quinta-feira, 18 de janeiro de 2024
Bem-vindos ao século XXI
É impressionante como uma criatura tão pequena, invisível a olho nu, tem a capacidade de paralisar o planeta. Algo que só se conhecia do passado ou por meio de fantasias, de distopias científicas agora faz parte da nossa realidade.
Sempre se sai mudado de um estado de anomalia: passamos a repensar se essa rotina acelerada é mesmo necessária, se todo mundo precisa sair de casa e voltar no mesmo horário, se estamos fazendo bem ou muito mal para o planeta. Se não podemos ser mais flexíveis, menos congestionados, menos poluidores.
Ficar em casa é reinventar a rotina, se descobrir como uma pessoa estrangeira. Eu me conheço como uma pessoa que acorda de manhã, sai para correr, vai para o trabalho, vai para outro lugar e chega em casa exausta. Agora, preciso me reinventar numa temporalidade diferente. É um movimento interior de redescoberta.
Mas como dizia Montaigne: “A humanidade é vária”. Nem todos estão passando por isso da mesma maneira. Há grandes diferenças, a depender de raça, classe, gênero. Nós, mulheres, por exemplo, temos um conhecimento distinto dos homens quanto ao cuidado com a casa. Não há nada de biológico nessa constatação; essa é uma função que nos foi impingida histórica e culturalmente de modo a parecer “natural”; o que não é. Há vários relatos de maridos que não imaginavam que os afazeres domésticos dessem todo esse trabalho, que não se davam conta do tempo que tomavam, o que evidencia uma divisão do trabalho internalizada e invisível.
Os séculos XX e XXI são e serão da revolução feminista, como já vai ficando claro. As mulheres não vão voltar atrás. Quem sabe possamos aprender com a experiência das várias mulheres dirigentes de nações, como é o caso de Nova Zelândia, Islândia, Finlândia, Taiwan, Alemanha e Bélgica, que estão inventando uma forma nova de “fazer política”: menos viril, menos normativa, menos dogmática. Uma forma mais atenta aos cuidados de que a população precisa e ao diálogo. São governos que tiveram grande sucesso em conter a pandemia com clareza, objetividade, assertividade, firmeza, respeito à ciência e, sobretudo, respeito e cuidado para com os cidadãos.
Mas a questão das mulheres é também de gênero e classe social. Mulheres das classes média e alta têm mais recursos e podem lidar melhor com seu tempo diante do trabalho, o que é muito diferente no caso de mulheres de baixa renda e negras. Elas são as que menos têm acesso à saúde pública e as que mais apresentam problemas cardíacos e respiratórios recorrentes. São elas, também, que estão na outra ponta da saúde: há muitas enfermeiras negras e pardas sendo contaminadas e morrendo de covid-19. Elas assumem o cuidado com os pacientes e até com os médicos, desempenhando o mesmo papel em casa e no sistema de saúde. E são ainda mais vulneráveis porque muitas delas estão trabalhando sem a proteção necessária, e porque em geral já estão sobrecarregadas com o trabalho doméstico. E nem sempre “casa” quer dizer “lar”. Casa sempre foi um local de repouso e abrigo. Já lar é um conceito criado pela burguesia, no século XIX, que tendeu a idealizar esse lugar, sublinhando o modelo de família estruturada e esquecendo dos conflitos por lá inerentes. Muitas vezes romantizamos esse espaço, sem ver que, nesse contexto pandêmico, os números de violência doméstica aumentam. Os de feminicídio e de infanticídio também.
A desigualdade tem muitas dimensões e a pandemia escancara as nossas. Ela chegou ao país de avião, por meio de pessoas da elite que estavam no estrangeiro e voltaram contaminadas — tanto que os primeiros dados incidem sobre os bairros mais nobres. Mas o que está acontecendo agora é que o vírus chegou com força nas periferias, nos subúrbios, nas comunidades e favelas espalhadas pelo país. Em São Paulo a pandemia já é muito mais concentrada na periferia do que nos bairros centrais. No Rio de Janeiro, em Manaus e em Fortaleza, idem, e em Salvador o perfil parece estar se repetindo. Além do mais, dados vêm mostrando como ela tem incidido sobretudo na população negra, a mais afetada pela pandemia da covid-19.
E quando dizemos “fique em casa, mantenha o isolamento” temos que refletir não só acerca da nossa “bolha”, mas sobre as condições de vida dessas populações. Muitas moram em cômodos únicos com seis ou mais pessoas. Pouco ou não atendidas por serviços de saneamento básico como água potável e tratamento de esgoto, as populações pobres são também vítimas preferenciais de doenças como anemia, problemas pulmonares e pressão alta. Por isso, numa pandemia, elas são duplamente castigadas. Por outro lado, no que se refere à educação, mais uma vez ficam acirradas as nossas desigualdades. Longe de mim achar que as crianças que estudam em escolas privadas não estejam sendo afetadas pela covid-19. Perderam a sociabilidade, a oportunidade de aprender em conjunto, de encontrar colegas e professores. Mas se a crise é ruim ela é de alguma maneira contornável. O que dizer de crianças que moram em locais sem internet, que não têm computadores e tampouco pais e amigos para lhes ajudarem? Mais uma vez, a Pandemia apenas evidencia nossa renitente desigualdade.
Por sinal, o Brasil consistentemente vai ganhando posições de proeminência nesse quesito. É o sexto país mais desigual do mundo. É o primeiro, junto com Catar, dentre os países democráticos. O Brasil não é um país pobre, mas é um país de pobres.
O certo é que essa Pandemia apresenta muitas faces, no Brasil e no mundo.
O historiador britânico Eric Hobsbawm disse que o longo século XIX só terminou em 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial. Acreditava-se então no progresso e na evolução. Euclides da Cunha, por exemplo, aqui no Brasil dizia: “Estamos condenados ao progresso”, como se o progresso fosse uma danação de uma sociedade que gostava de se chamar de “civilização”. No entanto, a Primeira Guerra mostrou como esses mesmos povos estavam mais próximos da barbárie e da destruição, e o conflito retirou todo o lustro civilizatório da Belle Époque europeia.
O mundo, ao contrário, não era tão civilizado quanto se imaginava. As pessoas guerreavam corpo a corpo e voltavam mutiladas e traumatizadas, em silêncio. Mas um silêncio cheio de ruídos. Por isso Hobsbawm tem razão: os séculos não terminam com o virar da folhinha do calendário, mas quando grandes crises colocam em questão verdades que já pareciam consolidadas.
A grande marca do século XX foi a tecnologia e a ideia de que ela nos emanciparia e libertaria. Discordo da afirmação de que não estávamos globalizados no século XIX , mas foi apenas no século XX que a tecnologia ganhou escala mundial e acelerou o nosso tempo. Graças a ela, acreditávamos estar nos livrando das amarras geográficas, corpóreas, temporais. Não estávamos! Ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX.
A doença, seja ela qual for, produz uma sensação de medo e insegurança. Diante desse tipo de crise sanitária, nossa primeira reação é dizer que sairemos imunes. Antes de virar uma pandemia, as mortes nos soam muito distantes, e o discurso do “não vai acontecer comigo” é natural. Reconhecer um problema do tamanho de uma pandemia também é algo custoso, em vários sentidos, por isso sempre se vê algum tipo de negacionismo. No começo do século, em 1903, a expectativa de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de “grande hospital” e tinha todo tipo de doença: lepra, sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela. Quando o presidente Rodrigues Alves assume o poder e indica um médico sanitarista para combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, eles começam exterminando ratos e mosquitos e depois passam a vacinar a população.
Mas na época os brasileiros não foram bem informados e reagiram de muitas maneiras. Essa foi a primeira revolta do pós-abolição e a primeira da República que prometeu inclusão, mas entregou muita exclusão social. Aliás, o mesmo Rodrigues Alves estará de volta ao poder no contexto da gripe espanhola de 1918, não como presidente na ativa, mas como presidente eleito. E é dele a ideia de, como Oswaldo Cruz já havia morrido, indicar o herdeiro dele, Carlos Chagas. As autoridades brasileiras já sabiam da propagação da gripe espanhola no mundo, e mesmo assim não agiram a tempo. O vírus entrou a bordo de navios que atracaram no Brasil e então a contaminação explodiu. Mas a atitude sempre foi essa: “Não somos um país de pessoas idosas, nosso clima é quente, aqui a gripe não pega”.
Uma particularidade do momento que vivemos é que as pessoas recebem informações com muito mais velocidade, o que pode ser uma vantagem e uma desvantagem. Uma vantagem porque o acesso à informação foi democratizado, sem tantos intermediários. O conhecimento está mais rápido: todo fim da tarde é possível verificar os dados sobre novos casos de contaminação e novas mortes ocasionadas pela covid-19. A desvantagem é que estamos expostos à ambiguidade das redes: boa parte das fake news no Brasil é negacionista. Elas contestam a gravidade da situação e a importância do isolamento. Também fazem crer em milagres, investindo pesado na propaganda de remédios que não têm eficácia comprovada e podem agravar o estado de saúde dos pacientes, desfazendo os ganhos da ciência. Mais do que nunca, precisamos ser seletivos em relação a nossas formas de conhecimento. Precisamos aprender a reconhecer quais são os veículos idôneos e quais são os profissionais que se pautam por pesquisas e dados. Quem são os especialistas e quem são os populistas que pretendem fazer sucesso em cima de tantas mortes.
Como afirmar que o Brasil corre menos risco porque sua população é mais jovem, se ela é também muito mais desigual que a de países europeus que já se veem sobrecarregados pelos efeitos da pandemia? O negacionismo cria o bode expiatório. E esse fenômeno é recorrente na nossa história.
A conta agora recai sobre os idosos. Nossa sociedade não sabe lidar com a morte, e por isso relutamos tanto em envelhecer, criando o mito da eterna juventude. A juventude é uma construção histórica e cultural, que varia muito a cada época. Fica claro que somos uma sociedade que transforma a história e os idosos em “velharias”. Juventude não é, porém, uma qualidade — é uma forma de estar no mundo que independe de idade. E a pergunta que cada um de nós tem que fazer é: alguém tem o direito de dizer quem pode ou não pode morrer? No Ocidente a velhice é vista não como um momento de sabedoria, mas apenas como decrepitude. E isso também tem a ver com a tecnologia: velho é aquele que não sabe lidar com ela. Portanto, que seja isolado. E aguarde a morte. Pior: não sabemos falar sobre o luto. Não vemos o presidente do Brasil pronunciar uma única palavra de solidariedade às famílias das pessoas que morreram, como se não quisesse nem tocar no assunto. E a essa altura não existe quem não tenha o seu luto: um amigo, um inimigo, um parente, um conhecido.
Esse pensamento combina muito bem com uma sociedade que nega a história, por exemplo, ao dizer que em 1918 não tínhamos as condições de combate à crise que temos hoje. Esse é um uso equivocado e negacionista da história: refutar o passado e dizer que o que aconteceu naquela época não vai acontecer agora. Negar o passado significa também não aprender com ele — com nossos erros e acertos.
Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis — e aí se incluem os idosos, a população de baixa renda e os negros e negras —, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só numa dimensão simbólica, como também de maneira prática. Aliás, como mostra Silvio Almeida, não teremos uma democracia enquanto praticarmos um racismo institucional e estrutural como o que vivemos no Brasil. O racismo é institucional pois só vemos pessoas brancas nas posições de mando e direção. O racismo é estrutural uma vez que se insere, perversamente, em todas as entranhas do sistema: na saúde, na educação, no trabalho, nos transportes, nos índices de nascimento e de morte. É estrutural, também, pois parece “natural” e invisível por parte das elites. Somos capazes de “ver”, pois esse é um atributo biológico; no entanto, temos muita dificuldade de “enxergar”, uma vez que essa é uma escolha cultural e todos nós somos “míopes culturais” e sistematicamente fazemos da “branquitude” uma realidade sem pejas e receios.
O racismo foi uma criação branca, portanto, cabe a toda a sociedade brasileira lidar com ele. O protagonismo é de negras, negros e negres (numa referência aqui a identidades de gênero), mas a pauta é de todos nós. Por sinal, nada mais denunciador do que o conceito de “novo normal”. A pergunta que não quer calar é: “novo normal” para quem? Para as elites que moram em seus “lares”, têm seus computadores individuais e quartos privativos ou para a imensa maioria da população brasileira que não tem acesso a essas benesses?
Já não basta dizer que não somos racistas. Não funciona mais. É preciso ser antirracista, como definiram Angela Davis e Djamila Ribeiro aqui no Brasil. E ter certeza de que a questão não é só moral. Trata-se de uma responsabilidade que implica ações e atitudes de todos nós, em todos os lugares e setores.
O mesmo aconteceu com o golpe militar de 1964. Enquanto outros países vizinhos fizeram comissões e julgaram e puniram os militares envolvidos nas ditaduras latino-americanas, o processo no Brasil foi muito mais brando. Até porque a Constituição de 1988 permitiu a autonomia das Forças Armadas para definir assuntos de seu interesse. O resultado ficou latente no andamento da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final foi entregue à então presidente Dilma Rousseff em 10 de dezembro de 2014. O documento apontou 377 responsáveis direta ou indiretamente pela prática de tortura e assassinato entre 1964 e 1985. Mas a indicação dessas pessoas não implicou sua “responsabilização jurídica”. O relatório fez recomendações ao governo, entre as quais a de que os acusados de cometer crimes contra a humanidade respondessem na Justiça, além de recomendar o necessário reconhecimento pelas Forças Armadas de seu papel na violação de direitos humanos no Brasil. No entanto, a responsabilização criminal, que daria ensejo a uma revisão da Lei da Anistia de 1979, não foi unanimidade e a situação permanece intocada até hoje.
Aliás, impressiona o lugar do Exército na história do Brasil, que garante para si esse papel “tutelar”, de “salvador” da pátria. Os países têm exército e têm também toda uma população de reserva para a hipótese de haver uma guerra. Se o Estado brasileiro levasse a sério a metáfora bélica, que tanto utiliza, deveria ter criado uma estrutura semelhante para lutar nas “guerras de saúde”. Mas ele não dispõe nem sequer de um sistema para prevenir epidemias e se dá ao luxo de demitir dois Ministros da Saúde especialistas, para colocar um militar no comando provisório (e permanente) da pasta. É preciso inverter os termos bélicos, e pensar que essa pode ser uma “crise humanitária”, que depende de todos nós.
Uma doença só existe quando se concorda que ela existe. É preciso mostrar para a população que estamos doentes. Se não temos diretrizes claras por parte do governo, se nosso presidente insiste em dar contraexemplos e apoiar aglomerações, não há argumento que dê conta de se opor ao negacionismo de parte da população brasileira.
Passaram-se cem anos desde que a gripe espanhola chegou ao Brasil, e as alternativas que temos hoje para combater a pandemia da covid-19 não são muito diferentes das usadas naquela época. As reações em 1918 foram muito semelhantes às de agora: havia poucas pessoas nas ruas, todas usando máscara, as igrejas ficaram fechadas, os teatros eram lavados com detergente, os bondes limpos com álcool. A humanidade ainda não inventou outra maneira de lidar com a pandemia a não ser aguardar o remédio ou a vacina.
Nossa prepotência é um pouco esta: achar que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, quando na verdade estamos sempre esperando por um milagre atrás do último arco-íris.
