado, que se identificam com esse homem. Infelizmente, nada pode ser feito a respeito até outubro, nem mesmo por Sergio Moro. Eles amam Bolsonaro por seu jeito direto, autêntico e por suas grosserias. E vão alegar que ele está ajudando os pobres com os vários auxílios que foram implementados: auxílio emergencial, Auxílio Brasil, Vale Gás.

Do outro lado está o grande narrador Lula da Silva, que, mesmo aos 76 anos, pouco perdeu de sua energia. Ele continua sendo um grande orador e pode oferecer aos brasileiros a história de sua presidência, que evoca lembranças positivas em muitos brasileiros pobres. Em virtude da sua própria biografia, Lula tem algo que Sergio Moro não pode oferecer: credibilidade e a sensação de conhecer os problemas do cidadão comum.

Dados divulgados recentemente apontam que o Brasil tem 119 milhões de pessoas com alguma privação alimentar. Desses, pelo menos 19 milhões já estão passando fome. Significa que 55% das famílias brasileiras estão em insegurança alimentar.

Nenhum candidato que não tenha uma resposta confiável ao problema precisa concorrer em outubro próximo. Sergio Moro e João Doria nem precisam se dar ao trabalho. "No tempo do Lula tinha carne" é a frase-chave das próximas eleições.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Fies saqueou a bolsa da Viúva

Lula e Bolsonaro meteram-se na discussão do calote do Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies. Na teoria, ele custearia as anuidades de jovens universitários que cursavam a rede privada de ensino. Na prática, desde 2011 virou um mecanismo que permitiu a transferência do risco da inadimplência para a conta da Viúva. Atendeu 3,4 milhões de jovens e tem a receber R$ 123 bilhões, ervanário superior ao déficit da União neste ano. Desse valor, R$ 27,9 bilhões foram contabilizados como ajustes para perdas.

Lula promete anistiar os devedores. Bolsonaro rebate: “Por que não fez lá atrás, pô? Está aí de sacanagem”. Noves fora a linguagem, quem abriu a porteira não foi Lula, mas Dilma Rousseff. O capitão correu atrás e agora oferece uma renegociação dessas dívidas. Está no seu terceiro ano de governo e ainda não apresentou um programa que faça sentido. Há pouco, mimou as universidades privadas, aninhando-as no ProUni.


O Fies foi um jabuti financeiro disfarçado de girafa social. Só enganou quem jamais havia visto qualquer dos dois bichos. Enunciava mal o problema do jovem que entra para uma faculdade e não tem recursos para pagar as anuidades, resolvendo de maneira ampla, geral e irrestrita a questão do faturamento das faculdades privadas. Era um empréstimo que desprezava a figura do fiador. Pior, dava bolsas até mesmo a estudantes que haviam tirado zero em provas do Enem. Durante sua breve passagem pelo Ministério da Educação, Cid Gomes quis pôr ordem nessa bagunça, e o presidente da guilda das escolas privadas atacou-o: “O governo fez uma cagada. (...) O ministro não é do ramo”.

Bem enunciado, o problema do financiamento dos estudantes é administrado a duras penas nos Estados Unidos. Lá, o jovem Barack Obama só quitou sua conta com Harvard muitos anos depois, quando era senador. Do jeito que vão as coisas em Pindorama, o problema continuará aí. Lula justifica a anistia argumentando que há empresários caloteiros. Bolsonaro condena sua proposta falando numa renegociação que não começou. É bom lembrar que os donos de faculdades já receberam o seu, e não há como pegar de volta a anuidade de um aluno que tirou zero na prova de redação e nunca pensou em pagar o que devia. No auge da festa, as faculdades estimulavam a migração dos alunos para a bolsa da Viúva.

Lula e Bolsonaro não se mostraram dispostos a expor o essencial: a privatização do dinheiro público num programa condenado ao calote e ao enriquecimento de empresários espertos. O capitão baixou o nível de uma discussão mal posta e insultou o adversário. Esse é seu estilo, e vai piorar.

O economista Paulo Guedes sabia do que falava quando denunciava as “criaturas do pântano político, piratas privados e burocratas corruptos, associados na pilhagem do Estado”. Há quatro meses ele estuda uma anistia parcial, associada à renegociação. Falta mostrar quem foram os piratas privados, que se associaram a burocratas enganadores usando o nome da garotada para pilhar a Viúva.

O caso do Fies é uma batalha perdida. Visitá-lo serve para apontar o mau caminho que começa a tomar o debate da sucessão presidencial.

Brasil quer distância da miséria

 


O Brasil não merece

Não é de hoje que o Brasil decepciona. Já se vão décadas. Mesmo em períodos em que alguns acreditavam que estávamos a brilhar, embalados pela ilusão do pré-sal e pelo boom dos preços das commodities, falhamos. Desperdiçamos a oportunidade de avançar e nos afundamos na corrupção. Comparados aos nossos pares emergentes, cuja renda per capita cresceu 5,12% entre 2003 e 2011, comemoramos 2,94% de crescimento sem olhar para o lado e ver que o mundo também crescia e, de forma acelerada, nos deixava para trás. Entre 2012 e 2021 a diferença se consolida com a retração de 0,54% do PIB per capita frente aos 3,28% de crescimento nos nossos pares.

