sexta-feira, 17 de julho de 2015

Renunciem!


Ninguém vê, ninguém nota ou simplesmente todos ignoram de forma dissimulada aonde chegamos? Apesar da crise evidente e da sucessão de escândalos que estampam todos os jornais, os protagonistas do debate público fingem que há uma República de pé. Pois os fatos dizem o contrário: tudo ruiu.

A presidente, acuada, não reconhece que mentiu durante a campanha e jura de pé juntos que dinheiro sujo de propina não financiou sua campanha. Quem em sã consciência acredita?

Os parlamentares, enlouquecidos e preocupados em atribuir os males do país ao Executivo, resolveram atacar também o Ministério Público e a Polícia Federal. São, segundo a versão que lhes convém, santos do pau oco. Janot é ditador, diz Collor, convenientemente com o apoio de Renan. Quem em sã consciência acredita?

O presidente do STF, chefe do Poder Judiciário, marca encontro secreto com o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e a presidente Dilma no exterior. Com a Lava-Jato a cercar o governo por todos os lados, quem pode pensar em outra coisa senão o conchavo? Lewandowski, o ministro de Dona Marisa, não vê problema algum. Quem em sã consciência acredita?

A oposição esperneia, mas não faz muito. Quem irrigou sua campanha? Os mesmos donos das empreiteiras investigadas. Hoje, eles estão na cadeia. Quem em sã consciência acredita numa postura suficientemente crítica em relação ao governo? A oposição queria ter o poder de Eduardo Cunha, mas percebe-se que não passa de um grupo coeso em busca do acordão.

Aliás, tudo no Brasil acaba em acordão. Posso estar enganado, mas quando "tá tudo dominado", quem se salva? Quem consegue agarrar o outro para não cair no abismo.

Enquanto os políticos atiram para todos os lados tentando esconder suas próprias mazelas, o país assiste a tudo perplexo. O que fazer? Tirar a presidente e cassar os parlamentares? Quem pode fazer isso?

A lei é linda, a Constituição é democrática. As instituições são bem formuladas. Montesquieu ficaria orgulhoso com o sistema de freios e contrapesos da República. Mas o que acontece quando os vermes tomam conta de tudo e se multiplicam? Qual é o antídoto?

Fosse o Executivo o único encalacrado com a Lava-Jato, o Legislativo dava o seu jeito. Fosse o Legislativo o único encalacrado, o Judiciário dava o seu jeito.

Terá o Judiciário o poder de equilibrar a balança para cortar os excessos (haja eufemismo) dos outros dois poderes? Será ele um poder suficientemente isento para isso?

Enquanto isso, aumento de salário para servidores, inflação a quase 10%, juros a 14% e governo com popularidade a 9%.

No papel, era esperado o controle das instituições sobre a situação. A curto prazo, não vejo nada disso.

Aqueles que estão comprometidos até o pescoço com a roubalheira poderiam ter a primeira atitude altruísta de suas vidas: sair da vida pública, renunciar.

O Brasil só se salva quando recuperar a noção do que significa o decoro. Sinto saudade da época em que os conselhos de ética eram uma ameaça aos ladrões de turno.

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