quinta-feira, 20 de maio de 2021

Não há chance de dar certo

Além das mentiras já comprovadas do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que o noticiário em tempo real já explora desde ontem, e os jornais de hoje estão certamente aprofundando, os depoimentos à CPI da Covid até agora estão desvelando a maneira primitiva com que as decisões não são tomadas no governo Bolsonaro.

Juntando com a operação da Polícia Federal realizada ontem sobre a venda ilegal de madeira para os Estados Unidos, denunciada pelo próprio governo americano, temos a prova cabal de que não é apenas a questão ideológica que interfere na formação de um governo totalmente disfuncional.

O (ainda?) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e diversos escalões do Ibama, inclusive seu presidente, foram apanhados por uma investigação sigilosa que incomodou Bolsonaro, que fez trocas no Ministério da Justiça e na Polícia Federal na tentativa de controlar as instituições do Estado brasileiro e viu-se surpreendido com a independência da PF.


Um exemplo típico, e fundamental, dessa disfuncionalidade é a crença de que as palavras de Bolsonaro nas redes sociais e nas lives fazem parte apenas do seu “etos político”, e não representam orientações do governo. Ao explicar a famosa frase “um manda, outro obedece”, Pazuello disse que era “uma frase de internet”, isto é, uma resposta para ajudar o político Bolsonaro, que estava sendo criticado por seus seguidores nas redes sociais porque o Ministério da Saúde havia anunciado a compra da CoronaVac, a “vacina chinesa” do Doria.

Seria uma releitura abrutalhada de Maquiavel, que separava a ética política da ética moral, ou então de Max Weber, uma referência para os que querem ser servidores públicos conjugando a “ética da convicção”, dos princípios morais aceitos em cada sociedade, e a “ética da responsabilidade”, que prevalece na atividade política.

Se houvesse um lado B de Bolsonaro, que para fora do governo enviasse uma mensagem, e agisse com bom senso, não teríamos tido a tragédia sanitária de que Pazuello é cúmplice. Basta assistir ao vídeo da famosa reunião ministerial que precipitou a saída do ex-ministro Sergio Moro para ver que o Bolsonaro das redes sociais é o mesmo nas entranhas do governo.

Ao mentir na CPI, tentando livrar a cara do presidente, o ex-ministro da Saúde comete um “crime continuado”, mesmo fora do governo. Os fatos o desmentem. O caso do avião oferecido pelos Estados Unidos para levar oxigênio para Manaus, na crise sanitária ocorrida dentro da pandemia no Brasil, é exemplar da incapacidade de trabalho em equipe deste governo.

O ex-chanceler Ernesto Araújo não falou com o governo da Venezuela, nem com o dos Estados Unidos, por questões ideológicas. E também não encaminhou, segundo Pazuello, um pedido formal com as características dos cilindros que seriam apanhados na Venezuela para levar a Manaus. Já havia feito isso quando recebeu a carta da Pfizer oferecendo vacinas. Não comunicou ao presidente Bolsonaro porque supôs “que o governo tinha recebido a carta”.

Pazuello soube que havia um avião dos Estados Unidos pronto para trazer oxigênio, mas não fez nada, pois não lhe perguntaram nada, só informaram. Ernesto Araújo disse que cabia ao Ministério da Saúde dar as informações técnicas para o voo. Os dois não se falaram, demonstrando que as autoridades do governo tiveram comportamentos burocráticos durante a crise humanitária em Manaus.

Pazuello reafirmou uma visão provinciana das negociações internacionais sobre as vacinas. Disse que mostrou ao representante da Pfizer o tamanho do Brasil num mapa, assim como o presidente Bolsonaro dissera anteriormente que o mercado brasileiro era tão grande que poderíamos negociar o preço das doses. Deu tudo errado, e, ao final, compramos a vacina da Pfizer pelo preço definido no início das negociações, perdendo tempo e prioridade na distribuição das doses.

É um governo completamente disfuncional. Com esses depoimentos e declarações, não há a menor chance de dar certo.

Pazuello é um Pinóquio que mente sem corar

Eduardo Pazzuelo é um cínico que, aparentemente, foi treinado por um desses “gerenciadores de crises” que, como abutres, planam em torno do poder. Essa gente ensina, basicamente, os clientes a dizer lorotas sem corar.

O ex-ministro mente descaradamente no seu depoimento. Na parte inicial, quando foi inquirido apenas pelo relator Renan Calheiros, ele mentiu três vezes quando afirmou que a) tinha autonomia no Ministério da Saúde, nunca recebeu ordens diretas do presidente; b) o Exército não distribuiu cloroquina, remédio contra a malária, especificamente para o tratamento de Covid; c) o aplicativo TrateCov, desenvolvido para estimular o “tratamento precoce” da doença, nunca foi oficialmente ao ar.

O ex-ministro Pazuello não tinha autonomia coisa nenhuma, como ficou evidente por aquele vídeo no qual, internado no hospital para tratar de Covid, afirmou ao lado de Jair Bolsonaro que ele obedecia ao presidente, para alegria manifesta do sociopata, que já havia defenestrado Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Não foi força de expressão: Pazuello mostrou alinhamento automático com o negacionismo assassino do presidente da República. Se teve autonomia, foi para seguir o chefe sem qualquer hesitação ou dor na consciência.

Jair Bolsonaro mandou o Exército ampliar a fabricação de cloroquina para o “tratamento precoce” da doença em março de 2020, ainda sob a gestão de Luiz Henrique Mandetta. A distribuição do medicamento para ser usado contra a Covid foi mantida mesmo depois de comprovada a ineficácia da cloroquina no combate à doença, já com Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde.

A historieta de que o aplicativo TrateCov nunca foi oficialmente ao ar é coisa de Pinóquio sem vergonha. A TV Brasil finalmente teve alguma serventia, ao deixar registrada uma reportagem sobre o lançamento do aplicativo feito “para agilizar o atendimento de pacientes com sintoma de Covid e para garantir o tratamento precoce”.


Sobre o colapso da saúde em Manaus e outras cidades do estado do Amazonas que sofriam com fala de oxigênio, em janeiro, Eduardo Pazuello afirmou que foi avisado tardiamente sobre a situação. Ainda que tenha sido assim, e há sérias dúvidas a respeito, um ministro da Saúde digno desse nome, integrante de um governo digno desse nome, teria trabalhado em coordenação com os secretários de Saúde dos estados, antecipando-se a problemas, diante da pior emergência sanitária dos últimos cem anos.

Quanto às ofertas da Pfizer para a compra da vacina produzida pela farmacêutica, Eduardo Pazuello disse que respondeu às seguidas propostas, mas que as cláusulas eram “assustadoras”. Que se faça uma acareação com o dirigente da Pfizer que prestou depoimento à CPI da Covid, mas o meu palpite é que assustador será ver o nariz de Pazuello crescer ainda mais. O ex-ministro também afirmou que nunca recebeu ordem do presidente para desfazer acordos com o Instituto Butantan sobre o fornecimento da Coronavac. Foi desmentido elegantemente por Dimas Covas, diretor do instituto, que tem o calendário como prova — e, convenhamos, basta pesquisar o noticiário do ano passado sobre o desdém de Jair Bolsonaro pela “vachina do Doria”, para verificar que o ex-ministro está mentindo sem corar, como ensinam os “gerenciadores de crises”.

O senhor Eduardo Pazuello, que tenta a todo custo blindar o presidente, só não sairá preso do seu depoimento porque o ministro do STF Ricardo Lewandowski lhe concedeu um habeas corpus.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

País de Pilatos de todo tipo

O país não suporta mais ser enxovalhado e rotulado de vilão ambiental por conta de erros cometidos no passado na ocupação da Amazônia, habilmente orquestrados por grupos políticos e econômicos a quem convém manter o Brasil acossado, na defensiva, tentando justificar suas ações na região, como se fôssemos maus inquilinos da propriedade alheia
Hamilton Mourão, general vice-presidente

Sair do Brasil

Penso que todo mundo sempre quis sair mais do seu país do que de sua sociedade. Vamos para Paris ou New York, mas sentimos falta da comida e das fofocas, esses símbolos de nossos costumes. Morar é bom, mas viver é uma m...! - como confirmava Tom Jobim.

Muitos deram adeus às suas pátrias por motivos trágicos, e os Estados Unidos são prova de uma coletividade cuja população é feita de milhões de netos e filhos de imigrantes - de nativos que por livre vontade ou por motivos dramáticos foram obrigados a deixar sua terra natal.

No Brasil, este desejo é um paradoxal desabafo, geralmente feito em família ou entre amigos. Ele se amplia e se reduz de acordo com épocas históricas e governos. Nas ditaduras (tanto a de Vargas quanto a militar), muitos deixaram o País por perseguição política.

