domingo, 15 de fevereiro de 2026
É a economia, estúpido!
Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.
José Saramago
José Saramago
O futuro do mercado passa pelo mercado do futuro
Não basta adotar novas tecnologias. O mercado do futuro vai se reinventar, para superar a virada geopolítica e climática galopante (ou sobreviver a ela). A coisa mudou tanto que exigirá noções de “aversão ao risco” e de “taxa de retorno” mais realistas. O futuro do mercado passa pela atual desconstrução dos mecanismos transnacionais de negócios que se estabeleceram a partir dos anos 1950. Afinal, a Ordem Mundial que emergiu do fim da II Guerra Mundial dependia de certo equilíbrio político e econômico em um novo capitalismo marcado pela bipolarização geopolítica, que parece se fragmentar.
A bem da verdade, as grandes guerras do século XX alcançaram uma escala industrial que exigiu o desenvolvimento acelerado de ferramentas e conhecimentos em logística, novos materiais, fontes de energia, medicina, alimentos, comunicações, processamento de dados e finanças, para citar apenas alguns vetores da redefinição radical do mundo dos negócios – um caso literal de “destruição criadora”. As cadeias de suprimentos, produção, comercialização e transportes assumiram escala mundial, com transações financeiras e comunicações em tempo real. Qualquer pessoa pode obter qualquer produto de qualquer lugar do mundo (desde que tenha dinheiro ou crédito, é claro). Uma globalização sustentada em dois pilares: O medo da ameaça nuclear e o multilateralismo. Tempos de guerra fria e mercado aquecido. E quando o muro de Berlim caiu soterrou as fronteiras mercantis restantes, que ainda mantinham uns 2 bilhões de consumidores da União Soviética e da China fora do jogo.
Agora esse angu desandou. Ucrânia e Gaza, somadas à volta teatral da águia americana, expõem fraturas na geopolítica envelhecida. Alianças como a OTAN, ONU, OCDE e G7 sofrem fadiga de material, carecendo repaginar os pactos originais, ou mesmo a rearrumação dos blocos. Acontece que na base do mundo moderno está o mercado. Há séculos as sociedades evoluem em função das suas necessidades crescentes e das soluções produtivas decorrentes. O aumento da população e da complexidade social levou a uma sedentarização da oferta (agricultura, pecuária, mineração, moradia, trocas etc.) e ao surgimento do Estado, como na Mesopotâmia há uns quatro mil anos.
A coisa se sofisticou na Grécia e Roma para, em seguida, tomar nova forma com o cristianismo e o islamismo costurando o ocidente e oriente. Contudo, os negócios ganharam escala planetária pra valer com as navegações e as colônias no Novo Mundo, apoiadas nas Monarquias Nacionais europeias. Democracia mesmo só veio com a revolução industrial (direitos trabalhistas, bancos, tecnologias e… o aquecimento global). Agora se fala em desglobalizar, no rastro das mudanças climáticas, nacionalismo, retrocessos políticos, descarbonização. Tudo que era sólido desmanchou no ar.
Ainda é difícil definir se quem puxa o trem da história é o povo, o Estado ou o mercado. Se for o mercado, quais setores darão o rumo daqui pra frente: o agro, as terras raras, os bancos, o comércio ou as big techs? E se for o Estado, a locomotiva será o governo, o parlamento ou o aparato de defesa e segurança? Se for a sociedade, quais serão suas novas formas de organização e influência? A resposta passa pela revisão dos parâmetros de risco e de retorno dos investimentos para o mercado do futuro, com efeito direto sobre o trabalho e o consumo, assim como sobre as políticas regulatórias, os instrumentos de fomento e a destinação do gasto público. Segundo os coreanos, “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”.
A bem da verdade, as grandes guerras do século XX alcançaram uma escala industrial que exigiu o desenvolvimento acelerado de ferramentas e conhecimentos em logística, novos materiais, fontes de energia, medicina, alimentos, comunicações, processamento de dados e finanças, para citar apenas alguns vetores da redefinição radical do mundo dos negócios – um caso literal de “destruição criadora”. As cadeias de suprimentos, produção, comercialização e transportes assumiram escala mundial, com transações financeiras e comunicações em tempo real. Qualquer pessoa pode obter qualquer produto de qualquer lugar do mundo (desde que tenha dinheiro ou crédito, é claro). Uma globalização sustentada em dois pilares: O medo da ameaça nuclear e o multilateralismo. Tempos de guerra fria e mercado aquecido. E quando o muro de Berlim caiu soterrou as fronteiras mercantis restantes, que ainda mantinham uns 2 bilhões de consumidores da União Soviética e da China fora do jogo.
Agora esse angu desandou. Ucrânia e Gaza, somadas à volta teatral da águia americana, expõem fraturas na geopolítica envelhecida. Alianças como a OTAN, ONU, OCDE e G7 sofrem fadiga de material, carecendo repaginar os pactos originais, ou mesmo a rearrumação dos blocos. Acontece que na base do mundo moderno está o mercado. Há séculos as sociedades evoluem em função das suas necessidades crescentes e das soluções produtivas decorrentes. O aumento da população e da complexidade social levou a uma sedentarização da oferta (agricultura, pecuária, mineração, moradia, trocas etc.) e ao surgimento do Estado, como na Mesopotâmia há uns quatro mil anos.
A coisa se sofisticou na Grécia e Roma para, em seguida, tomar nova forma com o cristianismo e o islamismo costurando o ocidente e oriente. Contudo, os negócios ganharam escala planetária pra valer com as navegações e as colônias no Novo Mundo, apoiadas nas Monarquias Nacionais europeias. Democracia mesmo só veio com a revolução industrial (direitos trabalhistas, bancos, tecnologias e… o aquecimento global). Agora se fala em desglobalizar, no rastro das mudanças climáticas, nacionalismo, retrocessos políticos, descarbonização. Tudo que era sólido desmanchou no ar.
Ainda é difícil definir se quem puxa o trem da história é o povo, o Estado ou o mercado. Se for o mercado, quais setores darão o rumo daqui pra frente: o agro, as terras raras, os bancos, o comércio ou as big techs? E se for o Estado, a locomotiva será o governo, o parlamento ou o aparato de defesa e segurança? Se for a sociedade, quais serão suas novas formas de organização e influência? A resposta passa pela revisão dos parâmetros de risco e de retorno dos investimentos para o mercado do futuro, com efeito direto sobre o trabalho e o consumo, assim como sobre as políticas regulatórias, os instrumentos de fomento e a destinação do gasto público. Segundo os coreanos, “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”.
Uma agenda positiva para a democracia
Os defensores da democracia começaram 2026 com uma grande vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que bateu o candidato da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão sanitário contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória de autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.
Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.
A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.
De um lado, porque a luta contra o ideário autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria ingenuidade, no mínimo.
O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas formas de comunicação política.
No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos, especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.
O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.
Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.
A estratégia de usar o arcabouço institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.
A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.
O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.
Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e convencimento.
Analisando o conjunto de resistências às forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições.
A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.
Não seria possível defender a globalização ou o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.
A revitalização democrática presente no debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e mentes de muita gente.
Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.
A descoberta de pautas populares que não estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva pode ser a democracia.
Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.
A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.
De um lado, porque a luta contra o ideário autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria ingenuidade, no mínimo.
O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas formas de comunicação política.
No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos, especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.
O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.
Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.
A estratégia de usar o arcabouço institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.
A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.
O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.
Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e convencimento.
Analisando o conjunto de resistências às forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições.
A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.
Não seria possível defender a globalização ou o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.
A revitalização democrática presente no debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e mentes de muita gente.
Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.
A descoberta de pautas populares que não estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva pode ser a democracia.
Quando a barbárie fala do alto do poder
Há imagens que não deveriam existir. E, quando existem, não deveriam circular. A postagem que associava o ex-presidente Barack Obama e Michelle Obama à figura de macacos – atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – é uma dessas. Mesmo apagada, mesmo relativizada, mesmo empurrada para o colo de assessores anônimos, ela permanece. Porque há coisas que não se apagam. Há imagens que, uma vez lançadas no mundo, revelam mais do que pretendiam esconder.
Não se trata de um episódio menor das redes sociais, nem de uma provocação política mais agressiva. Trata-se de um gesto que convoca um dos códigos mais antigos e brutais da história humana: a desumanização. Comparar pessoas negras a animais é uma linguagem conhecida, recorrente, testada ao longo dos séculos. Foi com ela que se justificaram a escravidão, o colonialismo, a segregação, os linchamentos. Não há inocência possível nesse imaginário. Ele é estruturalmente violento.
O que torna o episódio ainda mais perturbador é o lugar de onde ele parte. Um presidente — ou ex-presidente — não comunica como um cidadão comum. Fala a partir de um ponto de poder simbólico, institucional, global. Quando esse poder mobiliza imagens primitivas, ele não apenas ofende: ele autoriza. Autoriza o ódio a circular sem vergonha, a violência a se sentir respaldada, o preconceito a se apresentar como opinião legítima.
Há algo de profundamente inquietante em perceber que, em pleno século XXI, com todos os avanços científicos, culturais e sociais acumulados, ainda precisamos reafirmar o óbvio: pessoas não são animais; diferenças não justificam humilhação; poder não concede licença para negar humanidade. Quando o óbvio precisa ser defendido, é sinal de que algo essencial se rompeu.
Mais do que um escândalo isolado, o episódio funciona como sintoma. Revela um tempo em que a brutalidade se disfarça de franqueza, o racismo de provocação, a regressão moral de autenticidade. Um tempo em que o inaceitável é testado aos poucos, normalizado em doses sucessivas, até que já não choque tanto.
É aí que mora o perigo. A barbárie raramente chega gritando; ela costuma entrar pela fresta da tolerância, pelo cansaço moral, pela relativização constante. E quando vem de cima, quando se instala no discurso do poder, ela contamina o chão.
Falar sobre isso é necessário. Não por indignação passageira, mas por responsabilidade histórica. O silêncio diante da desumanização nunca foi neutro — sempre foi cumplicidade. E toda vez que uma sociedade aceita calada esse tipo de imagem, ela abdica de um pouco daquilo que a fez avançar.
Talvez o que mais assuste não seja a postagem em si, mas a pergunta que ela nos devolve: até que ponto estamos dispostos a regredir sem reagir? A resposta a essa pergunta diz menos sobre um presidente e mais sobre nós.
Não se trata de um episódio menor das redes sociais, nem de uma provocação política mais agressiva. Trata-se de um gesto que convoca um dos códigos mais antigos e brutais da história humana: a desumanização. Comparar pessoas negras a animais é uma linguagem conhecida, recorrente, testada ao longo dos séculos. Foi com ela que se justificaram a escravidão, o colonialismo, a segregação, os linchamentos. Não há inocência possível nesse imaginário. Ele é estruturalmente violento.
O que torna o episódio ainda mais perturbador é o lugar de onde ele parte. Um presidente — ou ex-presidente — não comunica como um cidadão comum. Fala a partir de um ponto de poder simbólico, institucional, global. Quando esse poder mobiliza imagens primitivas, ele não apenas ofende: ele autoriza. Autoriza o ódio a circular sem vergonha, a violência a se sentir respaldada, o preconceito a se apresentar como opinião legítima.
Há algo de profundamente inquietante em perceber que, em pleno século XXI, com todos os avanços científicos, culturais e sociais acumulados, ainda precisamos reafirmar o óbvio: pessoas não são animais; diferenças não justificam humilhação; poder não concede licença para negar humanidade. Quando o óbvio precisa ser defendido, é sinal de que algo essencial se rompeu.
Mais do que um escândalo isolado, o episódio funciona como sintoma. Revela um tempo em que a brutalidade se disfarça de franqueza, o racismo de provocação, a regressão moral de autenticidade. Um tempo em que o inaceitável é testado aos poucos, normalizado em doses sucessivas, até que já não choque tanto.
É aí que mora o perigo. A barbárie raramente chega gritando; ela costuma entrar pela fresta da tolerância, pelo cansaço moral, pela relativização constante. E quando vem de cima, quando se instala no discurso do poder, ela contamina o chão.
Falar sobre isso é necessário. Não por indignação passageira, mas por responsabilidade histórica. O silêncio diante da desumanização nunca foi neutro — sempre foi cumplicidade. E toda vez que uma sociedade aceita calada esse tipo de imagem, ela abdica de um pouco daquilo que a fez avançar.
