quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A extrema direita sequestrou a rebeldia

Há, evidentemente, muitas razões pelas quais pelo menos metade dos eleitores norte-americanos tem preferido Trump nas últimas três eleições. E essas razões provavelmente são muito parecidas com aquelas que levam pelo menos metade dos eleitores brasileiros a continuar optando por candidaturas presidenciais da extrema direita desde 2018.

O que me preocupa, no entanto, é a resistência da esquerda e dos progressistas em se implicar nessa virada eleitoral para a extrema direita, que tem se repetido ao longo desta última década.

"Implicar-se" significa reconhecer que a própria esquerda está errando e que seus erros são parte das razões que alimentam o vertiginoso crescimento do apoio a extremistas, desta vez em conformidade com as regras do jogo da democracia eleitoral.

O que tem sido constante nas promessas de campanha de Trump, no seu discurso de posse, nas suas primeiras ordens executivas e em suas declarações? Duas coisas. Um etnocentrismo sem limites, expresso na retórica radical de colocar os interesses americanos acima de tudo, proteger a segurança nacional, romper com compromissos multilaterais e restaurar o orgulho e a prosperidade do país. E uma promessa direta e sem concessões de desmontar a agenda e a cultura progressista e de esquerda, especialmente no que diz respeito à ideologia e às práticas identitárias.


O que há em comum entre essas duas diretrizes? Uma posição moral baseada na força e na audácia e um líder que se vende como inabalável, sem compaixão, que nunca pede desculpas, recua ou demonstra vulnerabilidade. Esse é um etos vitalista e afirmativo, não há margem para dúvida.

Enquanto isso, para qualquer lado que se olhe, o que os progressistas estão fazendo? Na semana passada, exigiam o desligamento de um sócio de uma editora que se comportou mal com sua mulher há 15 anos. Nesta semana, pedem que uma cantora seja condenada por racismo religioso, proibida de se apresentar e obrigada a pagar uma indenização milionária por ter trocado o nome de Iemanjá pelo de Jesus em uma performance.

Os progressistas estão presos a uma lógica de retaliação e revanche. O que oferecem não é uma nova cultura afirmativa, mas uma ênfase na culpa coletiva e histórica, que reforça a ideia de que o indivíduo está eternamente preso a um passado que o condena. Seu motor é, em grande medida, o ressentimento.

Uma grande parcela da sociedade experimenta o identitarismo como uma moralidade imposta, em que a linguagem deve ser reformulada (novos pronomes, palavras proibidas, vocabulário "neutro") e o passado deve ser reescrito. Direitos considerados básicos passam a ser vistos como privilégios injustificáveis, e o indivíduo deve carregar culpas históricas e sociais que não são diretamente suas.

Quando o politicamente correto é vivido e sentido por milhões de pessoas como uma forma de opressão, a alternativa a ele aparece como libertação. É perfeitamente plausível afirmar que um dos principais atrativos do trumpismo reside na oferta de um vitalismo afirmativo para amplos segmentos da população que se sentem oprimidos por essa mentalidade e suas formas institucionais.

Essa dinâmica se assemelha muito às revoluções morais do passado. Em certo sentido, o trumpismo promete ser para os conservadores o que os movimentos contraculturais dos anos 1960 foram para os progressistas —uma rebelião contra normas repressivas e sufocantes. A diferença é que, agora, a rebelião é contra a esquerda, seus novos dogmas, sua insaciável sede de compensações e cotas.

A extrema direita sequestrou o imaginário da rebeldia, um papel que por muito tempo foi exclusivo da esquerda. Durante o século 20, eram os progressistas que desafiavam normas conservadoras e pregavam a liberdade contra a repressão. Agora, com o politicamente correto transformado na nova ortodoxia cultural, a extrema direita se apresenta como a verdadeira força rebelde.

Isso permite ao trumpismo se vender como um movimento de insubmissos, de gente que não se dobra à patrulha ideológica. E, pelo menos na fachada, isso evoca o "sim à vida" do vitalismo positivo, exalta o impulso, a espontaneidade e o desprezo pelo conformismo social e moral.

Se a esquerda quiser reconquistar o terreno perdido, precisa abandonar a lógica da punição e do ressentimento e oferecer algo mais do que culpa e vigilância moral. Enquanto continuar gritando por mordaças, reparações e humilhações, seguirá entregando à extrema direita o argumento da rebeldia e da liberdade. Mas é claro que continuar pensando que quem vota em Trump é fascista é muito mais consolador.

Ultradireita avança a agenda da 'nova ordem mundial'

Na ocasião da posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, fãs do presidente americano vindos de todas as partes do mundo afluíram a Washington para participar do evento histórico. Entre os presentes, estavam o presidente da Argentina, Javier Milei, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Políticos de ultradireita na oposição, como Nigel Farage, do Reino Unido, assim como representantes do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), também se vangloriaram por estar entre os convidados.

A direita radical aproveitou o evento para fazer contatos com seus pares pelo mundo todo. Na véspera, figuras como o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o ideólogo-mor de Trump, Steve Bannon, um parlamentar da AfD e vários influenciadores também se encontraram para trocar ideias. Um influenciador de direita da Alemanha inclusive se filmou no encontro enquanto se gabava de ter recebido um convite do embaixador de El Salvador. O movimento tem uma sede de conexões nunca vista antes.


O fato de justamente Donald Trump ter se tornado um ímã para ultranacionalistas de todo o mundo com sua agenda "America First" é um fenômeno por si só – sobretudo porque muitos deles tendem a ser ideólogos antiamericanos. Mas essa aliança global de antiglobalistas é um paradoxo apenas à primeira vista.
Contra a imigração e uma sociedade moderna

"O que une essas redes é a rejeição da migração, o nacionalismo, as imagens da família tradicional e o antiglobalismo", sumariza a professora de sociologia Katrine Fangen, da Universidade de Oslo, na Noruega

"O objetivo dessas redes não é simplesmente lutar por mais influência política. Seu objetivo final é um realinhamento da ordem mundial ideológica global – elas estão lutando pelo nacionalismo e pelo conservadorismo social e contra a democracia liberal."

E a direita radical está aprendendo rapidamente através da troca de experiências. As estratégias e os sucessos num país são logo adotados por outros movimentos, analisa o cientista político Thomas Greven, da Universidade Livre de Berlim. Ele considera que a extensão da rede da direita radical é algo historicamente sem precedentes.

As táticas são descritas em seu livro Das internationale Netz der radikalen Rechten (A rede internacional da direita radical): "Por exemplo, a estratégia de Bannon 'flooding the zone with shit' ["inundar a zona com merda"] é muito bem-sucedida internacionalmente. Nela, o oponente político é constantemente bombardeado com provocações, mentiras, novas ideias e hostilidade", explica Greven. "Essa estratégia de comunicação agora é usada em todos os lugares por atores radicais de direita."

A relação de seus seguidores com a democracia é instrumental: eles precisam dela para chegar ao poder. "O foco é dizer: quem quer que tenha sido eleito deve ser capaz de governar sem barreiras", explica Thomas Greven. Seu termo para isso é "democracia hipermajoritária", ou seja, voltada exclusivamente para supostas maiorias.

"Viktor Orbán, por exemplo, levanta-se e diz: 'Fui eleito com um mandato claro para manter a migração fora da Hungria, e não quero que instituições europeias, tribunais, resistência da sociedade civil ou qualquer mídia financiada por estrangeiros me impeçam de governar'".

Contradições e concessões são anátema para eles. "Os protagonistas da direita radical estão incomodados com o fato de que, devido à crescente legalização, burocratização e supranacionalização, há obstáculos demais essa vontade da maioria. E esta deve se impor numa democracia hipermajoritária."

Em sua luta ideológica, a direita radical também tem muito dinheiro à disposição. Os doadores mais famosos vêm dos EUA: Elon Musk e os irmãos Koch, empresários bilionários que apoiam a luta ideológica. O bilionário da tecnologia Musk, aliás, não se envolve apenas com dinheiro, mas é, ele próprio, um protagonista da direita radical. Em sua plataforma X, ele se entusiasma com a AfD na Alemanha, apoia a direita radical no Reino Unido e critica os partidos liberais.

Mas não são apenas os doadores privados que apoiam as redes de direita. Rússia e China, por exemplo, também são constantemente criticadas por alimentar as redes populistas de direita para desestabilizar as sociedades liberais.

Entretanto o financiamento por parte dos inimigos declarados da direita radical também ganhou importância, como no caso das verbas da própria União Europeia e de democracias liberais. Na Alemanha, por exemplo, o odiado Estado liberal é o doador mais importante da AfD: em 2021, mais de 10 milhões de euros, ou cerca de 45% dos recursos do partido, vieram dos cofres do Estado.

A explicação é que, numa democracia partidária, o Estado apoia o trabalho das diferentes siglas – e o apoio financeiro aumenta conforme o crescimento delas. "Isso permite que os partidos radicais de direita ampliem seu alcance. Além disso, o Parlamento Europeu, por exemplo, lhes oferece um espaço mais ou menos automático para a cooperação internacional, incluindo recursos adicionais que protegem suas redes", observa a socióloga Katrine Fangen.

Neste início de 2025, a estratégia das redes radicais de direita parece estar funcionando: Donald Trump foi reeleito nos EUA, e os partidos populistas de direita continuam a crescer na preferência dos eleitores em países como Alemanha, França, Reino Unido e Áustria.

Sua ascensão é irrefreável? O cientista político Thomas Greven diz que não. Muitos partidos radicais de direita se beneficiariam do fato de nunca terem tido que governar sozinhos, e sua situação de oposicionistas é relativamente confortável. Além disso, seu sucesso encobre as diversas fissuras de movimentos cuja união, muitas vezes, é apenas superficial, explica o acadêmico.