Ser obrigado a sair da terra onde se nasceu é “perder o chão”. Equivale a morrer ou ser encarcerado. Não se trata apenas de uma cruel punição política. É um assassinato espiritual decretado com o paradoxo de o morto continuar vivo. Veda-se o direito de participação, mas, de fato, esta interdição bloqueia a vida do condenado, impedindo-o de usufruir das muitas dimensões cruciais de todas as vidas. Como um paradoxo, porém, o banido pode retornar com mais potência, como foi o caso modelar do Conde de Monte Cristo e de outros degredados políticos. Antigamente, era a excomunhão que transformava alguém em um leproso social; hoje, Deus foi substituído pela política como credo. Neste sentido, vale lembrar que o exílio, tanto em Roma quanto na Grécia dos velhos tempos, era mais fatal do que a morte.


Neste Brasil polarizado, surge um “cancelamento” - um exílio interno sentenciado por “democratas”. Uma exclusão repleta de desfaçatez na qual um grupo ou uma pessoa são postos no “gelo” (quem sabe siberiano...), em uma vã tentativa de congelar suas opiniões, razões e realizações. A lista, que, como toda lista, tem sempre dois lados, está em vigência. Nela, o inimigo só se descobre como inimigo quando se vê caluniado ou não reconhecido.

Não se pode confundir, sem preconceito, o direito a opinar com crime. Só os nazi-fascistas fazem isso, mas o problema é que, no Brasil, há um nazi-fascismo inconsciente. A perversão nazi-fascista-stalinista acontece justamente quando se criminalizam opiniões e a totalidade (o partido, o grupo ou o coletivo) divide o tecido público ao meio. É como mutilar um corpo seccionando o seu lado direito do seu lado esquerdo.

E o gravíssimo e o absurdo, neste momento, é que quem mais promove tal sectarismo é o presidente da República. O vírus mortal polariza biologicamente e um virulento Jair Bolsonaro polariza moral e ideologicamente.

Sempre ouvi o “quero ir embora do Brasil” mais como um desabado ou uma fantasia. Mas, nestes tempos de “danação”, tenho testemunhado brasileiros deixando efetivamente o Brasil, e muitos adotando e comprando uma dupla cidadania.

A pandemia tem chamado atenção para a premente necessidade de uma corrente mundial de igualdade, solidariedade e abertura - será que nos esquecemos deste conceito generoso e fundamental? Tal corrente torna o mundo mais justo e humano. Mas o que se constata no Brasil é um reacionário fechamento.

Há até quem seja contrário à construção de pontes ou de se criar uma rosiana terceira margem do rio. Um ponto capaz de nos desembaraçar das exigências e dos extremos de modo a vê-los em sua natureza sectária que detesta escolhas. Ora, o escolher é, em condições normais, o avatar do discernimento, da prudência e do democrático.

Não para impedir posicionamentos, mas para evitar o pior que o presidente da República exprime em um absurdo e enlouquecido “Só Deus me tira daqui”. Se as facções invocam igualmente o aval de Deus, o resultado só pode ser o conflito e a destruição das margens e do próprio rio. Um louco não pode justificar a nossa eventual maluquice, ofuscando a nossa lucidez.

O centro, dizem, é o “conhece-te a ti mesmo”. É a vacina contra os arroubos, as hipocrisias, as tentações proféticas e o tirar vantagem das polarizações. A luta é indispensável, mas não se pode deixar de combinar as armas.

Sempre ouvi os surtos de onipotência do clássico “sair do Brasil”. Hoje, um presidente irracional, cercado de filhos radicais de direita e por uma maioria de políticos trêfegos, legalistas, populistas, ressentidos e hipócritas, fez com que a fantasia de “ir embora deste país de m...” virasse mantra. Graças, reitero, a um governo errático e a uma lamentável tradição de governar com malandragem, autoritarismo e roubalheira, esse desmedido brigar com o Brasil como se ele fosse uma pessoa física ganhou legitimidade.

Se acusar negativamente o Brasil era parte da própria cultura “culta” brasileira como testemunho de um “pensamento crítico” sobre um país periférico, colonizado, mestiçado, doente e, ao mesmo tempo, governado por uma elite familística “branca” e educada, criticar e negar o Brasil iam juntos. E o pior é que o governo Bolsonaro, com sua hoje comprovada aliança, confirma essa visada antipatriótica.

Governo entra em processo de autofagia na CPI

O processo de decomposição do governo Bolsonaro na CPI da Covid evoluiu para o estágio da autofagia. Nele, os membros da seita do negacionismo comem suas próprias entranhas. Mastigado pelo ex-chanceler Ernesto Araújo num depoimento de quase seis horas, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello vai ao banco da CPI nesta quarta-feira sangrando. Não lhe restaram muitas opções. Ou morde Bolsonaro ou crava os dentes na própria carne.

Na prática, Araújo confessou sua inépcia. Sob seu comando, o Itamaraty comportou-se como se não houvesse pandemia. Culpou a pasta de Pazuello pela imprevidência de comprar a cota mínima de vacinas ofertadas pelo consórcio Covax Facility, da OMS. Jurou que partiu da Saúde também a ordem para a aquisição de cloroquina na Índia. Nesse ponto, quando apertado, Araújo reconheceu a participação de Bolsonaro, que falou por telefone com o primeiro-ministro indiano.

"Não houve plano único, uma política" para o gerenciamento da crise sanitária, declarou o ex-chanceler, sem se dar conta de que mordia a língua de Bolsonaro. Como "o Itamaraty não age de maneira autônoma", submeteu-se às demandas do ministério de Pazuello, comandado na base do "um manda e o outro obedece."


Na negociação sobre a vacina de Oxford-AstraZeneca, o Itamaraty apenas deu "apoio secundário, logístico, operacional." No colapso hospitalar de Manaus, enquanto o time de Pazuello receitava cloroquina a quem precisava respirar, a diplomacia brasileira fingiu não ver a doação de cilindros de oxigênio feita pela Venezuela. Araújo não pediu nem agradeceu o socorro. Estava envenenado pela "ideologia", acusou o presidente da CPI, Omar Aziz, eleito pelo Amazonas.

Enquanto triturava Pazuello, submetendo-o a uma forma de canibalismo típica dos caetés, que comeram o bispo Sardinha, Araújo atingiu uma espécie de cume do cinismo. Declarou várias vezes que nunca fez declarações ofensivas à China, que fornece o insumo usado pelo Butantan e pela Fiocruz na fabricação de vacinas.

Pior do que a presunção de Araújo de que ninguém se lembraria da sua insanidade retórica é a conclusão e que não havia razão para preocupação. Mesmo sabendo que todos conhecem seus ataques ao maior parceiro comercial do Brasil, o ex-chanceler acha que pode dizer o que bem entender no vácuo sanitário a que chegou o Brasil. Tudo, afinal, pode ser dito e feito quando ninguém se incomoda de ser chamado de "mentiroso" na frente das crianças.

"Eu imagino que o senhor tenha uma memória seletiva, para não dizer uma memória leviana", bateu a senadora Kátia Abreu. "O senhor não se lembra de nada do que importa e do que ocorreu efetivamente; e se lembra de questões mínimas, supérfluas e até mesmo não verdadeiras, como o senhor vem fazendo aqui todo esse momento. A impressão que se tem é que existe um Ernesto que fala conosco, de que nós ouvimos a voz, e um outro Ernesto que eu não sei onde fica, nas redes, na internet, nos artigos, nos blogs, falando coisas totalmente diferentes."

Kátia prosseguiu: "O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor no MRE [Ministério das Relações Exteriores] foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira. Foi isso o que o senhor fez."

Depois que Ernesto Araújo executou na CPI o segundo ato da ópera da autofagia — o primeiro havia sido encenado na semana passada, com o depoimento do ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten —, os senadores da CPI aguardam o depoimento de Pazuello mais ou menos como quem espera pela entrada no palco de uma soprano opulenta escalada para cantar no penúltimo ato.

É como se os inquiridores aguardassem um sinal claro de que a confusão final poderia estar próxima. Um fato que resumisse tudo o que a plateia deseja expressar quando diz: "Não é possível!" Muitos imaginam que o melhor sinal seria a imagem de Pazuello comendo o fígado de Bolsonaro: "Ele mandou, eu apenas obedeci." O mais provável, entretanto é que o ex-ministro, em estágio hemorrágico, saia da CPI acorrentado a um novo lema: "Um manda e o outro se lasca."

‘Um manda, outro obedece, leva Bolsonaro à CPI

Se adotar a estratégia do silêncio ou das meias-palavras na CPI da Covid, o general Eduardo Pazuello passará a bola, inevitavelmente, para o presidente Jair Bolsonaro. O gesto do ex-ministro da Saúde de não colaborar com a comissão e não falar pode ser interpretado, sob certo ângulo, também como postura de alguém que rejeita defender o presidente. Nesse caso, o oficial da ativa se comportará em benefício de sua própria sobrevivência e não em prol de um governo.