Nesse período, apesar do sucesso dos programas de transferência de renda no Brasil, em particular do Bolsa Família, a redução da pobreza foi muito mais intensa nos outros países emergentes, em particular na China, que retirou mais de meio bilhão de chineses da miséria. Nos números da desigualdade, a queda quase contínua que se observa desde o pósreal foi revertida a partir de 2014. Daí em diante só se agravou, com a pá de cal sendo a pandemia, que tornou mais pobres os pobres. Devolvemos o que levamos décadas para, a duras penas, melhorar.


Nossa produtividade anda de lado – e, mais recentemente, para trás. Um trabalhador brasileiro tem o equivalente a 25% da produtividade de um trabalhador nos países desenvolvidos. Era 30% na década de 90. Nossos pares, antes muito menos produtivos do que o

Brasil, encostaram nos nossos números e, ao contrário de nós, continuam reduzindo a diferença que os afasta do desenvolvimento. Em paralelo, quase não investimos. Em infraestrutura, os 2% de investimento do PIB em média nos últimos 25 anos não dão sequer para cobrir a depreciação do estoque de capital físico que, com alto custo, acumulamos.

O Brasil de 2000 que em termos relativos empobrecia, nos anos 2010 empobreceu também no absoluto. Em 2022, segundo ano do que aponta para ser a nossa terceira década seguida de atraso, talvez tenhamos uma chance de reversão.

Ou não. Afinal, as mesmas práticas e ideias que nos trouxeram aos números acima continuam vivas e ainda encantam, apoiadas no atual obscurantismo e dando voz ao messianismo e ao populismo. São todos parte desse grande trem fantasma em que o Brasil se transformou. O Brasil não merece insistir nos mesmos erros, sejam eles mais ou os menos recentes. Estejam eles à direita ou à esquerda. Merecemos, finalmente, avançar.

Os dados citados têm como fontes o IBGE, a Penn World Table e o Banco Mundial.

Não despertemos os leitores

Os leitores são, por natureza, dorminhocos. Gostam de ler dormindo.

"A vida é um fardo" - isto, por exemplo, pode-se repetir sempre. E acrescentar impunemente: "disse Bias". Bias não faz mal a ninguém, como aliás os outros seis sábios da Grécia, pois todos os sete, como há vinte séculos já se queixava Plutarco, eram uns verdadeiros chatos. Isto para ele, Plutarco. Mas, para o grego comum da época, deviam ser a delícia e a tábua de salvação das conversas.

Pois não é mesmo tão bom falar e pensar sem esforço? O lugar-comum é a base da sociedade, a sua política, a sua filosofia, a segurança das instituições. Ninguém é levado a sério com ideias originais.

Já não é a primeira vez, por exemplo, que um figurão qualquer declara em entrevista:

"O Brasil não fugirá ao seu destino histórico!"

O êxito da tirada, a julgar pelo destaque que lhe dá a imprensa, é sempre infalível, embora o leitor semidesperto possa desconfiar que isso não quer dizer coisa alguma, pois nada foge mesmo ao seu destino histórico, seja um Império que desaba ou uma barata esmagada.
Mario Quintana, "Prosa & Verso"

Governo promove farra do garimpo de ouro na Amazônia

Para quem já admitiu que "o garimpo é um vício, está no sangue", o compadre Grota deve ser um herói, merecedor de ocupar a galeria dos maiorais, ao lado do ditador Augusto Pinochet, do torturador Brilhante Ustra e do Major Curió, também torturador e líder garimpeiro.

Compadre Grota é o nome de guerra de Heverton Soares, um dos narcotraficantes —o outro é Silvio Berri Júnior, ex-piloto de avião de Fernandinho Beira-Mar— apontados pela Polícia Federal como chefes de organizações criminosas no Pará e que ganharam do governo o direito de explorar uma área de mais de 810 hectares de garimpo de ouro.

As permissões foram outorgadas e efetivadas pela Agência Nacional de Mineração entre 2020 e 2021. Elas são válidas para Itaituba, um município paraense batizado de Cidade Pepita pela grande quantidade de jazidas encontradas quase na superfície do solo. Dá até para imaginar o presidente da República, em seus momentos de tédio e aflição em Brasília, com vontade de jogar tudo para o alto e ir "faiscar", como costumava fazer nos tempos de capitão do Exército.

Brasil vive o maior êxodo de sua história

Uma conjunção histórica de fatores tem feito com que muitos brasileiros achem mais verde a grama do vizinho. Em um fenômeno sem precedentes na história do país, este início de século registra o maior movimento de migração de cidadãos brasileiros rumo a outros países pelo mundo.

Segundo um levantamento do Ministério das Relações Exteriores, o número de brasileiros vivendo no exterior saltou de 1.898.762 em 2012 para 4.215.800 hoje — os últimos dados foram consolidados a partir de informações coletadas pelos consulados em 2020. No período, portanto, o aumento foi de 122%. E, pela quantidade atual de expatriados, pode-se dizer que cerca de 2% dos brasileiros moram hoje em um país estrangeiro.

"Esse movimento de saída de brasileiros nos últimos anos é inédito e, de fato, representa a maior diáspora da história brasileira", analisa Pedro Brites, professor na Fundação Getúlio Vargas.


Se o Brasil foi construído, desde a colonização portuguesa, por levas e levas de imigrantes — de várias partes do mundo, em ondas sucessivas — o atual momento indica uma virada de maré, como se o país que sempre recebeu agora tivesse se tornado um "exportador de gente". "O Brasil passou a ser um lugar de onde as pessoas saem. Isso significa que a sociedade de afluência que aqui se formou está extinta", comenta o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"Agora o horizonte é sombrio, com a experiência do desemprego estrutural contemporâneo, associado aos males herdados: a desigualdade e a exclusão do passado", completa o sociólogo.