"Se a discordância nas bases quanto aos conteúdos se unir à insatisfação entre o eleitorado em geral, o sucesso da ultradireita pode ser novamente revertido", argumenta Greven. Mas há um pré-requisito, enfatiza o politólogo: "que as instituições democráticas funcionem".

A terra é dos pretos

Na terra da Balaiada, quilombola é uma chama que nunca se apaga. No século XIX maranhense, pretos enfrentaram a escravidão e a violência do Império. Hoje, os quilombos de Frechal e Alcântara encaram a ganância do agronegócio e o desprezo do Estado. Nessa fenda do tempo, a pobreza e o racismo tentam dizimar um orgulho negro que, atado à terra, resiste.

O terreno comunitário é parte fundamental da identificação quilombola: o chão é seu espelho, um reflexo que “é definido historicamente, e não biologicamente”. Ele entrelaça a herança cultural com a agricultura, a caça e o extrativismo. Porém o Estado, na maioria das vezes, ignora o acesso à saúde, ao transporte e à educação. Tudo parece incitar o abandono, deixar a terra dos antepassados para viver na periferia de qualquer cidade.

A visão do Estado no século XVIII, até o senso comum de nossos dias, define o quilombo com uma reunião de escravizados fugitivos. Na perspectiva preta, é a formação de uma complexa rede social que cultiva sua cultura e “designa um processo de trabalho autônomo, livre da submissão dos grandes proprietários”.

As aspas do parágrafo anterior são do artigo “As identidades quilombolas contemporâneas: nuances das experiências do Maranhão”, assinado pelo historiador Josenildo de Jesus Pereira na Revista Embornal, da UECE – Universidade Estadual do Ceará. O autor traça o percurso da identidade, a opressão, a resistência e as batalhas pelo direito à terra no estado nordestino. Para ele, os quilombolas “vivem uma situação histórica ambígua e revestida por uma profunda vulnerabilidade”.

Somente na Constituição de 1988 os direitos à propriedade aos remanescentes quilombolas foram garantidos. Essa decisão teve forte impacto no Maranhão. De acordo com o Censo de 2022, há 2.025 quilombos no estado, o que corresponde a 23,99% do total no país – é a unidade da federação com mais comunidades rurais ou urbanas históricas negras.

O historiador narra a história do Quilombo Frechal, também chamado de “terras de pretos” pelos seus moradores, que fica na cidade de Mirinzal, numa área de cerca de 10 mil hectares ocupada desde o século XIX por 183 famílias que aram sobrevivências em seus roçados. No início da década de 1980, um empresário paulista disse que era dono das terras e tentou expulsá-los para produzir guaraná e pimenta do reino.

“Retirar estas terras dos descendentes dos escravos é o mesmo que ditar uma sentença de morte aos homens, mulheres e crianças que nasceram naquele lugar”, afirma. A comunidade sofreu todo tipo de pressão e ameaças durante uma década. Em 1992, após intensa mobilização, com o apoio de diversas entidades, a área foi decretada Reserva Extrativista do Quilombo Frechal.

É conhecido o conflito agrário para a instalação da Base Espacial de Alcântara nos anos 1980. Os militares expulsaram de suas casas mais de 300 famílias de 32 comunidades. Segundo o autor, a empresa Alcântara Cyclone Space abriu estradas, picadas, desmatou árvores centenárias, fez perfurações indevidas e ofereceu o trânsito de veículos pesados sobre áreas de plantio. As organizações sociais entraram na Justiça.

Na época da publicação do artigo, o impasse continuava. Somente em 2024, após 44 anos de , foi assinado um acordo. O governo decidiu que serão destinados às comunidades 78,1 mil hectares, áreas privadas sobrepostas serão desapropriadas e o território será titulado. Resta saber se a decisão será cumprida. O município de Alcântara tem cerca de 18 mil moradores e 84% deles são quilombolas ‒ a maior proporção do país. E já se sabe que, nesse país, nem sempre o direito dos pretos é respeitado.
Marco Miguel

O centro das atenções

Imagino esta crónica sobre o atual presidente dos EUA como fazendo parte de uma montanha de crônicas, recortadas de todos os jornais do mundo, que um pobre diabo da Casa Branca construiu com cola e arame, para poder mostrar ao Trump e dizer: “Veja, Presidente, o mundo inteiro está a falar de si!”

De fato, não lhe interessa se estão a dizer mal ou bem dele: o que interessa é que estão a falar dele. Para abreviar, Trump pede que lhe leiam a crônica mais elogiosa — em que o equiparam a Deus na Terra — e a crônica mais odienta — em que o caracterizam como o grande Satanás.

Atendendo a este pendor quantitativo, em que aquilo que interessa é ser o centro das atenções, é impossível não sonhar com a única campanha que seria devastadora para Trump: era deixarmos todos de falar dele.

O viciado em atenção também é humano: claro que prefere ser amado. Mas, se não puder ser amado — e é preciso ser-se muito santo para poder conceber uma situação extrema em que seria verosímil uma cabeça muito avariada sentir amor por tal criatura —, o viciado em atenção recorre às alternativas: ao medo e ao ódio.


“Ele é maluco” — é esta a percepção que rende mais medo. “Não o provoquem!” é a reação pretendida — e também a justificação de todos os lacaios desde o princípio dos tempos: “Façam o que ele quer, porque senão é pior.”

Mas Trump é um bully, um bully e um exibicionista que depende inteiramente da importância que lhe atribuem. Não tem força interior. Não tem capacidade para a solidão. Não tem uma única fonte de consolação fora o impacto que tem por ser presidente dos EUA.

Deveríamos ter pena dele, desta dependência dele, pior do que qualquer estupefaciente. Tem os dias contados. Tem de aproveitar estes primeiros dias. Está a ver onde é que o barro se cola à parede. A reação inteligente é não ligar.

A reação inteligente é esperar que passe. Passem-lhe a mão pelo pêlo, digam-lhe que sim, mas aproveitem para se fortalecer à custa dele.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Os neorreacionários que vêm das trevas

Talvez muitos já tenham esquecido as utopias que dominaram o ambiente cibernético, no início da segunda década deste século, quando as manifestações na Praça Tahrir, no centro do Cairo, e noutras cidades árabes prenunciavam um crescimento revolucionário das liberdades, nomeado com uma metáfora: a “Primavera Árabe”.

A estimular e a fornecer os instrumentos necessários para a mobilização popular estavam as tecnologias digitais de informação e comunicação que – dizia-se – permitiam o movimento espontâneo e completamente horizontal, sem líderes, sem formações hierárquicas. Por todo o lado entoavam-se hinos a este novo potencial de revolta ou até de revolução. A jornalista americana Heather Brooke, a trabalhar em Inglaterra, consagrou este optimismo político-cibernético num livro de 2011 que assegurava no título: The Revolution Will Be Digitised. À “sociedade em rede”, teorizada por um famoso sociólogo espanhol, Manuel Castells, correspondia a revolta e a sublevação em rede, orientadas pela ideia de partilha recíproca, sem as guras da liderança e sem organização vertical.


A crença de que a tecnologia digital estava a promover a colaboração, a transparência e as reivindicações políticas e sociais de uma esquerda universal encantada com as redes e em desencanto com os partidos propagou-se por todo o lado e deu lugar a numerosos acontecimentos: o Occupy Wall Street, os acampamentos na Puerta del Sol, em Madrid, os movimentos hackers politizados, o Wikileaks, o Anonymous, etc. Quem se lembra ainda da máscara, adotada como símbolo, mimetizando o rosto de um soldado inglês do século XVI, Guy Fawkes, que lutou pela Espanha católica?

Todos esses poderes das redes que tinham dado origem às utopias cibernéticas de uma nova esquerda e passavam atestados de inutilidade aos media tradicionais estão hoje mais activos do que nunca e com bastantes provas dadas. Mas mudaram de sítio: foram apropriados por outros utilizadores, passaram a ser moldados por proprietários que investiram neles outros objetivos e ideais. Agora é a extrema-direita neorreacionária que usa esses poderes com grande sucesso.

A rede sem líderes, vista como uma outra forma de fazer política, instaurando uma esfera pública que levava às últimas consequências aquela que o Iluminismo tinha concebido, caiu nas mãos da extrema-direita. E o ideal da leaderlessness foi substituído por uma liderança que se parece cada vez mais com o comando de um Führer com várias cabeças. Estamos agora confrontados com as afecções e a estética do ciberfascismo. O Sieg Heil (a saudação nazi) de Elon Musk, no dia da investidura de Trump, foi a manifestação ostensiva dos instrumentos afetivos do fascismo que estão a ser restaurados.

Não foi esse o primeiro sinal da ascensão dos neorreacionários. No dia 5 de novembro do ano passado, na noite da segunda vitória de Trump, Elon Musk celebrou o seu triunfo partilhando na sua página da rede X esta mensagem que incitava à reunião das massas que tinham votado pelo MAGA, o Make America Great Again: “Dark MAGA Assemble!”. O dark adensava a mensagem, dava-lhe um tom esotérico (é sabido que o culto do esoterismo está na origem dos fascismos). E, repetindo mais tarde a mensagem, acrescenta-lhe outro elemento: “I’m Dark Gothic MAGA”. O imaginário e a estética dark gothic convoca o chamado Dark Enlightenment (isto é, as “Luzes Obscuras”, o “Iluminismo das Trevas”), proposto como doutrina por um neorreacionário inglês, escritor e blogger, chamado Nick Land.