É uma mensagem que o próprio general e toda a equipe de estrategistas do Planalto não conseguem controlar. Toda vez que deixar uma pergunta sem resposta e selecionar o que pretende rebater, Pazuello demonstrará que não tem nada a falar, pois, como deixou claro, algumas vezes apenas cumpriu ordens. Logo, quem tem de prestar contas aos senadores e ao País é seu ex-chefe no governo e atual chefe militar, o presidente da República.


O governo atuou oficialmente para garantir o silêncio de Pazuello. A pedido da Advocacia-Geral da União, o Supremo concedeu habeas corpus para o general não responder a perguntas que possam levantar provas contra ele. Em suma, Pazuello não sairá preso do Senado.

Se optar mesmo por não falar, o general forçará a lembrança de uma frase decisiva que disse em outubro. Numa “live” ao lado de Bolsonaro, ele foi direto ao ponto: “É simples assim: um manda e o outro obedece”. Era uma reação à atitude do presidente de desautorizá-lo ao mandar cancelar a compra de doses da Coronavac. A frase, que entrou para o anedotário, é o que pode agora salvar o general. Ele tem um álibi: o presidente.

A estratégia do silêncio pode trazer consequências históricas também para a caserna. Por ser um general da ativa, Pazuello pregará nas Forças Armadas a imagem de uma instituição que não tinha resposta, no calor da hora, à denúncia grave de ter colaborado para uma política desastrosa de governo no combate à doença. Até a noite de ontem, o vírus tinha matado 439.379 brasileiros.

O vírus mais contagiante

Seria bom escrever que o vírus mais contagiante é o da esperança. Ou o da solidariedade universal. Talvez até seja verdade – haja vista a melhora no ânimo das esquerdas desde o momento em que Lula despontou como candidato apto a derrotar Bolsonaro em todas as pesquisas.

Só que não. Mais contagiante que a esperança, que a alegria, que o desejo ou o amor, é o vírus da violência – com sua gama de cepas variantes a provocar vários tipos de sofrimento físico e mental: medo, angústia, desespero, traumas. E mortes, mortes, mortes. A intensidade dos sintomas depende do CEP do infectado: favelas, periferias e prisões revelam altos índices de contaminação, somados a baixos índices de imunidade. A polícia brasileira, militarizada desde o período da Ditadura de 1964-85 e nunca mais desmilitarizada age como se estivesse em uma guerra.[1] Fique tranquilo, leitor de classe média, o inimigo não é você. Nem eu. É a população pobre.

Desde que senti urgência em escrever sobre o aumento exponencial da brutalidade num Brasil que nunca foi exemplo de respeito aos Direitos Humanos, venho procrastinando. O tema, angustiante para todos nós, vinha bloqueando meu texto. Pensei pela primeira vez nesse artigo dia 8 de março, quando li a notícia do assassinato do menino Henry Borel. O menino de quatro anos sofria frequentes surras do padrasto, o vereador carioca Doutor Jairinho. A mãe não reagia porque também era espancada pelo companheiro – mas tampouco tentou fugir de casa com o filho. A funcionária da casa relatou à polícia que, no dia do crime, tinha visto Henry “apavorado”. Se a mãe não fez nada imaginem o medo, mas também e a coragem da babá que delatou – ainda que não tenha conseguido impedir – o assassinato da criança.

A perspectiva de escrever sobre o martírio da criança me paralisou durante dois meses.

Pouco mais de um mês após o assassinato de Henry, no dia 16 de abril, Kaio Guilherme da Silva Baraúna, também de oito anos, foi atingido na cabeça por “bala perdida”, durante uma festa em Vila Aliança. Kaio morreu no dia seguinte.

Nenhuma bala é perdida. Em primeiro lugar, elas não se “perdem” nos Jardins (SP). Nem em Ipanema. Costumam se desencaminhar do suposto alvo “correto” quando são disparadas pelos cantos mais vulneráveis e abandonados das grandes cidades. Além da bala, quem costuma “se perder” frequentemente das vistas da justiça e das testemunhas é o responsável pelo tiro. Sobretudo quando veste a farda que o designa como responsável por preservar a segurança da população.

O adolescente João Pedro, de 14 anos, também foi morto a tiros pela polícia do Rio durante uma festa em sua escola. Me parece que ninguém mais pergunta se a PM tinha mandato para entrar atirando na Vila Aliança. Provavelmente não – e daí? Mandato é burocracia requerida apenas para agir nos bairros da Zona Sul.

Oito dias depois do assassinato de Kaio, no dia 24 de abril, mãe e madrasta de Ketelen Vitória espancaram e torturaram com chicote e pedaços de fio elétrico a criança de seis anos. Ketelen agonizou, sem socorro, até o amanhecer. Seu corpo foi jogado num matagal, de uma altura de sete metros.

Aos quatro anos de idade, a menina Maria Clara foi assassinada pela mãe e pelo padrasto que mentiram, no hospital, que a causa da morte teria sido um engasgo com miolo de pão. Maria Clara teve traumatismo craniano e apresentava hematomas pelo corpo todo. Parece que o padrasto não participou do crime – mas preferiu não interferir.

No dia 4 e maio um rapaz de dezoito anos, Fabiano Kepper Mai, invadiu portando um facão uma escola infantil em Santa Catarina e matou uma professora, um agente educacional e três crianças com menos de dois anos. É possível que Fabiano seja doente mental: mas o eventual laudo de esquizofrenia, ou de paranoia, não basta para entendermos por que seu sofrimento psíquico produziu justamente este sintoma: assassinar gente.


Um psicótico é, com frequência, extremamente sensível ao ambiente social em que vive. Bem, isso pode se aplicar a qualquer um de nós. A questão é que o psicótico interpreta à sua maneira os mandatos que circulam na sociedade: estes que nos afetam, nos angustiam e amedrontam, mas que também nos enchem de raiva e indignação. Nem todos os psicóticos – é vital que se diga – respondem com fúria quando são afetados por incitações à violência. Alguns reagem a isso com atos de extrema gentileza. Outros se investem da convicção de que sua missão na terra seja a agir como anjos da paz: espalhar o bem, proteger os indefesos, salvar crianças maltratadas. Há também os que vivem assustados e sofrem com fantasias paranoicas. “Paranoico é quem se sabe perseguido”, diz o verso de Aldir Blanc em parceria musical com João Bosco. São minoria os que reagem ao ambiente violento com mais violência.

Então tivemos Jacarezinho. A orgia da PM. A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.[2] O Rio, onde muitas comunidades começaram e cresceram em morros situados na chamada “Zona Sul”, tem um longo histórico de violência policial contra os pobres. Jacarezinho é na Zona Norte: o pretexto da invasão não foi o de proteger a burguesia carioca da suposta bandidagem. A polícia chegou atirando, tanto faz em quem. Preto pobre é tudo igual. Matou vinte e sete moradores (um agente policial foi morto).

Os depoimentos dos sobreviventes, parentes e amigos das vítimas, estão nos jornais. A cor da pele é a mesma dos moços torturados e executados pela PM de Salvador, acusados de roubar carne em um supermercado. Acusados de passar fome. Acusados de passar fome desesperada. Acusados de desamparo. Acusados de ser vítimas de descaso do Estado. Acusados de serem, no dizer do compositor Itamar Assumpção, “iscas de polícia”.

Nada disso é novo no Brasil. A novidade, desde a redemocratização, é que as execuções policiais nesse momento de nossa história têm o DNA do presidente. O mesmo que homenageou, em uma sessão da Comissão da Verdade na câmara dos Deputados, o pior torturador da Ditadura Militar: Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O mesmo que, em campanha, imitava armas com o polegar e o indicador, como uma criança que brinca de cowboy; e para mostrar que não estava brincando, depois de eleito costuma posar para fotos ostentando fuzis. O mesmo que ameaça de estupro uma deputada da oposição para depois afirmar que só não fará isso porque ela é “feia”.

O mesmo que celebra a devastação da Amazônia e do Pantanal incentivada por seu desprezo pelas populações originárias, pelas reservas ambientais, pelas as águas dos rios que haverão de secar, pelas mudanças climáticas (coisa de “comunista”), e pelo país que supostamente governa. O mesmo que rompe, sem sofrer as consequências diante de uma Câmara dos Deputados venal, todos os limites do decoro imposto por sua posição ao mandar a oposição “tomar no cu” no caso do escândalo das latas de leite condensado. Pelo visto até aqui, com raras exceções, a oposição obedeceu. Não se falou mais no assunto.

Só que muito antes da eleição de 2018 o Brasil já era violento: contra os negros, contra os índios, contra os pobres. O que mudou nos últimos três anos é que todas as manifestações de maldade se banalizaram. Uso propositalmente o conceito de “banalidade”, mas atribuo a ele um sentido um pouco diferente daquele criado pela filósofa Hannah Arendt, diante do julgamento do carrasco Eichmann em Jerusalém. Arendt empregou a expressão “banalidade do mal” para se referir à ausência de implicação subjetiva daquele que mandou milhares de pessoas morrer nas câmaras de gás sob a alegação de ter cumprido ordens.