Talvez o que mais assuste não seja a postagem em si, mas a pergunta que ela nos devolve: até que ponto estamos dispostos a regredir sem reagir? A resposta a essa pergunta diz menos sobre um presidente e mais sobre nós.
Revelado: a suruba de Vorcaro
Vorcaro usou todas as moedas disponíveis para corromper as instituições brasileiras. Inclusive a mais antiga delas: mulheres bonitas e festas com muita bebida e pouca roupa, para sermos discretos. No relatório que a Polícia Federal entregou ao ministro Edson Fachin, o que emerge não é apenas um relato de libertinagem, mas a descrição de uma engrenagem de corrupção sofisticada. O que os mortais chamam abertamente de “suruba” era, na verdade, um ambiente de negócios escusos meticulosamente planejado, onde a ostentação servia como lubrificante para a criação de uma rede de influências sem precedentes junto a políticos do Centrão.
A logística por trás desses encontros revela o DNA de Vorcaro: a exuberância a serviço do silêncio. O relatório detalha a presença de quatro mulheres para cada político, todas estrangeiras — suíças, norueguesas, suecas e holandesas. A escolha não foi estética, mas estratégica. Ao importar acompanhantes que não falam português e não têm a menor noção de quem são as figuras poderosas que ali circulavam, Vorcaro garantia um isolamento informativo que nenhuma barreira nacional ofereceria. É a corrupção de alto custo, onde a distância cultural e linguística era comprada para blindar os envolvidos.
Entretanto, a suruba maior não é a dos “peladões” descrita pela PF, mas o estrago institucional que este caso pode causar. O movimento que vemos agora nos bastidores do poder sugere uma tentativa deliberada de anular a operação. O roteiro é um “déjà vu” perigoso da Lava Jato: ministros como Cristiano Zanin e Luiz Fux já sinalizam que inconsistências na condução das investigações pela PF podem tornar todo o processo nulo. Alega-se que o rito foi atropelado, e essa brecha jurídica é exatamente o que os envolvidos buscam para implodir o caso por dentro.
Essa conclusão de nulidade, contudo, não virá amanhã. O sistema joga com o tempo. Vale lembrar que o presidente Lula ficou quase dois anos preso antes que seu processo fosse anulado por erros de competência e forma. Para Vorcaro, esse vácuo temporal é o cenário ideal: ele aposta na fadiga da opinião pública e na “inconsistência jurídica” para que, no futuro, tudo vire precatórios. É a repetição exata do ciclo em que delatores premiados recebem o dinheiro de volta e o crime compensa através do erro técnico da acusação.
O que se desenha é um cenário onde a justiça parece ser um tabuleiro cujas peças são movidas para garantir que o desfecho seja sempre o mesmo. Quando a estratégia de defesa foca mais na anulação do processo do que na prova da inocência, e o Judiciário valida essa manobra, a mensagem para o país é devastadora. O perigo real não está na devassidão das festas de luxo, mas na erosão da segurança jurídica que essas anulações em série provocam.
No fim das contas, o que está em jogo é a confiança residual do brasileiro no Supremo Tribunal Federal. Quando a mais alta corte do país se permite ser o palco de um eterno retorno à impunidade por vícios de forma, o tecido democrático se esgarça. Esse jogo de anulações anunciadas é perigoso demais para a estabilidade do país e para a própria sobrevivência da esperança de que, um dia, as instituições brasileiras deixem de ser negociáveis em balcões de luxo.
A logística por trás desses encontros revela o DNA de Vorcaro: a exuberância a serviço do silêncio. O relatório detalha a presença de quatro mulheres para cada político, todas estrangeiras — suíças, norueguesas, suecas e holandesas. A escolha não foi estética, mas estratégica. Ao importar acompanhantes que não falam português e não têm a menor noção de quem são as figuras poderosas que ali circulavam, Vorcaro garantia um isolamento informativo que nenhuma barreira nacional ofereceria. É a corrupção de alto custo, onde a distância cultural e linguística era comprada para blindar os envolvidos.
Entretanto, a suruba maior não é a dos “peladões” descrita pela PF, mas o estrago institucional que este caso pode causar. O movimento que vemos agora nos bastidores do poder sugere uma tentativa deliberada de anular a operação. O roteiro é um “déjà vu” perigoso da Lava Jato: ministros como Cristiano Zanin e Luiz Fux já sinalizam que inconsistências na condução das investigações pela PF podem tornar todo o processo nulo. Alega-se que o rito foi atropelado, e essa brecha jurídica é exatamente o que os envolvidos buscam para implodir o caso por dentro.
Essa conclusão de nulidade, contudo, não virá amanhã. O sistema joga com o tempo. Vale lembrar que o presidente Lula ficou quase dois anos preso antes que seu processo fosse anulado por erros de competência e forma. Para Vorcaro, esse vácuo temporal é o cenário ideal: ele aposta na fadiga da opinião pública e na “inconsistência jurídica” para que, no futuro, tudo vire precatórios. É a repetição exata do ciclo em que delatores premiados recebem o dinheiro de volta e o crime compensa através do erro técnico da acusação.
O que se desenha é um cenário onde a justiça parece ser um tabuleiro cujas peças são movidas para garantir que o desfecho seja sempre o mesmo. Quando a estratégia de defesa foca mais na anulação do processo do que na prova da inocência, e o Judiciário valida essa manobra, a mensagem para o país é devastadora. O perigo real não está na devassidão das festas de luxo, mas na erosão da segurança jurídica que essas anulações em série provocam.
No fim das contas, o que está em jogo é a confiança residual do brasileiro no Supremo Tribunal Federal. Quando a mais alta corte do país se permite ser o palco de um eterno retorno à impunidade por vícios de forma, o tecido democrático se esgarça. Esse jogo de anulações anunciadas é perigoso demais para a estabilidade do país e para a própria sobrevivência da esperança de que, um dia, as instituições brasileiras deixem de ser negociáveis em balcões de luxo.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Obrigada pela lição, Jeff Bezos!
Fomos todos chamados à redação. De pé, no meio da sala, até parecíamos muitos. Alguém fez essa piada, com o riso nervoso de quem sabe o que aí vem, mas tem no humor uma espécie de fé supersticiosa. Como se nos rirmos da desgraça que aí vem pudesse impedi-la de acontecer. À nossa frente, os diretores de olhos baixos, presos ao chão, os pescoços curvados. A cena que descrevo não aconteceu uma vez nem duas. Na verdade, perdi a conta às vezes em que assisti na primeira fila a despedimentos coletivos em jornais. A cada nova leva de saídas, invariavelmente, os títulos afundaram-se mais um pouco. É como ir tirando as tábuas de um barco para o tornar mais leve. Na verdade, estamos só a apressar o seu naufrágio.
Nos sítios por onde passei havia sempre carros de alta cilindrada, combustível pago e cartões de crédito para os cargos de direção, mesmo quando ir em reportagem era sempre demasiado dispendioso. Havia quase sempre instalações grandiosas, com muitos lugares de garagem, mesmo que fosse difícil arranjar transporte para ir fazer um trabalho fora de Lisboa. Havia muitas vezes figuras pagas a peso de ouro, cuja função ninguém sabia bem qual era, mas também ninguém questionava, à medida que na base da pirâmide se acumulavam os trabalhadores mal pagos, que só se aguentavam com os salários que lhes pagavam porque a família os ajudava com a renda ou a alimentação ou ambas. Não era que o dinheiro faltasse, era que as prioridades estavam sempre trocadas.
De vez em quando, apareciam novos acionistas. Dinheiro fresco e uma espécie de esperança coletiva, que esmorecia rapidamente. Não tardava até virem novos despedimentos, reformulações gráficas caras que ninguém sabia bem para que serviam, anúncios de novos “produtos”, feitos pelos mesmos do costume, cada vez mais esmifrados e mal pagos. Mas na altura do Natal ou do aniversário das publicações, os acionistas desfilavam orgulhosos, faziam proclamações sobre a liberdade de imprensa e distribuíam um ou outro brinde pelos trabalhadores, a quem insistiam em chamar “colaboradores”, mesmo que estivesse cada vez mais em queda a vontade de colaborar com um caminho que nos parecia que só podia ter um triste fim.
Nestes anos todos, estive quase sempre nos quadros das empresas por onde passei. E, ainda assim, senti-me sempre a prazo. “Quantos anos vou aguentar-me?”, ia-me perguntando, enquanto tentava equilibrar-me em cima de salários baixos, muita pressão, demasiado trabalho.
Nestes anos todos, pensei durante muito tempo que a incompetência e o deslumbramento eram parte da explicação para os sucessivos erros de gestão que qualquer estagiário deteta em empresas de comunicação uns três meses depois de lá começar a trabalhar. Mas mudei de ideias: não é incompetência nem sequer deslumbramento. Reforcei essa convicção ao ver as notícias sobre a forma como Jeff Bezos está a desmantelar o The Washington Post, cortando a eito nos gastos, depois de ter pagado 40 milhões de dólares pelos direitos do documentário Melania – que no fim de semana de estreia teve em Portugal uma média de seis espectadores por sessão – e cerca de 35 milhões para promover o filme sobre a mulher de Donald Trump.
Bezos faz parte da oligarquia de Trump. Doou um milhão de dólares para a cerimónia de tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos e obrigou o The Washington Post a redefinir a linha editorial da sua secção de opinião, para incluir uma “visão mais libertária”. A ironia é que esse defensor do libertarianismo é o mesmo que tem acumulado milhares de milhões de dólares em contratos públicos. Não é que Bezos tenha alguma coisa contra o dinheiro do Estado. Ele só não quer que seja gasto a tratar da saúde das pessoas ou a garantir-lhes algum tipo de proteção, quando pode ser diretamente canalizado para a sua obscenamente bem recheada conta.
Quando a interferência de Bezos no The Washington Post ficou evidente, as assinaturas do jornal caíram a pique, afundando mais as contas. Quando anunciou que iria despedir 30% da redação, os jornalistas despedidos angariaram mais de 350 mil dólares na plataforma Go Fund Me, em poucas horas. Alguém que acredita no mercado como regulador de tudo deveria ver aqui uma mensagem clara. O apoio aos jornalistas e a rejeição da inclinação do jornal em direção à extrema-direita são evidentes. Mas a economia nunca fez parte desta equação.
Quando nos falam do mercado que tudo regula, omitem a peça mais importante desta engrenagem: o poder. Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. Nunca foi. Não lhes falta dinheiro. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os.
Os média são sempre apresentados como um negócio em ruína, destinados a desaparecer. Isso tem uma parte de verdade. O modelo de negócio em que estão assentes contém a semente da sua destruição. Mas eles são uma ferramenta poderosa e é por isso que são um alvo a abater pelos teóricos do “jornalixo” que se congratulam sempre com a nossa “falência”, mas ainda assim nos dão importância suficiente para continuarem a atacar-nos. Porquê? Porque há poucas coisas mais poderosas do que questionar. E essa é a nossa arma.
Enquanto os milionários iam atirando dinheiro para cima das empresas de média, encaminhando-as para o engodo do digital – onde eles ditam as regras e a publicidade cai para valores irrisórios –, nós esquecemo-nos de que os jornalistas são as máquinas das fábricas que são os jornais e que a grande força que os títulos têm é a comunidade que se constrói em torno de valores partilhados e confiança. Histórias como as do The Washington Post ajudam-nos a abrir os olhos. Para não voltarmos a ser enganados. E quem não cai nas teses sobre o “jornalixo” tem de perceber que consegue dar a volta a isto. Como? Comprando jornais e revistas. Se forem muitos a fazê-lo, nem os Bezos da vida conseguirão calar-nos.
Nos sítios por onde passei havia sempre carros de alta cilindrada, combustível pago e cartões de crédito para os cargos de direção, mesmo quando ir em reportagem era sempre demasiado dispendioso. Havia quase sempre instalações grandiosas, com muitos lugares de garagem, mesmo que fosse difícil arranjar transporte para ir fazer um trabalho fora de Lisboa. Havia muitas vezes figuras pagas a peso de ouro, cuja função ninguém sabia bem qual era, mas também ninguém questionava, à medida que na base da pirâmide se acumulavam os trabalhadores mal pagos, que só se aguentavam com os salários que lhes pagavam porque a família os ajudava com a renda ou a alimentação ou ambas. Não era que o dinheiro faltasse, era que as prioridades estavam sempre trocadas.