O Dark Enlightenment é um paradoxo que funciona como um nome irónico: é um “Iluminismo” que visa não o progresso, mas o passado. É uma convergência entre as tecnologias do futuro e os valores do passado, cuja realização implica remontar às fontes míticas do Ocidente. E tudo isto fundado numa interpretação do destino da “raça” branca. A estética dark gothic está virada para uma archè, um mito das origens, muito embora se sirva das técnicas futuristas. O Iluminismo obscuro do neorreacionaríssimo de caráter esotérico e pagão é uma espécie de metapolítica que a extrema-direita de Silicon Valley segrega e aspira a difundir no mundo inteiro.

As manifestações e revoltas por volta de 2010 foram a expressão de um novo ambiente cibernético que acreditava em novas formas de mobilização e de organização das massas. O neorreacionaríssimo a que estamos a assistir dá às massas forma de expressão, mas seguindo o modo de as organizar próprio do fascismo. Já não exatamente como o fascismo histórico, mas com as características de um fascismo tardio, um “late fascism”, para usar uma categoria desenvolvida pelo filósofo italiano Alberto Toscano).

Quem imaginaria, em 2010, ou até mais recentemente, que seria esta a realidade do mundo em que vivemos?

O Neonazismo dos bilionários: quando a desigualdade é virtude

Joshua Haldeman, também conhecido como o avô materno de Elon Musk, esteve envolvido com o autodeclarado Movimento Tecnocrático Canadense durante as décadas de 1930 e 1940. A Technocracy Incorporated propunha que cientistas e engenheiros deveriam ser os governantes e os reais políticos, acreditando que isso também solucionaria todos os problemas sociais.

Os integrantes do movimento adotavam um “X” em seus nomes e utilizavam roupas e veículos cinzas, elementos que remetiam a movimentos fascistas da época. Com a entrada do Canadá na Segunda Guerra Mundial, o grupo foi proibido e classificado como uma ameaça à segurança nacional, o que levou à prisão de Haldeman por suas atividades políticas ilegais.

Após deixar o Canadá, Haldeman mudou-se para a África do Sul, onde manifestou apoio ao regime do Apartheid, declarando que o país representava a “liderança branca do mundo”. Em 2023, Elon Musk foi criticado por denunciar o que chamou de “genocídio branco” na África do Sul, após Julius Malema, líder do partido sul-africano Combatentes da Liberdade Econômica (EFF), entoar a música Kill the Boer em um comício. Malema reagiu chamando Musk de “ignorante” e afirmou que a canção fazia parte da resistência ao Apartheid.

Para título de esclarecimento, a música Kill the Boer (em tradução, Mate o Boer) tem origem no contexto da luta contra o Apartheid na África do Sul. Durante o regime segregacionista, que vigorou oficialmente de 1948 a 1994, muitas músicas de protesto foram compostas como forma de resistência contra a opressão racial. O termo Boer refere-se, historicamente, aos fazendeiros brancos de origem africâner, um grupo que desempenhou papel significativo na governança do Apartheid. Além disso, em novembro de 2023, a Casa Branca repreendeu Musk por divulgar teorias conspiratórias antissemitas em suas redes sociais, considerando as ações do bilionário uma “promoção deplorável” de opinião discriminatória, e logo, antissemitismo.

Em janeiro de 2024, em um ato evidente de mea-culpa, Elon Musk visitou o campo de concentração de Auschwitz acompanhado de personalidades como o comentarista político Ben Shapiro e o sobrevivente do Holocausto Gidon Lev. A visita ocorreu após críticas contundentes sobre como a plataforma X, anteriormente Twitter, lidava com conteúdos antissemitas. Durante a visita, Musk afirmou ter sido “ingênuo” sobre o antissemitismo, mas reiterou que não percebia o preconceito em seus círculos na plataforma.

Não há erro ou engano. Elon Musk pode negar ou ironizar com deboche a interpretação de que seu gesto, durante a posse de Trump, foi uma saudação nazista. Mas a história não mente. A filiação de seus avós ao Partido Nazista Canadense, o privilégio de seu pai com as minas de esmeralda em meio ao Apartheid sul-africano e o patrocínio pessoal de Musk ao partido alemão AfD, que defende a anistia para soldados da SS, não são coincidências isoladas. São fragmentos de um quebra-cabeça que revela uma afinidade ideológica preocupante.

Se há um manifesto por vir é uma doutrina que, tal como o nazismo original, se mascarará sob a ideologia dominante de seu tempo para legitimar o uso da força e a concentração de poder.

Assim como o nazismo hitlerista se autodenominava “nacional-socialista” para se apropriar da linguagem de um movimento de massa que contestava o establishment, o neonazismo contemporâneo pode se apropriar do libertarianismo, utilizando seu apelo à liberdade individual e ao livre mercado para se capilarizar em termos totalitários. Uma doutrina nazista libertária, patrocinada por bilionários, pode parecer, à primeira vista, uma contradição ideológica intrigante. No entanto, não é impossível, dado que ambas as vertentes compartilham elementos autoritários e hierárquicos que podem ser reinterpretados para justificar um modelo de controle elitista sob o véu da “liberdade”. Imagine uma fusão cibernética entre o autoritarismo racial e cultural do nazismo com o individualismo extremo e a desregulamentação promovida pelo libertarianismo. O resultado seria uma distopia tecnocrática conduzida por uma elite midiático-econômica, onde a liberdade é redefinida como dominação privada.

Esse princípio talvez já seja o mais palpável. As redes sociais estão contaminadas pelo ódio ao trabalhador. No discurso que apela ao “nós contra eles”, a ameaça sempre vem de fora: o imigrante, o latino, o bárbaro. É sempre o estrangeiro o culpado por todos os males, injustiças e doenças. O neonazismo “libertário” exalta uma versão deturpada do “mérito”, na qual a riqueza acumulada é vista como a expressão máxima da superioridade humana. A desigualdade não é apenas aceita, mas glorificada como evidência de que os mais ricos possuem direitos e capacidades inatas que os tornam líderes naturais. É um direito divino dos reis reinventados, onde bilionários são vistos como deuses que caminham entre nós, uma nova aristocracia tecnológica com o poder de definir o que é o ser humano.

O segundo passo parece distante, mas logo chegará às manchetes como uma boa nova. As pesquisas de implantes e próteses, como o Neuralink — dispositivo do guarda-chuva de empreendimentos de engenharia social de Musk —, propagandeado como capaz de curar doenças do sistema nervoso e aperfeiçoar habilidades cognitivas, são exemplos de como esse neonazismo libertário abraça a eugenia e o transumanismo. Sob o pretexto de eficiência econômica e inovação, justifica-se a exclusão de grupos “menos produtivos” ou “menos adaptáveis”. Inclusive, a recente política de Zuckeberg ao declarar que demitir 5% dos seus funcionários menos produtivos já demonstra isso.

Em seguida, veremos como os avanços em bioengenharia e inteligência artificial podem facilmente ser utilizados para criar uma elite cibernética, enquanto as massas periféricas são relegadas à própria sorte ou transformadas em mão de obra descartável. A disparidade educacional entre países ricos e pobres já é um prenúncio desse futuro distópico.

Em um texto do início dos anos 2000, “Regras para o Parque Humano” (Regeln für den Menschenpark), o filósofo alemão Peter Sloterdijk aborda a eugenia de maneira provocativa e polêmica, situando-a no contexto de uma crítica mais ampla sobre o papel da cultura e da tecnologia na formação da humanidade. Sloterdijk fala sobre como a humanidade tem buscado domesticar a si mesma ao longo da história, comparando os seres humanos a animais que precisam ser domesticados por meio do “humanismo”, e mais recentemente, pela técnica.

Sloterdijk não defende a eugenia, mas a utiliza como um ponto de partida para refletir sobre os desafios éticos e existenciais que a humanidade enfrenta em uma era de revoluções tecnocientíficas. Ele nos convida a pensar criticamente sobre como essas tecnologias podem ser usadas e quem decide o que significa melhorar a humanidade. Seu trabalho parece, inoportunamente atual, e um alerta sobre os perigos de uma eugenia disfarçada de progresso, bem como um chamado para repensarmos as regras que governam o parque humano em que vivemos.

Ademais, o caminho desse parque é ressignificar por completo o sentido de liberdade, de modo a privatizá-lo inteiramente. Ao invés da liberdade no sentido universal, o que teremos será a “liberdade como serviço”. Seremos todos escravos de incontáveis telas de co-working, cuja riqueza da produção se reverte integralmente para os poderosos, que não têm mais qualquer restrição sobre os nossos corpos. O Estado será desmantelado ou transformado em um instrumento de defesa dos interesses privados, enquanto as liberdades individuais das massas serão subordinadas às vontades dos donos do capital. A livre iniciativa será a justificativa máxima para práticas exploratórias e excludentes, apresentadas como uma escolha voluntária dos indivíduos.

O meio para a legitimação desse totalitarismo 2.0 já pode ser visto. O culto à extrema riqueza transforma o burguês em herói. Tecnologias avançadas de comunicação e redes sociais são utilizadas para disseminar uma ideologia que glorifica o sucesso individual e culpa os fracassados por sua própria situação. A manipulação emocional e simbólica é fundamental para assegurar a adesão popular a uma estrutura de dominação disfarçada de liberdade. A propaganda não apenas vende produtos, mas também ideias, valores e visões de mundo que consolidam o poder da elite. É assim quando vemos hoje o fetichismo de artigos de luxo serem o meio para o esvaziamento da dignidade humana.