No caso brasileiro, o mandatário responsável pela explosão de violência que o país atravessa não “cumpre ordens” de ninguém, assim como não respeita ninguém além dos filhos e de um grupo cada vez menor de bajuladores. O mal se banaliza na fala de Bolsonaro a cada vez que ele diz – “e daí?” para os efeitos da violência que ele próprio promove. A cada vez que diz “não sou coveiro”! em vez de lamentar a mortandade que, por culpa de seu desleixo em relação as vacinas, hoje coloca o Brasil no topo dos países mais afetados pela Covid 19.

São frágeis os recursos subjetivos que nos separam dos piores psicopatas. O inconsciente, essa espécie de depositário de nossas memórias esquecidas, de nossas fantasias infantis, de nossos desejos inconfessáveis, é a mesma instância psíquica que abriga vestígios da violência que o laço social nos força, desde a infância, a conter. Quem já presenciou uma birra infantil incontida foi capaz de perceber quanta fúria existe na criança que esperneia, que se joga no chão, que as vezes diz “eu te odeio!” ao adulto que frustrou um desejo seu. A sorte dos pais e educadores é que a criança não tem força de fazer contra nós o que sua raiva e sua frustração incitam. Crescer é, por um lado, conquistar permissão e capacidade para fazer o que até então os pais consideravam arriscado ou além de suas capacidades. Por outro lado, desenvolver recursos para barrar as manifestações de seu ódio e substituir a birra pela argumentação.

O atual presidente, quando contrariado, reage como uma criança. Seria uma gracinha – se não se tratasse de um marmanjo com passagem pelo Exército (de onde foi expulso por insubordinação) e pela Câmara dos Deputados até chegar, with a litlle help from some fake news jamais apuradas, ao posto de líder da nação. Sua maldade, explicitada em palavras e incontáveis ações, tem arruinado não apenas a economia e os rumos da democracia: tem contribuído para a deterioração desse mínimo de civilidade que a sociedade brasileira luta todos os dias para defender.

Não se quebram certos tabus impunemente. A incitação a violência por parte do principal mandatário da nação tem força para inutilizar nosso esforço cotidiano em direção à consolidação de um laço social baseado no respeito, na compreensão das diferenças e na solidariedade. A sociedade, perplexa e ferida – sim, a propagação da maldade nos fere quase tanto quanto a violência sofrida na própria pele – ainda não sabe reagir a isso.

Desencantados, atemorizados, os brasileiros têm se tornado cada vez mais propensos a crises de violência. Às vezes, uma explosão de fúria pode ser apenas a expressão mais extrema da angústia. Mas quando essa fúria se manifesta em atos de pessoas armadas que buscam um bode expiatório para algo que as frustra ou oprime, a criminalidade explode, como tem explodido nos últimos dois anos e meio.

Isso não explica por que, em tantos casos, sejam as crianças – inclusive os próprios filhos de alguns assassinos de ocasião – as vítimas da violência doméstica. O que essas pequenas vítimas representam – isto é, representavam – a ponto de se tornarem intoleráveis para seus pais, mães, padrastos de madrastas?

Representavam a ternura, a candura, a inocência. Mesmo chatinhas, como muitas vezes as crianças são, mesmo teimosas ou birrentas, as crianças ainda manifestam uma capacidade de amar e perdoar seus pais – seus piores pais – com uma grandeza que poucos preservam na vida adulta. As crianças perturbam nossos esforços para nos adaptar sem muita dor ao novo estado deteriorado em que vivemos. Não se trata, nos casos de violência contra elas, de tentativas de matar o mensageiro que nos traz más notícias. As crianças só nos trazem boas notícias. Trata-se, sim, do desejo de eliminar estes pequenos seres que nos fazem lembrar que já fomos melhores. Esses pequenos seres que continuam nos amando ainda, apesar de nossa deterioração.

Devo dizer aqui: este foi o artigo mais penoso que já me escrevi. Peço perdão aos leitores se algumas passagens lhes parecerem bruscas, incompletas ou atropeladas.
[1] A desmilitarização das polícias foi uma das recomendações feitas no relatório final da Comissão da Verdade (2012-2014), criada por empenho da presidenta Dilma Roussef para investigar os crimes cometidos por agentes do Estado contra cidadãos brasileiros.

[2] Esta observação limita-se ao Rio: em São Paulo, sempre à frente do país inteiro, tivemos os cento e onze do Carandiru.

terça-feira, 18 de maio de 2021

A tribo dos idiotas

Fica em casa, usa máscaras, vai à rua apenas para o essencial, lava muiiito as mãos, não economiza álcool em gel, foge de aglomerações como o diabo da cruz. Já soma mais de ano sem abraços. Teme o vírus, respeita a vida – a sua, a dos outros.

São os “idiotas”, segundo o inominável presidente da república. Assim mesmo com letra minúscula. Em dois anos de mandato, o indigitado reduz e desqualifica a Presidência e a República.

Como se o ouvido da república fosse penico, o desqualificador bravateia besteiras diárias. Sempre deselegantes, chulas, rastaqueras.

Ganhou permissão para os abusos quando, em abril de 2016, ao votar pelo impeachment da presidente Dilma, no plenário da Câmara, homenageou um torturador. Não saiu preso. Nem foi oficialmente repreendido.
conteudo patrocinado

O Brasil admitia o sem limite da autoridade constituída, eleita.

Cinco anos depois, aqui estamos a assistir o prazer no desrespeito diário ao cargo, à população que ainda guarda algum sentido de amabilidade e cortesia.

Sorridente, o abusador chefe exibe gosto em avacalhar o bom senso e atiçar os que ainda distinguem espontaneidade de falta compostura, desfaçatez.


Triste assistir suas costumeiras afrontas reproduzidas em milhares de páginas diárias das grandes e pequenas mídias, das sérias, das fakezeiras – essa praga que batizou de mito o nada*.

E ele sabe que desfruta da visibilidade que jamais sonhou, nem merece, porque é uma coisa**. Disso não passará. Na História ficará mesmo como o coiso, um sujeito sem educação, nem postura, que um dia sentou na cadeira de presidente e coisificou o país.

Pois então. Quando precisamos de competência e sobriedade de um estadista, temos esse que se define como imorrível, imbroxável, incomível.

Tocados como “idiotas”, chegamos à liderança mundial de mortos na pandemia – 435 mil ou 0,22% da população, que o imorrível deve considerar uma merreca de morríveis, broxáveis e comíveis. Os que, na tribo dos idiotas, tiveram o “CPF cancelado”.

Difícil não ser monotemático.

Dicionário:

*Nada – substantivo masculino – significando: coisa nula, sem valor; o que não existe; o vazio. Categoria filosófica que representa o não-ser, a ausência de existência.

**Coisa – substantivo feminino, significando: objeto ou ser inanimado.

Este é o 'seu' Exército

Penso que o Ministério da Defesa tem uma posição muito especial no contexto dos ministérios e que não é conveniente a manifestação em eventos de caráter político. Claro que ministro é um cargo de natureza política, mas o ministério não pode ser politizado. E muito menos passar a ideia de politização dos seus componentes, as Forças Armadas, que são instituições de Estado e não de governo. Forças Armadas não são instrumentos de intimidação ou de pressão política. As Forças Armadas não são ferramentas a utilizar em disputas partidárias e em projetos de poder pessoal, de grupos e de partidos políticos

General Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Bolsonnaro

Nem liberal nem conservador

Que o governo de Jair Bolsonaro não é liberal na economia, todos já sabem. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, queixou-se recentemente da falta de “aderência” a seu projeto de redução radical do Estado, anunciado na campanha eleitoral de 2018 por Bolsonaro e claramente frustrado após mais de dois anos de mandato.

A cada dia que passa, no entanto, o governo tampouco consegue ser o campeão dos valores conservadores, conforme também prometido por Bolsonaro nos palanques.

O presidente não é conservador; é apenas reacionário. O conservadorismo não se opõe a mudanças e reformas, como faz Bolsonaro, e sim às rupturas revolucionárias, especialmente aquelas motivadas por utopias que só podem resultar em autoritarismo e na anulação do indivíduo. Ademais, o conservadorismo defende o respeito às instituições democráticas e luta por sua estabilidade; defende a liberdade política e econômica, dentro da ordem constitucional; defende a igualdade de todos perante a lei, que é o verdadeiro lastro da estabilidade; defende a política como a “arte do possível”, fruto de ampla negociação; e, finalmente, defende a coesão social baseada em valores morais comuns, sobretudo o respeito, a responsabilidade e a honestidade.


Lamentavelmente, Bolsonaro viola esses princípios de forma sistemática desde que ganhou os holofotes da vida pública, quebrando o decoro sem constrangimento, tomando a coisa pública como se fosse privada e atacando os pilares da democracia.