Toda vez que passamos por uma grande crise, nossa principal reação é basicamente a mesma: “Agora nós aprendemos, nunca mais vamos fazer isso”. Mas as crises continuam a acontecer. A pandemia já vinha se anunciando, e as nações não tomaram atitudes preventivas, buscando montar exércitos da saúde. Era preciso que se antecipassem à pandemia, não que corressem atrás do prejuízo. Se a humanidade aprendesse com o passado, os historiadores seriam visionários. Mas, infelizmente, não acredito na ideia de que nós deixamos de repetir o passado. Infelizmente a humanidade é teimosa. Vem se repetindo em termos de violência, de intolerância, de racismo, de xenofobia. Mas, já que é a primeira vez que esta geração vive algo do tipo, quem sabe algumas coisas não mudam? Vários países já estão começando a pensar em estruturas que não apenas reajam, mas prevejam pandemias como esta e outras que virão.
O problema é que nós temos no Brasil um governo que não acredita na ciência. Um governo autoritário e populista que só acredita em si mesmo, acha que tem respostas para tudo e fala diretamente com o povo, sem necessidade da ciência, dos acadêmicos, dos jornalistas, das instituições democráticas. Em horas como esta, fica cada vez mais claro que a saída virá da ciência, com a vacina ou o remédio que venha a controlar a pandemia. Na época da gripe espanhola, Carlos Chagas se tornou mais popular do que cantores e jogadores de futebol — as charges retratavam isso.
Não estranharia se nossos próximos presidentes fossem médicos. O que vários países estão aprendendo é a importância de ter um Ministério da Saúde forte, ocupado por especialistas de verdade, e não contar apenas com um político, mas com um político especialista. A ciência, antes o grande vilão, é hoje a grande utopia.
Sou pessimista no atacado e otimista no varejo. Se cada um exercer sua cidadania, sua vigilância cidadã, quem sabe damos sorte no azar. Quem sabe fazemos dessa crise única na história brasileira — porque é social, econômica, ambiental, cultural, moral e da saúde — uma oportunidade. O fato é que a sociedade civil está comparecendo. A população acordou para a importância do SUS e da ciência. Lutar pelo SUS , nesse momento, é virar um defensor dos direitos humanos. O Brasil já se perdeu e já se encontrou várias vezes em sua história. O novo coronavírus está gerando muita dor, muita solidão, muita insegurança, muito luto. Mas é hora de fazer da crise um propósito. Quem sabe construiremos um cotidiano com mais tempo e qualidade? Quem sabe não aprenderemos a dar tempo ao tempo?
Já havia muitos sinais do desgaste da utopia tecnológica do século que agora termina. É mais do que óbvio o quanto estávamos e ainda estamos abusando da natureza, e os desastres climáticos e ambientais de proporções inéditas são prova disso. Há muito tempo vimos recebendo alertas de cientistas, ambientalistas, ativistas e lideranças indígenas sobre a “queda do céu”, título do impressionante livro de Davi Kopenawa. Nossa marcha desenfreada pela tecnologia agora se depara com essa pandemia, e começamos a nos despedir, tristemente, da utopia do século XX. Bem-vindos ao século XXI.
Lilia Moritz Schwarcz, "Quando acaba o século XX"
Sempre se sai mudado de um estado de anomalia: passamos a repensar se essa rotina acelerada é mesmo necessária, se todo mundo precisa sair de casa e voltar no mesmo horário, se estamos fazendo bem ou muito mal para o planeta. Se não podemos ser mais flexíveis, menos congestionados, menos poluidores.
Ficar em casa é reinventar a rotina, se descobrir como uma pessoa estrangeira. Eu me conheço como uma pessoa que acorda de manhã, sai para correr, vai para o trabalho, vai para outro lugar e chega em casa exausta. Agora, preciso me reinventar numa temporalidade diferente. É um movimento interior de redescoberta.
Mas como dizia Montaigne: “A humanidade é vária”. Nem todos estão passando por isso da mesma maneira. Há grandes diferenças, a depender de raça, classe, gênero. Nós, mulheres, por exemplo, temos um conhecimento distinto dos homens quanto ao cuidado com a casa. Não há nada de biológico nessa constatação; essa é uma função que nos foi impingida histórica e culturalmente de modo a parecer “natural”; o que não é. Há vários relatos de maridos que não imaginavam que os afazeres domésticos dessem todo esse trabalho, que não se davam conta do tempo que tomavam, o que evidencia uma divisão do trabalho internalizada e invisível.
Os séculos XX e XXI são e serão da revolução feminista, como já vai ficando claro. As mulheres não vão voltar atrás. Quem sabe possamos aprender com a experiência das várias mulheres dirigentes de nações, como é o caso de Nova Zelândia, Islândia, Finlândia, Taiwan, Alemanha e Bélgica, que estão inventando uma forma nova de “fazer política”: menos viril, menos normativa, menos dogmática. Uma forma mais atenta aos cuidados de que a população precisa e ao diálogo. São governos que tiveram grande sucesso em conter a pandemia com clareza, objetividade, assertividade, firmeza, respeito à ciência e, sobretudo, respeito e cuidado para com os cidadãos.
Mas a questão das mulheres é também de gênero e classe social. Mulheres das classes média e alta têm mais recursos e podem lidar melhor com seu tempo diante do trabalho, o que é muito diferente no caso de mulheres de baixa renda e negras. Elas são as que menos têm acesso à saúde pública e as que mais apresentam problemas cardíacos e respiratórios recorrentes. São elas, também, que estão na outra ponta da saúde: há muitas enfermeiras negras e pardas sendo contaminadas e morrendo de covid-19. Elas assumem o cuidado com os pacientes e até com os médicos, desempenhando o mesmo papel em casa e no sistema de saúde. E são ainda mais vulneráveis porque muitas delas estão trabalhando sem a proteção necessária, e porque em geral já estão sobrecarregadas com o trabalho doméstico. E nem sempre “casa” quer dizer “lar”. Casa sempre foi um local de repouso e abrigo. Já lar é um conceito criado pela burguesia, no século XIX, que tendeu a idealizar esse lugar, sublinhando o modelo de família estruturada e esquecendo dos conflitos por lá inerentes. Muitas vezes romantizamos esse espaço, sem ver que, nesse contexto pandêmico, os números de violência doméstica aumentam. Os de feminicídio e de infanticídio também.
A desigualdade tem muitas dimensões e a pandemia escancara as nossas. Ela chegou ao país de avião, por meio de pessoas da elite que estavam no estrangeiro e voltaram contaminadas — tanto que os primeiros dados incidem sobre os bairros mais nobres. Mas o que está acontecendo agora é que o vírus chegou com força nas periferias, nos subúrbios, nas comunidades e favelas espalhadas pelo país. Em São Paulo a pandemia já é muito mais concentrada na periferia do que nos bairros centrais. No Rio de Janeiro, em Manaus e em Fortaleza, idem, e em Salvador o perfil parece estar se repetindo. Além do mais, dados vêm mostrando como ela tem incidido sobretudo na população negra, a mais afetada pela pandemia da covid-19.
E quando dizemos “fique em casa, mantenha o isolamento” temos que refletir não só acerca da nossa “bolha”, mas sobre as condições de vida dessas populações. Muitas moram em cômodos únicos com seis ou mais pessoas. Pouco ou não atendidas por serviços de saneamento básico como água potável e tratamento de esgoto, as populações pobres são também vítimas preferenciais de doenças como anemia, problemas pulmonares e pressão alta. Por isso, numa pandemia, elas são duplamente castigadas. Por outro lado, no que se refere à educação, mais uma vez ficam acirradas as nossas desigualdades. Longe de mim achar que as crianças que estudam em escolas privadas não estejam sendo afetadas pela covid-19. Perderam a sociabilidade, a oportunidade de aprender em conjunto, de encontrar colegas e professores. Mas se a crise é ruim ela é de alguma maneira contornável. O que dizer de crianças que moram em locais sem internet, que não têm computadores e tampouco pais e amigos para lhes ajudarem? Mais uma vez, a Pandemia apenas evidencia nossa renitente desigualdade.
Por sinal, o Brasil consistentemente vai ganhando posições de proeminência nesse quesito. É o sexto país mais desigual do mundo. É o primeiro, junto com Catar, dentre os países democráticos. O Brasil não é um país pobre, mas é um país de pobres.
O certo é que essa Pandemia apresenta muitas faces, no Brasil e no mundo.
O historiador britânico Eric Hobsbawm disse que o longo século XIX só terminou em 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial. Acreditava-se então no progresso e na evolução. Euclides da Cunha, por exemplo, aqui no Brasil dizia: “Estamos condenados ao progresso”, como se o progresso fosse uma danação de uma sociedade que gostava de se chamar de “civilização”. No entanto, a Primeira Guerra mostrou como esses mesmos povos estavam mais próximos da barbárie e da destruição, e o conflito retirou todo o lustro civilizatório da Belle Époque europeia.
O mundo, ao contrário, não era tão civilizado quanto se imaginava. As pessoas guerreavam corpo a corpo e voltavam mutiladas e traumatizadas, em silêncio. Mas um silêncio cheio de ruídos. Por isso Hobsbawm tem razão: os séculos não terminam com o virar da folhinha do calendário, mas quando grandes crises colocam em questão verdades que já pareciam consolidadas.
A grande marca do século XX foi a tecnologia e a ideia de que ela nos emanciparia e libertaria. Discordo da afirmação de que não estávamos globalizados no século XIX , mas foi apenas no século XX que a tecnologia ganhou escala mundial e acelerou o nosso tempo. Graças a ela, acreditávamos estar nos livrando das amarras geográficas, corpóreas, temporais. Não estávamos! Ao deixar mais evidente o nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX.
A doença, seja ela qual for, produz uma sensação de medo e insegurança. Diante desse tipo de crise sanitária, nossa primeira reação é dizer que sairemos imunes. Antes de virar uma pandemia, as mortes nos soam muito distantes, e o discurso do “não vai acontecer comigo” é natural. Reconhecer um problema do tamanho de uma pandemia também é algo custoso, em vários sentidos, por isso sempre se vê algum tipo de negacionismo. No começo do século, em 1903, a expectativa de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de “grande hospital” e tinha todo tipo de doença: lepra, sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela. Quando o presidente Rodrigues Alves assume o poder e indica um médico sanitarista para combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, eles começam exterminando ratos e mosquitos e depois passam a vacinar a população.
Mas na época os brasileiros não foram bem informados e reagiram de muitas maneiras. Essa foi a primeira revolta do pós-abolição e a primeira da República que prometeu inclusão, mas entregou muita exclusão social. Aliás, o mesmo Rodrigues Alves estará de volta ao poder no contexto da gripe espanhola de 1918, não como presidente na ativa, mas como presidente eleito. E é dele a ideia de, como Oswaldo Cruz já havia morrido, indicar o herdeiro dele, Carlos Chagas. As autoridades brasileiras já sabiam da propagação da gripe espanhola no mundo, e mesmo assim não agiram a tempo. O vírus entrou a bordo de navios que atracaram no Brasil e então a contaminação explodiu. Mas a atitude sempre foi essa: “Não somos um país de pessoas idosas, nosso clima é quente, aqui a gripe não pega”.
Uma particularidade do momento que vivemos é que as pessoas recebem informações com muito mais velocidade, o que pode ser uma vantagem e uma desvantagem. Uma vantagem porque o acesso à informação foi democratizado, sem tantos intermediários. O conhecimento está mais rápido: todo fim da tarde é possível verificar os dados sobre novos casos de contaminação e novas mortes ocasionadas pela covid-19. A desvantagem é que estamos expostos à ambiguidade das redes: boa parte das fake news no Brasil é negacionista. Elas contestam a gravidade da situação e a importância do isolamento. Também fazem crer em milagres, investindo pesado na propaganda de remédios que não têm eficácia comprovada e podem agravar o estado de saúde dos pacientes, desfazendo os ganhos da ciência. Mais do que nunca, precisamos ser seletivos em relação a nossas formas de conhecimento. Precisamos aprender a reconhecer quais são os veículos idôneos e quais são os profissionais que se pautam por pesquisas e dados. Quem são os especialistas e quem são os populistas que pretendem fazer sucesso em cima de tantas mortes.
Como afirmar que o Brasil corre menos risco porque sua população é mais jovem, se ela é também muito mais desigual que a de países europeus que já se veem sobrecarregados pelos efeitos da pandemia? O negacionismo cria o bode expiatório. E esse fenômeno é recorrente na nossa história.
A conta agora recai sobre os idosos. Nossa sociedade não sabe lidar com a morte, e por isso relutamos tanto em envelhecer, criando o mito da eterna juventude. A juventude é uma construção histórica e cultural, que varia muito a cada época. Fica claro que somos uma sociedade que transforma a história e os idosos em “velharias”. Juventude não é, porém, uma qualidade — é uma forma de estar no mundo que independe de idade. E a pergunta que cada um de nós tem que fazer é: alguém tem o direito de dizer quem pode ou não pode morrer? No Ocidente a velhice é vista não como um momento de sabedoria, mas apenas como decrepitude. E isso também tem a ver com a tecnologia: velho é aquele que não sabe lidar com ela. Portanto, que seja isolado. E aguarde a morte. Pior: não sabemos falar sobre o luto. Não vemos o presidente do Brasil pronunciar uma única palavra de solidariedade às famílias das pessoas que morreram, como se não quisesse nem tocar no assunto. E a essa altura não existe quem não tenha o seu luto: um amigo, um inimigo, um parente, um conhecido.
Esse pensamento combina muito bem com uma sociedade que nega a história, por exemplo, ao dizer que em 1918 não tínhamos as condições de combate à crise que temos hoje. Esse é um uso equivocado e negacionista da história: refutar o passado e dizer que o que aconteceu naquela época não vai acontecer agora. Negar o passado significa também não aprender com ele — com nossos erros e acertos.
Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis — e aí se incluem os idosos, a população de baixa renda e os negros e negras —, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só numa dimensão simbólica, como também de maneira prática. Aliás, como mostra Silvio Almeida, não teremos uma democracia enquanto praticarmos um racismo institucional e estrutural como o que vivemos no Brasil. O racismo é institucional pois só vemos pessoas brancas nas posições de mando e direção. O racismo é estrutural uma vez que se insere, perversamente, em todas as entranhas do sistema: na saúde, na educação, no trabalho, nos transportes, nos índices de nascimento e de morte. É estrutural, também, pois parece “natural” e invisível por parte das elites. Somos capazes de “ver”, pois esse é um atributo biológico; no entanto, temos muita dificuldade de “enxergar”, uma vez que essa é uma escolha cultural e todos nós somos “míopes culturais” e sistematicamente fazemos da “branquitude” uma realidade sem pejas e receios.
O racismo foi uma criação branca, portanto, cabe a toda a sociedade brasileira lidar com ele. O protagonismo é de negras, negros e negres (numa referência aqui a identidades de gênero), mas a pauta é de todos nós. Por sinal, nada mais denunciador do que o conceito de “novo normal”. A pergunta que não quer calar é: “novo normal” para quem? Para as elites que moram em seus “lares”, têm seus computadores individuais e quartos privativos ou para a imensa maioria da população brasileira que não tem acesso a essas benesses?
Já não basta dizer que não somos racistas. Não funciona mais. É preciso ser antirracista, como definiram Angela Davis e Djamila Ribeiro aqui no Brasil. E ter certeza de que a questão não é só moral. Trata-se de uma responsabilidade que implica ações e atitudes de todos nós, em todos os lugares e setores.
Somos um país que vai se mostrando avesso a qualquer tipo de “ressarcimento”, e mesmo à memória. Por exemplo, nunca aprovamos uma política de ressarcimento aos ex-escravizados e ex-escravizadas; na verdade, foram eles os únicos a pagar por suas alforrias, uma vez que compensavam, com o esforço de seus trabalhos, os proprietários e senhores de escravos, comprando a própria liberdade.