De vez em quando, apareciam novos acionistas. Dinheiro fresco e uma espécie de esperança coletiva, que esmorecia rapidamente. Não tardava até virem novos despedimentos, reformulações gráficas caras que ninguém sabia bem para que serviam, anúncios de novos “produtos”, feitos pelos mesmos do costume, cada vez mais esmifrados e mal pagos. Mas na altura do Natal ou do aniversário das publicações, os acionistas desfilavam orgulhosos, faziam proclamações sobre a liberdade de imprensa e distribuíam um ou outro brinde pelos trabalhadores, a quem insistiam em chamar “colaboradores”, mesmo que estivesse cada vez mais em queda a vontade de colaborar com um caminho que nos parecia que só podia ter um triste fim.
Nestes anos todos, estive quase sempre nos quadros das empresas por onde passei. E, ainda assim, senti-me sempre a prazo. “Quantos anos vou aguentar-me?”, ia-me perguntando, enquanto tentava equilibrar-me em cima de salários baixos, muita pressão, demasiado trabalho.
Nestes anos todos, pensei durante muito tempo que a incompetência e o deslumbramento eram parte da explicação para os sucessivos erros de gestão que qualquer estagiário deteta em empresas de comunicação uns três meses depois de lá começar a trabalhar. Mas mudei de ideias: não é incompetência nem sequer deslumbramento. Reforcei essa convicção ao ver as notícias sobre a forma como Jeff Bezos está a desmantelar o The Washington Post, cortando a eito nos gastos, depois de ter pagado 40 milhões de dólares pelos direitos do documentário Melania – que no fim de semana de estreia teve em Portugal uma média de seis espectadores por sessão – e cerca de 35 milhões para promover o filme sobre a mulher de Donald Trump.
Bezos faz parte da oligarquia de Trump. Doou um milhão de dólares para a cerimónia de tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos e obrigou o The Washington Post a redefinir a linha editorial da sua secção de opinião, para incluir uma “visão mais libertária”. A ironia é que esse defensor do libertarianismo é o mesmo que tem acumulado milhares de milhões de dólares em contratos públicos. Não é que Bezos tenha alguma coisa contra o dinheiro do Estado. Ele só não quer que seja gasto a tratar da saúde das pessoas ou a garantir-lhes algum tipo de proteção, quando pode ser diretamente canalizado para a sua obscenamente bem recheada conta.
Quando a interferência de Bezos no The Washington Post ficou evidente, as assinaturas do jornal caíram a pique, afundando mais as contas. Quando anunciou que iria despedir 30% da redação, os jornalistas despedidos angariaram mais de 350 mil dólares na plataforma Go Fund Me, em poucas horas. Alguém que acredita no mercado como regulador de tudo deveria ver aqui uma mensagem clara. O apoio aos jornalistas e a rejeição da inclinação do jornal em direção à extrema-direita são evidentes. Mas a economia nunca fez parte desta equação.
Quando nos falam do mercado que tudo regula, omitem a peça mais importante desta engrenagem: o poder. Os milionários compram jornais porque acham que isso lhes dá poder. Destroem-nos quando essa é a forma de ter ainda mais poder. Não é o dinheiro que está em causa. Nunca foi. Não lhes falta dinheiro. O que é preciso é que o seu poder continue a alastrar-se, quer isso se faça controlando os jornais ou silenciando-os.
Os média são sempre apresentados como um negócio em ruína, destinados a desaparecer. Isso tem uma parte de verdade. O modelo de negócio em que estão assentes contém a semente da sua destruição. Mas eles são uma ferramenta poderosa e é por isso que são um alvo a abater pelos teóricos do “jornalixo” que se congratulam sempre com a nossa “falência”, mas ainda assim nos dão importância suficiente para continuarem a atacar-nos. Porquê? Porque há poucas coisas mais poderosas do que questionar. E essa é a nossa arma.
Enquanto os milionários iam atirando dinheiro para cima das empresas de média, encaminhando-as para o engodo do digital – onde eles ditam as regras e a publicidade cai para valores irrisórios –, nós esquecemo-nos de que os jornalistas são as máquinas das fábricas que são os jornais e que a grande força que os títulos têm é a comunidade que se constrói em torno de valores partilhados e confiança. Histórias como as do The Washington Post ajudam-nos a abrir os olhos. Para não voltarmos a ser enganados. E quem não cai nas teses sobre o “jornalixo” tem de perceber que consegue dar a volta a isto. Como? Comprando jornais e revistas. Se forem muitos a fazê-lo, nem os Bezos da vida conseguirão calar-nos.
Quem sabe ...
O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia!
José Saramago
José Saramago
Trump usa vídeo racista sobre Obama para impulsionar guerra psicológica contra seus opositores
O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro.
A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.
A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo.
Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas.
Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.
Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?”
Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.
A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo.
Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas.
Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.
Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?”
Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
A perversidade, os limites e o que a morte de Orelha revela
A morte do cachorro Orelha, na Praia Brava, em Santa Catarina, expõe questões que ultrapassam o episódio em si. A dor não está apenas na violência dirigida a um animal conhecido e cuidado por uma comunidade inteira, mas no mal-estar coletivo que esse ato faz emergir. Há algo nesse caso que nos obriga a olhar para aspectos mais profundos da formação humana, do convívio social e da maneira como lidamos com nossos impulsos mais primitivos.
É preciso começar por uma constatação que raramente agrada: a perversidade faz parte da constituição da personalidade humana. Ela não é, em si, um desvio patológico. Trata-se de um componente estrutural, presente desde a infância, ligado à curiosidade, ao prazer da transgressão e à sensação de poder. Crianças e adolescentes experimentam esse traço de diversas maneiras ao longo do crescimento. O que define o amadurecimento psíquico não é a eliminação desse impulso, mas a forma como ele é elaborado.
Em trajetórias saudáveis, a perversidade encontra caminhos simbólicos e socialmente aceitos para se manifestar. No esporte, por exemplo, o confronto físico é permitido, mas circunscrito por regras, e termina no reconhecimento do outro. Na vida familiar, aprende-se que o irmão mais forte não pode ferir o mais fraco. São esses limites, repetidos no cotidiano, que permitem transformar impulsos potencialmente destrutivos em experiências de aprendizado, convivência e até criação.
Esse traço também aparece em cenas banais do dia a dia. Quando alguém tropeça na rua e provoca risos involuntários em quem observa, há ali um prazer primitivo, muitas vezes acompanhado de alívio por não ocupar aquele lugar. A cultura e a educação atuam justamente nesse ponto: ensinam a conter o impulso, a deslocá-lo, a substituí-lo por empatia. A civilização não extingue a perversidade; ela a molda. Criamos normas, pactos sociais e leis para que esse componente da personalidade contribua para a sobrevivência coletiva, e não para a destruição do outro.
Não é por acaso que sociedades mais complexas produzem dispositivos cada vez mais elaborados para regular comportamentos. Leis, instituições e práticas educativas não existem apenas para punir desvios, mas para sustentar limites simbólicos compartilhados. Quando esses limites se enfraquecem ou deixam de ser reconhecidos, abre-se espaço para a naturalização da violência, especialmente contra aqueles que ocupam posições de maior vulnerabilidade, sejam pessoas ou animais.
O que torna o caso do cachorro Orelha especialmente perturbador é o modo como a perversidade se manifesta sem qualquer elaboração simbólica. Infligir dor a um animal indefeso, sem possibilidade de reação, não produz aprendizado nem confronto. Gera apenas a experiência do domínio absoluto. Trata-se de um exercício de poder vazio, que não encontra limite interno nem reconhecimento do outro como sujeito.
Responsabilizar adolescentes por atos como esse não significa rotulá-los ou reduzi-los a esse episódio. Significa, ao contrário, reconhecer que o processo de amadurecimento exige limites claros. As medidas socioeducativas previstas em lei cumprem uma função essencial nesse percurso: sinalizam que certos atos não são aceitáveis e que a convivência em sociedade implica responsabilidades. Do ponto de vista psíquico, a ausência de limites não liberta; ela empobrece o desenvolvimento.
A sociedade evolui quando consegue reconhecer seus impulsos mais sombrios sem negá-los ou romantizá-los. A morte de Orelha não deve ser vista como um ato isolado de crueldade, mas como um convite incômodo à reflexão. Não apenas sobre a proteção de animais comunitários, agora reconhecida em lei, mas sobre a urgência de reafirmar que poder exercido sem limite não é força. É sinal de uma falha na construção do humano.
Jorge Jaber
É preciso começar por uma constatação que raramente agrada: a perversidade faz parte da constituição da personalidade humana. Ela não é, em si, um desvio patológico. Trata-se de um componente estrutural, presente desde a infância, ligado à curiosidade, ao prazer da transgressão e à sensação de poder. Crianças e adolescentes experimentam esse traço de diversas maneiras ao longo do crescimento. O que define o amadurecimento psíquico não é a eliminação desse impulso, mas a forma como ele é elaborado.
Em trajetórias saudáveis, a perversidade encontra caminhos simbólicos e socialmente aceitos para se manifestar. No esporte, por exemplo, o confronto físico é permitido, mas circunscrito por regras, e termina no reconhecimento do outro. Na vida familiar, aprende-se que o irmão mais forte não pode ferir o mais fraco. São esses limites, repetidos no cotidiano, que permitem transformar impulsos potencialmente destrutivos em experiências de aprendizado, convivência e até criação.
Esse traço também aparece em cenas banais do dia a dia. Quando alguém tropeça na rua e provoca risos involuntários em quem observa, há ali um prazer primitivo, muitas vezes acompanhado de alívio por não ocupar aquele lugar. A cultura e a educação atuam justamente nesse ponto: ensinam a conter o impulso, a deslocá-lo, a substituí-lo por empatia. A civilização não extingue a perversidade; ela a molda. Criamos normas, pactos sociais e leis para que esse componente da personalidade contribua para a sobrevivência coletiva, e não para a destruição do outro.
Não é por acaso que sociedades mais complexas produzem dispositivos cada vez mais elaborados para regular comportamentos. Leis, instituições e práticas educativas não existem apenas para punir desvios, mas para sustentar limites simbólicos compartilhados. Quando esses limites se enfraquecem ou deixam de ser reconhecidos, abre-se espaço para a naturalização da violência, especialmente contra aqueles que ocupam posições de maior vulnerabilidade, sejam pessoas ou animais.
O que torna o caso do cachorro Orelha especialmente perturbador é o modo como a perversidade se manifesta sem qualquer elaboração simbólica. Infligir dor a um animal indefeso, sem possibilidade de reação, não produz aprendizado nem confronto. Gera apenas a experiência do domínio absoluto. Trata-se de um exercício de poder vazio, que não encontra limite interno nem reconhecimento do outro como sujeito.
Responsabilizar adolescentes por atos como esse não significa rotulá-los ou reduzi-los a esse episódio. Significa, ao contrário, reconhecer que o processo de amadurecimento exige limites claros. As medidas socioeducativas previstas em lei cumprem uma função essencial nesse percurso: sinalizam que certos atos não são aceitáveis e que a convivência em sociedade implica responsabilidades. Do ponto de vista psíquico, a ausência de limites não liberta; ela empobrece o desenvolvimento.
A sociedade evolui quando consegue reconhecer seus impulsos mais sombrios sem negá-los ou romantizá-los. A morte de Orelha não deve ser vista como um ato isolado de crueldade, mas como um convite incômodo à reflexão. Não apenas sobre a proteção de animais comunitários, agora reconhecida em lei, mas sobre a urgência de reafirmar que poder exercido sem limite não é força. É sinal de uma falha na construção do humano.
Jorge Jaber
O discurso do método
Ainda existem em Veneza algumas bocca di leone, locais onde se podia fazer denúncias secretas, que eram levadas diretamente ao Consiglio dei Dieci, “contro chi occulterà gratie et officii, o colluderà per nasconder la vera rendita d’essi.” Em tese, embora secretas, as denúncias não deviam ser anônimas, mas o anonimato podia ser aceito quando o caso era considerado extremamente grave. Fontes anônimas? Boa ideia, não é? Vamos adotá-la. Ou é o que estamos fazendo, pela enésima vez?
A prática do denuncismo e das delações é antiga. Já Platão tinha um juízo severo para os sicofantas: os que querem ficar ricos de qualquer maneira “produzem falsos testemunhos e se deixam corromper por subornos”. Os romanos usaram e se lambuzaram de denúncias, ostensivas ou secretas, e tornaram-se especialistas no assunto. O despotismo que os promovia e os banhos de sangue em que resultavam — leia-se Tácito — são de dar vergonha aos Netanyahus e Bannons. (Ah! Em geral era para assegurar que os populares não tivessem os direitos que lhes queriam dar os Graco da vida, retirando privilégios dos optimates.)