Poucas vezes na história brasileira as instituições foram tão vilipendiadas por um presidente da República. Poucas vezes um chefe de Estado foi tão indiferente às leis e à Constituição, considerando-se frequentemente acima delas. Poucas vezes um governante desprezou tanto o diálogo político, demonizando a oposição e menosprezando partidos. E poucas vezes um presidente transgrediu de forma tão desabrida os valores morais comuns da sociedade, especialmente ao rejeitar a responsabilidade por seus atos e omissões e ao ofender e ameaçar quem o contesta.

Nesse cenário, a linguagem chula de Bolsonaro é, por incrível que pareça, o menor dos problemas – embora, frise-se, só isso já bastasse para constranger os movimentos que se dizem conservadores e que apoiam o presidente, notadamente os religiosos.

Bolsonaro julga ter recebido dos eleitores o poder de fazer o que bem entende – e, se as instituições republicanas e os valores morais se tornam obstáculos ao exercício desse poder sem limites, pior para as instituições e para os valores.

O presidente já se confundiu com a Constituição (“eu sou a Constituição”), um ato falho que traiu seu desejo de transformar sua vontade pessoal em lei. E anunciou, desde a campanha, que a “verdade” não era a realidade, mas uma revelação mística que ele profetizou nos palanques, transformando em slogan eleitoral o versículo bíblico “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32).

No seu governo, vale o Führerprinzip, isto é, o princípio da supremacia do líder sobre qualquer outra consideração, pois o presidente julga encarnar o “povo”. Por essa razão, demanda-se lealdade absoluta a Bolsonaro, seja de seus ministros, seja de seus eleitores, e o que quer que o presidente estabeleça como verdade deve ser aceito sem contestação.

Assim, a verdade dos fatos, cujo respeito é princípio central no credo conservador, não tem lugar no mundo bolsonarista. Nesse universo fantástico, o presidente não pode ser refutado quando declara não ter nenhuma responsabilidade sobre os mais de 435 mil mortos pela pandemia de covid-19, tampouco pela desastrosa situação econômica, e muito menos pela morosidade das reformas e das privatizações. Questionar Bolsonaro equivale a violar um mandamento.

Isso obviamente nada tem a ver com o espírito do conservadorismo cuja representação Bolsonaro reivindica. É, ao contrário, uma violação explícita. Os conservadores que se alinham a Bolsonaro supostamente por afinidade de valores deveriam repensar esse apoio, pois correm o risco de se confundir com a desonestidade bolsonarista.

Pensamento do Dia

 

Oguz Gurel (Turquia)

General com medo de depor na CPI humilha o Exército

Nada mais humilhante para um militar da ativa ―e ainda mais para um general três estrelas como Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde― do que revelar medo e covardia. E o pior é que essa imagem de medo pode acabar afetando a imagem positiva que a instituição militar vinha tendo até agora. Ver um general como Pazuello incapaz de enfrentar uma CPI de peito aberto tem que humilhar até os simples soldados, que devem se sentir desconcertados.


Já pouco importa o que o general ex-ministro diga ou silencie. Seu comportamento de medo que o levou a se refugiar em um habeas corpus preventivo no Supremo para permanecer mudo ante as perguntas dos senadores já é uma demonstração de confissão de culpa.

Se, como já havia confessado Pazuello, ele se limitou a cumprir ordens do presidente Bolsonaro, considerado naquele momento seu superior hierárquico, bastava, como fizeram os ministros anteriores, pedir demissão e voltar ao Exército. Atribuir a atitude do general à sua personalidade difícil parece estranho para quem deveria dar exemplo, não apenas de uma pessoa que não teme a verdade, mas que também tem orgulho de aceitar que errou.

Ainda não sabemos como acabará a novela do general que pediu que permanecesse calado no Senado. Nem mesmo se ela acabará sendo escrita em sua testa por sua atitude de medo, a maior desonra para um militar ―ainda mais da sua categoria.

O general, hoje preso em sua narrativa nebulosa de comportamento, teria apenas uma forma de resgatar sua dignidade humilhada. Seria, ao chegar ao Senado, aceitar todas as perguntas que pudessem ser feitas, respondendo com lealdade militar, embora para isto precisasse revelar verdades durante seu período à frente do Ministério da Saúde, correspondente ao maior número de mortos por covid-19, mesmo que elas pudessem comprometer gravemente a imagem do presidente. Uma imagem já mais do que desgastada de um chefe de Estado que acaba de ser visto, internacionalmente, como um dos que pior geriram a pandemia entre os 14 líderes políticos mais importantes do mundo.

Bolsonaro e sua procissão de seguidores fanáticos com instintos de morte passarão, e o Brasil recuperará sua normalidade democrática depois do hiato tenebroso ao qual foi arrastado por um capitão frustrado do Exército. Ele sairá de cena, como indicam as últimas pesquisas, enquanto a instituição das Forças Armadas continuará sendo vital na defesa dos valores democráticos e da Constituição, como foi nos últimos 20 anos com Governos de diferentes tendências políticas.

O Brasil só pode desejar que a hierarquia do Exército ajude seu general, hoje questionado, a demonstrar que o medo não existe no dicionário militar. A responsabilidade de um desastre ou de uma conduta ditada pelo medo do general na CPI poderia acabar prejudicando gravemente a credibilidade do Exército. O resultado da conduta do ex-ministro em sua convocação à CPI poderá ter consequências inesperadas para o futuro deste país, hoje visto como um fracasso mundial de governo. Não por acaso, faltando 18 meses para as eleições presidenciais, a imprensa mundial continua atenta e preocupada com seu possível resultado e temendo que o bolsonarismo destruidor possa continuar no poder, o que traria problemas não só no cenário já turbulento da América Latina, mas no mundo. De fato, o Brasil é visto como um elemento-chave não apenas na economia, como potência mundial que é, mas também no cenário de descrédito da democracia, com o crescimento dos movimentos negacionistas e nazifascistas nos cinco continentes.

O Brasil ―mais especificamente, a CPI da Pandemia― poderia levar à saída de Bolsonaro do Governo, que revolucionaria as eleições do próximo ano. O país vive momentos difíceis, que poderiam ter repercussões negativas para várias gerações. Sabemos como as guerras tradicionais começam, mas não como terminam. O mesmo acontece com as crises políticas. E não é nenhum segredo que no Brasil, governado hoje por um presidente considerado o pior e mais imprevisível de sua história, a responsabilidade do Exército seja crucial, pois do seu apoio ou não ao capitão com vocação de ditador poderá depender o futuro deste país.

Nem vale a desculpa para os militares do medo do comunismo, já que hoje qualquer cidadão minimamente informado sabe que nem o PT nem Lula representaram, nem representam hoje, o comunismo. Basta lembrar as boas relações de Lula em seus Governos com o mundo empresarial e os bancos, que nunca ganharam tanto quanto com ele. Sem contar suas relações estreitas com os partidos conservadores e de direita, que chegaram a preocupar o grupo mais progressista e sindicalista do partido.

O temor da volta de Lula, hoje mais conservador que ontem, não deveria justificar a defesa e o apoio ao capitão agora rechaçado pela maioria da população, que apoia um impeachment do presidente. O Exército pode hoje apoiar candidatos conservadores de direita, que podem governar tranquilos, sem o perigo de uma involução do Brasil para uma aventura como a venezuelana pela ânsia patológica de Bolsonaro, que já deu provas irrefutáveis de incapacidade profissional e psíquica para governar o quinto maior país do mundo.

O Exército brasileiro está em uma encruzilhada histórica, da qual depende sua credibilidade. Seu comportamento diante da tão esperada conduta do general Pazuello na CPI da Pandemia poderá arrastar as Forças Armadas para uma grave crise no já obscuro panorama político e econômico deste país.

Salário dos militares do governo pode chegar R$ 80 mil com teto duplex

Militares não se aposentam. Foi assim que sempre argumentaram as Forças Armadas para se livrar da equiparação das regras previdenciárias com civis.

Militares se aposentam: e os ministros militares do governo são aposentados. É o que buscou a Defesa para se livrar do limite remuneratório (conhecido como teto). Argumenta-se que esses generais devem poder receber acima do limite/teto acumulando “aposentadoria” e o salário de ministro.

Estariam, assim, incluídos nas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal de Contas da União (TCU) que permitem – excepcionalmente nesses casos – que o teto remuneratório seja dobrado, aplicado separadamente a cada um dos pagamentos, e não à soma deles (aposentadoria+salário).

Deixa de valer, assim, o limite de R$ 39,2 mil, o salário de ministros do Supremo que é a remuneração máxima no serviço público. Com a dobra do limite feita, o chamado “teto duplex” iria para quase R$ 80 mil. É 70 vezes o soldo dos recrutas. A mudança decorre de uma portaria do Ministério da Economia (que, aliás, não diz como vai pagar, violando a Lei de Responsabilidade Fiscal).

Militares da reserva com cargos no governo serão beneficiados, porque até então o acúmulo de salário e aposentadoria esbarrava no teto. Agora, o limite será o teto dobrado. Haverá aumentos para o presidente, mas principalmente para os generais. Segundo jornais, o vice Mourão receberia mais de R$ 63 mil mensais a partir de agora, os ministros Braga Netto, da Defesa, R$ 62 mil; Heleno, da Segurança Institucional, R$ 63 mil; e Ramos, da Casa Civil, R$ 66 mil.