O mesmo aconteceu com o golpe militar de 1964. Enquanto outros países vizinhos fizeram comissões e julgaram e puniram os militares envolvidos nas ditaduras latino-americanas, o processo no Brasil foi muito mais brando. Até porque a Constituição de 1988 permitiu a autonomia das Forças Armadas para definir assuntos de seu interesse. O resultado ficou latente no andamento da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final foi entregue à então presidente Dilma Rousseff em 10 de dezembro de 2014. O documento apontou 377 responsáveis direta ou indiretamente pela prática de tortura e assassinato entre 1964 e 1985. Mas a indicação dessas pessoas não implicou sua “responsabilização jurídica”. O relatório fez recomendações ao governo, entre as quais a de que os acusados de cometer crimes contra a humanidade respondessem na Justiça, além de recomendar o necessário reconhecimento pelas Forças Armadas de seu papel na violação de direitos humanos no Brasil. No entanto, a responsabilização criminal, que daria ensejo a uma revisão da Lei da Anistia de 1979, não foi unanimidade e a situação permanece intocada até hoje.
Aliás, impressiona o lugar do Exército na história do Brasil, que garante para si esse papel “tutelar”, de “salvador” da pátria. Os países têm exército e têm também toda uma população de reserva para a hipótese de haver uma guerra. Se o Estado brasileiro levasse a sério a metáfora bélica, que tanto utiliza, deveria ter criado uma estrutura semelhante para lutar nas “guerras de saúde”. Mas ele não dispõe nem sequer de um sistema para prevenir epidemias e se dá ao luxo de demitir dois Ministros da Saúde especialistas, para colocar um militar no comando provisório (e permanente) da pasta. É preciso inverter os termos bélicos, e pensar que essa pode ser uma “crise humanitária”, que depende de todos nós.
Uma doença só existe quando se concorda que ela existe. É preciso mostrar para a população que estamos doentes. Se não temos diretrizes claras por parte do governo, se nosso presidente insiste em dar contraexemplos e apoiar aglomerações, não há argumento que dê conta de se opor ao negacionismo de parte da população brasileira.
Passaram-se cem anos desde que a gripe espanhola chegou ao Brasil, e as alternativas que temos hoje para combater a pandemia da covid-19 não são muito diferentes das usadas naquela época. As reações em 1918 foram muito semelhantes às de agora: havia poucas pessoas nas ruas, todas usando máscara, as igrejas ficaram fechadas, os teatros eram lavados com detergente, os bondes limpos com álcool. A humanidade ainda não inventou outra maneira de lidar com a pandemia a não ser aguardar o remédio ou a vacina.
Nossa prepotência é um pouco esta: achar que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, quando na verdade estamos sempre esperando por um milagre atrás do último arco-íris.
Toda vez que passamos por uma grande crise, nossa principal reação é basicamente a mesma: “Agora nós aprendemos, nunca mais vamos fazer isso”. Mas as crises continuam a acontecer. A pandemia já vinha se anunciando, e as nações não tomaram atitudes preventivas, buscando montar exércitos da saúde. Era preciso que se antecipassem à pandemia, não que corressem atrás do prejuízo. Se a humanidade aprendesse com o passado, os historiadores seriam visionários. Mas, infelizmente, não acredito na ideia de que nós deixamos de repetir o passado. Infelizmente a humanidade é teimosa. Vem se repetindo em termos de violência, de intolerância, de racismo, de xenofobia. Mas, já que é a primeira vez que esta geração vive algo do tipo, quem sabe algumas coisas não mudam? Vários países já estão começando a pensar em estruturas que não apenas reajam, mas prevejam pandemias como esta e outras que virão.
O problema é que nós temos no Brasil um governo que não acredita na ciência. Um governo autoritário e populista que só acredita em si mesmo, acha que tem respostas para tudo e fala diretamente com o povo, sem necessidade da ciência, dos acadêmicos, dos jornalistas, das instituições democráticas. Em horas como esta, fica cada vez mais claro que a saída virá da ciência, com a vacina ou o remédio que venha a controlar a pandemia. Na época da gripe espanhola, Carlos Chagas se tornou mais popular do que cantores e jogadores de futebol — as charges retratavam isso.
Não estranharia se nossos próximos presidentes fossem médicos. O que vários países estão aprendendo é a importância de ter um Ministério da Saúde forte, ocupado por especialistas de verdade, e não contar apenas com um político, mas com um político especialista. A ciência, antes o grande vilão, é hoje a grande utopia.
Sou pessimista no atacado e otimista no varejo. Se cada um exercer sua cidadania, sua vigilância cidadã, quem sabe damos sorte no azar. Quem sabe fazemos dessa crise única na história brasileira — porque é social, econômica, ambiental, cultural, moral e da saúde — uma oportunidade. O fato é que a sociedade civil está comparecendo. A população acordou para a importância do SUS e da ciência. Lutar pelo SUS , nesse momento, é virar um defensor dos direitos humanos. O Brasil já se perdeu e já se encontrou várias vezes em sua história. O novo coronavírus está gerando muita dor, muita solidão, muita insegurança, muito luto. Mas é hora de fazer da crise um propósito. Quem sabe construiremos um cotidiano com mais tempo e qualidade? Quem sabe não aprenderemos a dar tempo ao tempo?
Já havia muitos sinais do desgaste da utopia tecnológica do século que agora termina. É mais do que óbvio o quanto estávamos e ainda estamos abusando da natureza, e os desastres climáticos e ambientais de proporções inéditas são prova disso. Há muito tempo vimos recebendo alertas de cientistas, ambientalistas, ativistas e lideranças indígenas sobre a “queda do céu”, título do impressionante livro de Davi Kopenawa. Nossa marcha desenfreada pela tecnologia agora se depara com essa pandemia, e começamos a nos despedir, tristemente, da utopia do século XX. Bem-vindos ao século XXI.
Lilia Moritz Schwarcz, "Quando acaba o século XX"
Falar, calar
Hoje eu falo de silêncio. Eu, que amo as palavras, hoje fico nos espaços brancos e nas entrelinhas. Fico ausente, estou ausente embora de longe siga pelo milagre da tecnologia tudo o que acontece onde me leem neste instante.
Ausente presente como tantas vezes tantas pessoas.
Nas histórias que relato ou invento, hoje não me interessam tanto as tramas e os personagens: somos todos sombras que andam de um lado para o outro, aparecem e desaparecem em quartos, corredores, jardins. Caem de escadas, jogam-se no poço, naufragam como rostos ou ratos.
A mim seduzem palavras e silêncios, e jeitos de olhar. O formato de uma boca melancólica, ou o baixar de uma pálpebra que esconde o desejo de morrer ou de matar, ódio ou desamparo, hipocrisia, ah, o olhar sorrateiro, o estrábico olhar dos mentirosos.
A mim interessam as coisas que normalmente ninguém valoriza. Porque o real está no escondido. Por isso escrevo: para esconjurar o avesso das coisas e da vida, de onde nos vem o medo, que impulsiona como a esperança.
Nas relações amorosas, sou fascinada pela fração de segundo, o lapso mínimo em que os olhares se desencontram e a palavra que podia ser pronunciada se recolhe por pusilanimidade, egoísmo ou autocompaixão. E a cumplicidade se rompe e a gente se sente sozinha.
O caminho do desencontro é ladrilhado de silêncios, quando se devia falar, e de palavras quando melhor teria sido ficar calado: e a gente sabia, ah, sim, sabia. Pior: é ladrilhado de gestos que não foram feitos quando o outro precisava.
E no silêncio o peso da omissão, cumplicidade com o erro, se agiganta.
Ausente presente como tantas vezes tantas pessoas.
Nas histórias que relato ou invento, hoje não me interessam tanto as tramas e os personagens: somos todos sombras que andam de um lado para o outro, aparecem e desaparecem em quartos, corredores, jardins. Caem de escadas, jogam-se no poço, naufragam como rostos ou ratos.
A mim seduzem palavras e silêncios, e jeitos de olhar. O formato de uma boca melancólica, ou o baixar de uma pálpebra que esconde o desejo de morrer ou de matar, ódio ou desamparo, hipocrisia, ah, o olhar sorrateiro, o estrábico olhar dos mentirosos.
A mim interessam as coisas que normalmente ninguém valoriza. Porque o real está no escondido. Por isso escrevo: para esconjurar o avesso das coisas e da vida, de onde nos vem o medo, que impulsiona como a esperança.
Nas relações amorosas, sou fascinada pela fração de segundo, o lapso mínimo em que os olhares se desencontram e a palavra que podia ser pronunciada se recolhe por pusilanimidade, egoísmo ou autocompaixão. E a cumplicidade se rompe e a gente se sente sozinha.
O caminho do desencontro é ladrilhado de silêncios, quando se devia falar, e de palavras quando melhor teria sido ficar calado: e a gente sabia, ah, sim, sabia. Pior: é ladrilhado de gestos que não foram feitos quando o outro precisava.
E no silêncio o peso da omissão, cumplicidade com o erro, se agiganta.
Lya Luft
Com o mundo nas mãos
Bernardo tem cinco anos, mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo: “É atrás daquele teto azul que fica o Japão”. Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum. “Mas então o céu não é o teto do mundo”. “Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do céu é o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo” e apontei para o chão: “O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não, só o céu mesmo, mais nada. Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão: “ Então este Brasil é mesmo o fim do mundo.
Daqui pra lá não tem mais nada... Difícil de lhe explicar o que até mesmo a mim parece meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem” Às vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres modernos, aliás de fabricação japonesa, feito de matéria plástica e que se enchem de ar, como os balões.
O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o Japão e a Inglaterra, o Brasil, os países todos. Limitou-se a fazê-lo girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se dispôs a sair jogando futebol com ele, não deixei.
Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo da mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado e assim que me vi só, tranquei-me no escritório para apreciar devidamente a minha nova aquisição. Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar.
Daqui pra lá não tem mais nada... Difícil de lhe explicar o que até mesmo a mim parece meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem” Às vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres modernos, aliás de fabricação japonesa, feito de matéria plástica e que se enchem de ar, como os balões.
O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o Japão e a Inglaterra, o Brasil, os países todos. Limitou-se a fazê-lo girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se dispôs a sair jogando futebol com ele, não deixei.
Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo da mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado e assim que me vi só, tranquei-me no escritório para apreciar devidamente a minha nova aquisição. Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar.
Descobri que a Coreia é muito mais lá para cima do que eu imaginava uma espécie de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O que é que os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa.
O Vietnã nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar. Tem a Tailândia e tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia. A Tasmânia não tem. Pelo menos não encontrei.
Continua sendo para mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor da minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos, para que eu descubra o que é mais que tem.
Outra confusão é ali nas Arábias, onde o pau anda comendo; Síria, Líbano, Arábia Saudita, Iêmen, e o diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar. Estou ficando bom de geografia. Duvido que alguém me diga onde fica Andorra.
A última pessoa a quem perguntei me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no Festival da Canção.
Em compensação, a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar para encher o mundo. De repente me vem uma ideia meio paranoide. De tanto apalpar o globo de plástico, ele acabou meio murcho, acho que o ar está se escapando.
E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro.
O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no cosmo, e do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus oceanos cheios de peixes e singrados por navios, as cidades agarradas aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de aviões, de gaivotas e de urubus...
Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens se explorando mutuamente, se maltratando, se assassinando para colher um segundo de satisfação ao longo dos séculos de História, não mais que alguns minutos em face da eternidade.
Que aventura mais temerária, a de Deus, escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para a ele enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de redimir a nossa pobre humanidade. Faço votos que tenha valido a pena e que um dia ela se veja redimida.
Até lá, este mundo não passará mesmo de uma bola, como esta que meu filho Bernardo, irrompendo alegremente no escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.
O Vietnã nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar. Tem a Tailândia e tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia. A Tasmânia não tem. Pelo menos não encontrei.
Continua sendo para mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor da minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos, para que eu descubra o que é mais que tem.
Outra confusão é ali nas Arábias, onde o pau anda comendo; Síria, Líbano, Arábia Saudita, Iêmen, e o diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar. Estou ficando bom de geografia. Duvido que alguém me diga onde fica Andorra.
A última pessoa a quem perguntei me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no Festival da Canção.
Em compensação, a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar para encher o mundo. De repente me vem uma ideia meio paranoide. De tanto apalpar o globo de plástico, ele acabou meio murcho, acho que o ar está se escapando.
E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro.
O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no cosmo, e do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus oceanos cheios de peixes e singrados por navios, as cidades agarradas aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de aviões, de gaivotas e de urubus...
Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens se explorando mutuamente, se maltratando, se assassinando para colher um segundo de satisfação ao longo dos séculos de História, não mais que alguns minutos em face da eternidade.
Que aventura mais temerária, a de Deus, escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para a ele enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de redimir a nossa pobre humanidade. Faço votos que tenha valido a pena e que um dia ela se veja redimida.
Até lá, este mundo não passará mesmo de uma bola, como esta que meu filho Bernardo, irrompendo alegremente no escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.
Fernando Sabino, "As Melhores Crônicas de Fernando Sabino"
A guerra dos 100 mil anos
Nunca houve guerras boas. Todas trazem sofrimento para muitos e ganhos para alguns. Contudo, a situação atual confirma o ditado popular de que “nada está tão ruim que não possa piorar”. Dito e feito: o que já era ruim ficou pior.
Além da destruição normal provocada por qualquer conflito, hoje em dia as guerras estão tornando ainda mais difícil o esforço da humanidade para conter o aquecimento global. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas europeu (Copernicus), em 2023 a temperatura do planeta foi a mais elevada dos últimos 100 mil anos.
De maneira pontual, as guerras modernas em si já provocam aumento das emissões de gases efeito estufa, resultante do aumento da queima de combustíveis fósseis pelos veículos e equipamentos utilizados.
Porém, as guerras podem provocar outros impactos mais sutis (e muito mais expressivos) sobre o enfrentamento do caos climático, que vem se mostrando iminente. Um deles tem a ver com a pergunta central no debate da mudança climática: quem vai pagar a conta?
Basta observar a dificuldade dos governos europeus e do americano em defender uma provisão orçamentária para a prevenção e adaptação às consequências da mudança climática. Quando uma guerra começa, o dinheiro disponível é direcionado para o mercado de defesa. É o que está acontecendo com os conflitos da Ucrânia e de Gaza.
No caso ucraniano, a nova guerra atingiu a oferta de grãos e o mercado de fertilizantes. Pela primeira vez na história, a crise dos alimentos alcança a escala de ‘elemento estratégico’ para os países.
Na correria dos europeus para garantirem sua independência alimentar e energética, abandonou-se acordos multilaterais que vinham tratando da transição da matriz de energia, descarbonização da economia etc.
Por sua vez, o parlamento dos EUA, de maioria republicana, aumentou sua resistência à destinação de recursos para cooperação ambiental mundo afora diante da prioridade de apoio a Israel e Ucrânia.
Nesse cenário aquecido, se a humanidade quiser realmente esfriar o planeta precisará, antes de mais nada, esfriar a cabeça.
Além da destruição normal provocada por qualquer conflito, hoje em dia as guerras estão tornando ainda mais difícil o esforço da humanidade para conter o aquecimento global. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas europeu (Copernicus), em 2023 a temperatura do planeta foi a mais elevada dos últimos 100 mil anos.
De maneira pontual, as guerras modernas em si já provocam aumento das emissões de gases efeito estufa, resultante do aumento da queima de combustíveis fósseis pelos veículos e equipamentos utilizados.