E assim, ao longo dos séculos, vez e outra lá vêm os amigos da moral. Na Inquisição. No Macartismo. Na autofagia da Revolução Francesa.
Em 1789, o instrumento básico das denúncias, na primeira fase, é a imprensa. É o caso de L’Ami du Peuple, de Marat. Os comitês, como o Comité de Sûreté Générale, se multiplicam, são uma mistura de polícia e parquet, e fazem a triagem dos milhares de delações. Seu alvo passa da aristocracia para todo cidadão, que passa a ser suspeito por suas relações, suas opiniões e até sua aparência. Chega o Terror. Seu papel muda: elas, denúncias, passam a substituir o inquérito. A lei torna a delação a base da acusação judiciária. Robespierre assume o controle com o Comité de Salut Public, que dirige a política do Estado, mas também age como investigador e acusador. As cabeças caem aos milhares. A Convenção recebe mais de quinhentas denúncias contra duas centenas de seus membros. O Comité de Sûreté Générale monta um dossiê contra o “ditador” que deseja assumir o seu controle. Cai Robespierre por seu próprio método: o acusado não tem direito de ser ouvido. O apoio da multidão, que o seguira sedenta de sangue, desaparece da noite para o dia. Condenado sem processo, a guilhotina faz seu trabalho sob o aplauso do povo. Vem então a “reação” (Réaction Thermidorienne) das delações contra os delatores, quando os novos delatores superam em número os antigos e o “denunciante virtuoso” passa a ser o “vil delator”.
Aqui entre nós os beneficiários parece que movem muitos $$$, o que sempre é motivo para uma boa manipulação, sobretudo acusando … manipulações. Mas é curioso que quando recomeça a campanha moralista da imprensa ela tenha como alvo o órgão que puniu os golpistas, o ministro com a chave da cadeia e o que vai, finalmente, examinar o trabalho do autor do discurso do método para bem conduzir a razão e buscar a verdade, não, como você está pensando, René Descartes, mas o humilde magistrado candidato a presidente que, frustrado em suas pretensões, aderiu ao genocida, virou ministro e senador. A bíblia de seu método de defender a moral — ou amoral? — é curta, pois Moro não é muito seguro no uso das palavras:
“Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.”
Se a honra vai para as cucuias, o que pode se fazer? Mais vale correr o risco de prejudicar. Se não é verdade, o objetivo já foi alcançado. Afinal,
“punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo.”
Depois, vamos e venhamos, “a presunção de inocência […] não é absoluta”.
Partindo do pressuposto de que os outros são culpados, ele recorreu a todo o arsenal que a tecnologia colocou ao seu alcance, como ensinara o nunca assaz citado Joseph Goebbels. Há melhor maneira de agir do que se assegurar, com uns filmetes, que se tem a solidariedade da equipe e dos embargadores? E é preciso assegurar que a lavajato seja, como boa orcrim, “estruturalmente ordenada [para obter] vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais”.
Já tendo participado de mais de uma e escapado ileso, o velhaco continua a contar com seus cúmplices e colaboradores, e, com a delação do seu ex-delator, precisa que seja acusado quem o vai julgar. Já que os americanos fizeram um código de ética da Supreme Court, que não tem ética nenhuma, faça-se um para o Supremo, mesmo que os ministros já tenham que obedecer ao Código de Ética da Magistratura (Resolução 60/2008 do CNJ). Enquanto isso o genocida continua comandando sua orcrim da cadeia, escolhendo candidatos e orientando as fakenews. Nem se pense em punir o golpe de 5 de agosto — parlamentar pode tentar golpe, não é? — pois já punimos as beatas com Bíblias que participaram do 8 de janeiro e ele precisa poder dizer “ganhamos, mas fomos roubados”.
Nessas horas os interesses se somam. Além dos do amoral, há o dos banqueiros e farialimer’s que vivem na zona da especulação desenfreada, com negócios com o crime organizado. O do crime organizado. O dos que botam o dinheiro público para participar de bancos podres. O das fintechs que banco são, banco não sendo. O dos donos de partido que partem e repartem os governos. O dos cúmplices do genocida. O dos admiradores de Trump. Muitos se encaixam em mais de uma categoria. Vale o método: honras ao vento, que suas plumas nunca mais voltam à casa. Desmoralizemos todos.
Aqui, ali e acolá, basta abrir o jornal.
A prática do denuncismo e das delações é antiga. Já Platão tinha um juízo severo para os sicofantas: os que querem ficar ricos de qualquer maneira “produzem falsos testemunhos e se deixam corromper por subornos”. Os romanos usaram e se lambuzaram de denúncias, ostensivas ou secretas, e tornaram-se especialistas no assunto. O despotismo que os promovia e os banhos de sangue em que resultavam — leia-se Tácito — são de dar vergonha aos Netanyahus e Bannons. (Ah! Em geral era para assegurar que os populares não tivessem os direitos que lhes queriam dar os Graco da vida, retirando privilégios dos optimates.)
E assim, ao longo dos séculos, vez e outra lá vêm os amigos da moral. Na Inquisição. No Macartismo. Na autofagia da Revolução Francesa.
Em 1789, o instrumento básico das denúncias, na primeira fase, é a imprensa. É o caso de L’Ami du Peuple, de Marat. Os comitês, como o Comité de Sûreté Générale, se multiplicam, são uma mistura de polícia e parquet, e fazem a triagem dos milhares de delações. Seu alvo passa da aristocracia para todo cidadão, que passa a ser suspeito por suas relações, suas opiniões e até sua aparência. Chega o Terror. Seu papel muda: elas, denúncias, passam a substituir o inquérito. A lei torna a delação a base da acusação judiciária. Robespierre assume o controle com o Comité de Salut Public, que dirige a política do Estado, mas também age como investigador e acusador. As cabeças caem aos milhares. A Convenção recebe mais de quinhentas denúncias contra duas centenas de seus membros. O Comité de Sûreté Générale monta um dossiê contra o “ditador” que deseja assumir o seu controle. Cai Robespierre por seu próprio método: o acusado não tem direito de ser ouvido. O apoio da multidão, que o seguira sedenta de sangue, desaparece da noite para o dia. Condenado sem processo, a guilhotina faz seu trabalho sob o aplauso do povo. Vem então a “reação” (Réaction Thermidorienne) das delações contra os delatores, quando os novos delatores superam em número os antigos e o “denunciante virtuoso” passa a ser o “vil delator”.
Aqui entre nós os beneficiários parece que movem muitos $$$, o que sempre é motivo para uma boa manipulação, sobretudo acusando … manipulações. Mas é curioso que quando recomeça a campanha moralista da imprensa ela tenha como alvo o órgão que puniu os golpistas, o ministro com a chave da cadeia e o que vai, finalmente, examinar o trabalho do autor do discurso do método para bem conduzir a razão e buscar a verdade, não, como você está pensando, René Descartes, mas o humilde magistrado candidato a presidente que, frustrado em suas pretensões, aderiu ao genocida, virou ministro e senador. A bíblia de seu método de defender a moral — ou amoral? — é curta, pois Moro não é muito seguro no uso das palavras:
“Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.”
Se a honra vai para as cucuias, o que pode se fazer? Mais vale correr o risco de prejudicar. Se não é verdade, o objetivo já foi alcançado. Afinal,
“punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil, se não por outros motivos, então pela carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal. Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo.”
Depois, vamos e venhamos, “a presunção de inocência […] não é absoluta”.
Partindo do pressuposto de que os outros são culpados, ele recorreu a todo o arsenal que a tecnologia colocou ao seu alcance, como ensinara o nunca assaz citado Joseph Goebbels. Há melhor maneira de agir do que se assegurar, com uns filmetes, que se tem a solidariedade da equipe e dos embargadores? E é preciso assegurar que a lavajato seja, como boa orcrim, “estruturalmente ordenada [para obter] vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais”.
Já tendo participado de mais de uma e escapado ileso, o velhaco continua a contar com seus cúmplices e colaboradores, e, com a delação do seu ex-delator, precisa que seja acusado quem o vai julgar. Já que os americanos fizeram um código de ética da Supreme Court, que não tem ética nenhuma, faça-se um para o Supremo, mesmo que os ministros já tenham que obedecer ao Código de Ética da Magistratura (Resolução 60/2008 do CNJ). Enquanto isso o genocida continua comandando sua orcrim da cadeia, escolhendo candidatos e orientando as fakenews. Nem se pense em punir o golpe de 5 de agosto — parlamentar pode tentar golpe, não é? — pois já punimos as beatas com Bíblias que participaram do 8 de janeiro e ele precisa poder dizer “ganhamos, mas fomos roubados”.
Nessas horas os interesses se somam. Além dos do amoral, há o dos banqueiros e farialimer’s que vivem na zona da especulação desenfreada, com negócios com o crime organizado. O do crime organizado. O dos que botam o dinheiro público para participar de bancos podres. O das fintechs que banco são, banco não sendo. O dos donos de partido que partem e repartem os governos. O dos cúmplices do genocida. O dos admiradores de Trump. Muitos se encaixam em mais de uma categoria. Vale o método: honras ao vento, que suas plumas nunca mais voltam à casa. Desmoralizemos todos.
Aqui, ali e acolá, basta abrir o jornal.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
IA responsável na prática: quando a confiança deixa de ser retórica
Falar de Inteligência Artificial responsável tornou-se consensual. Executá-la não. Entre declarações estratégicas, princípios éticos e compromissos públicos, pode permanecer um vazio crítico: a distância entre a promessa da IA e a forma como ela, de facto, interfere nas decisões que moldam a vida dos cidadãos.
A confiança na IA não resulta da sofisticação tecnológica nem da ambição dos planos nacionais, resulta, antes, da experiência concreta das pessoas quando são avaliadas, classificadas, priorizadas ou excluídas por sistemas que não veem, não compreendem e não controlam. É nesse ponto que transparência, explicabilidade e supervisão humana deixam de ser conceitos elegantes e passam a ser critérios de legitimidade.
A transparência é o primeiro teste de maturidade democrática da IA. Um cidadão tem o direito de saber quando uma decisão relevante é influenciada por um sistema algorítmico, com que finalidade e em que termos. Não se trata de abrir modelos nem de divulgar segredos técnicos. Trata-se de assumir, de forma clara e inequívoca, que a tecnologia participa na decisão e que essa participação tem consequências reais. Onde não há visibilidade, instala-se a desconfiança. E onde há desconfiança, a inovação perde o seu valor social.
Mas saber que a IA existe não basta. É preciso compreendê-la no essencial. A explicabilidade não é um luxo académico nem uma exigência teórica do regulador. É a condição mínima para que uma decisão possa ser questionada, corrigida e responsabilizada. Quando a resposta institucional a um erro é “foi o sistema”, o Estado abdica da sua função mais básica: prestar contas. Sem explicação inteligível, não há contraditório. E sem contraditório, não há justiça nem confiança.
A supervisão humana, por sua vez, é talvez o ponto onde mais frequentemente se confunde intenção com prática. Colocar um humano no final da cadeia decisória não é supervisão, é transferência de responsabilidade. Supervisionar implica ter competência para compreender o sistema, autoridade para o contrariar e tempo para o fazer. Exige formação, enquadramento organizacional e, sobretudo, uma cultura que não penalize quem decide discordar da máquina. Caso contrário, a decisão continua a ser algorítmica, apenas legitimada por uma assinatura humana.
A adoção responsável da IA não se mede pelo número de projetos-piloto nem pela rapidez da automação. Mede-se pela capacidade de integrar limites, controle e responsabilidade desde o desenho do sistema até à sua utilização quotidiana. Especialmente no setor público, onde o impacto é estrutural e cumulativo, a eficiência não pode substituir a legitimidade.
A IA pode ser uma poderosa aliada da administração pública, da economia e da inovação. Mas sem transparência, explicação e supervisão efetiva, transforma-se num exercício de poder opaco, difícil de contestar e fácil de normalizar. A confiança não se decreta, constrói-se. E na IA, constrói-se todos os dias, ou perde-se rapidamente.
No fim, a questão é simples e profundamente política: queremos tecnologia que amplifique a responsabilidade ou que a dilua? A resposta não está nos algoritmos. Está nas escolhas que fazemos sobre como, quando e em que condições os deixamos decidir. A confiança não pode ser retórica!