Jean Baudrillard descreve a hiper-realidade como um estágio em que a distinção entre o real e o simulado desaparece. Nesse estágio, as imagens, os signos e as narrativas midiáticas não apenas refletem a realidade, mas a produzem. A propaganda e a manipulação cultural funcionam justamente nesse espaço, onde a realidade é construída por meio de simulações que moldam percepções, desejos e comportamentos. Por exemplo, a imagem de um bilionário como Elon Musk não é apenas a representação de um indivíduo, mas um simulacro que encarna valores como inovação, sucesso e poder. Essa imagem, repetida incessantemente nas mídias, torna-se mais real do que o próprio Musk, influenciando como as pessoas veem não apenas ele, mas também o sucesso, a riqueza e o mérito.

O último passo será, após a extinção de todos os serviços públicos, o fim também da segurança pública e política real de Estado. Em vez de um exército estatal, haverá a ascensão de forças militares e milícias privatizadas, compostas por mercenários pagos pelos bilionários. Essas forças serão usadas para proteger os interesses econômicos globais da elite, enquanto conflitos sociais internos serão tratados como ameaças à liberdade individual dos ricos. A violência será justificada como uma forma de proteger o livre mercado e a “ordem natural” das coisas. Se tal passo pode parecer desarrazoado, custa lembrar que Putin, outro líder populista e apoiador inesperado de Trump, já usa dessa estratégia de terceirização do exército, por meio da contratação de mercenários, como os da milícia Wagner (um nome sugestivo com a alusão ao poeta que era adorado por Hitler), na guerra contra a Ucrânia.

Alexandr Duguin, filósofo russo tido como o guru de Putin, embora não defenda explicitamente o militarismo privatizado, em suas ideias sobre a fragmentação do poder global e o declínio do Estado-nação tradicional, elabora como que uma teoria política que está por vir, deve dar conta de um cenário onde atores não estatais (como corporações ou milícias) ganham mais influência. Em seu livro A quarta teoria política, ele defende um multipolarismo imperialista, onde várias civilizações e potências regionais competem pelo poder. Nesse contexto, é possível imaginar que forças militares privadas ou semiprivadas possam surgir não apenas como atores importantes, mas facções determinantes, ainda quando invisíveis, em regiões onde o Estado é fraco ou falido.

O que estamos testemunhando é a emergência de uma nova forma de totalitarismo, que se apropria da linguagem da liberdade para justificar a dominação. Assim como a frase escrita no portão de entrada do campo de concentração de Auschwitz I, na Polônia, “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta), o culto ao trabalho e à democratização da fortuna é só um ardil para a cooptação do alienado. Esse projeto não é apenas uma ameaça teórica; ele já está em andamento, moldando as estruturas econômicas, políticas e culturais de nossa sociedade. A fusão entre o autoritarismo racial do nazismo e o individualismo extremo do libertarianismo é uma distopia encarnada onde a liberdade é redefinida como ativo, a desigualdade é celebrada como graça e a humanidade é dividida entre uma elite “melhorada” e uma massa descartável.

Mediocridade


A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.

Oscar Wilde

YMCA, de hino gay à masculinidade trumpista

Reza a história que, no final da década de 70, uma revista terá publicado um anúncio singelo: “Procura-se tipos macho: devem dançar e ter bigode”. Os Village People eram, até então, um projeto de sucesso marginal liderado por um produtor, Jacques Morali, e um vocalista, Victor Willis. O propósito era alargar a formação com algumas personagens alinhadas com a cena disco que então tomava conta da noite gay nova-iorquina. O resultado do casting tornou-se um sucesso de massas: a acompanhar Willis, o polícia, passaríamos a ter um bombeiro, um índio, um canalizador, um motard, um servente e um cowboy.

Com uma estética saída das ilustrações de Tom of Finland, o novo elenco da banda não escondia ao que vinha, remetendo para um cruzamento explícito entre estereótipos da identidade masculina norte-americana e a sua transmutação em fantasias homoeróticas. A ausência de subtileza visual, acompanhada pelo denominador mínimo do disco sound, catapultou o projeto para as tabelas de vendas e para uma certa ubiquidade mediática. O segundo álbum, sintomaticamente intitulado Macho Man e, depois, em particular, YMCA, com a sua coreografia criada espontaneamente numa apresentação televisiva, persegue-nos até hoje.


Talvez o termo perseguição seja agora ainda mais apropriado: YMCA, antes apenas uma manifestação que trazia à superfície, com ligeireza doméstica e pueril, um universo subterrâneo que habitava Greenwich Village (zona franca da cultura gay, então na ressaca dos motins de Stonewall), transformou-se, pela mão de Trump, em hino do movimento MAGA.

Há, de fato, um estranho caminho que vai dos Village People à atual coligação de interesses contraditórios entre oligarcas do tecnofeudalismo, vestidos sombriamente, e tradicionalistas neoreacionários, nascidos das cinzas do Tea Party. Mas poucos momentos tornam tão visível a força dessa coligação como quando, num dos eventos da longa tomada de posse, Trump, em palco com uma versão reformada da banda, arrisca uns tímidos movimentos de dança, ao som de YMCA, perante uma plateia de anglosaxónicos brancos e protestantes.

Podemos tomar esta apropriação de um hino gay apenas como um momento de divertimento, desprovido de sentido político-cultural. Temo que não seja assim. Logo a abrir a canção surge um apelo aos “jovens rapazes” para “encontrarem muitas formas de se divertirem”. Ora, como António Guerreiro recordou na semana passada no PÚBLICO, há todo um imaginário preenchido por fantasias de dominação masculina que ajuda a compreender a nova modalidade de poder político-financeiro, inscrita, uma vez mais, nos corpos e nos afetos – e, acrescento, no divertimento. Não estamos face a uma novidade histórica, basta recuperar as descrições particularmente gráficas de Jonathan Littell em As Benevolentes.

Para compreendermos a sinistralidade moral a que temos assistido, é incontornável refletir sobre a preocupação MAGA com a masculinidade de balneário e a ideia de que os homens necessitam de competição e de alguma dose de violência para não se sentirem perdidos. Mark Zuckerberg, em registo pós-choninhas, recorda isso mesmo num curto vídeo em que, enquanto alinha pela nova ortodoxia libertária na gestão de conteúdos online, se rebela contra a falta de “energia masculina” nas redes sociais e o consequente risco de “castração”. Paradoxalmente, na sua duplicidade sexual e comicidade, os corpos másculos dos Village People ajudam a cimentar hipocritamente a coligação que sustenta Trump, que tem no ressentimento masculino o seu elo. Quem poderia antecipar?

O que dizem os ventos do Hemisfério Norte

A coalizão das big techs com o governo Trump é um tema inesgotável. Estava precisamente pensando nelas quando estourou o caso da DeepSeek, startup chinesa que fez as empresas de tecnologia dos Estados Unidos e da Europa perderem US$ 1 trilhão em valor de mercado porque demonstrou que pode fazer mais na inteligência artificial com menos dinheiro.

A empresa chinesa tem seus pontos vulneráveis, e um deles é não responder a questões políticas proibidas pelo Partido Comunista. Mas não deixa de ser um incentivo para os que têm condições de buscar um caminho autônomo.

Quando aconteceu esse pequeno terremoto no Vale do Silício, eu refletia sobre uma frase enigmática de Elon Musk na posse de Donald Trump. Ele disse que a conquista de Marte salvaria a civilização. Já mencionei o desejo de Trump pela Groenlândia e cheguei à conclusão de que talvez ele não seja tão negacionista assim. Musk, que produz carros elétricos, conta com a colonização do espaço como alternativa ao nosso planeta.

É muito provável que a visão dominante entre as big techs conte com a futura impossibilidade da vida na Terra e pense uma fuga para a frente em duas direções: a colonização do espaço ou um avanço tecnológico que reformule completamente o planeta e o torne habitável, apesar de toda a destruição.

Em ambos os casos, os ecologistas que propõem uma revisão da forma de consumir e produzir são vistos como nostálgicos retrógrados. Há até intelectuais que consideram a ecologia o novo ópio do povo.

Nessa formulação meio science fiction, não só o mundo será remodelado pela tecnologia. Ela também ampliará a vida dos seres humanos e mais adiante os imortalizará, codificando a consciência em aplicativos para uma eventual reencarnação em corpos sintéticos.

O sonho de recriar um planeta por meio da tecnologia já foi mencionado por John Gray como uma espécie de solidão radical. Um exemplo do que nos espera pode ser encontrado no livro de Rachel Carson “Primavera silenciosa”. Inspirador de muitos ambientalistas, fala da desaparição dos pássaros numa área contaminada por agrotóxicos.

Claro que a tecnologia pode reproduzir o canto dos pássaros, o barulho da chuva e outros artifícios que já existem nos nossos telefones. Mas alguns problemas decorrem dessa fuga adiante, a produção desenfreada que esses teóricos veem não só como destino humano, mas também como base da felicidade.

Um deles é o tempo. A multiplicação de eventos extremos, o crescente número de refugiados do clima, os problemas de saúde e alimentação que decorrem do aquecimento — tudo isso não pode esperar uma utopia duvidosa do sonho de consumo ilimitado. Estou apenas alinhando a existência dessas posições para acentuar que nem sempre estamos lidando com negacionistas do tipo Jair Bolsonaro.

Muito possivelmente, os ventos do Norte nos trazem uma nova concepção a discutir, segundo a qual o aquecimento existe, mas é preciso produzir e esgotar os recursos planetários porque a tecnologia encontrará resposta, e uma fração da humanidade sobreviverá não só para desfrutar esse futuro solitário ou, como alternativa, se mudar para Marte.

É importante registrar que um setor da esquerda também adota uma teoria da aceleração. Ele combate os ambientalistas com o argumento de que é preciso acelerar o capitalismo em busca de uma alternativa. Frear a desgovernada máquina do crescimento econômico apenas nos prenderia ao passado, fantasioso e injusto.