E o fenômeno tende a prosseguir. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2018 indicou que, se pudessem, 70 milhões de brasileiros maiores de 16 anos se mudariam para o exterior. No recorte por qualificação, essa era uma vontade de 56% dos adultos com curso superior.

De acordo com levantamento publicado este ano pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, 47% dos brasileiros entre 15 e 29 anos gostaria de deixar o país, se possível. É um recorde histórico. Entre 2005 e 2010, este era o desejo de 26,7% dos jovens; de 2011 a 2014, anseio de 20,1%.

"Em geral, todos movimentos migratórios são ocasionados por motivações religiosas, perseguições políticas, guerras ou questões econômicas. As crises econômicas pelas quais o Brasil tem passado nos últimos anos fez com que muitos decidissem emigrar buscando melhores condições de trabalho, quer sejam profissionais altamente qualificados, ou de baixa qualificação", contextualiza a historiadora Renata Geraissati Castro de Almeida, pesquisadora de imigração na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.

"No cenário atual, de aumento da inflação, afetando o preço do que consumimos no dia a dia, a alta do dólar, e com a ausência de perspectivas de melhorias, a situação tende a piorar", acrescenta.

Brites enumera como sendo três as razões que motivam essa diáspora de brasileiros. Em primeiro lugar, "o mais relevante deles", segundo o professor: a economia. "Ao longo dos últimos anos, o Brasil tem perdido postos de emprego em pontos-chave, com enfraquecimento de setores como a engenharia civil, baixo investimento em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Essa mão de obra qualificada tem procurado oportunidades fora", exemplifica.

"O Brasil atravessa um período de baixo crescimento econômico, estagnação relativa da economia. Isso efetivamente tira perspectivas de oportunidades de boa parte da população, que passa a procurar mecanismos para seguir sua vida", afirma.

O segundo fator é a instabilidade política, um cenário que se agravou com o movimento de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e, em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro. "Essa turbulência acirrada afasta parte da população do nosso país", reconhece o professor.

"Por fim, há a questão da violência urbana, uma chaga social brasileira crônica que sempre tem de ser considerada. As pessoas buscam outras opções, nos Estados Unidos e na Europa, para tentar levar uma vida um pouco mais tranquila e segura", diz o especialista.

"A instabilidade econômica e política do país na última década, associada a um crescimento da violência, e das taxas de desemprego tem servido de gatilho para que muitos decidam buscar melhores oportunidades de emprego e qualidade de vida em outros países", resume a historiadora Castro de Almeida.
País do futuro?

Para o sociólogo Mendes, "a saída de brasileiros é indício de algo mais grave do que o encerramento de um ciclo de desenvolvimento". "É o processo civilizatório, de construção da nação imaginária, que sofre um abalo profundo", pondera.

"É fato que, do ponto de vista econômico, o Brasil moderno, com mercado interno forte sustentado no setor industrial e capaz de oferecer empregos de qualidade aos cidadãos, está quase que definitivamente sepultado", prossegue o sociólogo. "Mas o principal é que os grupos no poder promoveram uma ruptura com a própria história e, portanto, como o povo, sem oferecer nenhum tipo de projeto alternativo de futuro. O país é apresentado aos viventes como um acampamento de estranhos, não uma sociedade política. Um certo discurso que junta agentes do mercado, governantes e líderes religiosos neopentecostais conduz à lógica do salve-se quem puder ou, em termo mais brandos, o mundo é dos eleitos. Isso explica a fuga do desastre."

Em outras palavras, as gerações atuais já não se iludem mais com o discurso de que o Brasil é o tal "país do futuro". "Sem emprego, renda e assistência, em um cenário absolutamente hostil, sair passa a ser a solução", diz Mendes.

"O Brasil, terra do futuro, já não faz mais parte do imaginário de uma geração de brasileiros que vaga errante em busca daquilo que imagina ser uma boa vida: salário, segurança, educação, assistência. Ou seja: comunidade política organizada. É o paradoxo das ideias que conduziram ao poder o representante dos que negam o Estado e a própria política", contextualiza.

Em termos de destinos escolhidos, a América do Norte e a Europa estão entre as principais escolhas. Nos próximos dias, a DW Brasil vai contar histórias de emigrantes brasileiros nos destinos que mais os acolhem ao redor do mundo. São biografias distintas, ligadas por alguns pontos em comum: a superação e a esperança.

Ou, como comenta o sociólogo Mendes, "em todos os casos, o que está em causa é a ideia de que a vida vai mudar para melhor no país de chegada".

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Vendilhões


Há triunfos que só se conseguem pelo preço da alma, mas a alma é mais preciosa que todos os triunfos.
Rabindranath Tagore


Todos nós os conhecemos, os que vendem diariamente a alma ao diabo, para receberem mais uma honra, um prémio, um título, um penduricalho, uma homenagem. A caça ao triunfo é um desporto que abunda por aí. Discípulos do Rastignac, de Balzac, atropelam tudo e todos, denigrem aqui, autopromovem-se além, lisonjeiam acolá, prometem, ameaçam, namoram, prostituem-se, porque sabem que, não havendo verdadeiro mérito ou havendo-o diminuto, os caminhos para a glória são outros: duros, trabalhosos, obstinados, enviesados, torpes, se necessário, gastando nisso uma energia nervosa que teria podido ser melhor empregue, trabalhando mais e intrigando menos.