A confiança na IA não resulta da sofisticação tecnológica nem da ambição dos planos nacionais, resulta, antes, da experiência concreta das pessoas quando são avaliadas, classificadas, priorizadas ou excluídas por sistemas que não veem, não compreendem e não controlam. É nesse ponto que transparência, explicabilidade e supervisão humana deixam de ser conceitos elegantes e passam a ser critérios de legitimidade.
A transparência é o primeiro teste de maturidade democrática da IA. Um cidadão tem o direito de saber quando uma decisão relevante é influenciada por um sistema algorítmico, com que finalidade e em que termos. Não se trata de abrir modelos nem de divulgar segredos técnicos. Trata-se de assumir, de forma clara e inequívoca, que a tecnologia participa na decisão e que essa participação tem consequências reais. Onde não há visibilidade, instala-se a desconfiança. E onde há desconfiança, a inovação perde o seu valor social.
Mas saber que a IA existe não basta. É preciso compreendê-la no essencial. A explicabilidade não é um luxo académico nem uma exigência teórica do regulador. É a condição mínima para que uma decisão possa ser questionada, corrigida e responsabilizada. Quando a resposta institucional a um erro é “foi o sistema”, o Estado abdica da sua função mais básica: prestar contas. Sem explicação inteligível, não há contraditório. E sem contraditório, não há justiça nem confiança.
A supervisão humana, por sua vez, é talvez o ponto onde mais frequentemente se confunde intenção com prática. Colocar um humano no final da cadeia decisória não é supervisão, é transferência de responsabilidade. Supervisionar implica ter competência para compreender o sistema, autoridade para o contrariar e tempo para o fazer. Exige formação, enquadramento organizacional e, sobretudo, uma cultura que não penalize quem decide discordar da máquina. Caso contrário, a decisão continua a ser algorítmica, apenas legitimada por uma assinatura humana.
A adoção responsável da IA não se mede pelo número de projetos-piloto nem pela rapidez da automação. Mede-se pela capacidade de integrar limites, controle e responsabilidade desde o desenho do sistema até à sua utilização quotidiana. Especialmente no setor público, onde o impacto é estrutural e cumulativo, a eficiência não pode substituir a legitimidade.
A IA pode ser uma poderosa aliada da administração pública, da economia e da inovação. Mas sem transparência, explicação e supervisão efetiva, transforma-se num exercício de poder opaco, difícil de contestar e fácil de normalizar. A confiança não se decreta, constrói-se. E na IA, constrói-se todos os dias, ou perde-se rapidamente.
No fim, a questão é simples e profundamente política: queremos tecnologia que amplifique a responsabilidade ou que a dilua? A resposta não está nos algoritmos. Está nas escolhas que fazemos sobre como, quando e em que condições os deixamos decidir. A confiança não pode ser retórica!
Com penduricalhos, Carnaval dos Poderes dura o ano todo
Depois de contar a história da "alta funcionária" que havia entrado no serviço público de "paraquedas" (quer dizer, valendo-se de algum favor político), o cantor Blecaute esperava o breque da Orquestra Tabajara para concluir: "Que grande vigarista que ela é".
Gravada em outubro de 1951, "Maria Candelária", marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, tornou-se um dos grandes sucessos do Carnaval do ano seguinte. É uma daquelas músicas que, se pescadas no rio do tempo e escaladas para embalar um bloco de hoje, ressurgem sem rugas no rosto e de corpinho enxuto, como se tivessem sido compostas ontem.
Maria Candelária chegava para trabalhar ao meio-dia. A uma da tarde ia ao dentista, às duas ao café, às três à modista. Antes das quatro assinava o ponto e se mandava. Pensando bem, para os parâmetros atuais, era uma vigarista modesta. Não tinha direito à licença compensatória, medida aprovada para funcionários da Câmara e do Senado, que poderão ter um dia de folga a cada três trabalhados.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os três Poderes revisem e suspendam os penduricalhos do serviço público não previstos em lei. Nada mais carnavalesco que a palavra penduricalho, cujos sinônimos, de acordo com o dicionário Houaiss, são pingente, balangandã, berenguendém, berloque e, não por último, condecoração honorífica. Na gíria, penduricalho também é usado para se referir ao pênis, membro pendente como certos funcionários.
O significado da palavra extrapola a simples folia. Encobre uma imoralidade que sintetiza a prática da boquinha e gera o estereótipo de que o funcionário público não faz nada e ainda ganha por fora. Uma visão que mistura realidade com preconceito. A culpa é de quem faz da administração pública uma propriedade particular, distribuindo benesses que elevam os salários acima dos tetos constitucionais.
Segundo especialistas, a farra com pagamentos extras do tipo auxílio-peru e auxílio-panetone custa em torno de R$ 20 bilhões por ano.
Gravada em outubro de 1951, "Maria Candelária", marchinha de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, tornou-se um dos grandes sucessos do Carnaval do ano seguinte. É uma daquelas músicas que, se pescadas no rio do tempo e escaladas para embalar um bloco de hoje, ressurgem sem rugas no rosto e de corpinho enxuto, como se tivessem sido compostas ontem.
Maria Candelária chegava para trabalhar ao meio-dia. A uma da tarde ia ao dentista, às duas ao café, às três à modista. Antes das quatro assinava o ponto e se mandava. Pensando bem, para os parâmetros atuais, era uma vigarista modesta. Não tinha direito à licença compensatória, medida aprovada para funcionários da Câmara e do Senado, que poderão ter um dia de folga a cada três trabalhados.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que os três Poderes revisem e suspendam os penduricalhos do serviço público não previstos em lei. Nada mais carnavalesco que a palavra penduricalho, cujos sinônimos, de acordo com o dicionário Houaiss, são pingente, balangandã, berenguendém, berloque e, não por último, condecoração honorífica. Na gíria, penduricalho também é usado para se referir ao pênis, membro pendente como certos funcionários.
O significado da palavra extrapola a simples folia. Encobre uma imoralidade que sintetiza a prática da boquinha e gera o estereótipo de que o funcionário público não faz nada e ainda ganha por fora. Uma visão que mistura realidade com preconceito. A culpa é de quem faz da administração pública uma propriedade particular, distribuindo benesses que elevam os salários acima dos tetos constitucionais.
Segundo especialistas, a farra com pagamentos extras do tipo auxílio-peru e auxílio-panetone custa em torno de R$ 20 bilhões por ano.
Orelha
Não sou sujeito demasiadamente voltado aos animais. Não os tenho em casa, dedico meu amor exclusivamente às pessoas. Obviamente, respeito os bichinhos, de maneira geral, acho os filhotes bonitos, muito mais do que os humanos, e seria incapaz de fazer-lhes uma violência. Aliás, considero qualquer demonstração de força ato de incivilidade. Não fomos feitos para bater, nem para apanhar.
Por mais que tentemos ficar alheios às causas de emoção nos meios de comunicação, no meu caso até por questão de sobrevivência, pois a natureza cruel das notícias costuma me deixar abalado, muitas vezes não escapamos às vilezas estampadas nas manchetes. O caso do cãozinho Orelha chocou-me profundamente. Por vários motivos. A monstruosidade ocorrida é um retrato fiel da sociedade mundial, nossos jovens preparam-se para marchar em direção ao tempo distópico que se anuncia. Um futuro em que não há futuro. Assassinos em série, exatamente como vemos nos filmes, treinam nas praias de Santa Catarina. Torturam primeiro cachorros inocentes, para mais tarde cometerem feminicídios, latrocínios, tudo com o beneplácito de um sistema que protege os mais ricos, o tal do capitalismo selvagem. Põe selvagem nisso!
Pelo que li, Orelha era um pet comunitário. Criado pela gente simples do seu entorno, animal já idoso, inofensivo, fazia a alegria de algumas crianças locais, era amado por todos. Só que as crias dos donos do poder, daqueles abastados que sonham com carrões ao som de música sertaneja, não gostam de nada usufruído por grupos. São criadas aprendendo, desde muito cedo, a privilegiar o individual. Irão crescer desejando a solidão das competições, empenhados em vencer disputas seja lá do jeito que for, usando os meios possíveis e impossíveis, legais ou não. O importante é chegar em primeiro lugar, e chamarão o resultado duvidoso de meritocracia. Serão recompensadas com viagens à Disney. Mas, antes de viajar, lavarão as mãos manchadas de sangue.
Nos Estados Unidos, país em que um dia houve democracia, observarão excitados os desfiles armados das tropas Gestapo do ICE. E, se por acaso derem com alguma agressão, os meninos terão seus primeiros orgasmos, saudarão os fascistas como gente deles, irresponsavelmente felizes. Pois irresponsabilidade é a marca de suas vidas.
Quando voltarem, se unirão em tropas de elite, comandos de filhinhos de papai preparados para continuar suas artes. Marciais. E, especialistas que são em bullying, cercarão algum colega boa gente, bom aluno, daqueles que sempre tiram as melhores notas, e exercerão a violência aprendida desde sempre. Será muito mais gostoso, então, trucidar um semelhante. Matarão por gostar de matar, e por poderem, estarem autorizados. Talvez também enfiem um prego na cabeça do companheiro de classe, o mesmo instrumento de aço que violentou o crânio de Orelha. Mas serão perdoados. São apenas crianças, não sabem o que fazem.
Por mais que tentemos ficar alheios às causas de emoção nos meios de comunicação, no meu caso até por questão de sobrevivência, pois a natureza cruel das notícias costuma me deixar abalado, muitas vezes não escapamos às vilezas estampadas nas manchetes. O caso do cãozinho Orelha chocou-me profundamente. Por vários motivos. A monstruosidade ocorrida é um retrato fiel da sociedade mundial, nossos jovens preparam-se para marchar em direção ao tempo distópico que se anuncia. Um futuro em que não há futuro. Assassinos em série, exatamente como vemos nos filmes, treinam nas praias de Santa Catarina. Torturam primeiro cachorros inocentes, para mais tarde cometerem feminicídios, latrocínios, tudo com o beneplácito de um sistema que protege os mais ricos, o tal do capitalismo selvagem. Põe selvagem nisso!
Pelo que li, Orelha era um pet comunitário. Criado pela gente simples do seu entorno, animal já idoso, inofensivo, fazia a alegria de algumas crianças locais, era amado por todos. Só que as crias dos donos do poder, daqueles abastados que sonham com carrões ao som de música sertaneja, não gostam de nada usufruído por grupos. São criadas aprendendo, desde muito cedo, a privilegiar o individual. Irão crescer desejando a solidão das competições, empenhados em vencer disputas seja lá do jeito que for, usando os meios possíveis e impossíveis, legais ou não. O importante é chegar em primeiro lugar, e chamarão o resultado duvidoso de meritocracia. Serão recompensadas com viagens à Disney. Mas, antes de viajar, lavarão as mãos manchadas de sangue.
Nos Estados Unidos, país em que um dia houve democracia, observarão excitados os desfiles armados das tropas Gestapo do ICE. E, se por acaso derem com alguma agressão, os meninos terão seus primeiros orgasmos, saudarão os fascistas como gente deles, irresponsavelmente felizes. Pois irresponsabilidade é a marca de suas vidas.
Quando voltarem, se unirão em tropas de elite, comandos de filhinhos de papai preparados para continuar suas artes. Marciais. E, especialistas que são em bullying, cercarão algum colega boa gente, bom aluno, daqueles que sempre tiram as melhores notas, e exercerão a violência aprendida desde sempre. Será muito mais gostoso, então, trucidar um semelhante. Matarão por gostar de matar, e por poderem, estarem autorizados. Talvez também enfiem um prego na cabeça do companheiro de classe, o mesmo instrumento de aço que violentou o crânio de Orelha. Mas serão perdoados. São apenas crianças, não sabem o que fazem.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Era de autorregulação das big techs está chegando ao fim
O avanço coordenado entre governos europeus indica que a lógica de autorregulação das big techs está se enfraquecendo. Na semana passada, a Espanha deu mais um passo nessa direção ao anunciar planos para proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais – o que reforça a tendência regulatória no continente. O premiê Pedro Sánchez disse que a iniciativa é para proteger crianças e adolescentes de um “ambiente digital sem lei”, marcado por abuso, vício, pornografia, discurso de ódio e manipulação algorítmica.
Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e Irlanda avaliam medidas parecidas.
Trata-se de uma reafirmação do Estado diante de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma agressiva na política europeia.
A proposta espanhola ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.
A reação das big techs e de seus líderes tem sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis acusando o governo de promover censura e vigilância.
Por trás da resistência das big techs está um modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.