Minha intuição a partir da frase de Musk e do interesse de Trump pela Groenlândia é que estamos diante de políticas que, de certa forma, foram antecipadas pela teoria, sobretudo nos Estados Unidos.
Fernando Gabeira
*
Uma análise brilhante dessas correntes de pensamento encontra-se no livro dos brasileiros Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro “Há mundo por vir?”

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia


 

Identidades mortas a caminho

A maior preocupação da plutocracia que acaba de chegar ao poder com Trump é hoje a imortalidade. Jeff Bezos, da Amazon, pesquisa o elixir da juventude, enquanto Sergey Brin e Larry Page, donos da Google, concentram-se numa startup ("Calico") cujo objetivo é "matar a morte". Mas há colaterais de menor porte: movidos por achados arqueológicos, cientistas vêm se declarando prontos para ressuscitar animais extintos, do mamute ao pássaro dodô. O DNA das fezes e do vômito de dinossauros é o caminho técnico.

O dodô existia até o século 17 nas ilhas Maurício, no Índico, desaparecendo 100 anos após a chegada dos humanos. Anacronismo vivo, semelhante a um pombo de um metro de altura, tinha asas, mas não voava, não tinha medo de humanos, nem sequer de marinheiros esfomeados. Foi caçado até o último exemplar, mas ficou como símbolo da indiferença suicida. Ressuscitar o extinto é só uma variável dos projetos de extinção da morte.


O documentário "Eternal you" mostra a IA simulando conversas de vivos com mortos. Mas o passado projeta-se também para iluminar aspectos obscuros de identidades culturais presentes. É que, em matéria de evolução, não existe escala única como padrão hierárquico para os diversos modos de existência. Técnicas e objetos sempre foram vetores de energia em culturas tradicionais, como entre os europeus, com o diferencial do grau de desenvolvimento das forças produtivas. O que era sagrado e festivo perdeu a vez para o mercantilismo.

É preciso, assim, distinguir formas holísticas de vida nas sociedades tradicionais das formas mortas que rondam a atualidade. Hoje se assiste a uma mutação radical na espécie humana, em que são convergentes criação orgânica e criação artificial: tecnologia não é mais um outro do humano, é também o seu constituinte. São metamorfoses que ainda não se medem cientificamente, mas podem ser sentidas no cotidiano.

Ou assustadoras sob formas caóticas. Uma delas é a obsessão com identidades mortas, tematizadas no imaginário como mortos-vivos, infecciosos e mortíferos. Fantasias do medo radical, que é o medo da morte. E a solução fantasiosa para a ameaça é sempre o emprego de armas, cada vez mais criativas e poderosas. Coisa natural para os americanos, cuja cidadania está ancorada no passado miliciano da independência e da guerra civil. Arma virou agora fonte de identidade. No Natal, pais deram pistolas verdadeiras de presente a crianças de seis anos.

Esse fascínio atemorizado pela morte decorre de uma alergia à vida, por um mal-estar civilizatório insuperável, já que a prosperidade predatória é outra face da morte do planeta. A Constituição americana consagra o direito individual de busca da felicidade, mas o país é sem alegria real, pois alegria ensina que felicidade é comunhão de vida. Importam apenas negócios e, agora, esperança de futuro em Marte com o homem imortal, o cyborg, pesquisado por Musk. Vale perguntar o que nós mortais temos a ver com isso. Nada, responderia o bom senso. Mas a ultradireita sempre encontrará nas redes o vômito de algum dinossauro político para o DNA da mistificação. Por isso é bom ter em mente que, no regime "imperial libertário" tramado pelos plutocratas, democracia é o pássaro dodô da vez.

Por que a startup de Sam Altman distribuiu R$ 250 milhões no Brasil?

Na periferia de São Paulo espalhou-se pelo boca a boca que qualquer um poderia “vender sua íris” por R$ 500 nas lojas de um aplicativo de celular chamado World. A notícia logo chegou às autoridades e pautou a imprensa. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados pediu esclarecimentos à empresa. A imprensa cobriu a história com certa dificuldade técnica e uma saudável dose de desconfiança. Afinal, porque uma empresa americana, fundada por Sam Altman, do ChatGPT, pagaria ao brasileiro que quiser escanear a sua íris?

A empresa em questão se chama Tools for Humanity (Ferramentas para a Humanidade) e oferece o equivalente a R$ 500 em criptomoedas a quem fizer a verificação de humanidade única por meio do World.

A Tools for Humanity criou um protocolo de prova de humanidade única por meio do escaneamento da íris humana, traço biométrico mais preciso que a impressão digital. O protocolo certifica que determinada pessoa é um ser humano único — e não um robô de inteligência artificial. A empresa argumenta que, entre outros potenciais usos, isso poderia ser útil caso plataformas como X adotassem o sistema, marcando contas verificadas como operadas por humanos, em contraste com contas automatizadas.


O protocolo implementa uma série de medidas de segurança para proteger esse dado biométrico sensível. Primeiro, o usuário cria uma conta num aplicativo móvel. Em seguida, deve se dirigir a um ponto de certificação para escanear sua íris usando um dispositivo futurista chamado Orb. Em São Paulo, há 54 lojas onde o escaneamento pode ser agendado.

No momento do escaneamento, a íris é convertida numa sequência, um código único que, segundo a Tools for Humanity, não é armazenado nem no Orb nem em servidores. O que é armazenado é uma chave derivada, produzida com técnicas criptográficas de mão única. Ela funciona como um identificador único, distinto do sequenciamento da íris. Se a mesma pessoa tentar se registrar novamente, o sistema gerará uma chave semelhante, permitindo detectar e impedir cadastros duplicados. No entanto, como essas técnicas criptográficas modificam o código e operam apenas em uma direção, não é possível reconstruir o sequenciamento original da íris a partir da chave derivada. Isso garante que os dados biométricos do usuário permaneçam protegidos. É um sistema engenhoso e, até onde posso ver, seguro.

A controvérsia nas ruas e na imprensa se concentrou na privacidade dos usuários, seja pelo medo popular de “vender a íris”, seja por preocupações mais técnicas das autoridades de dados a respeito da robustez do sistema de proteção à privacidade. Embora a proteção de dados biométricos mereça preocupação, a inquietação deveria estar voltada aos propósitos obscuros: por que um projeto com aplicações potenciais tão vagas escalou com velocidade tão rápida e recebeu tamanho investimento?

Como incentivo à adesão, quem fizer a prova de humanidade receberá cerca de R$ 500 na criptomoeda do projeto, a World (a conversão para reais é simples e pode ser feita alguns dias depois do escaneamento). Só no Brasil foram certificadas cerca de 500 mil pessoas e, portanto, distribuídos R$ 250 milhões. No mundo todo, foram certificadas quase 11 milhões. Significa que foram distribuídos centenas de milhões de dólares em criptomoedas e outros prêmios. Não foi só em São Paulo que a expansão da certificação a partir de populações pobres gerou apreensão. Aconteceu o mesmo na Cidade do México, em Buenos Aires e em países africanos, onde as recompensas eram de menor valor.

Os objetivos declarados do projeto são bastante vagos, e esses propósitos nebulosos, combinados com o altíssimo investimento, despertam suspeitas justificadas. Em algumas entrevistas, um dos fundadores do projeto, Sam Altman, CEO da OpenAI (empresa que faz o ChatGPT), sugere que a Tools for Humanity está criando o que pode ser a infraestrutura tecnológica da Renda Básica Universal — uma política de transferência de renda, como nosso Bolsa Família, mas sem qualquer tipo de condicionante, para todos os cidadãos. No Brasil, a ideia é historicamente defendida por Eduardo Suplicy. Altman é um entusiasta da Renda Básica Universal e acredita que sua adoção política será necessária para mitigar a destruição de empregos que a inteligência artificial acarretará. Com o protocolo da Tools for Humanity, haveria uma identificação de cada ser humano e uma carteira digital para a qual transferir os valores dessa renda básica.

Pode ser que o objetivo da Tools for Humanity seja nobre e altruísta como seu nome — mas, se é assim, por que a falta de transparência? Pode ser também que busque apenas difundir o uso da criptomoeda do projeto ou tenha outro propósito que não se pode ainda ver. Seja como for, expandir a adesão a um protocolo por meio de uma campanha que explora a vulnerabilidade econômica dos pobres em países em desenvolvimento certamente não parece ético.
Pablo Ortellado

Um olho em Trump, outro na própria casa

O início do governo Trump causa incerteza, nervosismo e perplexidade no mundo. Não dá para saber o que será pirotecnia e o que será efetivamente implementado, mas há boas chances de os demais países terem de adaptar seus planos de voo à nova política americana. O Brasil poderá ser atingido também, embora não se saiba em que medida. De todo modo, Lula inevitavelmente terá de governar nos próximos dois anos de olho nas ações do trumpismo. Só que terá de adotar essa postura sem perder de vista que a lição de casa não pode ser esquecida em meio à turbulência externa.

Um bordão resume a estratégia que deveria ser adotada pelo governo brasileiro: um olho em Trump, outro na própria casa. Parece óbvio, porém, a avalanche de ameaças, factoides, ações cinematográficas, violência explícita e propostas de acordo que Trump fará ao mundo nos próximos meses será enorme. Isso tenderá a nublar a visão dos governantes pelo mundo, o que pode ocorrer igualmente com o presidente brasileiro.