Na classe dos escritores, este tipo de esforçado puxador de cordelinhos, que alterna entre a manipulação subtil e o esticão grosseiro, que usa as graças sociais mas não desdenha, ocasionalmente, o pontapé boçal, encontra-se por todo o lado, mas alguns atingem, nisso, um apuramento genial, que de todo lhes falta na obra que assim promovem.

Somerset Maugham, homem amargo e cínico, mas exímio observador das bizarrias humanas, escreveu, sobre estes manipuladores incansáveis da própria glória, um romance admirável: 'Cakes and ale", que recomendo calorosamente aos nossos aspirantes à glória, como exaustivo manual de operações que lhes afine a técnica de que precisa a sua desmedida ambição. Nada se ensina melhor, nesse romance perfidamente analítico, do que a arte de esconder uma ambição devoradora por detrás de uma falsa humildade. Tartufos consumados, vestem os vícios com os trajos das virtudes e, depois de se servirem dos outros como seus servidores e promotores, dão-se ares de nada daquilo lhes dizer respeito, fazendo-se muito surpreendidos por uma honra afinal buscada e arrancada sem elegância. No mundo da escrita, como no mundo da religião, como no mundo das universidades, raramente sopra o vento do sagrado. São mundos darwinianos, em que triunfam, frequentemente, não os mais fortes, mas os mais desmunidos de escrúpulos. Conheci e conheço alguns destes exemplares, que habitam o meu zoo privativo. Tenho a certeza de que povoam também o jardim zoológico de La Bruyère. Mas não estou agora com pachorra para o ir confirmar. Molière também os não deixou escapar, marcando-os, para a eternidade, com o ferrete mordente do seu génio.
Eugénio Lisboa

Um passaporte para o absurdo

O ano se encerra com mais uma das melancólicas polêmicas entre o negacionismo e a ciência. O tema, estimulado pela variante Ômicron, é a exigência de um passaporte sanitário para a entrada de estrangeiros no Brasil.

Bolsonaro é contra e disse que a Anvisa queria fechar o espaço aéreo brasileiro, uma conclusão absurda diante de um conselho mais que sensato. O ministro da Saúde foi mais longe com sua frase bombástica: “É melhor perder a vida do que a liberdade”.

Não dá para argumentar com pessoas tão fora da realidade. São tão malucos que diziam no princípio que o passaporte sanitário era ruim para a economia.

Acham que os turistas preferem mesmo os lugares onde não há preocupações sérias com a segurança. Supõem que a maioria das pessoas prefere viajar num mesmo avião com passageiros não vacinados e compartilhar hotéis, restaurantes, passeios com esses mártires da liberdade, que, na verdade, preferem morrer a se vacinar.


A solução econômica que encontraram é determinar quarentena de cinco dias para quem não for vacinado. Ao cabo desse período, eles podem não ter o vírus, mas continuarão não vacinados; portanto, vulneráveis, aumentando o risco coletivo.

Se fôssemos argumentar com o mesmo grau de absurdo, deveríamos lembrar as intensas campanhas que o Brasil fez contra a prostituição infantil. O país dizia claramente nos cartazes e na própria atuação da PF que era uma prática condenável, passível de cadeia. Os estrangeiros que vinham para o Nordeste fazer turismo sexual não eram bem-vindos. Era um tipo de liberdade que violava as leis nacionais. E os eventuais dólares que gastavam aqui não justificam nenhum nível de tolerância com suas práticas.

Quem recusa a vacina não entra em choque com a lei. Mas precisa assumir as consequências de sua decisão. Não é racional a frase de Queiroga, creio que ele dá uma banana para a racionalidade, que condena a discriminação aos não vacinados.

Bolsonaro diz que é Flamengo, algo em que não acredito, pois é apenas um caçador de votos. Se quiser visitar o clube de sua hipotética predileção, será justamente barrado. Ali, a norma é a aceitação de vacinados.

Dentro desse delírio negacionista, Onyx Lorenzoni queria impedir as empresas de exigir a vacinação de funcionários. Todas essas bobagens são ditas em nome da liberdade.

Existe a possibilidade de a variante Ômicron não ser tão pesada assim. Mas é necessário lembrar que no Hemisfério Norte ainda há ondas de contágio. Estão entrando no inverno e, possivelmente, veio da lá a influenza que se propaga rapidamente no Rio.

Talvez seja a última batalha do negacionismo, essa do passaporte. Bolsonaro tentou desacreditar a vacina, investiu contra a CoronaVac, insinuou que a Pfizer nos transformaria em jacaré.

Apesar de todo o esforço negacionista, a enxurrada de fake news na rede, a vacinação no Brasil tem sido um sucesso. Jornais da Alemanha mencionam esse êxito.

Derrotados em todas as linhas, os homens do governo investem contra o passaporte sanitário. A fórmula que encontraram para aceitar não vacinados pelo menos encarecerá em mais ou menos US$ 300 a estadia no Brasil, pois devem ficar isolados cinco dias.

No fundo, Bolsonaro e Queiroga sabem que, ao transferir o controle da quarentena para os municípios, o controle será missão impossível. Importante que seus turistas não vacinados não acreditem nisso. Suponhamos que algumas prefeituras se dediquem realmente à tarefa de controle. Voltarão arrependidos.

Aliás, os mais espertos perceberão que um governo que luta até a morte pela sua liberdade não é assim tão fanático, ao propor uma semana de prisão num quarto de hotel. Bolsonaro e seu ministro da Saúde simplesmente se enrolam na própria teimosia, são incapazes de ver o rumo da luta contra a pandemia no mundo.