A alegação para a portaria seria o cumprimento de uma decisão do STF, que permitiu que o limite remuneratório de R$ 39,2 mil seja observado separadamente para aposentadoria e para salário. Seria, assim, um limite para cada vínculo. Mas militar na reserva perde o vínculo?

A Constituição prevê que a aposentadoria afasta o vínculo com o empregador, seja na iniciativa privada ou no governo. Só que militares sempre justificaram que não se aposentam, que há apenas uma “transferência para a reserva remunerada”, que seguem à disposição do Estado e que podem ser convocados.

O TCU também havia decidido em anos recentes que, “na hipótese de acumulação de aposentadoria com a remuneração decorrente de cargo em comissão, considera-se, para fins de incidência do teto constitucional, cada rendimento isoladamente”. A expressão usada é aposentadoria, o que não se aplicaria aos generais.

Mesmo no STF, a discussão no julgamento da questão não parece ter levado em conta os militares. Por exemplo, o ministro Lewandowski, para quem o teto de R$ 39,2 mil sobre aposentadoria+salário violaria a dignidade da pessoa humana, observou que a aposentadoria é contraprestação por décadas de contribuição.

Mas militares não contribuem para a transferência para a reserva (ou “aposentadoria”), porque esta não seria um benefício (já que ainda estão à disposição etc.). Não é exagero do colunista: nenhum dos generais na reserva contribuiu sequer com um centavo em qualquer mês da carreira militar para o que agora querem considerar uma aposentadoria.

O argumento de que militar não se aposenta foi usado historicamente para evitar a imposição de idades mínimas para aposentadoria (90% sai da ativa com menos de 55 anos, 50% antes de 49), de contribuições de aposentados (como no serviço público civil) e de cálculo de aposentadoria com base na média salarial (como no INSS). Militares ainda têm a integralidade: vão para a reserva com 100% do maior salário. “Os militares nunca tiveram e não têm um regime previdenciário” escreveu Mourão em 2017 no texto “Por que os militares não devem estar na reforma da Previdência?”. O vice prometeu doar o dinheiro.

Agora, para pegar carona nas decisões do TCU e do STF autorizando o limite duplo para aposentados que recebem salário, o governo editou portaria estendendo o limite duplo para “militares na reserva”. As decisões não trataram desses casos, que exigiriam uma emenda à Constituição – já que é controverso o status dos militares da reserva. Qual o limite dos generais?

Bolsonaro em um cavalo cercado de ministros é lamentável

Patética e mambembe, para dizer o mínimo, a cena desqualificante protagonizada neste sábado, 15, pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, ao chegar montado em um cavalo – e acompanhado de quatro ministros – para participar de protestos promovidos por seus apoiadores e ruralistas na capital federal. Em períodos normais já seria um lamentável despropósito e uma desconfortante imagem para o país e para o mundo. No momento sombrio de pandemia e horrenda crise social e humanitária – com mais de 430 mil vidas ceifadas no Brasil, até aqui – o espetáculo se assemelha mais a um escárnio intolerável contra uma nação agredida e desolada.


À distancia , de Salvador, a primeira reação do jornalista – ao ver o capitão e seu séquito de governo descer do animal e, sair, sem máscara e em completo desrespeito às recomendações médicas e da ciência, abraçando, beijando e fazendo selfies com adeptos na manifestação contra a CPI da Covid , os membros do Supremo Tribunal Federal e os adversários, em especial o ex-presidente Lula, a quem volta a chamar de “ladrão de nove dedos” e “o maior canalha da história do Brasil” – é pensar na antológica composição do grande compositor baiano, Batatinha, “Todo mundo vai ao Circo”.

Que diz: “Todo mundo vai ao circo, menos eu, menos eu… A minha vida é um circo, sou acrobata na marra, só não posso é ser palhaço, senão eu fico sem graça”. Grande e saudoso Batata!


Mas observo um pouco mais: “Patacoada”, imagino escreveria o imortal alagoano, Graciliano Ramos, ao ver o capitão presidente, no centro de Brasília, acompanhado dos ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, Tereza Cristina, da Agricultura, e Gilson Machado, Turismo, e Tarcísio Gomes, da infraestrutura. E mandar descer metade das pessoas pessoas que estavam no trio elétrico para que ele e seus membro do primeiro escalão subissem no veículo, para saudar os presentes. De cima do trio, comunicou, sob aplausos ruralistas e adeptos, que está, “cada vez mais, legalizando armas no Brasil. Nenhuma palavra sobre vacinas nem sobre o clamoroso horror da mortandade pela covid no País. Depois, pasmem, sobrevoou o protesto em um helicóptero do Exército.

No fim, lembro do poema “Gaúcho”, de Ascenso Ferreira, o notável pernambucano nascido na Paraíba:

Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das coxilhas!
Sai de meus pagos em louca arrancada!
— Pra quê?
— Pra nada!

Vitor Hugo Soares 

Há muito escrito


Na minha rua mora um general,
Cara de mau,
Como convém a todo general.
Ninguém sabe em que batalhas
Ganhou a série de medalhas
Que ostentam sobre o peito varonil.
Também, pra que saber?
Viva o Brasil!

Max Nunes, "Uma pulga na camisola"

'A Peste' brasileira

Que me perdoem Camus, seus estudiosos e milhões de admiradores, peço licença para repetir aqui algumas de suas palavras, do clássico “A Peste”, de reivindicar tua audácia, uma ousadia à imagem das tuas, para me ajudar neste momento de súplica rebelde, deste espasmo de “combat” e de “combattant“, diante de atos desumanos e suas terríveis consequências.

Como brasileiro, como tantos outros e perante o mundo, assumo aqui que estamos habitados, sitiados, nestes tempos sombrios de nossa história, por mais de uma terrível peste. Este duplo flagelo, cujas devastações são apenas o acréscimo de nossos próprios erros coletivos, que pode contaminar muito além de nossas fronteiras.

Além da “Peste” biológica, epidemia pessimamente gerida, causadora da maior crise sanitária da história do Brasil, temos outro mal, que no longo prazo pode deixar terríveis sequelas ainda mais profundas. A peste antidiplomática que nos isola, a peste que corrói a Amazônia, o meio ambiente e persegue os que a protegem, o mal que distancia a vigilância e permite passar a boiada, aceita garimpos em reservas indígenas, que prefere troncos deitados a vê-los em pé, vivos, pragas cúmplices dos responsáveis por estes crimes. Também a peste que castra liberdades, ameaça a democracia e resgata a censura, a peste preconceituosa que promove a intolerância, a homofobia, o machismo e a violência.


Enfim, a Peste que nos destrói, destrói a razão e o bom senso, que perturba nossa essência, nossa consciência e nega a ciência. A Peste que promove o ódio é inimiga das artes e da cultura. Ela, que tem suas próprias variantes, é obra de um clã. Associada ao distanciamento, ao negacionismo, a desinformação, a mentira, acaba por reprimir, mesmo que temporariamente, nossa revolta, resistência e indignação.

Citamos Camus: “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ‘Não vai durar muito, seria estúpido’. Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e nós a compreenderíamos se não pensássemos sempre em nós”

Sim, aqui do outro lado do Atlântico, este oceano que nos separa e nos aproxima, amigo francês, vemos de tudo. Da “ocupação” de boa parte de nosso espírito, até ideias muito próximas de um nazismo medíocre, ao menos de um ideal genocida de poder, que se pretende genocida de ideias, mesmo que para isso a morte de concidadãos enteja no caminho, nem que para isso aconteça um massacre humanitário, desnecessário, com centenas de milhares de mortes evitáveis.

O mal está espalhado: meio ambiente, relações internacionais, Fundação Palmares, direitos humanos. Chegamos ao cúmulo de assistirmos um certo secretário de Cultura parafraseando em rede nacional o discurso de Joseph Goebbels, ministro de Adolf Hitler antissemita, maldita alma da pior das ideologias.

“Tinham visto morrer crianças, já que o terror, há meses, não escolhia, mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziam desde essa manhã”.

No nosso caso (que revoltaria ainda mais os personagens de Camus), morrem inocentes por falta de oxigênio, e/ou por falta de leitos.

É preciso então, mais que resistir. Contra este peste brasileira que veste um terno sombrio com seu sorriso astuto, ataca seus adversários com repressão, agressão e perseguição, resgatando “sobras legais” herdadas da ditadura, como a lei de segurança nacional. Nosso Brasil, depois de ter passado por 20 anos de torturas, assassinatos, censuras, pensávamos nunca mais sofreríamos deste mal.

Ainda Camus: “O padre dizia que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribuído, que não se tratava da banal resignação, nem mesmo da difícil humildade”. “Era por isso – e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – preciso querê-la, porque Deus a queria”.