Claro que será necessário estar muito atento, como nunca nos últimos 50 anos, à política externa americana. Será difícil se esconder completamente dos tentáculos de Trump. Não obstante, é preciso manter-se firme numa agenda mais ampla e profunda, de médio e longo prazo, relativa ao Brasil. É importante ressaltar isso num momento em que o governo Lula se perde em questões e debates de curto alcance, com duvidosos efeitos sobre o país e mesmo sobre o futuro político em 2026.

O fato é que a junção do efeito Trump com problemas de popularidade imediatos está tornando o governo Lula refém do curto prazo, das respostas rápidas a todos os problemas. É evidente que neste mundo do fast-food, tudo é visto como algo urgente e que deve ser solucionado instantaneamente.

As redes sociais acentuam isso, e o caso do Pix revelou como os eventos e a interpretação sobre eles podem ganhar uma amplitude e velocidade nunca vista antes por outras formas de civilização. Ao analisar o capitalismo do século XIX, Marx disse: tudo que é sólido desmancha no ar. Parece uma boa profecia, mas ele não tinha a menor ideia de como esse fenômeno seria muito mais impressionante no século XXI.

Para não ficar preso às falsas respostas de curto prazo, o governo Lula precisa ser mais estratégico e menos figadal. Quatro questões são essenciais para mudar esse padrão errático. A primeira é saber antecipar-se aos problemas, ter uma visão mais preventiva do que curativa. Isso envolve duas coisas. De um lado, acompanhar melhor a sociedade e os seus vários estratos, para entender o que aflige a sociedade.

O tema da “taxação do Pix” é falado por bolsonaristas nas redes sociais desde o início de 2023. Estavam esperando só uma oportunidade para cravar essa marca, mesmo que falsa, na gestão lulista. Não é possível que os principais decisores do Palácio do Planalto não estivessem acompanhando essa discussão.

Não basta apenas acompanhar a movimentação das opiniões e angústias da população. Para se ter um governado orientado pela prevenção, é fundamental ter um plano de voo até 2026, com uma lista das principais marcas e políticas que o governo quer implementar, que dialogue com um diagnóstico dos principais problemas do país. Dito de outra maneira, o governo Lula precisa saber quais são os problemas mais importantes do país e como ele quer combater, fazendo uma ponte disso com a visão da sociedade.

Aparentemente, o governo tem uma proposta muito fragmentada e nem sempre atualizada de políticas públicas frente aos problemas brasileiros desta terceira década do século XXI. Neste sentido, o diálogo com a sociedade e a melhor comunicação com ela são essenciais, todavia são insuficientes se não houver uma linha clara e coordenada de respostas para resolver os principais desafios do país.

Ao governo preventivo, baseado no diálogo entre as preocupações da sociedade com uma proposta consistente de políticas públicas, deve-se juntar um governo coordenado. Obviamente que é difícil coordenar um gabinete com uma coalizão tão extensa e heterogênea, com representação do PC do B ao União Brasil. Não há como escapar de alianças grandes e díspares para governar a nação.

Outros caminhos levariam a crises ou projetos autoritários. E se parece ruim esse multipartidarismo centrífugo, pode ser pior quando não há espaço para a negociação e só impera o veto e a polarização - o que tem acontecido em outras democracias pelo mundo.

A existência de tais dificuldades governativas torna ainda mais necessária a coordenação. Em problemas mais agudos, o governo deve ter uma única voz para cada questão, e que resulte de uma combinação prévia sobre o que deve ser dito e quem deve falar. Parece disfuncional ter um porta-voz único de tudo, pois questões diversas precisam ter pessoas diferentes liderando a resposta governamental.

Por exemplo, as iniciativas recentes de propor medidas de combate à inflação temporária dos alimentos envolveu falas desencontradas e propostas lançadas sem estarem maduras. A pessoa certa para liderar essa frente seria o ministro da Fazenda, que de forma entrosada com o restante do ministério decidiria quando, como e o que falar.

Somado ao governo preventivo e coordenado, deve-se ter um governo que saiba comunicar-se com os diferentes públicos. Daí que há problemas de comunicação com vários estratos da população e, de forma diversa, problemas de comunicação com os congressistas, com o mercado e com a mídia, tanto a tradicional como a da internet.

Há mais de uma estratégia comunicativa e é preciso ter uma diretriz para cada uma delas. Não é o caso simplesmente de se ter um super-homem para resolver todos esses distintos desafios, embora seja bom ter um bom chefe da comunicação. O que falta é um padrão para lidar com tais questões, pois do contrário tudo vira incêndio de curto prazo no campo comunicacional.

Antecipar-se, ser coordenado e ter um padrão comunicativo são três elementos que desembocam num último, o cerne daquilo que pode tirar o governo Lula da dinâmica equivocada do curto-prazismo: ter uma lição de casa clara e buscar sua resolução. Em outras palavras, é preciso definir quais são as questões prioritárias que devem ser a bússola até 2026, seja para implementação pelo Executivo, seja para aprovação no Congresso Nacional.

A noção de lição de casa tem um outro sentido importante: o aprendizado governamental como forma de melhoria das políticas necessárias ao país e à população passa por tais tarefas, de modo que não se pode perder muito tempo e recursos com outros temas e factoides. Esse ponto é importante porque o papel da oposição, especialmente a atual, que é mestre em criar agendas extemporâneas, é dispersar o governo, fazer com que ele fique tonto e corra para o lado errado. Neste momento, os bolsonaristas, mesmo não tendo uma visão estratégica de país, têm sido bem-sucedidos em desnortear a situação.

A resolução dos problemas internos do país será, em alguma medida, afetada pela política externa de Trump. Mas é preciso também aqui não cair na armadilha das respostas rápidas, fáceis e erradas. O governo Lula terá de ter muita paciência, parcimônia, diálogo amplo, boa comunicação e foco para não cair nas cascas de banana trumpistas. Mesmo com todos esses cuidados, e contando com uma diplomacia de excelência, há boas chances de que a política externa americana exija do Brasil adaptações de rota ou a busca de aliados para produzir uma resposta mais ampla contra o isolacionismo dos EUA.

A política externa agressiva e turbulenta de Trump será, na verdade, o maior teste à tradição diplomática brasileira e ao modelo lulista de política externa - altivo e ativo, como definem seus próceres. Está em jogo a capacidade de conversar com mais gente, de evitar conflitos e brigas o máximo possível, de buscar algum tipo de acordo com os EUA, para evitar o jogo de soma-zero, mesmo que não seja um ganha-ganha igualitário às duas partes. Provavelmente, o momento mais difícil será neste ano, porque em 2026 Trump terá a eleição legislativa interna, sempre difícil e com agenda mais local.

Nestas situações em que as ações de Trump forem mais duras e impactantes, e isso acontecerá não só com o Brasil, será mais fácil responder bem se o governo estiver seguindo as quatro máximas da política interna expostas anteriormente: um governo preventivo, coordenado, com padrão comunicativo e seguindo sua lição de casa a despeito das intempéries de curto prazo.

Independentemente do que faça Trump, o Brasil tem lições de casa na educação, na saúde, na segurança, na política econômica, no combate às desigualdades e pobreza, na infraestrutura e no meio ambiente que continuarão relevantes em si. Elas vão depender basicamente da qualidade da gestão e governança internas.

Neste sentido, vale citar aqui o recém-lançado “Anuário estadual de mudanças climáticas”, fruto de uma ampla parceria da sociedade civil e de governos subnacionais, que mostra a importância e a situação desse tema, apontando como resolvê-lo com formas governativas mais adequadas aos desafios do século XXI. Eis aqui uma lição de casa que o governo Lula não pode deixar de fazer, mesmo que os EUA tenham saído do Acordo de Paris. Afinal, nosso futuro como nação e planeta vai além de tudo que possa vir do trumpismo.

O outro Brasil que vem aí

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.
Gilberto Freyre

A inutilidade dos muros

A pequena cidade de Aguas Blancas, na província de Salta, Argentina, fronteira com a Bolívia, colocou a América do Sul no mapa das divisões tribais quando decidiu construir um muro para marcar sua fronteira com o vizinho naquela região andina. Explico melhor: o mundo vem sendo dividido por muros desde priscas eras, com objetivo de cada grupo, ou tribo, preservar tradições, comércio e vantagens comparativas em relação aos vizinhos.

A iniciativa dos vizinhos parece ridícula, porque a construção é, na realidade, uma cerca de arame farpado com 200 metros de comprimento, numa área muito maior que pode ser violada a pé para quem quiser caminhar um pouco mais. Vale, contudo, como registro de um tempo de impossibilidade de convivência pacífica com quem pensa ou age diferente. Ou simplesmente é mais pobre. Trata-se de mensagem de apoio do mundo subdesenvolvido para o grande irmão Donald Trump.
Um dos mais antigos muros de que se têm notícia é a Muralha da China, com 21 mil quilômetros. É a metade da circunferência da Terra. Levou mais de um século para ser concluído. Seu objetivo era defender as dinastias chinesas de invasões dos mongóis. Não deu certo. Se colocada nos Estados Unidos, a Muralha da China poderia fazer três linhas paralelas de muro ligando a costa leste à oeste. Mas os norte-americanos já construíram um muro para chamar de seu, que os separa dos mexicanos e dos latino-americanos em geral no sul do Texas, na fronteira com Tijuana.

Eles só querem latinos para fazer a colheita de frutas na Flórida e na Califórnia, limpar residências, cortar grama ou cuidar de crianças. Qualquer ameaça além disso, termina com pés e mãos amarrados por algemas em avião militar que despeja o intruso no porto de origem. É a democracia do grande irmão, o que tem a força. A estupidez do novo presidente dos Estados Unidos não é original.