Bolsonaro merecidamente deveria ser escolhido o idiota do ano. E nem poderia reclamar, pois é um título ainda suave para descrever sua performance.

Inimigo público nº1

Nunca um presidente eleito diretamente pelo povo fez tanto mal ao Brasil como ele – e isso deve ser estudado em profundidade para que jamais se repita. Acertos não ensinam. Infelizmente, só aprende-se errando 

Bolsonaro usa no ataque à imprensa seguranças armados com recursos públicos

O ataque de domingo do segurança e dos seguidores de Bolsonaro a jornalistas das TV Bahia e TV Aratu afiliadas da GLOBO e SBT é absolutamente inaceitável e embute um perigo enorme. Há uma cena que conseguiu ser gravada em que um segurança ao lado do presidente reage porque um fio do microfone tocou seu braço. Esse segurança está com uma arma ostensiva no coldre. Se é uma pessoa tão descontrolada e é segurança da presidência, com o salário pago pela sociedade brasileira. É um servidor público e um perigo para a sociedade. E se ele sacar a arma numa hora dessas? A cena é de uma pessoa descontrolada.

E esse segurança ainda acha que o fio que encostou nele foi agressão e repete:

–Se bater de novo vou enfiar a mão na tua cara.

Esse segurança precisa ter seu nome identificado pela presidência, afastado das ruas e ser admoestado sobre isso. É um profissional e claramente para reagir assim está contra o trabalho dos profissionais. Na cena que não conseguiu ser gravada, a reporter da TV Bahia, afiliada da Globo, recebe uma gravata de outro segurança. Repito: é um funcionário público e isso é inaceitável na democracia. A imprensa tinha o direito de estar lá.

Em outra cena, se vê um seguidor atacar os jornalistas, e consegue rasgar parte da proteção do equipamento do TV Aratu, afiliada do SBT. O secretário de obras da cidade, Antonio Charbel, puxou os fios dos microfones dos jornalistas.

Essa não é a primeira vez: teve recentemente aquele ataque na Itália, em que os seguranças da presidência agrediram os jornalistas. De onde nasce isso? O presidente da República estimula, incentiva, ataca verbalmente os jornalistas e já ameaçou dar um soco num repórter do jornal O GLOBO. Houve outro episódio com a CBN. O que mais as instituições esperam?

Desde o começo dessa presidência a imprensa está sob ataque. Bolsonaro já atacou, difamou e injuriou alguns jornalistas em manifestações públicas e o fez principalmente contra mulheres. Ao fazer isso, ele está estimulando os seus seguidores para que o façam. E pior: os seguranças acham que o inimigo é o jornalista que faz a pergunta.

Tem que haver mais do que notas das empresas e das associações de jornalistas repudiando os atos. É preciso ver que isso tem método e a imprensa é o alvo do presidente, é parte do seu projeto autoritário e tudo vai piorar no ano que vem.

Temos pela frente uma campanha presidencial em que Bolsonaro está em desvantagem. Todo o cuidado é pouco para preservar a integridade dos jornalistas que estarão em campo cobrindo essa eleição. Bolsonaro ataca usando como armas os seguranças pagos pela sociedade, armados pela sociedade para proteger a "presidência". E que se comportam com a truculência de bandidos. E mais: ele usará os recursos da presidência, pagos por nós, para fazer campanha eleitoral. O extremo perigo que isso significa ficou claro mais uma vez.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Um Brasil mais parecido com a Europa

Não há brasileiro que, ao viajar para a Europa, não se encante com os efeitos de uma sociedade mais igualitária. Pessoas que só se locomovem de carro no Rio de Janeiro encantam-se com o metrô de Paris e os bondes de Lisboa. Aqueles que no Brasil só fazem consultas médicas privadas surpreendem-se com a eficácia e a frugalidade de um sistema de saúde como o inglês ou o espanhol, em que o advogado e o atendente do supermercado se encontram na fila do posto de saúde.

A redução da desigualdade não melhora apenas a vida dos mais pobres, melhora também a vida dos mais ricos. Com mais igualdade, não há apenas distribuição da riqueza social, mas uma reorganização dos horizontes e das expectativas, fazendo com que se encontre mais satisfação em férias bem tiradas do que na aquisição do último iPhone. A redução da desigualdade também reforça os vínculos de comunidade, levando trabalhadores e profissionais a se verem como concidadãos ao compartilhar o transporte público, os hospitais e as escolas.


Por isso há pouca dúvida de que a vida com € 2 mil na Europa é superior a uma vida com R$ 13 mil ou mesmo R$ 20 mil no Brasil. Na verdade, não precisamos nos comparar à Europa, que tem PIB per capita maior que o nosso. Quem já visitou o Uruguai, país com um nível de riqueza parecido com o brasileiro, mas com distribuição de renda muito mais justa, sabe que a vida em Montevidéu é melhor que em São Paulo.

Corrigir a desigualdade é difícil, mas não tem segredo: é preciso um sistema tributário progressivo (em que os ricos paguem, proporcionalmente, mais impostos que os pobres), e são necessárias boas políticas sociais. Em outras palavras, é preciso que o sistema tributário retire dos mais ricos, e o sistema de proteção social redistribua bem para os mais pobres.

O Brasil é um dos campeões mundiais da desigualdade. Quando olhamos para o Gini, medida usada para avaliar a distribuição da renda, o Brasil apresentava em 2019, antes da pandemia e do Auxílio Emergencial, um índice de 0,544, o que o colocava entre os dez países mais desiguais do mundo. A desigualdade brasileira é tão acentuada que a soma dos rendimentos do 1% mais rico é aproximadamente o triplo da soma dos rendimentos dos 50% mais pobres.