“O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” Este era o slogan da última campanha presidencial, esta que acompanhou a vitória do inominável. Alguns de nós já imaginávamos que por detrás destas palavras, se escondia a carne do mal coberta pela fake pele de um fake salvador da pátria, uma clara tentativa de iludir cidadãos de boa-fé, evangélicos, fiéis e crentes de Deus, já feridos e traídos em sua cidadania, querendo fazer crer que toda e qualquer atitude de seu governo segue princípios divinos.

Pois me diga, que Deus seria este que destrói e coloca a vida humana em um plano tão desprezível?

“Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”.

E me permita completar, e em meu país, perigosamente distraído.

O Brasil que queremos e que o mundo precisa, também negou o horror que se aproximava. E, portanto, há décadas os ratos já estavam aqui mostrando seus rostos e dentes, de olhos revirados, afiando suas unhas. E não nos atentamos. Será que nós, concidadãos, e sobretudo nosso parlamento, também somos negacionistas/cumplices, ao não querer enxergar o tamanho do perigo, ao nos sujeitarmos a este poder já manchado de sangue e de crimes?

Eu sei que longo prazo, e seja qual for o país, o homem corajoso, o cientista, o resistente conseguirão juntos derrotar o mal. Aqui, não será tão simples assim, porque carregamos nas nossas costas a histórica extrema desigualdade, econômica, social e educacional que esteriliza alguns comportamentos e aniquila a vontade de ruptura.

Toda Peste causa separações profundas e dolorosas. E olhem nós aqui, já isolados, tratados como pária do mundo… mas, sobretudo, separados de nós mesmos, desviados do Brasil que viemos para ser, do nossa essência, da nossa natureza, do país do futuro e de um mundo mais humano e justo. Do país exuberante, da alegria de viver que faz sonhar, que dança, brinca, canta e encanta. Porém, ao nos rendermos ao mal, passivos, mostramos o que temos de pior. O país da miscigenação não pode ser o da negação do seu próprio destino!

“O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam?”

Como fazer para se livrar deste pesadelo? Sobretudo não fiquemos anestesiados, amordaçados por esta “angústia muda”. Fora com este mal maior, fora a estupidez que desencoraja o uso de máscaras, que dificulta o combate ao vírus, que mata e deixa morrer, e ainda insiste!

Vacinemo-nos uma vez por todas! Vacinemo-nos também para expulsar de nós o mal maior, que vai muito além do agente infeccioso microscópico, que gangrena nosso “corps social“.

Porque não basta identificar o sequenciamento do vírus que nos impõe suas leis e viola nossos direitos, devemos agora encontrar o antídoto. Vacina sim! Ele não! Ele nunca mais! Fora Bolsonaro! Caso contrário, nos tornaremos a nossa própria peste.

“A partir desse momento, pode-se dizer que a peste se tornou um problema comum a todos nós”.
Raí  (Texto publicado originalmente no jornal francês Le Monde)

Pra frente, Brasil...

 


O marisco sempre se dá mal

“Hoje, 19 de julho de 1936, está declarado estado de guerra em Salamanca e, com a ajuda de Deus, em toda a Espanha.” Essa é a primeira fala do excelente filme “Enquanto a guerra durar”, de Alejandro Amenábar. Assim, em nome de Deus, da pátria e dos bons espanhóis, começou a Guerra Civil Espanhola, deixando mais de um milhão de mortos nos 3 anos que durou.

Quando os militares, o clero e a elite conservadora espanhola se recusaram a aceitar o governo de esquerda eleito pela maioria, amigos, vizinhos e membros da mesma família se dividiram entre dois extremos. Quem discordava da República era fascista, e quem a apoiava era comunista. Discussões se tornam brigas, que logo se transformam em fuzilamentos mútuos nos campos de batalha. A intolerância paralisou a sociedade como uma lanterna faz com um jacaré.

Com apoio do regime fascista italiano e da Alemanha nazista, as Forças Armadas declararam uma cruzada moderna contra as forças liberais e democráticas republicanas. À República se aliaram os anarquistas, comunistas, socialistas e bolcheviques do mundo inteiro, para destruir o movimento que o General Franco chamou de Nacional Catolicismo. A Espanha inteira virou a arena onde os radicais de todo o mundo se encontravam para lutar até o último homem sobrar de pé.

O filme conta essa história por meio de um personagem da época tão interessante quanto controverso: o reitor da Universidade de Salamanca, escritor e pensador basco Miguel de Unamuno. Eu o conhecia como autor do livro “San Manuel Bueno, mártir”, um padre fictício de uma pequena aldeia, sempre pronto para ajudar e consolar sua paróquia. Amado por todos, ao morrer foi canonizado por sua santa bondade. Porém ele escondia de todos uma angústia que o perseguia: não tinha fé, nem acreditava na imortalidade da alma. Queria apenas levar o consolo da religião a seus paroquianos. Tirar a espiritualidade e a ilusão de uma vida eterna seria uma crueldade com o povo simples da sua aldeia.

Uma das frases mais conhecidas de Miguel de Unamuno é sobre uma igreja presa a rituais e dogmas inquestionáveis: “Uma fé que não duvida é uma fé morta”. Duvidar de dogmas e ideologias virou hábito. Ele ajudou a destronar o rei e a fundar a República para se decepcionar, ao perceber que tanto os valores espanhóis quanto a liberdade e a democracia começavam a se diluir num governo com tantas ideologias importadas, tantos “ismos” diferentes lutando entre si. Pelas críticas ao saco de gatos ideológico, foi destituído do cargo de reitor pelo governo republicano. Retornou ao cargo graças à junta militar do governo provisório depois de apoiar a revolta, acreditando na ilusão de uma volta à ordem institucional pelas mãos do Exército.

Ao ver a sede de sangue da extrema direita raivosa clamando por uma guerra santa contra o “câncer da esquerda”, se voltou, talvez tarde demais, contra o fascismo desenfreado. Perdeu amigos e alunos para o regime de terror que caçava “maus espanhóis” para ser fuzilados em valas ao redor de Salamanca.

Como reitor, sentou-se a contragosto à mesa diretora numa cerimônia sobre a celebração da raça espanhola na Universidade de Salamanca. A plateia formada de falangistas gritava “Viva la muerte”, enquanto ouvia deliciada discursos sobre o câncer da esquerda e como “precisava ser extirpado com um frio bisturi, mas com ardor patriótico”.

Decidiu então falar, convencido de que o silêncio seria sinal de conivência: “Hoje vivemos um suicídio coletivo entre partidários do fascismo e comunismo, dois lados da mesma doença mental. Vocês fascistas desejam a morte da vida. Ganharão porque têm a força bruta. Mas vocês não convencerão. Porque, para convencer, é preciso persuadir e, para persuadir, vocês precisam de algo que não têm: razão e direito”. Antes de quase ser linchado, saiu escoltado, para logo ser destituído do cargo de reitor, dessa vez pelo já generalíssimo Franco.

Num país radicalizado, preso num conflito entre extremos, fica difícil achar um caminho pelo meio. Miguel de Unamuno tentou, mas não achou. Morreu só, em prisão domiciliar. Não como um jacaré paralisado pela lanterna da ideologia, mas como um marisco. Aquele que sempre se dá mal na eterna briga entre o mar e o rochedo.
Marcello Serpa

Paladinos ilegais e profetas infiéis, heranças seculares e perigosas

O advogado, escritor, político e revolucionário Maximilien Robespierre conquistava simpatizantes com posições humanistas, era contrário à escravidão, à pena de morte e defendia a participação política de todos os cidadãos, independentemente de seu lastro financeiro.

Ele se tornaria líder dos jacobinos, ala revolucionária mais radical, e rapidamente sua parcimônia seria substituída pelo autoritarismo, que em nome da causa decapitaria amigos por divergências de toda ordem. Mas da ala dos descontentes um estruturado revés levaria também sua cabeça para rolar na Place de la Concorde.

Na democracia, os reveses que inquietam por alternar extremos ideológicos também principiam nas insatisfações, porém se concretizam nas urnas, sem ferimentos democráticos. Uma vez empossado, o novo mandatário deve abandonar a belicosidade eleitoral e encontrar os caminhos para validar suas promessas, sem distanciamento dos crivos institucionais e do sentimento popular, sob o grave risco de decapitação no pleito seguinte, ou durante o vigente.

É alternativa condenável o aparelhamento do sistema administrativo para, em seguida, mutilar as instituições e modular o governo longe da participação popular. Essas estratégias, ou tentativas, para linhas à direita ou à esquerda, ensaiadas ou implementadas, nunca deixam bons saldos.

Outra tática para dominar as massas e os consequentes triunfos políticos contempla alinhamento por arrimos religiosos, não faltando habilidosos articuladores que se utilizam, para suas próprias pretensões, da fé incondicional dos seguidores. As religiões têm variadas teceduras em suas origens, provavelmente a frágil pequenez humana perante o universo tenha sido detectada muito cedo por nossos ancestrais e, desde quando nós encontramos registros, nossa jovem espécie tem seus credos.