O muro na fronteira de Israel com a Cisjordânia, ou aquele que cerca e envolve Gaza, está entre os mais intimidadores do mundo. Ele é assustador não apenas por seu tamanho, pelo concreto e aço utilizados, mas pelo que representa. São povos condenados à separação por incompetência da diplomacia dos homens. Interesses subalternos, egoísmo, religiosidade extremada ou nacionalismo pouco inteligente justificam as cercas. A recente guerra demonstra que os muros servem apenas para serem ultrapassados. Pelos dois lados. Não separam nada. Os dois lados perderam soldados, civis, crianças, velhos e esperanças. A paz é precária, no aguardo, apenas, de um novo conflito.

Atravessar o Muro de Berlim, quando dividia a antiga capital alemã, que, por sua vez, ficava integralmente dentro do setor soviético, não era agradável. Soldados nada amistosos verificavam documentos, enquanto outro grupo obrigava a trocar dinheiro em um câmbio artificial caríssimo. Eram duas Alemanhas, separadas por um formidável muro de concreto, com mais de 180 quilômetros de comprimento.

Começou a ser construído em agosto de 1961, quando o Exército da Alemanha Oriental iniciou o cerco de Berlim. As autoridades, de um lado, chamaram o muro de Proteção Antifascista. Do outro lado, ganhou o apelido de Muro da Vergonha. Em menos de uma década, ele foi concluído, com torres de vigia, cercas elétricas, cães, campos de tiro, e centenas de guardas armados.

No lado oriental, as pessoas eram proibidas de se aproximar dele, mas do outro lado era possível percorrer as ruas que terminavam na parede de concreto. Em alguns trechos, havia mensagens como "pule o muro e ingresse no partido". Ou "atenção: área de treinamento de salto em altura da Alemanha Oriental." O objetivo do muro em Berlim era impedir que as pessoas deixassem o paraíso comunista. O muro nos Estados Unidos é projetado para impedir que pobres desfrutem do paraíso capitalista.

Quando Gorbachev lançou suas ideias de "perestroika", os controles se afrouxaram. No final da primavera de 1989, os alemães começaram a passar férias na Hungria, que pouco depois abriu sua fronteira com a Áustria. Daí por diante, a corrente humana aumentou e a pressão popular derrubou o muro no final daquele ano. O povo desmanchou o concreto e cantou hinos de independência. Um grupo de jovens viajou num pequeno e barulhento Trabant até Paris, onde foi recepcionado pelos franceses, engasgando, na avenida Champ-Élysées. Uma farra.

Há outros exemplos de muros na África, na Ásia e até em cidades antigas que eram usualmente muradas. Os portugueses levaram um susto ao chegar ao Benim, 1485, e encontrar uma cidade murada maior que Lisboa, com muros de 20 metros de altura e fossos excepcionalmente profundos, todos vigiados. Claro que ao homem, chamado civilizado, branco, coube a tarefa de destruir o que havia sido a conquista civilizatória daquele povo. Os muros não servem para nada, nem para conquistadores, nem para conquistados.
André Gustavo Stumpf

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Trump 2 trata mais de 'Deus, pátria e família', menos comércio e dólar

Donald Trump vai impor imposto de importação extra sobre produtos de Canadá e México, a partir de sábado, como prometeu? "Talvez sim, talvez não", disse o presidente americano nesta quinta. O motivo da punição imperial seriam imigrantes e fentanil. Nada a ver estritamente com relações comerciais.

Trump ainda pode arruinar o que resta de ordem econômica mundial e dar tiros na própria testa dos EUA. Mas sua prioridade até agora tem sido a produção e exportação de ignorância escandalosa e apelos aos sentimentos mais baixos dos americanos e de hordas extremistas pelo mundo, como aqui no Brasil.


Trump não perde oportunidade de atacar planos de preservação ou de reparação de direitos de minorias violentadas de alguma maneira. Além de inflação, esse foi um tema principal da campanha. Mesmo antes de Trump 2, nos EUA havia reação contra essas ideias e políticas, não apenas na grande empresa (há montante de críticas até na esquerda, obviamente em outros termos). Até onde vai esse programa ideológico e quais consequências práticas? Seria apenas diversão inicial, até por fazer mais efeito, sem muito trabalho?

Trump vai destroçar agências de governo também por meio da caça a gente dada a progressismos? Em dois dias, agrediu a Agência Federal de Aviação e o Banco Central. Quando o império começa a solapar até suas burocracias funcionais e essenciais, a coisa parece mais perigosa.

Uma das políticas mais visíveis e incisivas de Trump têm sido o programa de incentivo à ignorância e de aterrorizar imigrantes pobres e funcionários públicos, neste caso com objetivo de erradicar princípios republicanos. Nomeia negacionistas da razão, ignorantes e lunáticos para vários postos de seu ministério, além de acólitos que anunciam perseguição de servidores e cidadãos recalcitrantes, como se fossem polícia política.

Promove a influência de Elon Musk, que financia ou apoia de outra maneira a extrema direita pelo mundo e promete montar comitês de difamação de políticos que contestem a propaganda disso que se quer um novo regime ou o começo de uma "nova era". Quem sabe conte com a ajuda de gangues armadas. Não libertou os terroristas do Capitólio?

Houve um acidente horrível de avião. Trump diz que a "diversidade" fez Agência Federal de Aviação contratar pessoas com "deficiências intelectuais e psiquiátricas graves", entre outros delírios. Ao lado dele, secretários [ministros] repetiam Trump e diziam que fariam uma limpa em seus departamentos. "Se o Fed tivesse gastado menos tempo em DEI [Diversidade, Equidade e Inclusão], em energia ‘verde’ e na falsa mudança climática, a inflação jamais teria sido um problema", escreveu Trump em post na sua rede social, na quarta, depois que o BC dos EUA manteve a taxa básica de juros.

Na quarta, memorando do Departamento de Administração de Pessoal, reforçou a diretriz do decreto do dia 20, do dia da posse: é preciso eliminar a "ideologia de gênero" em exigências de qualificação para empregos públicos, em contratos do governo e em contas sociais (só existem dois sexos, homem e mulher. Dizer o contrário é contra o "sistema americano").

Em um dos discursos do dia da posse, revisou seu ranking de "palavras mais bonitas". Mas Deus, religião e amor viriam antes de "tarifa".

É diversionismo? Ou o começo de um plano fundamentalista profundo?

'Os ossos da minha filha estavam espalhados pelo chão'


 - a busca angustiante pelos desaparecidos de Gaza
 
https://ichef.bbci.co.uk/news/800/cpsprodpb/21a0/live/6abbce40-d987-11ef-a37f-eba91255dc3d.png.webp Restos humanos entre os escombros em Rafah

Tudo se mistura. A mochila multicolorida da criança. Um tênis de corrida. Uma panela de aço perfurada por estilhaços. Pedaços de camas, cadeiras, fogões, abajures; o vidro de janelas quebradas, espelhos, copos. Pedaços de roupa.

Esses últimos itens triturados e cobertos de poeira podem ser marcadores. Frequentemente, eles pertencem aos mortos que jazem perto da superfície dos escombros.

"Desde que as forças de ocupação israelenses se retiraram de Rafah, recebemos cerca de 150 ligações de civis sobre a presença de corpos de seus parentes sob as casas", diz Haitham al-Homs, diretor de Serviços de Emergência e Ambulância da agência de Defesa Civil em Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza.

As autoridades de saúde palestinas estimam que 10.000 pessoas estão desaparecidas. Onde não há nenhum marcador óbvio como roupas na superfície, as equipes de busca confiam em informações de parentes e vizinhos, ou seguem o cheiro de morte que irradia das ruínas.

Restos humanos entre os escombros em Rafah

Haitham al-Homs, um homem vestindo um item laranja de alta visibilidade e equipamento forense de proteção, está em frente a uma ambulância em Rafah
Haitham al-Homs, diretor de serviços de emergência e ambulâncias em Rafah
O governo israelense proibiu a BBC e outras organizações internacionais de notícias de entrar em Gaza e reportar de forma independente. Dependemos de jornalistas locais confiáveis ​​para registrar as experiências de pessoas como aquelas que estão procurando pelos desaparecidos.

No final de cada dia, o Sr. Homs atualiza a lista dos encontrados. Sua equipe escava os escombros com cuidado, ciente de que estão procurando por fragmentos de humanidade quebrada. Frequentemente, o que é recuperado não passa de uma pilha de ossos. As bombas de alto explosivo de Israel explodiram e mutilaram em pedaços muitos dos mortos. Os ossos e restos de roupa são colocados em sacos brancos para cadáveres, nos quais o Sr. Homs escreve a palavra árabe "majhoul". Significa "não identificado".

Um morador de Rafah, Osama Saleh, voltou para sua casa após o cessar-fogo e encontrou um esqueleto lá dentro. O crânio estava fraturado. O Sr. Saleh calcula que o corpo ficou lá por quatro a cinco meses. "Somos humanos com sentimentos... Não consigo transmitir a vocês o quão miserável é a tragédia", ele diz.

Estar cercado todos os dias pelo cheiro de corpos em decomposição é uma experiência profundamente perturbadora, como aqueles que testemunharam as consequências de mortes em massa costumam testemunhar.

"Os corpos são assustadores. Estamos vendo terror", diz Osama Saleh. "Juro que é uma sensação dolorosa, eu chorei."

Famílias também estão chegando aos hospitais para procurar restos mortais. No pátio do Hospital Europeu no sul de Gaza, coleções de ossos e roupas estão espalhadas em sacos para corpos.

Abdul Salam al-Mughayer, 19, de Rafah, desapareceu na área de Shaboura; de acordo com seu tio, Zaki, era um lugar de onde você não voltava se fosse lá durante a guerra. "Então, não fomos procurá-lo lá por esse motivo. Não teríamos retornado."