Para corrigir tamanha desigualdade, precisamos mudar não apenas o modo como gastamos os recursos públicos, mas sobretudo o modo como arrecadamos. Os liberais que dominam o debate econômico enfatizam que gastamos mal os recursos públicos, bancando privilégios da elite do funcionalismo, o que acentua a desigualdade —e eles têm razão. Mas, além disso, do lado da receita, nosso sistema tributário é uma aberração, em que os pobres pagam mais impostos que os ricos. Como nosso sistema taxa muito o consumo e pouco a propriedade e a renda, e os pobres gastam uma proporção maior da renda comprando bens, o sistema onera mais os pobres —é regressivo.

Embora a desigualdade seja um de nossos problemas mais urgentes, ela não está no topo da agenda política, nem mesmo na esquerda. Nos 13 anos em que governou o país, o PT não se empenhou em reformar o sistema tributário para torná-lo progressivo.

Com a prosperidade econômica trazida pela explosão das commodities nos anos 2000, os governos petistas ampliaram o gasto social, consolidando o Bolsa Família e conferindo aumentos ao salário mínimo. Essas e outras medidas contribuíram para uma pequena redução da desigualdade, mas não com a intensidade necessária.

Enfrentar a desigualdade brasileira requer medidas vigorosas. Por um lado, precisamos diminuir os impostos sobre o consumo que oneram os mais pobres. Por outro, precisamos criar mais impostos para os ricos, com a taxação de lucros e dividendos, com mais faixas no Imposto de Renda e com impostos mais amplos sobre a propriedade e a herança.

Isso não é fácil. Os mais ricos têm mais poder e não querem pagar mais imposto. Mexer na distribuição entre imposto de consumo e imposto sobre a renda implica mexer no pacto federativo, já que estados arrecadam mais impostos de consumo, e a União arrecada o imposto sobre a renda.

Justamente pela dificuldade política de enfrentá-la, a desigualdade precisa estar no centro do debate nas próximas eleições. Se não provocarmos os políticos, eles mais uma vez não darão prioridade ao problema. Cabe a nós, eleitores, pressionar os candidatos e ajudar a construir um Brasil mais parecido com a Europa ou o Uruguai.

Calculadora de renda: 90% dos brasileiros ganham menos de R$ 3,5 mil

Um ano atrás, o ator Bruno Gagliasso escreveu em suas redes sociais que precisava "bater um papo com você, meu irmão branco. Um papo reto aqui entre nós que não somos o topo da pirâmide, mas estamos bem distantes da base".

Nos comentários, os internautas questionaram o topo da pirâmide ao qual o artista se referia. Se ele, dono de uma pousada na ilha de Fernando de Noronha, de restaurantes e de uma marca própria de roupas não estava no topo, quem está?

Mas não é preciso ir tão longe. A renda mensal média de quem está entre os 5% mais ricos no Brasil é de R$ 10.313,00, conforme os dados da Pnad Contínua - Rendimento de todas as fontes 2019, do IBGE. O corte para estar no 1%, ou seja, com renda média superior à de 99% da população brasileira adulta, é de R$ 28.659,00.

A base da pirâmide é relativamente homogênea — 90% dos brasileiros têm renda inferior a R$ 3,5 mil por mês (R$ 3.422,00) e 70% ganham até dois salários mínimos (R$ 1.871,00, para um salário mínimo de R$ 998,00 em 2019), ainda segundo o levantamento.

Dentro do grupo dos mais ricos, contudo, o espectro é bem diversificado.

Tomando a faixa da pesquisa do IBGE, de R$ 28 mil, o grupo dos 1% mais ricos inclui desde alguns profissionais liberais como advogados e engenheiros e a elite do funcionalismo público — promotores, procuradores, auditores da Receita —, a empresários, artistas e, finalmente, os milionários e bilionários que aparecem nas listas dos mais ricos do país.

Rico, eu?

Talvez por isso, muitos não se enxerguem como parte do topo da pirâmide.

'Topo da pirâmide' está geralmente ligado à ideia de ostentação - mas nem sempre é assim


A pesquisa Nós e As Desigualdades, realizada pela Oxfam em parceria com o Instituto Datafolha, pergunta desde 2017 aos brasileiros, em uma escala de 0 a 100, se eles se acham "muito pobres ou muito ricos".

As três edições do levantamento realizadas até agora apontam na mesma direção: quem está no topo pode ter uma visão bastante distorcida da realidade. A pesquisa de dezembro de 2020 apontou que, entre aqueles com renda superior a 5 salários mínimos, 75% disseram achar fazer parte da metade mais pobre do país.

Para se estar entre os 10% mais ricos do país, contudo, a renda média parte de três salários mínimos, de acordo com os parâmetros da pesquisa.

Isso porque o Brasil é um país em que muita gente vive com muito pouco. Para se estar entre os "mais ricos", do ponto de vista da distribuição de renda, não é preciso tanto.

Esse descolamento entre percepção e realidade, entretanto, não é exclusividade do Brasil.

"Os estudos sobre percepção mostram que as pessoas tendem a se classificar no meio, como classe média. Pouca gente se classifica como pobre ou como rica", diz o professor de Princeton e pesquisador da desigualdade Marcelo Medeiros.

Mas por quê?

Estudiosa do tema, Asli Cansunar, professora do departamento de Ciência Política na Universidade de Washington, nos EUA, ressalta que esses resultados são observados pelo menos desde os anos 1970.