Porém, as guerras podem provocar outros impactos mais sutis (e muito mais expressivos) sobre o enfrentamento do caos climático, que vem se mostrando iminente. Um deles tem a ver com a pergunta central no debate da mudança climática: quem vai pagar a conta?
Basta observar a dificuldade dos governos europeus e do americano em defender uma provisão orçamentária para a prevenção e adaptação às consequências da mudança climática. Quando uma guerra começa, o dinheiro disponível é direcionado para o mercado de defesa. É o que está acontecendo com os conflitos da Ucrânia e de Gaza.
No caso ucraniano, a nova guerra atingiu a oferta de grãos e o mercado de fertilizantes. Pela primeira vez na história, a crise dos alimentos alcança a escala de ‘elemento estratégico’ para os países.
Na correria dos europeus para garantirem sua independência alimentar e energética, abandonou-se acordos multilaterais que vinham tratando da transição da matriz de energia, descarbonização da economia etc.
Por sua vez, o parlamento dos EUA, de maioria republicana, aumentou sua resistência à destinação de recursos para cooperação ambiental mundo afora diante da prioridade de apoio a Israel e Ucrânia.
Nesse cenário aquecido, se a humanidade quiser realmente esfriar o planeta precisará, antes de mais nada, esfriar a cabeça.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2024
A dependência da propriedade
Todos os homens são proprietários, mas na realidade nenhum possui. Não são proprietários apenas porque até o último dos pedintes tem sempre alguma coisa além do que traz em cima, mas porque cada um de nós é, a seu modo, um capitalista.
Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milhões de homens estão dispostos a obedecer a uma palavra sua, é, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milhões de liras, possui milhões de vontades.
Por conseguinte, aqueles a que os instigadores da plebe chamam ‘possuidores de nada’, ‘destituídos’ ou ‘deserdados’ não existem.
Giovanni Papini, "Relatório Sobre os Homens"
Além dos proprietários de terras, de mercadorias, de máquinas e de dinheiro, existem, ainda mais numerosos, os proprietários de capitais pessoais, que se podem alugar, vender ou fazer frutificar como os outros. São os proprietários e locadores de força física - camponeses, operários, soldados - e proprietários e prestadores de forças intelectuais - médicos, engenheiros, professores, escritores, burocratas, artistas, cientistas. Quem aluga os seus músculos, o seu saber ou o seu engenho obtém um rendimento, que pressupõe um patrimônio.
Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milhões de homens estão dispostos a obedecer a uma palavra sua, é, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milhões de liras, possui milhões de vontades.
O talento visual de um pintor, a eloquência de um advogado, o espírito inventivo de um mecânico são verdadeiros capitais e medem-se pelo preço que deve pagar, para obter os seus produtos, quem não os possui e carece deles. E não existe ninguém, a menos que seja paralítico ou néscio, que não possua uma porção de capitais da segunda espécie, ainda que seja a sua capacidade de trabalho físico, vendível, como qualquer outro bem, com um contrato verdadeiro e apropriado.
Dir-se-á que os possuidores dos capitais pessoais são forçados, para viver, a cedê-los, dia a dia, aos capitalistas que dispõem dos bens visíveis e estão, por isso, ao seu serviço. Mas essa dependência, para quem vê claro, é recíproca: um proprietário de terras, mesmo que possua meio país, é como se não tivesse nada, se não encontra camponeses que façam frutificar os seus latifúndios; o grande fabricante tem de vender como sucata as suas excelentes máquinas, se não conta com operários que as façam funcionar e produzir lucros; o político está às ordens do especulador, mas este não poderá efetuar os seus negócios, se não dominar, por meio daquele, a opinião pública e o Estado; e se médicos, advogados e professores não poderiam viver sem doentes, culpados e ignorantes, é igualmente verdade que os segundos, em determinados momentos, não podem prescindir dos primeiros. Até o aleijado, o cego e o leproso obtêm um certo rendimento das suas muletas, da sua escuridão e das suas chagas.
Por conseguinte, aqueles a que os instigadores da plebe chamam ‘possuidores de nada’, ‘destituídos’ ou ‘deserdados’ não existem.
Giovanni Papini, "Relatório Sobre os Homens"
Penúria
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.
Charles Chaplin
O plano oculto de Netanyahu
Para entender os posicionamentos irredutíveis de Benjamin Netanyahu, é preciso situá-lo no contexto de sua doutrinação ideológica. Ele é adepto do sionismo revisionista, formulado em Odessa pelo ativista e pensador Zeev Jabotinsky (1880-1940) na primeira metade do século passado. O revisionismo foi adotado pelo Irgun, organização clandestina judaica que combateu com armas os ingleses durante o mandato britânico na antiga Palestina. Com a independência de Israel, o Irgun deu origem ao partido político Herut, que originou o Likud, atual partido de Netanyahu.
O movimento revisionista pregava a implementação de uma nação judaica em seu território ancestral, se necessário pela força, na então Palestina Otomana, incluindo desde a fronteira leste da atual Cisjordânia até o Mar Mediterrâneo.
O traçado da Partilha da ONU, de 1947 — conferindo a Israel um trecho somente do Rio Jordão até o oceano —, foi respeitado durante 20 anos, até o país ser atacado pela Jordânia na Guerra dos Seis Dias. A derrota da Jordânia determinou a ocupação da Cisjordânia. Dessa ocupação resultou a instalação pontual de assentamentos como postos avançados de defesa.
Netanyahu assumiu o poder em 2009, decidiu pôr em prática a doutrina expansionista do revisionismo, incrementando a instalação frenética de assentamentos ocupados por judeus ortodoxos, condição que fortalecia suas coalizões com os partidos religiosos para formar maiorias parlamentares e gabinetes governamentais.
Netanyahu passou a chamar biblicamente a Cisjordânia palestina como Judeia e Samaria, alusão ao apogeu dos reinados de Davi e Salomão. Essa reivindicação territorial se baseou numa argumentação esdrúxula em termos do século XXI: eram terras concedidas por Deus ao povo judeu, portanto deveriam pertencer ao Estado de Israel.
Atrás dessa retórica, Netanyahu desenvolvia seu plano oculto de anexar a Cisjordânia, apesar da previsível oposição dos Estados Unidos e da comunidade internacional. Havia, porém, um obstáculo ainda maior: a Suprema Corte de Israel, que, por força de sua tradição e respeito à ordenação jurídica, decerto anularia qualquer medida referente à anexação.
Foi por isso que, ao retornar ao poder em novembro de 2022, Netanyahu formulou uma reforma judiciária por meio da qual o Knesset (Parlamento) passaria a ter o poder de revisar as resoluções da Suprema Corte. Quer dizer: uma decisão da Corte de anular qualquer anexação seria rejeitada pelo Parlamento. O plano oculto de Netanyahu assim obteria um grande triunfo.
Há dias, a Suprema Corte de Israel anulou a reforma judiciária no país. Ela seria o primeiro passo na marcha da insensatez de Netanyahu. O fim da guerra em Gaza determinará o fim de sua carreira política.
O movimento revisionista pregava a implementação de uma nação judaica em seu território ancestral, se necessário pela força, na então Palestina Otomana, incluindo desde a fronteira leste da atual Cisjordânia até o Mar Mediterrâneo.
O traçado da Partilha da ONU, de 1947 — conferindo a Israel um trecho somente do Rio Jordão até o oceano —, foi respeitado durante 20 anos, até o país ser atacado pela Jordânia na Guerra dos Seis Dias. A derrota da Jordânia determinou a ocupação da Cisjordânia. Dessa ocupação resultou a instalação pontual de assentamentos como postos avançados de defesa.
Netanyahu assumiu o poder em 2009, decidiu pôr em prática a doutrina expansionista do revisionismo, incrementando a instalação frenética de assentamentos ocupados por judeus ortodoxos, condição que fortalecia suas coalizões com os partidos religiosos para formar maiorias parlamentares e gabinetes governamentais.
Netanyahu passou a chamar biblicamente a Cisjordânia palestina como Judeia e Samaria, alusão ao apogeu dos reinados de Davi e Salomão. Essa reivindicação territorial se baseou numa argumentação esdrúxula em termos do século XXI: eram terras concedidas por Deus ao povo judeu, portanto deveriam pertencer ao Estado de Israel.
Atrás dessa retórica, Netanyahu desenvolvia seu plano oculto de anexar a Cisjordânia, apesar da previsível oposição dos Estados Unidos e da comunidade internacional. Havia, porém, um obstáculo ainda maior: a Suprema Corte de Israel, que, por força de sua tradição e respeito à ordenação jurídica, decerto anularia qualquer medida referente à anexação.
Foi por isso que, ao retornar ao poder em novembro de 2022, Netanyahu formulou uma reforma judiciária por meio da qual o Knesset (Parlamento) passaria a ter o poder de revisar as resoluções da Suprema Corte. Quer dizer: uma decisão da Corte de anular qualquer anexação seria rejeitada pelo Parlamento. O plano oculto de Netanyahu assim obteria um grande triunfo.
Há dias, a Suprema Corte de Israel anulou a reforma judiciária no país. Ela seria o primeiro passo na marcha da insensatez de Netanyahu. O fim da guerra em Gaza determinará o fim de sua carreira política.
terça-feira, 16 de janeiro de 2024
O homem, um estranho no mundo
O homem deveria ser a medida de tudo. De fato, ele é um estranho no mundo que criou. Não soube organizar este mundo para ele, porque não possuía um conhecimento positivo da sua própria natureza. O enorme avanço das ciências das coisas inanimadas em relação às dos seres vivos é, portanto, um dos acontecimentos mais trágicos da história da humanidade. O meio construído pela nossa inteligência e pelas nossas intenções não se ajusta às nossas dimensões nem à nossa forma. Não nos serve. Sentimo-nos infelizes. Degeneramos moralmente e mentalmente.
São precisamente os grupos e as nações em que a civilização industrial atingiu o apogeu que mais enfraquecem. Neles, o retorno à barbárie é mais rápido. Permanecem sem defesa perante o meio adverso que a ciência lhes forneceu. Na verdade, a nossa civilização, tal como as que a antecederam, criou condições em que, por razões que não conhecemos exatamente, a própria vida se torna impossível. A inquietação e a infelicidade dos habitantes da nova cidade têm origem nas instituições políticas, econômicas e sociais, mas sobretudo na sua própria degradação. São vítimas do atraso das ciências da vida em relação às da matéria.
Alexis Carrel, "O Homem esse Desconhecido"
São precisamente os grupos e as nações em que a civilização industrial atingiu o apogeu que mais enfraquecem. Neles, o retorno à barbárie é mais rápido. Permanecem sem defesa perante o meio adverso que a ciência lhes forneceu. Na verdade, a nossa civilização, tal como as que a antecederam, criou condições em que, por razões que não conhecemos exatamente, a própria vida se torna impossível. A inquietação e a infelicidade dos habitantes da nova cidade têm origem nas instituições políticas, econômicas e sociais, mas sobretudo na sua própria degradação. São vítimas do atraso das ciências da vida em relação às da matéria.
Alexis Carrel, "O Homem esse Desconhecido"
Por que tanto ódio?
Há em São Paulo um mistério que me atormenta. Mistério que talvez nem Sherlock Holmes, Agatha Christie, George Simenon, Patricia Cornwell, Ellery Queen e Patricia Highsmith consigam resolver. Ah, senhores vereadores, os citados estão entre os mestres da ficção policial. Ficção é fantasia, imaginação. Realidade são os que roubam celulares nas ruas, quebram vidros dos carros e levam o que podem, sequestram pessoas, exigem Pix dos idosos na porta dos bancos, reviram lixo em busca de comida, ou aqueles que exigem Pix para salvar suas almas e levá-las a Deus, telefonam comunicando compras feitas com nosso cartão fora de nosso perfil, e assim por diante.
Isso vocês, boa parte de nossos edis (edil é sinônimo de vereador, assim como prócer, agnoteta, arquimandrita), ignoram. Realidade é a cidade suja, calçadas arrebentadas, bueiros entupidos, ruas esburacadas ou sem iluminação, correio que não pode chegar a muitos CEPs por insegurança, casas sobre esgotos ou na beira de morros despencando com chuvas, doenças infecciosas, riachos cheios de urina e merda correndo entre casas, semáforos quebrados.
Tudo isso acontece realmente e nos atormenta como cidadãos. Caros vereadores. Talvez boa parte de vocês ignore esta cidade que relatei. E aqui digo “caros” não com o significado de queridos, mas sim de quanto pagamos para sustentá-los. E olhem que nomeei 0, 7% de problemas fundamentais para sermos uma metrópole civilizada, boa para se viver. Ou apenas os do andar de cima são dignos de viver?
Qual de vocês desceu do gabinete, saiu do carro blindado (do que têm medo?) e conversou com aqueles em situação de rua? Quem sabe o que é dormir numa calçada gelada em noite fria? São mais de 200 mil no Brasil, quase a população de minha terra, Araraquara. Quem se sentou no chão com pedintes, miseráveis, doentes para os quais não há SUS, nem nada? Quem passou uma noite na rua dando comida, cobertores, remédios? Quantos conhecem o trabalho do padre Júlio Lancellotti, um São Francisco de Assis da atualidade? Mesmo que não tenham a mesma crença, sabem quem foi São Francisco? Padre Júlio vem sendo vilipendiado, escorraçado, amaldiçoado. Não votamos em vocês somente para validar arranha-céus e mudar planos de zoneamento. E esta crônica, neste início de novo ano, é para tentar decifrar o mistério maior de todos os tempos: que mal o padre Júlio Lancellotti fez a vocês? Por que ele incomoda? O que fez para despertar tanto ódio? O que há por trás desse rancor? Do ponto de vista do abraçar, querer bem ao próximo e ter compaixão, padre Júlio dá lições de humanidade a vocês e a todos nós.
Isso vocês, boa parte de nossos edis (edil é sinônimo de vereador, assim como prócer, agnoteta, arquimandrita), ignoram. Realidade é a cidade suja, calçadas arrebentadas, bueiros entupidos, ruas esburacadas ou sem iluminação, correio que não pode chegar a muitos CEPs por insegurança, casas sobre esgotos ou na beira de morros despencando com chuvas, doenças infecciosas, riachos cheios de urina e merda correndo entre casas, semáforos quebrados.
Tudo isso acontece realmente e nos atormenta como cidadãos. Caros vereadores. Talvez boa parte de vocês ignore esta cidade que relatei. E aqui digo “caros” não com o significado de queridos, mas sim de quanto pagamos para sustentá-los. E olhem que nomeei 0, 7% de problemas fundamentais para sermos uma metrópole civilizada, boa para se viver. Ou apenas os do andar de cima são dignos de viver?
Qual de vocês desceu do gabinete, saiu do carro blindado (do que têm medo?) e conversou com aqueles em situação de rua? Quem sabe o que é dormir numa calçada gelada em noite fria? São mais de 200 mil no Brasil, quase a população de minha terra, Araraquara. Quem se sentou no chão com pedintes, miseráveis, doentes para os quais não há SUS, nem nada? Quem passou uma noite na rua dando comida, cobertores, remédios? Quantos conhecem o trabalho do padre Júlio Lancellotti, um São Francisco de Assis da atualidade? Mesmo que não tenham a mesma crença, sabem quem foi São Francisco? Padre Júlio vem sendo vilipendiado, escorraçado, amaldiçoado. Não votamos em vocês somente para validar arranha-céus e mudar planos de zoneamento. E esta crônica, neste início de novo ano, é para tentar decifrar o mistério maior de todos os tempos: que mal o padre Júlio Lancellotti fez a vocês? Por que ele incomoda? O que fez para despertar tanto ódio? O que há por trás desse rancor? Do ponto de vista do abraçar, querer bem ao próximo e ter compaixão, padre Júlio dá lições de humanidade a vocês e a todos nós.