A adoção do cristianismo, em 323, por Constantino, no Império Romano, foi simbiótica, crucial para estender a sustentação imperial, porém ainda mais importante na imensa propagação da religião cristã. Mas a frente única de doutrinas seria contestada em sua hegemonia quase 12 séculos depois, por Martinho Lutero, principiando dissidências que se estabeleceram em diversos nomes.

Importante marco das cisões internas no cristianismo, e notório exemplo da relação entre religião e poder, se deu quando Henrique VIII oficializou a Igreja Anglicana em substituição à Católica. A atitude do rei, em 1534, foi tomada em retaliação ao papa, que não lhe concedera o divórcio de sua primeira esposa, a rainha espanhola Catarina de Aragão. Henrique estava decidido a se casar com Ana Bolena.

A partir de então, a Grã-Bretanha viveria séculos de terror nos grandes duelos entre cristãos de uniformes diferentes, enquanto na França, do mesmo modo, se verificavam muitos massacres e sangue antes e depois da permissão para o culto protestante.

A mistura de religião e poder é cáustica e perigosa, emotiva e raramente racional, míope quando homogênea e segregante, assim como tempestuosa, se é impositiva. Por outro lado, o elo entre a religiosidade e as soluções de enfermidades permanece no imaginário humano, e aqui não se discutem suas bases, mas a ciência caminha bem por quase todas as crenças. São bastante pontuais afrontamentos religiosos perante condutas ditadas pela ciência, e propositadamente não enunciarei nenhum deles.

Muito embora alguns credos, em raras ramificações, contemplem sacrifícios, em geral sucede o contrário, buscam dádivas que intercedam em sobrevivências ameaçadas, habitualmente em favor da vida.

Sobraram vozes consonantes, em Legislativos e Executivos de todas as nossas esferas governamentais, para o desesperado manifesto de alguns líderes religiosos solicitando exceção para execução de cultos, em oposição contundente às então orientações das autoridades sanitárias. Buscavam apoio oficial para convocar fiéis à aglomeração, chamamento que já verificava em ato clandestino, desumano e inaceitável para os propósitos dessas instituições.

Fosse a arrecadação dos dízimos para quitar os débitos de R$ 1,9 bilhão inscritos na Dívida Ativa da União, seria ao menos compreensível, embora equivocado. Contudo o argumento se derramava no que entendem como necessário louvor a Deus, sugerindo incapacidade do ser supremo quanto à onipresença nos lares e quinhões planetários.

Por aqui, todos os dias surgem Robespierres de inúmeras tribos com a promessa paladina de uma inadiável limpeza institucional, mas perdem a mão ou pelo exagero, rasgando o Código Penal, ou desmantelando (aparelhando) a estrutura para estender o domínio, sem nos distanciar do caos. Na mesma esteira são muitos os candidatos a Henriques VIII, resolvendo suas dores com os suores e vidas de seus fiéis e/ou eleitores.

Preocupa muito que em breve escolhamos nas eleições os representantes do empresariado, da indústria, do mercado financeiro, do setor imobiliário, de frações religiosas, de facções criminosas e de grupos de extermínio, mas não elejamos ninguém que defenda os interesses coletivos.

Aqui a morte é tanta

Mesmo ainda sem saber de sua morte, Eva Wilma me emocionou, quando vi anteontem um vídeo em que, cerca de dois anos atrás, ela declamava de cor, sem vacilar, sentada na primeira fila da plateia, um texto de mais de dois minutos de “Antígona”, de Sófocles, no Teatro Poeira, de Andrea Beltrão e Marieta Severo. A personagem, como se sabe, é uma trágica heroína grega que enfrenta um tirano, assim como nossa atriz lutou contra a ditadura militar. “Ainda não acreditamos que no final o bem sempre triunfa, mas começamos a crer que o mal nem sempre vence.” Quando encerrou recitando “O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”, a atriz foi ovacionada. O público tinha entendido o recado, muito atual.

O vídeo me fora enviado pela minha amiga, escritora e juíza Andréa Pachá, depois de um longo papo por telefone, em que eu contava que grande parte das pessoas com quem tinha conversado ultimamente se queixava de depressão, inclusive eu. Dizia que, se o Ancelmo me entrevistasse para sua pesquisa para escolher “a palavra do ano”, não havia dúvida quanto ao meu voto. Bruno Covas ainda não tinha morrido, mas seu quadro era irreversível, e mais uma vez me veio à memória um verso do belo e pungente poema “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto: “Como aqui a morte é tanta”. Estava pensando, claro, nos milhares de brasileiros exterminados pela pandemia.


A manchete de ontem da coluna de Patrícia Kogut, baseada em pesquisas, é “Brasileiros em peso se interessam por CPI da Covid”. Ela acrescenta que está todo mundo assistindo e comentando. Amanhã, então, a audiência deverá bater o recorde, pois, palpito eu, as pessoas querem saber se Pazuello blindará o presidente, atraindo para si toda a responsabilidade dos malfeitos na pandemia, como a falta de medicamentos do kit entubação, a crise de oxigênio em Manaus e a indicação de remédios ineficazes no tratamento da Covid-19. Será interessante acompanhar os malabarismos que o general fará para se equilibrar entre o direito de ficar em silêncio garantido pelo habeas corpus e a obrigação de não mentir.

O senador Renan Calheiros, relator da CPI, declarou domingo à noite na GloboNews que a comissão está tranquila, pois nem todos perceberam que o habeas corpus só permite que o ex-ministro da Saúde fique calado em relação ao que possa incriminar a si próprio. Isso os outros depoentes farão. A ele caberá a obrigação de incriminar terceiros. Quem deve estar tenso é o presidente, arrependido de não ter protestado — ao contrário, riu satisfeito —quando o general, subserviente, disse, apontando para o capitão e garantindo: “Um manda, o outro obedece”.

Está previsto para depois de amanhã o depoimento da secretária de gestão do trabalho e da educação na saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina”. Seus advogados apresentaram um pedido de habeas corpus preventivo, mas até a noite de segunda não se sabia o resultado.

É preciso comer Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro, com a graça e elegância que lhe são próprias, disse hoje àquela gente pitoresca que se acotovela na saída do Palácio da Alvorada que ele é “‘imorrível”, “imbrochável” e “incomível”. Bolsonaro quis bancar o impagável, apenas no sentido da comicidade, visto que no outro já não aparenta ser faz tempo, mas é mesmo intragável.

Ele, no entanto, tem razão: permanecerá “incomível” até 2022, se a CPI da Covid não recomendar a abertura imediata do processo de impeachment. O simples envio das provas obtidas pelos senadores ao Ministério Público, para abertura de investigações criminais, não basta. É preciso que a CPI resulte em processo político sumário, sob pena de Jair Bolsonaro continuar sabotando o combate à pandemia. Hoje, por exemplo, ele chamou de “idiotas” quem recomenda às pessoas para ficar em casa, sob o falso argumento de que as medidas de combate à pandemia são ruins para a economia, quando são justamente o contrário: ajudam a que as atividades sejam retomadas com mais segurança e mais rapidamente.

Já existem provas abundantes de que Jair Bolsonaro atentou contra a saúde pública. O depoimento do presidente regional da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, à CPI da Covid foi por si só devastador. Cerca de 3,5 milhões de brasileiros a mais poderiam ter sido vacinados com o imunizante do laboratório americano até o final de junho, se o governo não tivesse sido ignorado cinco propostas da Pfizer feitas em 2020. Num cálculo muito conservador, feito pelo epidemiologista Pedro Hallal, pelo menos 14 mil cidadãos teriam sobrevivido à doença, caso Jair Bolsonaro e seus cúmplices tivessem aceitado a oferta.

Todos os fatos já elencados são suficientes para o início de um processo de impeachment que independe do trabalho a ser feito pelo Ministério Público, ao final da CPI da Covid. Para além de Jair Bolsonaro insistir em sabotar as medidas restritivas, ele deliberadamente não quis evitar a contaminação e morte de milhares de brasileiros. Ao que tudo indica, buscou — e busca — a propalada “imunidade de rebanho” por meio do sacrifício de vidas. Matar deliberadamente um povo é genocídio. Sou cuidadoso com as palavras, mas acredito que a tipificação do crime vai muito além da desídia: existiu — e ainda existe — a intenção de matar em massa uma determinada população. A nossa.

Senadores e deputados fazem cálculo eleitoreiro ao deixar o carniceiro no Planalto. O pretexto de que não daria tempo para o impeachment é falso. A desculpa de que o impeachment tumultuaria ainda mais o ambiente no país é imoral. Trata-se de iniquidade deixar Jair Bolsonaro sangrando na Presidência da República, como se o sangue fosse apenas o metafórico, não o real das vítimas da Covid. A imoralidade é absoluta e os parlamentares serão cúmplices dela se nada fizerem de concreto para tirar de cena personagem tão abjeto. É preciso comer Jair Bolsonaro. Não em 2022, mas agora.