É nesse contexto que se entende a aproximação de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green no Financial Times.
Diante da expectativa de regulações mais duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora dos EUA.
Essa lógica se mostrou no caso brasileiro, quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações. Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não precisariam de apoio americano.
A história mostra que, em confrontos decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980. Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da legislação.
Críticas alertam para o risco de empurrar jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia, finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.
Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria democracia.
Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e Irlanda avaliam medidas parecidas.
Trata-se de uma reafirmação do Estado diante de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma agressiva na política europeia.
A proposta espanhola ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.
A reação das big techs e de seus líderes tem sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis acusando o governo de promover censura e vigilância.
Por trás da resistência das big techs está um modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.
É nesse contexto que se entende a aproximação de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green no Financial Times.
Diante da expectativa de regulações mais duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora dos EUA.
Essa lógica se mostrou no caso brasileiro, quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações. Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não precisariam de apoio americano.
A história mostra que, em confrontos decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980. Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da legislação.
Críticas alertam para o risco de empurrar jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia, finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.
Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria democracia.
Os bandidos de Deus
Efetivos da Polícia Militar do Rio de Janeiro foram filmados a derrubar uma grande estrela de David instalada no alto de uma caixa de água em Parada de Lucas, símbolo que marcava o Complexo de Israel, área controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP). Um jornal de Goiás dizia que na mesma operação, a polícia demoliu o imóvel de luxo do “Peixão”, chefe local do tráfico, que estava construído numa área de proteção ambiental.
Este TCP é um grupo criminoso que vai ganhando expressão nacional como terceira força do crime organizado no Brasil, logo depois do PCC e do Comando Vermelho. A sua expansão tem sido acelerada e está a chamar a atenção das autoridades. Neste momento está a implantar-se nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará e Amapá, e por vezes a sua penetração em novas regiões resulta de alianças com outros grupos criminosos.
A característica principal desta quadrilha é a sua identificação através de simbologia e slogans ligados ao mundo evangélico e neste momento já começa a ser alvo de denúncias de intolerância religiosa, como o encerramento forçado de terreiros e perseguição a outras vertentes religiosas.
Os investigadores que se têm dedicado a estudar o fenómeno classificam o Terceiro Comando Puro como “narcopentecostalismo”, com base na articulação entre a estética cristã, ao nível da simbologia utilizada com as práticas criminosas utilizadas como forma de controlo do território, mas também como forma de assegurar a coesão interna.
O TCP mantém ligações próximas com o PCC e diversas milícias, como forma de ampliar e explorar as rotas e mercados do crime. Mas é previsível que o choque de interesses decorrente do crescimento acelerado possa elevar o risco de confrontos em regiões onde a violência já impõe o medo e por vezes paralisa alguns serviços essenciais. A nosso ver o fenómeno do narcopentecostalismo decorre de algumas causas.
Primeiro devido à perda da ética pessoal e social que caracterizava o povo evangélico até aos anos sessenta. Antes, a ênfase estava na imposição de usos e costumes nas comunidades de fé, que traduziam um certo calvinismo pessoal, porém cultivava-se o alheamento social. Os pecados eram apenas pessoais – e não sociais – e a política ou mesmo a simples intervenção cívica por fiéis evangélicos era considerada coisa inconveniente.
A partir dos anos setenta e oitenta verificou-se um abastardamento do sentido de ser evangélico, ao ponto de a antiga ética pessoal e social ter sido gradualmente substituída pela atracção do poder. Foi aí que o neopentecostalismo começou a reconfigurar a ética cristã. Ao substituir a ética pessoal pela pretensão de governar a sociedade, boa parte do evangelicalismo perdeu a alma e entrou em contramão com os princípios bíblicos que até aí lhe eram fundamentais, na linha da boa tradição protestante.
Essa parte do evangelicalismo brasileiro hipotecou a sua herança histórica vendendo-a por um prato de lentilhas, e passou a disputar no campo da política, não como forma de sobrevivência mas por ensejo de poder e muitas vezes de destruição de outras propostas religiosas. É aqui que entram os pontapés na imagem de Aparecida, o fecho forçado de terreiros dos cultos africanos e os ataques violentos aos seus adeptos.
Esta narrativa de conquista e poder não é senão uma revisitação da velha igreja europeia medieval, das cruzadas, da Inquisição e da missionação forçada, que constituem páginas negras na história do catolicismo. Pois bem, chegou a vez do mundo evangélico repetir o mesmo erro.
Os grupos criminosos que mandam nas favelas e nos negócios das drogas e do crime inspiraram-se na simbologia e discurso cristão evangélico, não por ser uma mensagem de salvação e dignificação do ser humano, mas pela pulsão de poder que representa. No fundo, encontraram aí um sentido para sobreviver no buraco moral em que se encontram.
De facto, os textos bíblicos conferem-lhes um certo conforto, em particular no Antigo Testamento, onde o pequeno povo do Antigo Israel conseguiu grandes feitos porque Deus era com eles. Mas também a divisa paulina aplicada aos cristãos face à hostilidade do império romano “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31) é francamente apelativa para quem tem contra si as leis, a moral e o estado. Bandidos, sim, mas bandidos de Deus é bem melhor. Será mesmo?
Este TCP é um grupo criminoso que vai ganhando expressão nacional como terceira força do crime organizado no Brasil, logo depois do PCC e do Comando Vermelho. A sua expansão tem sido acelerada e está a chamar a atenção das autoridades. Neste momento está a implantar-se nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará e Amapá, e por vezes a sua penetração em novas regiões resulta de alianças com outros grupos criminosos.
A característica principal desta quadrilha é a sua identificação através de simbologia e slogans ligados ao mundo evangélico e neste momento já começa a ser alvo de denúncias de intolerância religiosa, como o encerramento forçado de terreiros e perseguição a outras vertentes religiosas.
Os investigadores que se têm dedicado a estudar o fenómeno classificam o Terceiro Comando Puro como “narcopentecostalismo”, com base na articulação entre a estética cristã, ao nível da simbologia utilizada com as práticas criminosas utilizadas como forma de controlo do território, mas também como forma de assegurar a coesão interna.
O TCP mantém ligações próximas com o PCC e diversas milícias, como forma de ampliar e explorar as rotas e mercados do crime. Mas é previsível que o choque de interesses decorrente do crescimento acelerado possa elevar o risco de confrontos em regiões onde a violência já impõe o medo e por vezes paralisa alguns serviços essenciais. A nosso ver o fenómeno do narcopentecostalismo decorre de algumas causas.
Primeiro devido à perda da ética pessoal e social que caracterizava o povo evangélico até aos anos sessenta. Antes, a ênfase estava na imposição de usos e costumes nas comunidades de fé, que traduziam um certo calvinismo pessoal, porém cultivava-se o alheamento social. Os pecados eram apenas pessoais – e não sociais – e a política ou mesmo a simples intervenção cívica por fiéis evangélicos era considerada coisa inconveniente.
A partir dos anos setenta e oitenta verificou-se um abastardamento do sentido de ser evangélico, ao ponto de a antiga ética pessoal e social ter sido gradualmente substituída pela atracção do poder. Foi aí que o neopentecostalismo começou a reconfigurar a ética cristã. Ao substituir a ética pessoal pela pretensão de governar a sociedade, boa parte do evangelicalismo perdeu a alma e entrou em contramão com os princípios bíblicos que até aí lhe eram fundamentais, na linha da boa tradição protestante.
Essa parte do evangelicalismo brasileiro hipotecou a sua herança histórica vendendo-a por um prato de lentilhas, e passou a disputar no campo da política, não como forma de sobrevivência mas por ensejo de poder e muitas vezes de destruição de outras propostas religiosas. É aqui que entram os pontapés na imagem de Aparecida, o fecho forçado de terreiros dos cultos africanos e os ataques violentos aos seus adeptos.
Esta narrativa de conquista e poder não é senão uma revisitação da velha igreja europeia medieval, das cruzadas, da Inquisição e da missionação forçada, que constituem páginas negras na história do catolicismo. Pois bem, chegou a vez do mundo evangélico repetir o mesmo erro.
Os grupos criminosos que mandam nas favelas e nos negócios das drogas e do crime inspiraram-se na simbologia e discurso cristão evangélico, não por ser uma mensagem de salvação e dignificação do ser humano, mas pela pulsão de poder que representa. No fundo, encontraram aí um sentido para sobreviver no buraco moral em que se encontram.
De facto, os textos bíblicos conferem-lhes um certo conforto, em particular no Antigo Testamento, onde o pequeno povo do Antigo Israel conseguiu grandes feitos porque Deus era com eles. Mas também a divisa paulina aplicada aos cristãos face à hostilidade do império romano “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31) é francamente apelativa para quem tem contra si as leis, a moral e o estado. Bandidos, sim, mas bandidos de Deus é bem melhor. Será mesmo?
Brasil 2026: justiça para pobres, perdão para ricaços?
Começar 2026 falando de justiça é quase um ato de humor. O Brasil adora a palavra, mas costuma praticá-la como quem serve cafezinho ralo: muita fumaça, pouco conteúdo. O debate da vez mistura anistia política, crimes econômicos e credibilidade nacional — um trio que, se fosse samba de gafieira, sairia em dó maior.
De um lado direito, discute-se aliviar penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Do lado esquerdo, observa-se com lupa embaçada a responsabilização de grandes operadores financeiros cujas decisões (ou omissões) custaram bilhões, empregos, poupança e paz de espírito. A pergunta que fica é simples, direta e indigesta: quem paga a conta deste Brasil? Serão os mesmos? Claro! O Zé e a Chiquinha já estão na mira e nem sabem.
Anistia, historicamente, foi instrumento de reconciliação nacional. Na redemocratização, fez sentido. O problema começa quando a anistia vira atalho político — ora para apaziguar ruas, ora para agradar bases, ora para “virar a página” sem ler o capítulo. Não se trata aqui de defender punições exemplares por vingança, mas de coerência. Estado de Direito não é buffet livre: não se escolhe a sobremesa e ignora o prato principal. O famoso advogado dos Tribunais Superiores, apareceu, em filmeto nacional e sem cortes, expondo as vísceras dos nossos tribunais e a interferência dos familiares. Que coisa maluca! Vai ficar assim? A coisa cai ou não cai?
Mário Henrique Simonsen já alertava: confiança é o ativo invisível da economia. Quando ela evapora, o custo aparece nos juros, no câmbio, no investimento que não vem. E os 15% ao ano, da segunda maior taxa básica de juros do mundo… baixarão? Nunquinha! não há clima. A primeira é da Turquia e a dos Estados Unidos varia entre 3,0 e 3,5% ao ano. Ainda seremos americanos ou turcos?
A sociedade reage com emoção aos eventos políticos — e com razão. Mas reage com decepção técnica aos escândalos financeiros, como se fossem “coisa de especialista”. Aí mora o erro. Um prejuízo bilionário não é abstrato: ele se traduz em crédito mais caro, imposto mais alto, emprego mais raro e de malas prontas para os países vizinhos. Roberto Campos, com seu humor seco, diria que não existe almoço grátis — alguém sempre paga, geralmente quem não foi convidado para a mesa.
Casos recentes de turbulência bancária — como o do Banco Master — expuseram uma engrenagem sensível: quando a governança falha e o porrete chega tarde, o dano se espalha e o emprego voa. O debate público (fofoca), porém, corre em paralelo, como se a punição aos responsáveis fosse detalhe técnico. Não é. É política econômica em estado puro. É sempre bom espalhar o que o nosso professor de microeconomia, Senador Jeferson Peres, não cansava de lembrar: o Banco Central existe para cuidar da nossa moeda e o Supremo tem a finalidade de tomar conta da nossa Constituição. Estarão conseguindo esse mínimo?
Estarão as nossas Instituições em rota de colisão ou do nosso lado?
O Brasil gosta de dizer que suas instituições “funcionam”. Funcionam, sim — mas às vezes como um motor desalinhado: cada peça gira num ritmo. Quando tribunais, órgãos de controle e reguladores se atropelam, o resultado é insegurança. Investidor odeia surpresa; poupador odeia silêncio. A interferência excessiva onde deveria haver técnica — e a técnica tímida onde deveria haver decisão — criam o pior dos mundos. É sempre bom lembrar que o dinheiro só exige segurança para o “crescei e multiplicai-vos”. Caso contrário, ele sai pela porta, pelas janelas, pelo buraco da fechadura, pega a internet e voa.