Zaki acredita que um conjunto de ossos e roupas na frente dele pertencem ao desaparecido Abdul Salam. Ele está de pé com um funcionário do hospital, Jihad Abu Khreis, esperando o irmão de Abdul Salam chegar.

"Há 99% de certeza de que o corpo é dele", diz Abu Khreis, "mas agora precisamos da confirmação final de seu irmão, das pessoas mais próximas a ele, para ter certeza de que as calças e os sapatos são dele".

Logo depois, o irmão chegou do campo de refugiados de tendas de al-Mawasi, também no sul de Gaza. Ele tinha uma fotografia de Abdul Salam em seu telefone. Havia uma foto de seus tênis de corrida.

Ele se ajoelhou diante do saco para cadáver e puxou a tampa. Ele tocou o crânio, as roupas. Ele viu os sapatos. Havia lágrimas em seus olhos. A identificação estava completa.

Outra família se moveu ao longo da fileira de sacos para corpos. Havia uma avó, seu filho, uma irmã adulta e uma criança pequena. A criança foi mantida no fundo do grupo enquanto a mulher idosa e seu filho olhavam sob a cobertura do saco para corpos. Eles se encararam por alguns segundos e então se abraçaram em pesar.

Depois disso, a família, ajudada por funcionários do hospital, levou os restos mortais. Eles estavam chorando, mas ninguém gritou alto.

Aya al-Dabeh tinha 13 anos e vivia com sua família e centenas de outros refugiados em uma escola em Tal al-Hawa, na Cidade de Gaza, no norte. Ela era uma de nove crianças.

Um dia, no início da guerra, Aya foi ao banheiro no andar de cima da escola e - sua família diz - ela foi baleada no peito por um atirador israelense. As Forças de Defesa de Israel dizem que não têm civis como alvo e culpam o Hamas por atacar de áreas civis. Durante a guerra, o Escritório de Direitos Humanos da ONU disse que houve "tiros intensos por forças israelenses em áreas densamente povoadas, resultando em assassinatos aparentemente ilegais, incluindo de espectadores desarmados".

A família enterrou Aya ao lado da escola, e sua mãe, Lina al-Dabah, 43, a envolveu em um cobertor "para protegê-la da chuva e do sol", caso o túmulo fosse mexido e exposto aos elementos.

Quando os militares israelenses tomaram a escola, Lina fugiu para o sul. Ela foi com outras quatro crianças — duas filhas e dois filhos — para se reunir com o marido, que tinha ido antes com os outros filhos do casal. Lina não teve outra opção a não ser deixar a filha onde estava, esperando voltar e recuperar os restos mortais para um enterro adequado quando a paz chegasse.

"Aya era uma garota muito gentil, e todos a amavam. Ela amava a todos, seus professores e seus estudos, e era muito boa na escola. Ela desejava o bem a todos", diz Lina. Quando o cessar-fogo chegou, Lina pediu aos parentes que ainda viviam no norte para verificar o túmulo de Aya. A notícia foi devastadora.

"Eles nos informaram que a cabeça dela estava em um lugar, as pernas em outro, enquanto as costelas estavam em outro lugar. Quem foi visitá-la ficou chocado e nos enviou as fotos", ela conta.

"Quando a vi, não consegui entender como minha filha foi tirada do túmulo e como os cães a comeram? Não consigo controlar meus nervos."

Os parentes coletaram os ossos e em breve Lina e sua família viajarão para o norte para levar os restos mortais de Aya para um túmulo apropriado. Para Lina, há uma tristeza sem fim e uma pergunta que não tem resposta - a mesma pergunta que se coloca a tantos pais que perderam filhos em Gaza. O que eles poderiam ter feito diferente, as circunstâncias da guerra sendo as que eram?

"Eu não poderia tirá-la de onde ela estava enterrada", diz Lina. Então ela pergunta: "Para onde eu poderia tê-la levado?"
Fergal Keane

Vasto leque de indesejáveis

Adolf Hitler passou à história como responsável pela morte de seis milhões de judeus. Mas não só. Não sei se já se fez ou se será possível fazer uma contabilidade sobre outras minorias que ele perseguiu, supliciou e também matou: os comunistas e supostos comunistas, ciganos, eslavos, homossexuais, alcoólatras, toxicômanos, deficientes físicos e mentais. Hitler não admitia essas pessoas em suas fronteiras. Elas comprometiam a "pureza" e a "vitalidade" do povo alemão.

Certamente inspirado por Hitler, de quem era admirador (cumprimentava-o por telegrama em seus aniversários), nosso ditador Getulio Vargas emitiu em 4 de maio de 1938 o decreto-lei nº 406, dispondo sobre estrangeiros no Brasil: "Artigo 1º. Não será permitida a entrada de estrangeiros, de um ou de outro sexo, aleijados, mutilados, inválidos, cegos, surdo-mudos, indigentes, vagabundos, ciganos e congêneres, alcoolistas e toxicômanos; que apresentem afecção nervosa ou mental de qualquer natureza e lesões orgânicas com insuficiência funcional." Etc. Um vasto leque.


Pois, há dias, o presidente Donald Trump ordenou a demissão de todos os funcionários contratados pela Nasa pelo critério "Deia". "Deia" é a sigla em inglês para diversidade, igualdade, inclusão e acessibilidade —o que abrange a maioria das condições proscritas por Hitler e Getulio. Trump não quer saber de gente nessas condições em sua agência espacial.

Diante da absoluta similaridade nas medidas desses governantes, não há motivo para livrá-los de uma definição também única: eram ou são fascistas. Por que brindá-los com eufemismos e meias-palavras?

Trump fará o que quiser em seu país com mexicanos, brasileiros, colombianos e outros morenos, para ele criminosos natos. Mas sabe que não poderá deportar dos EUA os gays, cegos e mutilados. Ao visar a Nasa, no entanto, está protegendo os interesses de seu amigo Elon Musk, precavendo-se contra a entrada de indesejáveis no novo território de cuja posse Musk já se arrogou: o planeta Marte.

O aprendiz de imperador

Se quiser entender o presidente Donald Trump tem que assistir O Aprendiz (Prime Vídeo). O filme tem o mesmo título daquele programa de TV no qual ele massacrava candidatos à carreira de executivo.

O Aprendiz retrata a ascensão de Trump no ramo imobiliário até se tornar uma celebridade, nos anos 80. Nessa fase, teve como guru o advogado Roy Cohn, cujos ensinamentos questionáveis inspiraram a atuação empresarial e política do ainda futuro presidente dos EUA. A dupla se orientava por três princípios seguidos religiosamente até hoje por Trump: 1º Atacar, atacar, atacar; 2º Nunca admita seu erro nem sua culpa; 3º Em caso de derrota, afirme enfaticamente que venceu.

Nesse sentido, não reconheceu sua derrota para Biden e impeliu uma multidão de seguidores contra o Capitólio, colocando em risco a vida de milhares de pessoas. Já começou seu novo mandato atacando, atacando, atacando o mundo em várias frentes, com bravatas econômicas e militares contra o Canadá, Panamá, Groelândia, México, Oriente Médio, China, Colômbia e Rússia (atos de uma dramaturgia planejada, assim como a deportação em massa dos imigrantes).

Assim, segundo o diplomata Rubem Ricupero, apesar de serem ameaças de cunho internacional, o objetivo de Trump é jogar para a sua torcida interna. Desse modo, procura se afirmar como um imperador cowboy, capaz de qualquer coisa para defender o interesse da sua corte.


Por isso, “Make America Great Again”, não é uma estratégia real de recuperação econômica nacional, mas sim um slogan para dar esperança aos órfãos do American Way of Life. Com isso, fideliza seu eleitorado, obtendo engajamento dos desempregados de Detroit, dos americanos brancos de classe B, C e D, dos “negros de bem” e dos imigrantes legais em geral. Todos contra a imigração ilegal, a bandidagem, os terroristas, os comunistas, as ongs, a ONU, os cartéis e tudo mais que simbolize um risco para o renascimento prometido do sonho americano.

Trump sabe que os EUA têm as maiores reservas de petróleo do planeta (reforçadas pelos depósitos de petróleo e gás de xisto). Têm também uma população economicamente ativa cujo grau de envelhecimento médio ainda não é tão preocupante como o de outros países desenvolvidos. O País tem também um estoque de terras agricultáveis e habitáveis ainda intocadas. Conta com acesso aos dois principais oceanos e um isolamento terrestre que melhora a posição de defesa do seu território.

Como bom aprendiz de imperador, Trump pode se dar ao luxo de algum “mise en scène”. Somado a tantas vantagens geográficas e demográficas, sabe que dispõe ainda de uma poderosa marinha de guerra onipresente e do maior arsenal nuclear do mundo. Tem maioria na Suprema Corte e no Congresso e é apoiado por uma máquina de propaganda formada pelas maiores redes digitais da atualidade.

O Aprendiz revela um Donald Trump com intuição e pragmatismo aguçados. No centro de tudo está ele próprio, portador de um narcisismo em grau elevado e desprovido de afetos ou compromissos. Seduz ou descarta pessoas com a mesma naturalidade. É obcecado pelo sucesso e pela ostentação pessoal, tendo se tornado uma espécie de bezerro de ouro de si mesmo.

É bom lembrar que, antes de mais nada, Trump é um homem de negócios agressivo, acostumado a blefar, a jogar no limite do risco. Resta saber se ele vai orientar suas escolhas segundo a “racionalidade” que fundamenta o capitalismo clássico, ou se continuará seguindo os três princípios do seu guru Roy Cohn na hora de tomar decisões cruciais para os EUA (e para a humanidade).