Cinco mais ricos dobraram suas fortunas em 3 anos
No documento divulgado, por ocasião do encontro da elite econômica global no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, a Oxfam International afirmou que, somadas, as fortunas das cinco pessoas mais ricas do mundo – Elon Musk (Tesla, SpaceX), Bernard Arnault (LVHM), Jeff Bezos (Amazon), Larry Ellison (Oracle) e o megainvestidor Warren Buffet – aumentaram 114%, o que corresponde a 464 bilhões de dólares (R$ 2,26 trilhões), chegando a 869 bilhões de dólares no ano passado.
"A desigualdade não é um acaso: a classe dos bilionários garante que as grandes corporações lhes entreguem mais riquezas às custas de todas as outras pessoas", afirmou o diretor-executivo interino da Oxfam, Amitabh Behar.
Desde 2020, o poder financeiro de quase 4,77 bilhões de pessoas – ou 60% da população mundial – caiu 0,2% em termos reais, segundo a entidade.
A Oxfam lançou um apelo aos governos para que reduzam o poder das grandes empresas através da quebra de monopólios de modo a avançar no combate às desigualdades, além de instituir impostos sobre o lucro e a riqueza e promover alternativas ao controle de acionistas, como aumentar a participação dos trabalhadores na administração empresarial.
"O poder das grandes empresas é usado para gerar desigualdade ao arrochar os trabalhadores e enriquecer os acionistas mais ricos, driblar impostos e privatizar o Estado", diz a ONG.
Os analistas da Oxfam também demonstram como a "guerra aos impostos" travada pelas grandes empresas obteve êxito em derrubar as taxações em aproximadamente um terço nas últimas décadas.
"Em todo o mundo, representantes do setor privado promovem de maneira implacável as taxas mais baixas, com mais brechas legais, menos transparência e outras medidas voltadas para permitir que as empresas contribuam o menos possível aos cofres públicos", alertou a ONG.
Há anos a Oxfam chama a atenção para o aumento da disparidade entre os super-ricos e a maioria da população mundial durante o Fórum Econômico Mundial de Davos. A entidade afirma que, desde a pandemia de covid-19, o abismo entre ricos e pobres vem aumentando.
"A Oxfam prevê que teremos o primeiro trilionário dentro de uma década", afirmou Behar. "Ao mesmo tempo, para derrotarmos a pobreza, precisaríamos de mais de 200 anos." O primeiro bilionário da história foi John D. Rockefeller, da Standart Oil, em 1916.
A ONG avalia que a realização da cúpula do G20 no Brasil seria uma oportunidade ideal para aumentar a conscientização sobre as desigualdades, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou temas referentes à pobreza no centro da agenda do encontro das maiores economias do mundo.
O relatório avalia que as 148 maiores empresas do mundo tiveram lucros somados de 1,8 trilhão de dólares no 12 meses encerrados em junho de 2023, ou seja, uma alta de 52% sobre a média de três anos, o que gerou rendimentos vultuosos aos acionistas, ao mesmo tempo em que milhões de trabalhadores enfrentam uma inflação em alta e menor poder aquisitivo.
"A desigualdade não é um acaso: a classe dos bilionários garante que as grandes corporações lhes entreguem mais riquezas às custas de todas as outras pessoas", afirmou o diretor-executivo interino da Oxfam, Amitabh Behar.
Desde 2020, o poder financeiro de quase 4,77 bilhões de pessoas – ou 60% da população mundial – caiu 0,2% em termos reais, segundo a entidade.
A Oxfam lançou um apelo aos governos para que reduzam o poder das grandes empresas através da quebra de monopólios de modo a avançar no combate às desigualdades, além de instituir impostos sobre o lucro e a riqueza e promover alternativas ao controle de acionistas, como aumentar a participação dos trabalhadores na administração empresarial.
"O poder das grandes empresas é usado para gerar desigualdade ao arrochar os trabalhadores e enriquecer os acionistas mais ricos, driblar impostos e privatizar o Estado", diz a ONG.
Os analistas da Oxfam também demonstram como a "guerra aos impostos" travada pelas grandes empresas obteve êxito em derrubar as taxações em aproximadamente um terço nas últimas décadas.
"Em todo o mundo, representantes do setor privado promovem de maneira implacável as taxas mais baixas, com mais brechas legais, menos transparência e outras medidas voltadas para permitir que as empresas contribuam o menos possível aos cofres públicos", alertou a ONG.
Há anos a Oxfam chama a atenção para o aumento da disparidade entre os super-ricos e a maioria da população mundial durante o Fórum Econômico Mundial de Davos. A entidade afirma que, desde a pandemia de covid-19, o abismo entre ricos e pobres vem aumentando.
"A Oxfam prevê que teremos o primeiro trilionário dentro de uma década", afirmou Behar. "Ao mesmo tempo, para derrotarmos a pobreza, precisaríamos de mais de 200 anos." O primeiro bilionário da história foi John D. Rockefeller, da Standart Oil, em 1916.
A ONG avalia que a realização da cúpula do G20 no Brasil seria uma oportunidade ideal para aumentar a conscientização sobre as desigualdades, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou temas referentes à pobreza no centro da agenda do encontro das maiores economias do mundo.
A conquista do Outro
O tema da chamada “escravidão contemporânea”, no Brasil, não significa a mesma coisa em diferentes bocas e em diferentes escritos. Nem mesmo significa sempre propriamente escravidão. E nem sempre é apresentado em perspectiva propriamente científica. Mesmo em estudos acadêmicos, são muitas as incertezas conceituais e são frequentes as tentações do mero denuncismo em si, sem penetrar nas causas, fatores, consequências sociais e funções econômicas de sua ocorrência e persistência no capitalismo subdesenvolvido.
Diferentemente do que pode pressupor o senso comum, mesmo de pessoas e instituições empenhadas, por ímpeto de justiça, em combatê-la, a escravidão contemporânea não é expressão casual de uma maldade, de uma esperteza de quem a pratica, de um desconhecimento do que ela propriamente é – um crime.
Apesar de eventuais incertezas e vacilações na sua definição, desde os anos 1970, pelo menos, em diferentes lugares do mundo organizações humanitárias e os Estados têm se empenhado em combater a escravidão e punir sua prática. Também aqui no Brasil. Aqui tem sido forte a tendência com o objetivo de, comjustiça, submeter cada vez mais as empresas e os autores do crime de escravização aos rigores da lei.
Isso apesar de termos ainda uma disseminada e indevida certeza de impunidade e de reiterados casos de ações baseadas no equívoco de suporem os autores que a violência privada de jagunços e pistoleiros, recrutados como aparato repressivo na situação de trabalho, vale também na resistência aos agentes da lei. Casos de assassinatos de militantes da causa antiescravista e até mesmo de funcionários das agências oficiais de repressão ao trabalho forçado não têm sido raros. Apesar de o Brasil ser signatário, desde os anos 1920, de convenções internacionais que obrigam os Estados nacionais à proibição da escravidão e a combatê-la, porque se trata de crime, muitos ainda acham que o proprietário de terra pode legitimamente ser, também, proprietário de gente.
Ainda agora, em 2023, dois fazendeiros do sul do Pará foram condenados a cinco anos de prisão pela submissão de 85 trabalhadores a trabalho análogo ao de escravidão. A ocorrência é de 2002, mas o crime de escravização é imprescritível. O processo vinha se arrastando desde que dois menores de idade conseguiram fugir da fazenda em que eram escravizados e denunciaram a irregularidade às autoridades. O processo chegou a desaparecer, mas foi reconstituído. Foi a julgamento agora em consequência de uma sentença de condenação do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O juiz federal substituto da Comarca de Redenção, no sul do Pará, sentenciou os fazendeiros no dia 27 de junho de 2023.
A importância dessa condenação é enorme. A escravidão praticada no Brasil tem peculiaridades que a diferenciam de outras variantes da escravização de seres humanos na atualidade: a de que ela é, em primeiro lugar, expressão de contradições do subcapitalismo que temos. Ela está praticamente inscrita na estrutura lógica desse capitalismo. O restante é dela decorrente e dela componente, como a maldade necessária à sujeição de um ser humano, como se fosse um animal, indício de atraso social e de falta de identificação de quem dela se vale com a condição humana. Mas, sobretudo, indício de um complexo de degradações sociais necessárias à naturalização do cativeiro para que ele cumpra a função iníqua que o motiva.
Na trama de suas relações e de suas causas não há propriamente escolha. Os fatores econômicos se comunicam, seus custos e seus ganhos impõem-se à trama inteira. A própria vítima dela participa não por conivência e impotência, mas por estratégia de sobrevivência em nome da sua diferença social, enquanto alternativa social e histórica. Em nome de um possível que da contradição resulta, que tem visibilidade para ela, mas não tem para quem a explora e oprime. E não tem necessariamente para quem presume defendê-la e em seu nome reivindicar justiça e direitos.
Nesse sentido, este livro não é apenas nem principalmente um livro sobre a atualidade da escravidão. Trata-se de um estudo sobre o modo como o capital organiza empreendimentos econômicos em áreas de condições sociais, econômicas e ambientais de quase ausência do Estado, em face das quais não tem sido incomum o recrutamento de trabalhadores, já de antemão previsto, mas não revelado, que trabalharão como escravos.
Na verdade, essa escravidão é opção inevitável da vítima pela alternativa degradante e não capitalista de trabalho. É para resistir à ameaça e aos efeitos socialmente corrosivos da expansão do capitalismo sobre territórios e comunidades camponesas, de populações originárias, indígenas, caipiras e sertanejas.
Trabalho que, mesmo quando não acarreta ganho, no endividamento do trabalhador, que acaba trabalhando de graça, diminui na família, na entressafra, o número de bocas para a comida insuficiente. E, se houver algum ganho, mesmo aquém do valor criado pelo trabalho cativo em relação ao saldo recebido, será um benefício com base na ideologia camponesa do trabalho de sobrevivência contra a ideologia capitalista do trabalho lucrativo. Essa é a contradição cuja causa a sociologia pode decifrar.
O trabalho escravo é a dolorosa expressão do verdadeiro conflito histórico entre os desvalidos e o capital, um dos conflitos estruturais do capitalismo brasileiro na disputa da terra de trabalho, a terra de sobrevivência, contra a terra de negócio e rentismo, de usurpação, a de um capitalismo subdesenvolvido. É a questão agrária como questão do trabalho que dá sentido a esse conflito e a esse drama. Os autores de digressões sobre a “escravidão contemporânea” omitem-se em relação a essa contradição, sociologicamente explicativa. A do assalto indireto do capital ao mundo camponês, assalto através das mediações de ocultamentos sociais para viabilizar os resultados econômicos de sua reprodução ampliada.
As regiões e as comunidades dessas populações têm sido com frequência os lugares de aliciamento de camponeses para o trabalho sob escravidão por dívida. Não se trata, pois, de uma referência geográfica, mas de uma mediação social datada, pré-capitalista, cujo atraso histórico interessa ao capital, mas cuja resistência e sobrevivência interessa sobretudo à vítima – o camponês e as populações originárias. Esse atraso lhes é, na verdade, um capital cultural e político, que só se desperdiça porque lhe faltam as mediações políticas e partidárias. O atraso, na verdade, é dos partidos na falta de reconhecimento e compreensão do significado e da função política dos grupos humanos deixados à margem da história por uma opção equivocada em favor de uma concepção de progresso socialmente excludente.
Variam as motivações, muitas vezes extracientíficas, dos estudiosos, que, ao revelar e denunciar ocorrências, desprezam, porque as desconhecem ou minimizam, as contradições explicativas e reveladoras da realidade social problemática. As que sociologicamente compreendem o visível e o não visível, o falso e o verdadeiro. Os fatores revelados e os fatores ocultos do processo histórico. Os fatores de reiteração e os de transformação da realidade, os que criam socialmente o novo e, ao mesmo tempo, recriam o que parece ser o já existente, como interpreta e explica Henri Lefebvre. Os que estão presentes na estruturação das condições sociais do cativeiro, isto é, na disputa e dominação do capital pelos lugares e situações comunitários e tradicionais da sociabilidade e da autonomia camponesas e da economia da produção direta de meios de vida, paralelamente à de excedentes comercializáveis. Os das populações excluídas e originárias.
Ou, então, os que desvendam e expõem as invisibilidades próprias do capitalismo num país subdesenvolvido, como o nosso, e expõem as vulnerabilidades do voluntarismo dos que se dedicam a questioná-lo e a combatê-lo, prisioneiros do superficial e aparente. O que é tão característico da moda política de hoje, mas divorciado das revelações da ciência e das duras verdades e incertezas das contradições sociais. A incômoda constatação científica de Marx, de que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem…”. E menos ainda como os outros querem fazê-la em nome de todos sem legitimamente representá-los.
Esse desencontro é o cerne explicativo de toda a sociologia marxiana. É um questionamento que define o perfil deste livro na linha da tradição do pensamento sociológico crítico, ou seja, dialético, o de ampliação e aprofundamento do conhecimento sobre a realidade social além do mero agora. O desvendamento e o questionamento da alienação social, que acoberta a realidade, enquanto falsa premissa de ciência que há na militância desinformada e superficial.
A questão da “escravidão contemporânea” é, na sociologia, questão de urgência e é também questão de enfrentamento do poder de minimização dos problemas sociais, cada vez mais intenso da pós-modernidade. Esta é a sociedade da ocultação das verdades profundas e causais da história e da sua própria historicidade.
Muitos querem, altruisticamente, combater a iniquidade de relações de trabalho antissociais e anti-humanas. Outros querem, de modo não tão altruístico, combater as interpretações que podem estar em desacordo com suas opiniões de senso comum, seus interesses e conveniências partidários e ideológicos, seu exibicionismo político.
Um livro como este é uma proposta de desembaralhar, na perspectiva da ciência, essa diversidade opinativa, e desse modo criar as condições para uma interpretação objetiva e crítica da grave questão, no sentido marxiano de conhecimento explicativo, sociológico, de diferentes modalidades de conhecimento: “das representações, das ilusões de classe, dos instrumentos ideológicos”. Único modo de situá-la no marco da possibilidade de sua superação, e iluminar o caminho desse ser solitário, invisível e difuso que intui no dramático da vida o desafio da transformação social libertadora como obra de correção e de superação das injustiças que negam a todos o direito à sua humanização. Se há um único escravo numa sociedade como esta, todos nós estamos atados à sua situação, porque a sociedade é relacional. Somos sujeitos do mesmo sistema de relacionamentos e de minimização da condição humana.
Ao se falar em escravidão atual está se falando, necessariamente, numa anomalia resultante das contradições sociais de um modelo de sociedade que tem nome: a sociedade capitalista mutilada e insuficientemente realizada, como a brasileira, atravessada pelo primado de interesses econômicos e consequentes irracionalidades que negam o capitalismo e crucificam a sociedade.
De uma análise assim, não resulta receita legítima de militância e ativismo indeterminados e desconectados da estrutura social profunda que dá sentido aos movimentos sociais. Resulta a referência para o que Hans Freyer definiu e Florestan Fernandes explicou: a sociologia como consciência científica da realidade social, caso em que o ativismo não é nem pode ser teatro, para que possa ser práxis socialmente transformadora.
Diferentemente do que pode pressupor o senso comum, mesmo de pessoas e instituições empenhadas, por ímpeto de justiça, em combatê-la, a escravidão contemporânea não é expressão casual de uma maldade, de uma esperteza de quem a pratica, de um desconhecimento do que ela propriamente é – um crime.