Aqui, a ironia dói: rigor máximo para a pessoa física, flexibilidade infinita para a pessoa jurídica poderosa. A lei vira elástico. Estica para uns, encolhe para outros. E o recado ao mundo é péssimo: o Brasil pune mal o erro que destrói valor e debate demais o erro que destrói vitrines.
Soberania não é só bandeira. É previsibilidade institucional. O Brasil, relativizando crimes econômicos mina a sua própria moeda moral. O capital — lê sinais. Se percebe que a régua muda conforme o CEP, ele cobra prêmio: juros mais altos, investimento mais curto, inovação mais lenta. Resultado? Crescimento capenga, inflação teimosa, frustração cíclica.
Simonsen ensinava que estabilização é disciplina. Roberto Campos lembrava que liberalismo sem responsabilidade vira caricatura. Ambos concordariam num ponto: sem punição clara para quem quebra a confiança do sistema, não há mercado que se sustente.
Não é preciso reinventar o Brasil. Bastam três obviedades:
Responsabilização harmônica: crime político e crime econômico devem enfrentar a mesma seriedade — cada qual com sua tipificação, sem espetáculo nem indulgência. Sem heróis.
Coordenação institucional: menos vaidade, mais técnica. Reguladores regulam; tribunais julgam; controle fiscaliza — com diálogo e prazos. Sem artistas.
Transparência que doa: silêncio custa caro. Comunicação clara reduz pânico, boato e oportunismo. Sem lirismo.
Encerrar 2026 com crescimento exigirá coragem para dizer não ao perdão seletivo e sim à justiça previsível. Caso contrário, seguiremos campeões mundiais da pergunta errada: “Quem foi?”, quando a certa é “Quem paga?”. E, no Brasil, pagar — quase sempre — é tarefa dos mesmos de sempre e eternamente.
Lembrando: os presos do 8 de janeiro, e do Banco Master, serão decisivos na eleição de 2026.
Roberto Caminha Filho
De um lado direito, discute-se aliviar penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Do lado esquerdo, observa-se com lupa embaçada a responsabilização de grandes operadores financeiros cujas decisões (ou omissões) custaram bilhões, empregos, poupança e paz de espírito. A pergunta que fica é simples, direta e indigesta: quem paga a conta deste Brasil? Serão os mesmos? Claro! O Zé e a Chiquinha já estão na mira e nem sabem.
Anistia, historicamente, foi instrumento de reconciliação nacional. Na redemocratização, fez sentido. O problema começa quando a anistia vira atalho político — ora para apaziguar ruas, ora para agradar bases, ora para “virar a página” sem ler o capítulo. Não se trata aqui de defender punições exemplares por vingança, mas de coerência. Estado de Direito não é buffet livre: não se escolhe a sobremesa e ignora o prato principal. O famoso advogado dos Tribunais Superiores, apareceu, em filmeto nacional e sem cortes, expondo as vísceras dos nossos tribunais e a interferência dos familiares. Que coisa maluca! Vai ficar assim? A coisa cai ou não cai?
Mário Henrique Simonsen já alertava: confiança é o ativo invisível da economia. Quando ela evapora, o custo aparece nos juros, no câmbio, no investimento que não vem. E os 15% ao ano, da segunda maior taxa básica de juros do mundo… baixarão? Nunquinha! não há clima. A primeira é da Turquia e a dos Estados Unidos varia entre 3,0 e 3,5% ao ano. Ainda seremos americanos ou turcos?
A sociedade reage com emoção aos eventos políticos — e com razão. Mas reage com decepção técnica aos escândalos financeiros, como se fossem “coisa de especialista”. Aí mora o erro. Um prejuízo bilionário não é abstrato: ele se traduz em crédito mais caro, imposto mais alto, emprego mais raro e de malas prontas para os países vizinhos. Roberto Campos, com seu humor seco, diria que não existe almoço grátis — alguém sempre paga, geralmente quem não foi convidado para a mesa.
Casos recentes de turbulência bancária — como o do Banco Master — expuseram uma engrenagem sensível: quando a governança falha e o porrete chega tarde, o dano se espalha e o emprego voa. O debate público (fofoca), porém, corre em paralelo, como se a punição aos responsáveis fosse detalhe técnico. Não é. É política econômica em estado puro. É sempre bom espalhar o que o nosso professor de microeconomia, Senador Jeferson Peres, não cansava de lembrar: o Banco Central existe para cuidar da nossa moeda e o Supremo tem a finalidade de tomar conta da nossa Constituição. Estarão conseguindo esse mínimo?
Estarão as nossas Instituições em rota de colisão ou do nosso lado?
O Brasil gosta de dizer que suas instituições “funcionam”. Funcionam, sim — mas às vezes como um motor desalinhado: cada peça gira num ritmo. Quando tribunais, órgãos de controle e reguladores se atropelam, o resultado é insegurança. Investidor odeia surpresa; poupador odeia silêncio. A interferência excessiva onde deveria haver técnica — e a técnica tímida onde deveria haver decisão — criam o pior dos mundos. É sempre bom lembrar que o dinheiro só exige segurança para o “crescei e multiplicai-vos”. Caso contrário, ele sai pela porta, pelas janelas, pelo buraco da fechadura, pega a internet e voa.
Aqui, a ironia dói: rigor máximo para a pessoa física, flexibilidade infinita para a pessoa jurídica poderosa. A lei vira elástico. Estica para uns, encolhe para outros. E o recado ao mundo é péssimo: o Brasil pune mal o erro que destrói valor e debate demais o erro que destrói vitrines.
Soberania não é só bandeira. É previsibilidade institucional. O Brasil, relativizando crimes econômicos mina a sua própria moeda moral. O capital — lê sinais. Se percebe que a régua muda conforme o CEP, ele cobra prêmio: juros mais altos, investimento mais curto, inovação mais lenta. Resultado? Crescimento capenga, inflação teimosa, frustração cíclica.
Simonsen ensinava que estabilização é disciplina. Roberto Campos lembrava que liberalismo sem responsabilidade vira caricatura. Ambos concordariam num ponto: sem punição clara para quem quebra a confiança do sistema, não há mercado que se sustente.
Não é preciso reinventar o Brasil. Bastam três obviedades:
Responsabilização harmônica: crime político e crime econômico devem enfrentar a mesma seriedade — cada qual com sua tipificação, sem espetáculo nem indulgência. Sem heróis.
Coordenação institucional: menos vaidade, mais técnica. Reguladores regulam; tribunais julgam; controle fiscaliza — com diálogo e prazos. Sem artistas.
Transparência que doa: silêncio custa caro. Comunicação clara reduz pânico, boato e oportunismo. Sem lirismo.
Encerrar 2026 com crescimento exigirá coragem para dizer não ao perdão seletivo e sim à justiça previsível. Caso contrário, seguiremos campeões mundiais da pergunta errada: “Quem foi?”, quando a certa é “Quem paga?”. E, no Brasil, pagar — quase sempre — é tarefa dos mesmos de sempre e eternamente.
Lembrando: os presos do 8 de janeiro, e do Banco Master, serão decisivos na eleição de 2026.
Roberto Caminha Filho
As vidas dos outros… e a nossa
Se, num jantar, um amigo, um conhecido ou um estranho sentado ao seu lado o questionar sobre quantas vezes por semana faz amor com o seu cônjuge ou se tem um(a) amante e onde se encontram, quantos minutos demora o ato sexual, se tem sempre um orgasmo, sentirá certamente repulsa. Que absurdo, que intromissão! Sente asco deste parágrafo. E, no entanto, se usar um anel ou uma pulseira inteligente, esta informação estará disponível para o produtor da pulseira e todos os seus fornecedores, e ainda terceiros a quem os seus dados sejam vendidos… o seu ritmo cardíaco está lá para o denunciar. Está também disponível para quem, com ou sem a sua autorização, aceda aos seus dados. Não é assim tão difícil. Os filhos adultos oferecem pulseiras aos pais para garantir que estão bem… poderão ficar a saber mais do que desejavam. A encriptação de dados não está sujeita a qualquer standard legal e por isso se alguém quiser saber o seu paradeiro a uma determinada hora, num certo dia, poderá sempre recorrer a alguém mais engenhoso ou até ao ChatGPT para obter um guia de acesso (em 2024 a OpenAI divulgou um relatório sobre como o ChatGPT estava a ser utilizado por hackers).
Se lhe disserem que o seu telefone está sob escuta, e que alguém reúne e cataloga a informação que partilha numa conversa telefónica, como se sente? Não praticou nenhum crime, não tem conhecimento de ter contacto com alguém envolvido em atividades criminosas… A que propósito o juiz teria autorizado a escuta? E, no entanto, sem qualquer autorização judicial, a Google recolhe e cataloga todas as suas pesquisas online. O seu telefone regista todos os sítios onde se desloca, via o GPS, que até pode não ter propositadamente instalado, mas lhe permite saber a meteorologia, a todo o momento, em qualquer ponto do mundo, incluindo nas várias freguesias da cidade onde se encontra. A Amazon cataloga todas as suas compras e infere se está grávida, que idade tem, o seu sexo, a sua condição de saúde.
As suas leituras não estão imunes. Que temas lhe interessam e como se posiciona politicamente. Não partilhou com ninguém a sua opinião sobre uma greve geral. Provavelmente ainda está em processo de formar uma posição final, mas o algoritmo já consegue inferir com grande grau de probabilidade a sua posição e agora, para o manter online, só tem de lhe sugerir conteúdos semelhantes, reforçando uma predisposição.
Quando falamos de privacidade, estamos já condicionados pela propaganda de quem utiliza a nossa intimidade como fonte de lucro. Tem algo a esconder? Como se pretender manter reserva sobre a vida pessoal fosse uma afronta e não um direito inalienável. Um indício de culpa de uma atividade criminosa ou moralmente reprovável.
A Constituição Portuguesa estabelece no seu art.º 35: “É proibida a atribuição de um número nacional único aos cidadãos.” Não é uma disposição recente, constou logo da primeira versão aprovada em 1976 e visava pôr fim a um projeto do Estado Novo, um registo único para cada indivíduo. Tudo sobre alguém num único lugar. Um poderoso instrumento de vigilância e coerção. Hoje, sem número único, mas munidas de autorizações de consentimento, empresas de tecnologia recolhem informação, agregam info recolhida por outras, analisam, criam perfis. Com esta informação, “educam” as nossas opiniões. Condicionam aquilo que pensamos e como agimos. Reforçam receios, manipulam desejos. O seu objetivo é o lucro e os seus serviços estão à venda para quem saiba usá-los, sejam políticos hábeis na utilização do TikTok e do Instagram, Estados terceiros empenhados em criar a divisão (encontra-se em curso pela Comissão Europeia uma investigação à influência russa nas eleições presidenciais na Roménia, via TikTok) ou uma seguradora que lhe oferece um seguro de saúde.
A Comissão Europeia prepara-se para rever o RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados). Insiste-se que é demasiado complexo, demasiado exigente, que trava a inovação. E, no entanto, o RGPD já hoje não protege a nossa intimidade, ao permitir que num clique nos tornemos um livro aberto. Não se trata de maior transparência sobre como os nossos dados são utilizados, mas de que há dados que não deveriam nunca ser armazenados e vendidos. São nossos, individuais e intransmissíveis.
Na revisão do RGPD, cidadãos e seus representantes no Parlamento Europeu devem combater a retórica da eficiência. Importa que prevaleça como valor inviolável o direito à intimidade na vida privada, nossa e dos outros.
Se lhe disserem que o seu telefone está sob escuta, e que alguém reúne e cataloga a informação que partilha numa conversa telefónica, como se sente? Não praticou nenhum crime, não tem conhecimento de ter contacto com alguém envolvido em atividades criminosas… A que propósito o juiz teria autorizado a escuta? E, no entanto, sem qualquer autorização judicial, a Google recolhe e cataloga todas as suas pesquisas online. O seu telefone regista todos os sítios onde se desloca, via o GPS, que até pode não ter propositadamente instalado, mas lhe permite saber a meteorologia, a todo o momento, em qualquer ponto do mundo, incluindo nas várias freguesias da cidade onde se encontra. A Amazon cataloga todas as suas compras e infere se está grávida, que idade tem, o seu sexo, a sua condição de saúde.
As suas leituras não estão imunes. Que temas lhe interessam e como se posiciona politicamente. Não partilhou com ninguém a sua opinião sobre uma greve geral. Provavelmente ainda está em processo de formar uma posição final, mas o algoritmo já consegue inferir com grande grau de probabilidade a sua posição e agora, para o manter online, só tem de lhe sugerir conteúdos semelhantes, reforçando uma predisposição.