A explicação é relativamente simples. A grande maioria das pessoas não consome informações sobre estatísticas econômicas no dia a dia. Na falta de dados técnicos, a maneira de colocar sentido no mundo é por meio de comparações — é olhar em volta e se comparar aos amigos, familiares, às celebridades na TV ou, mais recentemente, aos influencers do Instagram.

O problema, nesse caso, é que a amostra é enviesada, já que o cotidiano está, de maneira geral, dominado por imagens que nos levam a associar o topo da pirâmide à ostentação: alguém que dirige um carro importado, que faz viagens internacionais, que consome produtos de luxo.

"E quando você se compara a essas pessoas, claro, vai dizer: 'Imagina, eu não sou rico, sou classe média! Sou apenas alguém que está se esforçando para comprar um carro novo e conseguir viajar nas férias'. Na vida real, entretanto, se você olhar as estatísticas, vai ver que está ganhando muito mais do que muita gente no seu entorno", destaca a pesquisadora.

Mas então quem está no 'topo' é rico?

Para além das percepções individuais, a própria noção de riqueza é subjetiva. Não há um consenso acadêmico sobre o que seria uma "linha de riqueza", por exemplo. Ser rico é ter dinheiro suficiente para poder parar de trabalhar? É morar em um determinado bairro da cidade? É ter um carro importado?

"A definição do que é ser rico é uma ferramenta, depende do que se quer fazer com ela", pontua Medeiros.

Cansunar também ressalta que a noção de riqueza é relativa - e pode variar inclusive dentro de um mesmo país. No Reino Unido, ela exemplifica, ganhar mais do que as 80 mil libras por ano (R$ 590 mil), que coloca alguém entre o 1% no topo da pirâmide, não necessariamente significa uma vida confortável em Londres para quem tem de pagar aluguel.

A própria pirâmide de rendimentos — que, aliás, não contabiliza a riqueza estocada em patrimônio, a recebida em herança — pode variar, a depender da metodologia. O IBGE usa suas pesquisas domiciliares, que, tradicionalmente, acabam subestimando a renda de quem está no topo.

Seja por uma questão ligada à segurança, por constrangimento ou porque realmente não sabem quanto ganham na ponta do lápis, os mais ricos acabam informando valores menores aos recenseadores do instituto.

"O IBGE faz um trabalho fantástico, mas esse é um fenômeno que acontece no mundo inteiro. Então as pesquisas do IBGE captam muito bem, vamos dizer, os 90% mais pobres da população", pontua o sociólogo e pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Pedro Ferreira de Souza.

"Nos 10% mais ricos, quanto mais para cima, maior a subestimação", afirma o especialista, que é autor do livro Uma História da Desigualdade, vencedor do prêmio Jabuti em 2019.

Por isso, pesquisadores como Souza utilizam também os dados da Receita Federal do Imposto de Renda, que captam melhor a renda que vem de investimento e aplicações financeiras, por exemplo.

Entre os 5% mais ricos, conforme os cálculos que ele fez com dados de 2015, a renda média apontada pelo levantamento do IBGE era 25% menor do que usando o IRPF. Para o 1% mais rico, a linha de corte nos dados do IBGE era 45% menor do que no IRPF — pouco menos da metade.

Ainda que a linha de corte, na prática, seja provavelmente superior aos R$ 28 mil apontados pela Pnad Contínua, o topo da pirâmide ainda é formado pelo grupo heterogêneo que inclui dos "super ricos" a profissionais liberais e parte do funcionalismo público.

O teto para o salário dos servidores federais é hoje de R$ 39 mil. Muitos, contudo, recebem valores superiores com a inclusão de benefícios como auxílio alimentação e moradia.

"Se você ganha um salário muito alto, e em alguns casos muito acima do teto — principalmente no poder judiciário, a gente vê que é comum — com o tempo vai acumular renda e isso vai virar rendimento de capital", acrescenta o sociólogo.

"O público leigo às vezes acha que todo funcionário público, ou pelo menos todo funcionário público federal, está no 1%. Tem um exagero grande aí, mas também não é de todo falso, certamente tem muita gente da elite do funcionalismo e, vamos ser sinceros, da elite política [no 1%]."

Como estudioso da desigualdade, encontrada no Brasil em nível "extremo", o pesquisador acredita que esse possa ser um bom parâmetro para se definir riqueza no Brasil.

"Onde está a concentração de renda que torna o Brasil muito diferente da Europa? Bom, está no topo. É ali o 1%, os 5% mais ricos, talvez em algum grau você possa falar que são os 10% mais ricos, alguma coisa assim. Mas a concentração grande mesmo é bem no topo, então fazer esse recorte — falar em 1% da população, 5% da população, acho que não tem como dizer que não é rico, né? Isso exigiria umas cambalhotas retóricas que não são muito fáceis", avalia Souza.

Chamar atenção para o topo, na avaliação do sociólogo, é importante especialmente por dois motivos.

Primeiro, por uma questão política. Quando uma fração pequena da população concentra um percentual grande dos recursos, ela tende a "usar todos os meios possíveis para converter o poder econômico em influência política e, assim, conseguir enriquecer ainda mais".

"Isso não é uma questão necessariamente de caráter individual, mas uma dinâmica social que a gente vê em diversos países — e atrapalha o funcionamento da democracia."

Segundo, ele acrescenta, porque entender quem tem mais abre caminho para o desenvolvimento de políticas voltadas para melhorar o bem-estar dos mais pobres, como o financiamento de serviços públicos de transporte e saúde para atender essa população.