Apesar de eventuais incertezas e vacilações na sua definição, desde os anos 1970, pelo menos, em diferentes lugares do mundo organizações humanitárias e os Estados têm se empenhado em combater a escravidão e punir sua prática. Também aqui no Brasil. Aqui tem sido forte a tendência com o objetivo de, comjustiça, submeter cada vez mais as empresas e os autores do crime de escravização aos rigores da lei.
Isso apesar de termos ainda uma disseminada e indevida certeza de impunidade e de reiterados casos de ações baseadas no equívoco de suporem os autores que a violência privada de jagunços e pistoleiros, recrutados como aparato repressivo na situação de trabalho, vale também na resistência aos agentes da lei. Casos de assassinatos de militantes da causa antiescravista e até mesmo de funcionários das agências oficiais de repressão ao trabalho forçado não têm sido raros. Apesar de o Brasil ser signatário, desde os anos 1920, de convenções internacionais que obrigam os Estados nacionais à proibição da escravidão e a combatê-la, porque se trata de crime, muitos ainda acham que o proprietário de terra pode legitimamente ser, também, proprietário de gente.
Ainda agora, em 2023, dois fazendeiros do sul do Pará foram condenados a cinco anos de prisão pela submissão de 85 trabalhadores a trabalho análogo ao de escravidão. A ocorrência é de 2002, mas o crime de escravização é imprescritível. O processo vinha se arrastando desde que dois menores de idade conseguiram fugir da fazenda em que eram escravizados e denunciaram a irregularidade às autoridades. O processo chegou a desaparecer, mas foi reconstituído. Foi a julgamento agora em consequência de uma sentença de condenação do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O juiz federal substituto da Comarca de Redenção, no sul do Pará, sentenciou os fazendeiros no dia 27 de junho de 2023.
A importância dessa condenação é enorme. A escravidão praticada no Brasil tem peculiaridades que a diferenciam de outras variantes da escravização de seres humanos na atualidade: a de que ela é, em primeiro lugar, expressão de contradições do subcapitalismo que temos. Ela está praticamente inscrita na estrutura lógica desse capitalismo. O restante é dela decorrente e dela componente, como a maldade necessária à sujeição de um ser humano, como se fosse um animal, indício de atraso social e de falta de identificação de quem dela se vale com a condição humana. Mas, sobretudo, indício de um complexo de degradações sociais necessárias à naturalização do cativeiro para que ele cumpra a função iníqua que o motiva.
Na trama de suas relações e de suas causas não há propriamente escolha. Os fatores econômicos se comunicam, seus custos e seus ganhos impõem-se à trama inteira. A própria vítima dela participa não por conivência e impotência, mas por estratégia de sobrevivência em nome da sua diferença social, enquanto alternativa social e histórica. Em nome de um possível que da contradição resulta, que tem visibilidade para ela, mas não tem para quem a explora e oprime. E não tem necessariamente para quem presume defendê-la e em seu nome reivindicar justiça e direitos.
Nesse sentido, este livro não é apenas nem principalmente um livro sobre a atualidade da escravidão. Trata-se de um estudo sobre o modo como o capital organiza empreendimentos econômicos em áreas de condições sociais, econômicas e ambientais de quase ausência do Estado, em face das quais não tem sido incomum o recrutamento de trabalhadores, já de antemão previsto, mas não revelado, que trabalharão como escravos.
Na verdade, essa escravidão é opção inevitável da vítima pela alternativa degradante e não capitalista de trabalho. É para resistir à ameaça e aos efeitos socialmente corrosivos da expansão do capitalismo sobre territórios e comunidades camponesas, de populações originárias, indígenas, caipiras e sertanejas.
Trabalho que, mesmo quando não acarreta ganho, no endividamento do trabalhador, que acaba trabalhando de graça, diminui na família, na entressafra, o número de bocas para a comida insuficiente. E, se houver algum ganho, mesmo aquém do valor criado pelo trabalho cativo em relação ao saldo recebido, será um benefício com base na ideologia camponesa do trabalho de sobrevivência contra a ideologia capitalista do trabalho lucrativo. Essa é a contradição cuja causa a sociologia pode decifrar.
O trabalho escravo é a dolorosa expressão do verdadeiro conflito histórico entre os desvalidos e o capital, um dos conflitos estruturais do capitalismo brasileiro na disputa da terra de trabalho, a terra de sobrevivência, contra a terra de negócio e rentismo, de usurpação, a de um capitalismo subdesenvolvido. É a questão agrária como questão do trabalho que dá sentido a esse conflito e a esse drama. Os autores de digressões sobre a “escravidão contemporânea” omitem-se em relação a essa contradição, sociologicamente explicativa. A do assalto indireto do capital ao mundo camponês, assalto através das mediações de ocultamentos sociais para viabilizar os resultados econômicos de sua reprodução ampliada.
As regiões e as comunidades dessas populações têm sido com frequência os lugares de aliciamento de camponeses para o trabalho sob escravidão por dívida. Não se trata, pois, de uma referência geográfica, mas de uma mediação social datada, pré-capitalista, cujo atraso histórico interessa ao capital, mas cuja resistência e sobrevivência interessa sobretudo à vítima – o camponês e as populações originárias. Esse atraso lhes é, na verdade, um capital cultural e político, que só se desperdiça porque lhe faltam as mediações políticas e partidárias. O atraso, na verdade, é dos partidos na falta de reconhecimento e compreensão do significado e da função política dos grupos humanos deixados à margem da história por uma opção equivocada em favor de uma concepção de progresso socialmente excludente.
Variam as motivações, muitas vezes extracientíficas, dos estudiosos, que, ao revelar e denunciar ocorrências, desprezam, porque as desconhecem ou minimizam, as contradições explicativas e reveladoras da realidade social problemática. As que sociologicamente compreendem o visível e o não visível, o falso e o verdadeiro. Os fatores revelados e os fatores ocultos do processo histórico. Os fatores de reiteração e os de transformação da realidade, os que criam socialmente o novo e, ao mesmo tempo, recriam o que parece ser o já existente, como interpreta e explica Henri Lefebvre. Os que estão presentes na estruturação das condições sociais do cativeiro, isto é, na disputa e dominação do capital pelos lugares e situações comunitários e tradicionais da sociabilidade e da autonomia camponesas e da economia da produção direta de meios de vida, paralelamente à de excedentes comercializáveis. Os das populações excluídas e originárias.
Ou, então, os que desvendam e expõem as invisibilidades próprias do capitalismo num país subdesenvolvido, como o nosso, e expõem as vulnerabilidades do voluntarismo dos que se dedicam a questioná-lo e a combatê-lo, prisioneiros do superficial e aparente. O que é tão característico da moda política de hoje, mas divorciado das revelações da ciência e das duras verdades e incertezas das contradições sociais. A incômoda constatação científica de Marx, de que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem…”. E menos ainda como os outros querem fazê-la em nome de todos sem legitimamente representá-los.
Esse desencontro é o cerne explicativo de toda a sociologia marxiana. É um questionamento que define o perfil deste livro na linha da tradição do pensamento sociológico crítico, ou seja, dialético, o de ampliação e aprofundamento do conhecimento sobre a realidade social além do mero agora. O desvendamento e o questionamento da alienação social, que acoberta a realidade, enquanto falsa premissa de ciência que há na militância desinformada e superficial.
A questão da “escravidão contemporânea” é, na sociologia, questão de urgência e é também questão de enfrentamento do poder de minimização dos problemas sociais, cada vez mais intenso da pós-modernidade. Esta é a sociedade da ocultação das verdades profundas e causais da história e da sua própria historicidade.
Muitos querem, altruisticamente, combater a iniquidade de relações de trabalho antissociais e anti-humanas. Outros querem, de modo não tão altruístico, combater as interpretações que podem estar em desacordo com suas opiniões de senso comum, seus interesses e conveniências partidários e ideológicos, seu exibicionismo político.
Um livro como este é uma proposta de desembaralhar, na perspectiva da ciência, essa diversidade opinativa, e desse modo criar as condições para uma interpretação objetiva e crítica da grave questão, no sentido marxiano de conhecimento explicativo, sociológico, de diferentes modalidades de conhecimento: “das representações, das ilusões de classe, dos instrumentos ideológicos”. Único modo de situá-la no marco da possibilidade de sua superação, e iluminar o caminho desse ser solitário, invisível e difuso que intui no dramático da vida o desafio da transformação social libertadora como obra de correção e de superação das injustiças que negam a todos o direito à sua humanização. Se há um único escravo numa sociedade como esta, todos nós estamos atados à sua situação, porque a sociedade é relacional. Somos sujeitos do mesmo sistema de relacionamentos e de minimização da condição humana.
Ao se falar em escravidão atual está se falando, necessariamente, numa anomalia resultante das contradições sociais de um modelo de sociedade que tem nome: a sociedade capitalista mutilada e insuficientemente realizada, como a brasileira, atravessada pelo primado de interesses econômicos e consequentes irracionalidades que negam o capitalismo e crucificam a sociedade.
De uma análise assim, não resulta receita legítima de militância e ativismo indeterminados e desconectados da estrutura social profunda que dá sentido aos movimentos sociais. Resulta a referência para o que Hans Freyer definiu e Florestan Fernandes explicou: a sociologia como consciência científica da realidade social, caso em que o ativismo não é nem pode ser teatro, para que possa ser práxis socialmente transformadora.
José de Souza Martins, na introdução de "Capitalismo e Escravidão na Sociedade Pós-escravista"
segunda-feira, 15 de janeiro de 2024
Uma paz para acabar com a paz
Para entender melhor o que acontece no Oriente Médio, li "A Peace to End All Peace" (uma paz para acabar com qualquer paz), de David Fromkin. Embora não exatamente nova, é uma obra de fôlego que mostra como surgiram os países que hoje constituem a região e como sua gênese contribuiu para a instabilidade atual.
Fromkin começa sua investigação nos estertores do Império Otomano, passa a lupa sobre a 1ª Guerra Mundial e para em 1922, que é quando o mapa do Oriente Médio assume feições semelhantes às atuais. É um prato cheio para apreciadores do beletrismo histórico. "Grand Jeu", acordo Sykes-Picot, declaração Balfour e outros eventos, sobre os quais lemos hoje nos artigos mais eruditos sobre o imbróglio médio-oriental, são cuidadosamente discutidos.
Embora não seja o objetivo central da obra, ela também lança luzes sobre a psicologia de figuras importantes como Lloyd George, Winston Churchill, Woodrow Wilson. Até as aventuras de Lawrence da Arábia têm o seu lugar.
O imperialismo tem muito a ver com a confusão atual. As potências vencedoras da 1ª Guerra dividiram os despojos do Império Otomano de acordo com seus interesses e as cambiáveis correlações de força, sem atentar para elementos básicos da realidade local.
"A Peace..." mostra que os problemas não se limitaram às desavenças entre potências. Também era frequente que diferentes departamentos de um mesmo governo se sabotassem. Os britânicos, por exemplo, davam mesadas generosas ao rei Husssein e a Ibn Saud, que as gastavam combatendo um ao outro. A promessa dos escalões centrais de Londres de apoiar a constituição de um "lar nacional" para os judeus era diariamente minada pelos militares britânicos in loco.
Fromkin conclui lembrando que a Europa levou 1.500 anos para recuperar-se da queda de Roma. Então, é preciso dar mais tempo para que as coisas se assentem no Oriente Médio. Quem sabe daqui a 1.400 anos...
Fromkin começa sua investigação nos estertores do Império Otomano, passa a lupa sobre a 1ª Guerra Mundial e para em 1922, que é quando o mapa do Oriente Médio assume feições semelhantes às atuais. É um prato cheio para apreciadores do beletrismo histórico. "Grand Jeu", acordo Sykes-Picot, declaração Balfour e outros eventos, sobre os quais lemos hoje nos artigos mais eruditos sobre o imbróglio médio-oriental, são cuidadosamente discutidos.
Embora não seja o objetivo central da obra, ela também lança luzes sobre a psicologia de figuras importantes como Lloyd George, Winston Churchill, Woodrow Wilson. Até as aventuras de Lawrence da Arábia têm o seu lugar.
O imperialismo tem muito a ver com a confusão atual. As potências vencedoras da 1ª Guerra dividiram os despojos do Império Otomano de acordo com seus interesses e as cambiáveis correlações de força, sem atentar para elementos básicos da realidade local.
"A Peace..." mostra que os problemas não se limitaram às desavenças entre potências. Também era frequente que diferentes departamentos de um mesmo governo se sabotassem. Os britânicos, por exemplo, davam mesadas generosas ao rei Husssein e a Ibn Saud, que as gastavam combatendo um ao outro. A promessa dos escalões centrais de Londres de apoiar a constituição de um "lar nacional" para os judeus era diariamente minada pelos militares britânicos in loco.
Fromkin conclui lembrando que a Europa levou 1.500 anos para recuperar-se da queda de Roma. Então, é preciso dar mais tempo para que as coisas se assentem no Oriente Médio. Quem sabe daqui a 1.400 anos...
Haia existe
Ninguém gosta de ser submetido a julgamento. Países, também não. E o Estado de Israel, comandado por Benjamin Netanyahu, menos ainda. Mesmo que consiga convencer a Corte Internacional de Justiça (CIJ) a arquivar a acusação de genocídio apresentada pela África do Sul, ou mesmo que consiga evitar a petição por medidas provisórias urgentes, como a interrupção dos ataques a Gaza, Netanyahu jamais conseguirá apagar o dano moral, político, diplomático e histórico sofrido em Haia. A sentença final a ser decidida pelos 15 juízes da Corte pode demorar dias, semanas, meses, até anos, mas a mera questão central — Israel cometeu genocídio? — é devastadora em si.
Relegada ao papel de cemitério do Direito Internacional, a Palestina como um todo, e Gaza em especial, pouco espera da Justiça dos homens. Só que a petição apresentada pela África do Sul pode ter desdobramentos inesperados. Como previsto, foi desconsiderada como frivolidade pelo secretário de Estado americano, Antony Blinken. Mas não por Netanyahu, que optou por apresentar sua defesa perante a Corte. Não é de hoje que lideranças israelenses se preocupam com uma eventual percepção mundial de que a opressão sofrida pela Palestina ocupada é uma forma de apartheid. O espectro de isolamento internacional semelhante ao imposto ao regime de minoria branca na África do Sul — que culminou na extinção do apartheid nos anos 1990 — sempre existiu. Et pour cause.
Desde as décadas da descolonização, dos movimentos de libertação, dos Não Alinhados e da Tricontinental, o partido de Nelson Mandela e a militância palestina andaram lado a lado.
— Nossa liberdade é incompleta sem a libertação dos palestinos — lembrou o líder negro em 1997.
Tinham em comum a revolta contra opressores que se ajudavam mutuamente. O jornalista Tony Karon, nascido na África do Sul, sionista na juventude e atual produtor na Al Jazeera, lembra seus tempos de militância anti-apartheid na Cidade do Cabo. Em artigo recente, escreveu: “Muitos de nós ficamos horrorizados quando, em 1976, Israel recebeu a visita oficial do primeiro-ministro sul-africano John Vorster, nazista convicto que trabalhou numa organização paramilitar ligada à Abwehr [serviço de inteligência militar de Hitler]”. A venda de armas de Israel para a África do Sul era segredo de polichinelo, assim como a assistência israelense à Força de Defesa do regime bôer.