Quando falamos de privacidade, estamos já condicionados pela propaganda de quem utiliza a nossa intimidade como fonte de lucro. Tem algo a esconder? Como se pretender manter reserva sobre a vida pessoal fosse uma afronta e não um direito inalienável. Um indício de culpa de uma atividade criminosa ou moralmente reprovável.
A Constituição Portuguesa estabelece no seu art.º 35: “É proibida a atribuição de um número nacional único aos cidadãos.” Não é uma disposição recente, constou logo da primeira versão aprovada em 1976 e visava pôr fim a um projeto do Estado Novo, um registo único para cada indivíduo. Tudo sobre alguém num único lugar. Um poderoso instrumento de vigilância e coerção. Hoje, sem número único, mas munidas de autorizações de consentimento, empresas de tecnologia recolhem informação, agregam info recolhida por outras, analisam, criam perfis. Com esta informação, “educam” as nossas opiniões. Condicionam aquilo que pensamos e como agimos. Reforçam receios, manipulam desejos. O seu objetivo é o lucro e os seus serviços estão à venda para quem saiba usá-los, sejam políticos hábeis na utilização do TikTok e do Instagram, Estados terceiros empenhados em criar a divisão (encontra-se em curso pela Comissão Europeia uma investigação à influência russa nas eleições presidenciais na Roménia, via TikTok) ou uma seguradora que lhe oferece um seguro de saúde.
A Comissão Europeia prepara-se para rever o RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados). Insiste-se que é demasiado complexo, demasiado exigente, que trava a inovação. E, no entanto, o RGPD já hoje não protege a nossa intimidade, ao permitir que num clique nos tornemos um livro aberto. Não se trata de maior transparência sobre como os nossos dados são utilizados, mas de que há dados que não deveriam nunca ser armazenados e vendidos. São nossos, individuais e intransmissíveis.
Na revisão do RGPD, cidadãos e seus representantes no Parlamento Europeu devem combater a retórica da eficiência. Importa que prevaleça como valor inviolável o direito à intimidade na vida privada, nossa e dos outros.
O crescimento do populismo no mundo
O populismo, outrora um fenómeno esporádico e localizado, tornou-se, nas últimas décadas, uma força global. De Donald Trump nos Estados Unidos a Lula e Jair Bolsonaro no Brasil, de Giorgia Meloni em Itália a Viktor Orbán na Hungria, passando por movimentos populistas em França, Polónia, Argentina e até Portugal, assistimos à emergência ou consolidação de lideranças políticas que se reclamam da “vontade do povo” contra as elites.
Mas o populismo é um sintoma ou uma doença da democracia? Estará em crescimento sustentado ou apenas a surfar ondas temporárias de descontentamento? A resposta exige uma leitura crítica do nosso tempo.
Embora o populismo assuma formas diferentes consoante os contextos políticos e culturais, há características comuns que o definem: a retórica da divisão entre “o povo puro” e “a elite corrupta”, o ataque às instituições tradicionais (como parlamentos, justiça e imprensa), a promessa de soluções simples para problemas complexos, e uma liderança forte, carismática e autoritária.
O crescimento do populismo tem sido evidente não só em países em desenvolvimento, mas também em democracias consolidadas, onde, paradoxalmente, deveria haver mais resistência a este tipo de discurso. Segundo vários estudos internacionais, o número de eleitores que se identificam com partidos populistas triplicou desde os anos 90.
Entre os fatores que alimentam o populismo, estão as crises econômicas e a desigualdade. A crise financeira de 2008, a austeridade que se seguiu, a precarização do trabalho e o aumento da desigualdade foram o terreno fértil para o crescimento populista. Milhões de cidadãos sentiram que o sistema económico deixou de os representar, tornando-se terreno fértil para promessas de “ruptura” e combate ao “sistema”.
Mais recentemente, a pandemia e a inflação aceleraram esta sensação de perda de segurança económica, tornando os discursos simplistas ainda mais apelativos.
Nos últimos tempos, tem crescido a desconfiança nas instituições democráticas. A percepção de que os partidos tradicionais são todos iguais, de que os políticos servem interesses privados, ou de que a justiça é lenta e parcial, mina a legitimidade democrática.
Neste cenário, os populistas apresentam-se como “antissistema”, mesmo quando integram ou aspiram ao poder.
Há, ainda, a considerar que muitos movimentos populistas de direita exploram o receio de perda de identidade cultural, associando a imigração e a multiculturalidade a uma suposta ameaça aos valores nacionais. A globalização, ao promover a circulação de pessoas, bens e ideias, é apresentada como uma força que dilui as fronteiras e enfraquece a soberania nacional.
O populismo promete, assim, “recuperar o controle”: das fronteiras, da economia, da cultura.
Outra frente de impulso são as redes sociais, que revolucionaram a forma como os cidadãos se informam e participam politicamente. Permitiram acesso direto a líderes, mas também facilitaram a desinformação, o discurso de ódio e a polarização. Os populistas, geralmente bons comunicadores, sabem explorar estas plataformas para amplificar as suas mensagens, contornar as mídias tradicionais e atacar os adversários sem filtros.
Quem cresce mais é o populismo de Direita, que ganha mais visibilidade mediática, especialmente na Europa e América, Já o populismo de esquerda – que denuncia as elites econômicas, o neoliberalismo, e promete justiça social e redistribuição – tem se arrefecido nos últimos tempos. Ambos têm em comum o apelo direto ao povo, a desconfiança nas instituições e a rejeição dos partidos tradicionais. No entanto, diferem profundamente nas suas propostas políticas, com a direita focada na identidade e ordem, e a esquerda na igualdade e inclusão.
Que consequências o crescimento do populismo tem para a democracia? O efeito sobre o sistema democrático é ambíguo. Por um lado, obriga o sistema a ouvir os marginalizados e a corrigir excessos de tecnocracia ou afastamento político. Por outro, fragiliza a democracia liberal ao atacar a separação de poderes, a liberdade de imprensa e os direitos das minorias.
Em regimes mais frágeis, os populistas no poder podem caminhar para o autoritarismo, silenciando a oposição, controlando os tribunais e alterando regras eleitorais. A democracia transforma-se então numa casca institucional com pouco conteúdo pluralista.
Vejamos o caso de Portugal, onde o populismo teve expressão marginal durante décadas, mas a partir da última década viu-se o crescimento de partidos como o Chega, que canalizam o descontentamento social com uma retórica populista, securitária e nacionalista. Ainda que longe de dominar o sistema, os seus resultados nas eleições e impacto no discurso público são significativos.
Tal como noutros países, o populismo português nasce do descontentamento acumulado com as políticas tradicionais, do medo face à mudança e da sensação de injustiça permanente.
Em suma, o populismo está a crescer no mundo, não como uma aberração, mas como uma resposta – legítima ou não – a falhas reais das democracias contemporâneas. Desigualdade, insegurança, corrupção e desinformação são combustível constante deste tipo de discurso.
Enfrentar o populismo exige mais do que condená-lo moralmente. Requer reformar as instituições, reduzir as desigualdades, promover literacia política e devolver dignidade à ação pública. Só assim será possível responder às angústias do presente sem sacrificar os princípios fundamentais da democracia.
Mas o populismo é um sintoma ou uma doença da democracia? Estará em crescimento sustentado ou apenas a surfar ondas temporárias de descontentamento? A resposta exige uma leitura crítica do nosso tempo.
Embora o populismo assuma formas diferentes consoante os contextos políticos e culturais, há características comuns que o definem: a retórica da divisão entre “o povo puro” e “a elite corrupta”, o ataque às instituições tradicionais (como parlamentos, justiça e imprensa), a promessa de soluções simples para problemas complexos, e uma liderança forte, carismática e autoritária.
O crescimento do populismo tem sido evidente não só em países em desenvolvimento, mas também em democracias consolidadas, onde, paradoxalmente, deveria haver mais resistência a este tipo de discurso. Segundo vários estudos internacionais, o número de eleitores que se identificam com partidos populistas triplicou desde os anos 90.
Entre os fatores que alimentam o populismo, estão as crises econômicas e a desigualdade. A crise financeira de 2008, a austeridade que se seguiu, a precarização do trabalho e o aumento da desigualdade foram o terreno fértil para o crescimento populista. Milhões de cidadãos sentiram que o sistema económico deixou de os representar, tornando-se terreno fértil para promessas de “ruptura” e combate ao “sistema”.
Mais recentemente, a pandemia e a inflação aceleraram esta sensação de perda de segurança económica, tornando os discursos simplistas ainda mais apelativos.
Nos últimos tempos, tem crescido a desconfiança nas instituições democráticas. A percepção de que os partidos tradicionais são todos iguais, de que os políticos servem interesses privados, ou de que a justiça é lenta e parcial, mina a legitimidade democrática.
Neste cenário, os populistas apresentam-se como “antissistema”, mesmo quando integram ou aspiram ao poder.
Há, ainda, a considerar que muitos movimentos populistas de direita exploram o receio de perda de identidade cultural, associando a imigração e a multiculturalidade a uma suposta ameaça aos valores nacionais. A globalização, ao promover a circulação de pessoas, bens e ideias, é apresentada como uma força que dilui as fronteiras e enfraquece a soberania nacional.
O populismo promete, assim, “recuperar o controle”: das fronteiras, da economia, da cultura.
Outra frente de impulso são as redes sociais, que revolucionaram a forma como os cidadãos se informam e participam politicamente. Permitiram acesso direto a líderes, mas também facilitaram a desinformação, o discurso de ódio e a polarização. Os populistas, geralmente bons comunicadores, sabem explorar estas plataformas para amplificar as suas mensagens, contornar as mídias tradicionais e atacar os adversários sem filtros.
Quem cresce mais é o populismo de Direita, que ganha mais visibilidade mediática, especialmente na Europa e América, Já o populismo de esquerda – que denuncia as elites econômicas, o neoliberalismo, e promete justiça social e redistribuição – tem se arrefecido nos últimos tempos. Ambos têm em comum o apelo direto ao povo, a desconfiança nas instituições e a rejeição dos partidos tradicionais. No entanto, diferem profundamente nas suas propostas políticas, com a direita focada na identidade e ordem, e a esquerda na igualdade e inclusão.
Que consequências o crescimento do populismo tem para a democracia? O efeito sobre o sistema democrático é ambíguo. Por um lado, obriga o sistema a ouvir os marginalizados e a corrigir excessos de tecnocracia ou afastamento político. Por outro, fragiliza a democracia liberal ao atacar a separação de poderes, a liberdade de imprensa e os direitos das minorias.
Em regimes mais frágeis, os populistas no poder podem caminhar para o autoritarismo, silenciando a oposição, controlando os tribunais e alterando regras eleitorais. A democracia transforma-se então numa casca institucional com pouco conteúdo pluralista.
Vejamos o caso de Portugal, onde o populismo teve expressão marginal durante décadas, mas a partir da última década viu-se o crescimento de partidos como o Chega, que canalizam o descontentamento social com uma retórica populista, securitária e nacionalista. Ainda que longe de dominar o sistema, os seus resultados nas eleições e impacto no discurso público são significativos.
Tal como noutros países, o populismo português nasce do descontentamento acumulado com as políticas tradicionais, do medo face à mudança e da sensação de injustiça permanente.
Em suma, o populismo está a crescer no mundo, não como uma aberração, mas como uma resposta – legítima ou não – a falhas reais das democracias contemporâneas. Desigualdade, insegurança, corrupção e desinformação são combustível constante deste tipo de discurso.
Enfrentar o populismo exige mais do que condená-lo moralmente. Requer reformar as instituições, reduzir as desigualdades, promover literacia política e devolver dignidade à ação pública. Só assim será possível responder às angústias do presente sem sacrificar os princípios fundamentais da democracia.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
O assassinato de um pet
A morte barbárica do cão Orelha chocou o país. Guardada a distância literária, é tão impactante quanto a morte ficcional da cadela Baleia em "Vidas Secas". Animal é pensamento. Quer dizer, campo de conhecimento onde cada dia se experimenta a afirmação contrastiva da identidade humana. Talvez por isso a tendência ascendente de cuidar de um "pet" (cachorro, gato), hoje em dia, seja o modo mais simples de confirmar para si mesmo a humanidade que se esvai na vida social regida pelas máquinas.
É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.
Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.
Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.
Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.
É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.
Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.
Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.
Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.
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