"O jeito mais eficiente de fazer isso é pegar de quem tem mais, de onde o dinheiro tá em tese sobrando — pelo menos em algum grau, ninguém está falando em confisco, mas do padrão de Estados Unidos e Europa —, tributar onde tem mais dinheiro concentrado e gastar onde tem mais necessidades", avalia.

"E para isso a gente precisa conhecer os mais ricos — e aí não adianta você também ter uma definição de riqueza que seja só o Neymar, né?"

Autoritarismo mata


Os populistas autoritários destroem a democracia por etapas. O primeiro mandato é dedicado a minar as instituições. Vão aparelhando progressivamente para que no segundo mandato consigam fechar o regime
Marcos Nobre, professor da Unicamp e presidente do Cebrap

País ou sumidouro?

Tem coisas que simplesmente somem no Brasil. Por vezes, inúmeras vezes, são vidas. Ou podem ser dados, ou comida no prato, a verdade, a vergonha e a decência. Pode ser tudo isso e muito mais. Pode também ser o fugitivo costas quentes Allan dos Santos. Evaporado do país para não responder ao inquérito do Supremo Tribunal Federal sobre fake news, o blogueiro se mantém ativíssimo na trincheira virtual bolsonarista. Sumiu apenas fisicamente.


Convém, sobretudo, nunca esquecer os três meninos de Belford Roxo, no Rio, que foram tragados na rua por matadores logo após o Natal do ano passado. Lucas, de 9 anos, Alexandre, de 11, e Fernando, 12, nunca mais foram vistos. Nem sequer seus ossos, inicialmente confundidos com os de animais, foram encontrados. Segundo a investigação policial divulgada nesta semana, o castigo dos moleques havia sido decidido pelo tribunal do tráfico do Morro do Castelar: cabia-lhes uma sessão de tortura por terem surrupiado o passarinho de um morador da vizinhança. Uma das crianças não teria resistido. Morreu de surra. Diante desse incômodo imprevisto, os justiceiros executaram os outros dois moleques.

Este será o primeiro Natal sem as travessuras de Lucas, Alexandre e Fernando, sumidos na endêmica violência nacional. Será, também, o primeiro Natal de 139 milhões de brasileiros plenamente vacinados cujos registros de imunização contra a Covid-19 simplesmente desapareceram na madrugada de sexta-feira. Por obra de hackers que conseguiram invadir o site do Ministério da Saúde, os aplicativos ConecteSUS e o e-SUS Notifica, ambos absolutamente cruciais no momento atual, tornaram-se inacessíveis e inoperantes. O primeiro fornece o Certificado Nacional de Vacinação eletrônico, documento indispensável para quem precisa viajar a trabalho ou lazer fora do Brasil, além de já necessário também dentro das nossas fronteiras. O e-SUS Notifica é a ferramenta usada por estados e municípios para a elaboração diária do mapa nacional da Covid-19. Diante de tamanho apagão, navegava-se às cegas até o fechamento deste texto.

É em momentos assim que a confiabilidade de um governo emerge ou afunda mais ainda. Em seus três anos no poder, o presidente Jair Bolsonaro divulgou uma soma jamais vista de dados deliberadamente falsos — fosse perante a ONU ou em suas lives semanais. O locatário do Alvorada também conseguiu uma mala repleta de absurdos sem lastro factual. Seu método operacional de liderança resume-se a manipular a máquina do Estado a favor da manutenção do poder. Por tudo isso, foi inevitável que surgisse, quase simultaneamente ao ataque cibernético real, uma teoria conspiratória para o crime. O apagão teria sido ação de algum hacker “uberbolsonarista”, dado que sua consequência imediata foi o adiamento por uma semana da detestada entrada em vigor de regras sanitárias para viajantes? Apesar de as regras anunciadas serem mínimas quando comparadas às de outros países, elas atrapalham um pouco o posicionamento antivacina de Bolsonaro e seus seguidores.

A ojeriza palaciana à ideia de um passaporte vacinal obrigatório, que exigiria adequação ao negacionismo oficial do presidente, está no centro do imbróglio. Nada a ver com “liberdade ou morte”, como procurou tonitruar o pedestre ministro da Saúde, Marcelo Queiroga . “Por que vocês estão tão preocupados com esse assunto [o detalhamento das regras sanitárias?…. Vira a agenda, pessoal, vira a agenda…”, bufava um Queiroga de passo apressado, simulando produtividade na véspera do apagão de dados. A estudada impaciência do ministro com a imprensa pretendia arrostar poder — aquele poder que a própria pessoa sabe ser pequeno, e os demais sabem ser covarde.

No dia seguinte, de jaleco do SUS e ombros mais caídos, voltou a ser o titular da pasta falsamente modesto que consegue ser ainda mais desprezível que seu malfadado antecessor. Queiroga tornou-se uma desonra para a sua profissão de médico e avilta à luz do dia suas responsabilidades com a saúde pública. Sendo o Brasil o que é, a política haverá de abrigá-lo em algum escaninho. Para um grande escritor do século passado, Albert Camus, a grandeza de um ser humano está na sua decisão de ir além de sua condição. Outro escritor, Anatole France, ainda mais antigo que Camus, ensinou que só ao envelhecer nos damos conta de que o ato de pensar é a mais rara entre as coragens humanas. Juntando as duas coisas, talvez ainda tenhamos tempo de tirar o Brasil de sua atual condição de sumidouro — e de pensar. Pensar alto e grande.