A descolonização, como se sabe, não seguiu propriamente o roteiro sonhado pelo intelectual martinicano Aimé Césaire — restituir humanidade tanto ao colonizado como ao colonizador, numa mesma comunidade de pertencimento. Fracassos se acumularam, e correções de curso continuam a coalhar a caminhada com desgraças. Contudo a cartada da África do Sul, ao cobrar da Corte de Haia um posicionamento, tem o mérito de conseguir nos envergonhar pela cumplicidade mundial diante de décadas de desenraizamento e opressão de um povo. Silenciadas, gerações e gerações de palestinos tiveram existência apagada, nulificada. Gaza é apenas a aberração mais gritante.
Para Netanyahu, a semana foi indigesta também no front interno. O conservador Yedioth Ahronoth, maior jornal do país, divulgou uma notícia sombria: “Ao meio-dia do 7 de Outubro, as Forças de Defesa de Israel (FDI) ordenaram a todas as unidades de combate em ação usar a Diretiva Hannibal, sem menção explícita ao nome. A ordem era parar ‘a qualquer custo’ toda tentativa de retorno a Gaza dos terroristas do Hamas, apesar do temor de que levavam consigo reféns.(...) Estima-se em cerca de mil os terroristas e infiltrados mortos entre o assentamento de Olaf e a Faixa de Gaza. Não está claro quantos reféns foram mortos em decorrência dessa ordem”. Perto de 70 veículos foram encontrados na mesma área, atingidos por um helicóptero de combate ou mísseis antitanque das FDI.
“Diretiva Hannibal” é o nome dado a um procedimento militar oficialmente abandonado pelas FDI em 2016. Visava a impedir a captura de soldados israelenses por tropas inimigas. Sua versão mais genérica ensinava: “A tomada de reféns precisa ser impedida por todos os meios, mesmo ao preço de alvejarmos e causarmos danos a nossas próprias forças”. Sujeitas, portanto, a interpretação e aplicação elásticas. No mês passado, o diário liberal Haaretz já havia aventado a hipótese de a Diretiva Hannibal ter sido usada no fatídico 7 de Outubro, quando 40 terroristas do Hamas foram alvejados por dois disparos de canhão numa casa em Be’eri, assentamento israelense. Havia 14 reféns civis na casa. Apenas uma saiu com vida do horror. Hadas Dagan, cujo marido foi uma das vítimas, não culpa as equipes de socorro israelenses:
— Eles também deram a vida por nós.
No centésimo dia de cativeiro para mais de 130 reféns ainda em mãos do Hamas. Quanta tragédia entrelaçada!
Relegada ao papel de cemitério do Direito Internacional, a Palestina como um todo, e Gaza em especial, pouco espera da Justiça dos homens. Só que a petição apresentada pela África do Sul pode ter desdobramentos inesperados. Como previsto, foi desconsiderada como frivolidade pelo secretário de Estado americano, Antony Blinken. Mas não por Netanyahu, que optou por apresentar sua defesa perante a Corte. Não é de hoje que lideranças israelenses se preocupam com uma eventual percepção mundial de que a opressão sofrida pela Palestina ocupada é uma forma de apartheid. O espectro de isolamento internacional semelhante ao imposto ao regime de minoria branca na África do Sul — que culminou na extinção do apartheid nos anos 1990 — sempre existiu. Et pour cause.
Desde as décadas da descolonização, dos movimentos de libertação, dos Não Alinhados e da Tricontinental, o partido de Nelson Mandela e a militância palestina andaram lado a lado.
— Nossa liberdade é incompleta sem a libertação dos palestinos — lembrou o líder negro em 1997.
Tinham em comum a revolta contra opressores que se ajudavam mutuamente. O jornalista Tony Karon, nascido na África do Sul, sionista na juventude e atual produtor na Al Jazeera, lembra seus tempos de militância anti-apartheid na Cidade do Cabo. Em artigo recente, escreveu: “Muitos de nós ficamos horrorizados quando, em 1976, Israel recebeu a visita oficial do primeiro-ministro sul-africano John Vorster, nazista convicto que trabalhou numa organização paramilitar ligada à Abwehr [serviço de inteligência militar de Hitler]”. A venda de armas de Israel para a África do Sul era segredo de polichinelo, assim como a assistência israelense à Força de Defesa do regime bôer.
A descolonização, como se sabe, não seguiu propriamente o roteiro sonhado pelo intelectual martinicano Aimé Césaire — restituir humanidade tanto ao colonizado como ao colonizador, numa mesma comunidade de pertencimento. Fracassos se acumularam, e correções de curso continuam a coalhar a caminhada com desgraças. Contudo a cartada da África do Sul, ao cobrar da Corte de Haia um posicionamento, tem o mérito de conseguir nos envergonhar pela cumplicidade mundial diante de décadas de desenraizamento e opressão de um povo. Silenciadas, gerações e gerações de palestinos tiveram existência apagada, nulificada. Gaza é apenas a aberração mais gritante.
Para Netanyahu, a semana foi indigesta também no front interno. O conservador Yedioth Ahronoth, maior jornal do país, divulgou uma notícia sombria: “Ao meio-dia do 7 de Outubro, as Forças de Defesa de Israel (FDI) ordenaram a todas as unidades de combate em ação usar a Diretiva Hannibal, sem menção explícita ao nome. A ordem era parar ‘a qualquer custo’ toda tentativa de retorno a Gaza dos terroristas do Hamas, apesar do temor de que levavam consigo reféns.(...) Estima-se em cerca de mil os terroristas e infiltrados mortos entre o assentamento de Olaf e a Faixa de Gaza. Não está claro quantos reféns foram mortos em decorrência dessa ordem”. Perto de 70 veículos foram encontrados na mesma área, atingidos por um helicóptero de combate ou mísseis antitanque das FDI.
“Diretiva Hannibal” é o nome dado a um procedimento militar oficialmente abandonado pelas FDI em 2016. Visava a impedir a captura de soldados israelenses por tropas inimigas. Sua versão mais genérica ensinava: “A tomada de reféns precisa ser impedida por todos os meios, mesmo ao preço de alvejarmos e causarmos danos a nossas próprias forças”. Sujeitas, portanto, a interpretação e aplicação elásticas. No mês passado, o diário liberal Haaretz já havia aventado a hipótese de a Diretiva Hannibal ter sido usada no fatídico 7 de Outubro, quando 40 terroristas do Hamas foram alvejados por dois disparos de canhão numa casa em Be’eri, assentamento israelense. Havia 14 reféns civis na casa. Apenas uma saiu com vida do horror. Hadas Dagan, cujo marido foi uma das vítimas, não culpa as equipes de socorro israelenses:
— Eles também deram a vida por nós.
No centésimo dia de cativeiro para mais de 130 reféns ainda em mãos do Hamas. Quanta tragédia entrelaçada!
A grande guerra
As árvores sempre amaram os homens, desde o princípio dos tempos. Confessam este amor sem parar, as horas todas do dia. Mesmo quando a luz se retira e elas desaparecem de nossa vista, continuam a dizer que nos amam, fazendo perfume para a nossa noite e música para os nossos sonhos.
Mas as árvores não são apenas os maiores artistas que existem; são também os mais sábios cientistas. Se a gente lotasse o Mineirão de cientistas, os cem mil sábios ali reunidos saberiam muito menos do que uma árvore. E a mais profunda e indispensável ciência da árvore é transformar veneno em ar puro.
Muito poucos homens, por incrível que pareça, entendem a língua das árvores. Um em mil? Talvez nem isso. Um dia, por causa dessa ignorância, reunidos numa sala fechada, os homens declararam guerra às árvores.
Observados hoje, depois que tudo aconteceu, os motivos alegados parecem ridículos. Há árvores demais no mundo, diziam. – Já começam a invadir as nossas terras. – Melhor enfrenta-las e transformá-las em objetos úteis: casas, móveis, navios, lenha. – Não podemos é permanecer de braços cruzados. – O progresso exige que acabemos com as árvores.
Argumentos, de fato, ridículos; mas os argumentos a favor de todas as outras guerras são muito parecidos, depois de vistos (como se diz) à luz da história.
Foram mobilizados facões, machados, serrotes. O mais terrível guerreiro era um que ama o combate por si mesmo, capaz de lutar indiferentemente pelo bem ou pelo mal, capaz de cozinhar para o homem, sem que esse gesto simpático signifique bondade; em outra oportunidade, esse mesmo guerreiro poderá destruir sem remorso a humanidade inteira. Seu nome é Fogo.
E a guerra começou. As árvores, que também não entendem a língua dos homens, apesar de amá-los, continuaram em paz, a fazer o que sempre fazem: sombra, flores, frutos, desenhos, poesia. E a transformar veneno em oxigênio.
Foi uma guerra feia e covarde. Todos os homens, quase todos (com exceção das pessoas de ouvido fino, que entendem a língua dos vegetais), entraram na luta de extermínio. Quem não pertencia a um exército regular, punha o machado no ombro e saia de manhã para brigar sozinho. Os mais humildes, que nem dispunham de machadinha, armavam-se de fósforo ou isqueiro. Até as crianças, as mais assanhadas e menos inteligentes, participavam da guerra, e da maneira mais diabólica: construíam balões que, levados pelo vento, causavam perdas incalculáveis ao doce e inocente inimigo.
Essa guerra foi iniciada na era da civilização, há algumas centenas de anos, quando o homem aprendeu a fazer navios ligeiros, pontes sólidas, casas confortáveis e catedrais belíssimas.
Foi iniciada e jamais teve trégua, prosseguindo até o dia de hoje, auxiliada agora pelas armas modernas, como a serra elétrica e o trator.
Desarmadas, ou armadas apenas de boa vontade, as árvores opuseram uma única resistência: foram criando outras árvores, tantas quanto podiam no furor da batalha, na esperança de que, findas as hostilidades, outras plantas crescessem e continuassem a fazer oxigênio, sombra, flores, frutos, perfume, desenhos e poesia.
Mas acontece o seguinte: como imensas florestas já tombaram na luta, dando lugar a amplidões estéreis, o número de árvores em nosso tempo é insignificante. O número de homens, pelo contrário, tornou-se (como dizem) uma verdadeira explosão.
Assim, para dizer tudo em poucas palavras, a vitória dos homens contra as árvores está muito próxima. No ritmo que vamos, em pouco tempo não ficará uma floresta em pé.
Há um único problema: estamos enfrentando agora novos inimigos, aqueles que aparecem quando as árvores morrem: os riachos e os rios estão secando-se de sede, atormentando os homens; os temporais adoidados destroem as plantações, atormentando os homens; os animais desaparecem, atormentando os homens; a terra arrebenta-se e não presta mais para nada, atormentando os homens; o sol queima as sementeiras e castiga toda a criação, atormentando os homens. Em vez de dar música nas ramagens, a ventania dá vento; em lugar de perfume, aspiramos o fumo das máquinas; em troca de poesia, vamos entrando cada vez mais por uma paisagem sem flores, sem pássaros, sem verde. E já estamos sentindo falta de ar.
Superpovoada de homens e despovoada de árvores, a própria Terra, a única que possuímos, chega ao fim e aos poucos morre.
Resultado final: as árvores perdem a guerra e os homens ganham o inferno.
Paulo Mendes Campos
Mas as árvores não são apenas os maiores artistas que existem; são também os mais sábios cientistas. Se a gente lotasse o Mineirão de cientistas, os cem mil sábios ali reunidos saberiam muito menos do que uma árvore. E a mais profunda e indispensável ciência da árvore é transformar veneno em ar puro.
Muito poucos homens, por incrível que pareça, entendem a língua das árvores. Um em mil? Talvez nem isso. Um dia, por causa dessa ignorância, reunidos numa sala fechada, os homens declararam guerra às árvores.
Observados hoje, depois que tudo aconteceu, os motivos alegados parecem ridículos. Há árvores demais no mundo, diziam. – Já começam a invadir as nossas terras. – Melhor enfrenta-las e transformá-las em objetos úteis: casas, móveis, navios, lenha. – Não podemos é permanecer de braços cruzados. – O progresso exige que acabemos com as árvores.
Argumentos, de fato, ridículos; mas os argumentos a favor de todas as outras guerras são muito parecidos, depois de vistos (como se diz) à luz da história.
Foram mobilizados facões, machados, serrotes. O mais terrível guerreiro era um que ama o combate por si mesmo, capaz de lutar indiferentemente pelo bem ou pelo mal, capaz de cozinhar para o homem, sem que esse gesto simpático signifique bondade; em outra oportunidade, esse mesmo guerreiro poderá destruir sem remorso a humanidade inteira. Seu nome é Fogo.
E a guerra começou. As árvores, que também não entendem a língua dos homens, apesar de amá-los, continuaram em paz, a fazer o que sempre fazem: sombra, flores, frutos, desenhos, poesia. E a transformar veneno em oxigênio.
Foi uma guerra feia e covarde. Todos os homens, quase todos (com exceção das pessoas de ouvido fino, que entendem a língua dos vegetais), entraram na luta de extermínio. Quem não pertencia a um exército regular, punha o machado no ombro e saia de manhã para brigar sozinho. Os mais humildes, que nem dispunham de machadinha, armavam-se de fósforo ou isqueiro. Até as crianças, as mais assanhadas e menos inteligentes, participavam da guerra, e da maneira mais diabólica: construíam balões que, levados pelo vento, causavam perdas incalculáveis ao doce e inocente inimigo.
Essa guerra foi iniciada na era da civilização, há algumas centenas de anos, quando o homem aprendeu a fazer navios ligeiros, pontes sólidas, casas confortáveis e catedrais belíssimas.
Foi iniciada e jamais teve trégua, prosseguindo até o dia de hoje, auxiliada agora pelas armas modernas, como a serra elétrica e o trator.
Desarmadas, ou armadas apenas de boa vontade, as árvores opuseram uma única resistência: foram criando outras árvores, tantas quanto podiam no furor da batalha, na esperança de que, findas as hostilidades, outras plantas crescessem e continuassem a fazer oxigênio, sombra, flores, frutos, perfume, desenhos e poesia.
Mas acontece o seguinte: como imensas florestas já tombaram na luta, dando lugar a amplidões estéreis, o número de árvores em nosso tempo é insignificante. O número de homens, pelo contrário, tornou-se (como dizem) uma verdadeira explosão.
Assim, para dizer tudo em poucas palavras, a vitória dos homens contra as árvores está muito próxima. No ritmo que vamos, em pouco tempo não ficará uma floresta em pé.
Há um único problema: estamos enfrentando agora novos inimigos, aqueles que aparecem quando as árvores morrem: os riachos e os rios estão secando-se de sede, atormentando os homens; os temporais adoidados destroem as plantações, atormentando os homens; os animais desaparecem, atormentando os homens; a terra arrebenta-se e não presta mais para nada, atormentando os homens; o sol queima as sementeiras e castiga toda a criação, atormentando os homens. Em vez de dar música nas ramagens, a ventania dá vento; em lugar de perfume, aspiramos o fumo das máquinas; em troca de poesia, vamos entrando cada vez mais por uma paisagem sem flores, sem pássaros, sem verde. E já estamos sentindo falta de ar.
Superpovoada de homens e despovoada de árvores, a própria Terra, a única que possuímos, chega ao fim e aos poucos morre.
Resultado final: as árvores perdem a guerra e os homens ganham o inferno.
Paulo Mendes Campos
Palestina: o apartheid também é farmacêutico
A Teva Pharmaceuticals, sediada em Israel e globalmente reconhecida como uma das maiores produtoras de genéricos, fabrica diversos medicamentos essenciais, incluindo versões de sais de anfetamina mistos (geralmente comercializados sob o nome comercial Adderall), fluoxetina, ibuprofeno, entre outros. Em 2022, a empresa alcançou um lucro bruto de 6.973 milhões de dólares [33,8 milhões de reais]. Como uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, a Teva opera instalações na América do Norte, Europa, Austrália e América do Sul, com distribuidoras autorizadas como CVS Pharmacy, Walgreens e Wal-Mart. A Teva também é uma das empresas cúmplices na restrição do fornecimento de remédios à Palestina, que aumenta a carga sobre a saúde nos territórios ocupados.
A empresa enfrentou a possibilidade de ser incluída em uma lista negra pela Organização das Nações Unidas por operar em assentamentos ilegais na Cisjordânia. Ativistas palestinos anônimos que trabalham no acesso a medicamentos informaram ao People’s Health Dispatch que a Teva continua sendo um grande fornecedor de medicamentos na Cisjordânia. Outras empresas farmacêuticas que operam na área são a Taro Pharmaceuticals (anteriormente de propriedade israelense, agora de propriedade do fabricante indiano Sun Pharmaceuticals) e a empresa americano-irlandesa Perrigo.
Por outro lado, há seis farmacêuticas palestinas, das quais cinco estão atualmente ativas. Uma está inativa na Faixa de Gaza, devido à guerra e ao bloqueio em curso, o que impede a fabricação de medicamentos. Na Cisjordânia, a Pharmacare, Al-Quds Pharmaceuticals, Birzeit Pharmaceutical Company, Beit-Jala Pharmaceutical Company e Sama Pharmaceuticals conseguem fornecer parte dos medicamentos necessários. Juntas, essas empresas fabricam apenas 50% dos remédios vendidos na Palestina.
O Protocolo de Relações Econômicas, conhecido como Protocolo de Paris, que governa as relações econômicas, dita que Israel controla todas as importações e exportações palestinas por meio de impostos e controle de fronteiras, sujeitos às políticas econômicas israelenses. Essa classificação de “importações” para os medicamentos palestinos destinados a Jerusalém Oriental ocupada restringe sua distribuição a todos os palestinos.
A fabricação de medicamentos palestinos é ainda mais limitada pelo controle de Israel sobre a importação de matérias-primas e equipamentos nos territórios palestinos ocupados. Como resultado, muitos palestinos encontram os medicamentos israelenses a preços mais acessíveis, devido às altas taxas impostas por Israel aos produtos que entram na Cisjordânia. “Portanto, vemos o povo palestino consumir medicamentos israelenses”, disse um especialista palestino em farmacêutica que preferiu permanecer anônimo.
A situação deixa a Faixa de Gaza altamente dependente de organizações humanitárias, como a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) para medicamentos. O bloqueio agrava as infecções resistentes a medicamentos, pois os protocolos para combater a condição não podem ser seguidos consistentemente devido ao fornecimento inconsistente de antibióticos.
A indústria farmacêutica também causa estragos na Palestina por meio de violações ambientais e de direitos humanos. Ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) poluíram a água na Palestina por meio de esgoto não tratado nos territórios ocupados, representando riscos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana – levando à resistência antimicrobiana.
Relatos perturbadores sugerem que o Ministério da Saúde de Israel permitiu que grandes empresas farmacêuticas israelenses testassem produtos em prisioneiros palestinos mantidos em prisões israelenses. Essa alegação, feita pela professora Nadera Shalhoub-Kevorkian e por Mohammad Baraka, chefe do Comitê de Acompanhamento Superior para Árabes em Israel, levanta sérias preocupações éticas. Em 1997, a ex-política israelense Dalia Itzik relatou que mais de 5 mil testes haviam sido realizados nesses prisioneiros.
A recusa das autoridades israelenses em devolver os corpos de vários mártires palestinos, como Fares Baroud, levantou suspeitas de que eles foram submetidos a experimentos médicos. Em 2015, Riyad Mansour, embaixador palestino nas Nações Unidas, acusou as autoridades israelenses de retirar órgãos de corpos palestinos, possivelmente para experimentos médica – uma acusação que continua sendo feita durante o auge do conflito atual.
Israel é obrigado pela 4ª Convenção de Genebra (artigos 50, 55 e 56) a garantir o fornecimento adequado de suprimentos médicos na Palestina. No entanto, um ativista anônimo que falou com o People’s Health Dispatch afirmou que, durante conflitos, as farmacêuticas israelenses reduzem o fornecimento de medicamentos na Cisjordânia para fortalecer as reservas de medicamentos de Israel. Em Gaza, a capacidade de receber medicamentos externos é gravemente afetada pela guerra, o que significa que muitos pacientes não recebem as doses necessárias ou outras formas de cuidados de saúde.
As mesmas empresas farmacêuticas israelenses que exploram a situação nos territórios palestinos ocupados se beneficiam das políticas e incentivos fiscais dos EUA através de múltiplas vias. Ao mesmo tempo, os palestinos não recebem ajuda significativa dos EUA. Na verdade, o apoio dos EUA a essa ocupação insidiosa nega à Palestina a capacidade de prosperar. Até o momento, muito poucos políticos norte-americanos apoiaram um cessar-fogo, muitos permanecem em silêncio e vários políticos de alto perfil prometeram apoio a Israel.
A Teva Pharmaceuticals recebeu milhões de dólares em créditos fiscais e descontos de estados dos EUA ao longo dos anos. Tais subsídios são comuns nos país, uma vez que os governos estaduais fornecem benefícios fiscais para as empresas operarem no seu território. Os subsídios permitiram que a Teva obtivesse lucros maiores. A empresa anteriormente controlada por israelenses, Taro Pharmaceuticals, também se beneficiou das políticas de fabricantes de medicamentos dos EUA.
A influência da indústria farmacêutica se estende à exploração de políticas, como a reformulação de medicamentos sob a Lei de Medicamentos Órfãos [para doenças raras], permitindo que as empresas se beneficiem de créditos fiscais e exclusividade de mercado por sete anos. Isso pode resultar em preços exorbitantes de medicamentos. Por exemplo, antes de ser adquirida pela Sun Pharmaceuticals, a Taro comprou o Daranide, um medicamento para glaucoma, e o reformulou sob a Lei de Medicamentos Órfãos. O Daranide costumava custar cerca de 50 dólares por frasco, mas disparou para mais de 13 mil dólares após a reformulação. Da mesma forma, a Immunity Pharma Ltd, outra farmacêutica israelense, teve seu tratamento para esclerose lateral amiotrófica (ELA) designado como medicamento órfão.
As ações da Big Pharma estabelecem um precedente para outras indústrias conduzirem negócios às custas das vidas palestinas. Enquanto a Palestina estiver ocupada, sua indústria farmacêutica e economia nunca florescerão completamente. Para que a saúde prospere, a Palestina deve ser libertada.
A empresa enfrentou a possibilidade de ser incluída em uma lista negra pela Organização das Nações Unidas por operar em assentamentos ilegais na Cisjordânia. Ativistas palestinos anônimos que trabalham no acesso a medicamentos informaram ao People’s Health Dispatch que a Teva continua sendo um grande fornecedor de medicamentos na Cisjordânia. Outras empresas farmacêuticas que operam na área são a Taro Pharmaceuticals (anteriormente de propriedade israelense, agora de propriedade do fabricante indiano Sun Pharmaceuticals) e a empresa americano-irlandesa Perrigo.
Por outro lado, há seis farmacêuticas palestinas, das quais cinco estão atualmente ativas. Uma está inativa na Faixa de Gaza, devido à guerra e ao bloqueio em curso, o que impede a fabricação de medicamentos. Na Cisjordânia, a Pharmacare, Al-Quds Pharmaceuticals, Birzeit Pharmaceutical Company, Beit-Jala Pharmaceutical Company e Sama Pharmaceuticals conseguem fornecer parte dos medicamentos necessários. Juntas, essas empresas fabricam apenas 50% dos remédios vendidos na Palestina.
O Protocolo de Relações Econômicas, conhecido como Protocolo de Paris, que governa as relações econômicas, dita que Israel controla todas as importações e exportações palestinas por meio de impostos e controle de fronteiras, sujeitos às políticas econômicas israelenses. Essa classificação de “importações” para os medicamentos palestinos destinados a Jerusalém Oriental ocupada restringe sua distribuição a todos os palestinos.
A fabricação de medicamentos palestinos é ainda mais limitada pelo controle de Israel sobre a importação de matérias-primas e equipamentos nos territórios palestinos ocupados. Como resultado, muitos palestinos encontram os medicamentos israelenses a preços mais acessíveis, devido às altas taxas impostas por Israel aos produtos que entram na Cisjordânia. “Portanto, vemos o povo palestino consumir medicamentos israelenses”, disse um especialista palestino em farmacêutica que preferiu permanecer anônimo.
A situação deixa a Faixa de Gaza altamente dependente de organizações humanitárias, como a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) para medicamentos. O bloqueio agrava as infecções resistentes a medicamentos, pois os protocolos para combater a condição não podem ser seguidos consistentemente devido ao fornecimento inconsistente de antibióticos.
A indústria farmacêutica também causa estragos na Palestina por meio de violações ambientais e de direitos humanos. Ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) poluíram a água na Palestina por meio de esgoto não tratado nos territórios ocupados, representando riscos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana – levando à resistência antimicrobiana.
Relatos perturbadores sugerem que o Ministério da Saúde de Israel permitiu que grandes empresas farmacêuticas israelenses testassem produtos em prisioneiros palestinos mantidos em prisões israelenses. Essa alegação, feita pela professora Nadera Shalhoub-Kevorkian e por Mohammad Baraka, chefe do Comitê de Acompanhamento Superior para Árabes em Israel, levanta sérias preocupações éticas. Em 1997, a ex-política israelense Dalia Itzik relatou que mais de 5 mil testes haviam sido realizados nesses prisioneiros.
A recusa das autoridades israelenses em devolver os corpos de vários mártires palestinos, como Fares Baroud, levantou suspeitas de que eles foram submetidos a experimentos médicos. Em 2015, Riyad Mansour, embaixador palestino nas Nações Unidas, acusou as autoridades israelenses de retirar órgãos de corpos palestinos, possivelmente para experimentos médica – uma acusação que continua sendo feita durante o auge do conflito atual.
Israel é obrigado pela 4ª Convenção de Genebra (artigos 50, 55 e 56) a garantir o fornecimento adequado de suprimentos médicos na Palestina. No entanto, um ativista anônimo que falou com o People’s Health Dispatch afirmou que, durante conflitos, as farmacêuticas israelenses reduzem o fornecimento de medicamentos na Cisjordânia para fortalecer as reservas de medicamentos de Israel. Em Gaza, a capacidade de receber medicamentos externos é gravemente afetada pela guerra, o que significa que muitos pacientes não recebem as doses necessárias ou outras formas de cuidados de saúde.
As mesmas empresas farmacêuticas israelenses que exploram a situação nos territórios palestinos ocupados se beneficiam das políticas e incentivos fiscais dos EUA através de múltiplas vias. Ao mesmo tempo, os palestinos não recebem ajuda significativa dos EUA. Na verdade, o apoio dos EUA a essa ocupação insidiosa nega à Palestina a capacidade de prosperar. Até o momento, muito poucos políticos norte-americanos apoiaram um cessar-fogo, muitos permanecem em silêncio e vários políticos de alto perfil prometeram apoio a Israel.
A Teva Pharmaceuticals recebeu milhões de dólares em créditos fiscais e descontos de estados dos EUA ao longo dos anos. Tais subsídios são comuns nos país, uma vez que os governos estaduais fornecem benefícios fiscais para as empresas operarem no seu território. Os subsídios permitiram que a Teva obtivesse lucros maiores. A empresa anteriormente controlada por israelenses, Taro Pharmaceuticals, também se beneficiou das políticas de fabricantes de medicamentos dos EUA.
A influência da indústria farmacêutica se estende à exploração de políticas, como a reformulação de medicamentos sob a Lei de Medicamentos Órfãos [para doenças raras], permitindo que as empresas se beneficiem de créditos fiscais e exclusividade de mercado por sete anos. Isso pode resultar em preços exorbitantes de medicamentos. Por exemplo, antes de ser adquirida pela Sun Pharmaceuticals, a Taro comprou o Daranide, um medicamento para glaucoma, e o reformulou sob a Lei de Medicamentos Órfãos. O Daranide costumava custar cerca de 50 dólares por frasco, mas disparou para mais de 13 mil dólares após a reformulação. Da mesma forma, a Immunity Pharma Ltd, outra farmacêutica israelense, teve seu tratamento para esclerose lateral amiotrófica (ELA) designado como medicamento órfão.
As ações da Big Pharma estabelecem um precedente para outras indústrias conduzirem negócios às custas das vidas palestinas. Enquanto a Palestina estiver ocupada, sua indústria farmacêutica e economia nunca florescerão completamente. Para que a saúde prospere, a Palestina deve ser libertada.
Candice Choo-Kang, no People’s Health Dispatch
Os ombros não suportam mais o mundo
Pouco importa, venha a velhice, que é a velhice?Teus ombros suportam o mundo, e ele não pesa mais que amão de uma criançaCarlos Drummond de Andrade, em “Os Ombros Suportam o Mundo”
Outro dia, num banco debaixo do meu prédio, degustando o prazer e maléfico desbenefício de um cigarro — por incrível que pareça chamado Harmony (?), observava uma só formiga levando sobre seus ombros uma flor maior que ela. Parecia alegre e penosa, mas executava seu trabalho comunitário. Ela carregava nos ombros seu mundo!
E nós, humanos, ao contrário do que diz o verso drummoniano, “os ombros suportam o mundo”, deixamos nesse nosso tempo presente a intrigante pergunta: os homens suportam hoje a realidade mundana, tanto a externa, factual, quanto a interna, psíquica?
As guerras; a revolta da natureza ferida; a política mercenária e perversa; o ódio predominante entre as disputas de poder; as famílias desorientadas sem parâmetro ético; a falta de instituições que não são mais referências de identificação aos jovens; a Justiça partidária e os governos extremistas tanto à direita quanto esquerda; todos estes são fenômenos humanos (será que humanos de fato?) pesados demais para que nossos ombros suportem. Daí o abandono, a angústia e a ausência de acolhimento, gerando patologias do pânico, depressões e ideações suicidas num percentual nunca visto.
As fibras musculares dão lugar a uma “fibromialgia coletiva”. Salienta nosso poeta maior, quando inicia seu poema quando afirma: “Chega um tempo em que não se diz mais: ‘meu Deus…’/Tempo em que não se diz mais: ‘meu amor’/Porque o amor resultou inútil/ E os olhos não choram… /E o coração está seco”.
Contudo, aquela formiguinha que citei no início do texto caminhava tranquila, por amor à comunidade e afeto aos seus familiares. Por uma função social que os homens da pós-modernidade aposentaram. A beleza da flor avermelhada sendo carregada emanava um sentimento de cooperação, de trabalho coletivo, e mais, de uma atitude que caiu de moda — a compaixão!
O “social-ismo” está perdendo cada vez mais para o “narci-sismo” patológico, onde o ter, a ânsia pelo poder, o dominar e o escravizar podem proporcionar momentos de prazer. Prazer esse que, no entanto, termina em desprazer, pois o “social-capitalismo” deixa a marca do vazio existencial e da depressão.
Os ombros não estão mais suportando esse mundo atual. Dia após dia, o corpo está definhando, e a alma, sofrendo. Parece que não se tem mais força para reagir, a não ser os gritos, rebanhos de gente nas ruas, sem força nos músculos da fonação para dizer: “Ai, meu Deus!”.
sábado, 13 de janeiro de 2024
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