domingo, 25 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Fim de uma era

A Europa foi o centro do mundo desde que as grandes navegações começaram a moldar a geopolítica em que vivemos. Portugal e Espanha dividiram o mundo por intermédio do Tratado de Tordesilhas, que não foi reconhecido por franceses, ingleses e holandeses. Uns invadiram os outros e começaram a dividir as áreas de interesse. Ingleses se espalharam pelos continentes e criaram o império onde o sol jamais se punha, com a inclusão da Índia, a joia da Coroa. Faz sentido. O diamante Koh-i-Noor, um dos maiores diamantes lapidados do mundo, originário da Índia, é a peça central da coroa britânica. O diamante pertencente à Índia foi "cedido" à rainha Vitória em 1848.


Os europeus dividiram a África entre si, com exceção do Congo Belga, que se transformou em posse particular do rei Leopoldo II. Europeus se espalharam pela África e pelas Américas. No sul, Espanha e Portugal dividiram o território. No norte, ingleses dominaram as 13 colônias que se formaram ao longo do Atlântico. Depois, Napoleão vendeu a Louisiana para os norte-americanos, que, em seguida, compraram a Flórida dos espanhóis, o Alaska dos russos e invadiram o México para fazer a costa oeste com Califórnia, Texas, Novo México e outros estados. Surgiu o país chamado Estados Unidos, que fez a guerra de independência contra a Inglaterra com auxílio bélico efetivo dos franceses.

Sem falar no processo de colonização da Ásia e do Oriente Médio, tudo, portanto, começa, na história moderna, pela Europa. Os europeus brigaram entre si duas vezes no século passado. Da segunda, o mundo ocidental sobreviveu por causa da efetiva participação dos Estados Unidos. Evitou a queda da Inglaterra e seu auxílio foi fundamental para auxiliar a União Soviética superar a máquina de guerra nazista. Não fosse esse auxílio, os europeus hoje estariam falando alemão.

E, na Ásia, os povos estariam dominados pelo Japão imperialista. Tudo isso tem preço. Ingleses terminaram de pagar suas dívidas de guerra com os Estados Unidos em 2006. A China recuperou sua independência, expulsou os japoneses da Manchúria e, hoje, é uma potência. A Coreia do Sul, também expulsou os japoneses, e se transformou num tigre asiático, depois de fazer guerra contra seu vizinho do Norte.

Esse mundo, aparentemente, acabou nesta semana.

Donald Trump anunciou que cada país que integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) terá que pagar pela proteção que Washington oferece ao continente. Acabou o conforto do guarda-chuva norte-americano. Cada um por si. Lembra o momento quando o russo Mikhail Gorbachev anunciou aos países que integravam a União Soviética que não mais teriam a proteção do Exército Vermelho. Eles optaram pela independência e dissolveram o mundo comunista. Fenômeno semelhante, com sinal trocado, está acontecendo neste momento. Com o agravante de que Trump quer colocar a Groenlândia sob domínio dos Estados Unidos. Sonha em ter o Canadá integrado a seu território. (O Canadá, formalmente, pertence à Comunidade Britânica de Nações, sua autoridade maior é o rei da Inglaterra).

As consequências diretas são claras: a Otan aparentemente perdeu o sentido, uma vez que ela foi criada para conter uma possível invasão dos comunistas. Os comunistas não existem mais, porém Vladimir Putin insiste em dominar a Ucrânia, o que ameaça os países da Europa Ocidental. Trump não faz qualquer pressão contra os russos. Prefere que Zelensky, o ucraniano, faça as concessões para acabar com o conflito. Os europeus estão em pânico porque não possuem meios e modos para confrontar os norte-americanos. Em termos bélicos, nem pensar. No capítulo comércio, podem promover algum dano ao adversário, mas vão sofrer muito mais.

O anunciado tratado entre a União Europeia e o Mercosul sofreu um abalo. Ele terá que ser examinado por instâncias judiciais. Os caipiras são reacionários e temem os produtos originários dos países do sul que são melhores e de menor custo. Eles prejudicam a comunidade na defesa de seus subsídios. Os norte-americanos que construíram o maior império da atualidade elegeram um czar para dirigir suas necessidades. Ele pensa apenas em dinheiro, lucro, investimento e manter o mercado de emprego ativado dentro de suas fronteiras.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro impossível. O discurso dele foi impressionante. Não reproduzo aqui por falta de espaço. Ele anunciou que seu país vai dobrar o investimento em defesa, com base na indústria local, melhorar o ambiente de negócios, reduzir impostos, incentivar exportações e procurar acordos comerciais com países ou grupos de países, inclusive o Mercosul. Sem querer, o canadense anunciou excelente programa de governo para candidatos que pretendem disputar a Presidência no Brasil, na eleição deste ano.

À margem da lei

"O Agente Secreto" e "Ainda Estou Aqui" expressam a força do cinema brasileiro. E isso merece muita, mas muita comemoração. Ambos os filmes retratam, no entanto, um país à margem da lei, como "Cidade de Deus" ou "Cabra Marcado para Morrer", também aclamados internacionalmente.

"Ainda Estou Aqui" retrata o arbítrio como política de Estado. A tortura, os desaparecimentos forçados e a perseguição de dissidentes foram transformadas em instrumentos de manutenção de poder. A Constituição foi suspensa por sucessivos atos institucionais, que transferiram o poder aos militares, restringiram direitos e retiraram as ações repressivas do controle judicial. Instituições foram criadas ou receberam expressa determinação para torturar e matar.


A partir da história real de Rubens Paiva, "Ainda Estou Aqui" descreve a face mais macabra do regime de exceção. Mas nos brinda, por outro lado, com a força moral dos que sobreviveram e resistiram. A família de Eunice nos comove, com sua coragem e disposição para buscar justiça e construir um país melhor.

"O Agente Secreto", que também se passa durante o regime militar, retrata uma outra dimensão do estado de exceção, que se enraíza no tecido social. Desde a primeira cena somos expostos à banalidade da vida. O corpo no chão não gera nenhuma reação do agente do Estado ou do cidadão. Como se a morte de uma pessoa não trouxesse nenhuma consequência moral ou jurídica. Numa terra sem lei, só os cachorros parecem se interessar por aquele corpo.

A trama nos transporta para a perseguição de um professor e sua família pelo simples fato de estarem determinados a levar suas vidas de forma honesta, não se curvando à ambição empresarial, entrelaçada e protegida pelo regime. Novamente somos expostos às entranhas, não mais do regime, mas dos matadores de aluguel que coabitam a marginalidade com os agentes da lei e os empreendedores de então. Em "O Agente Secreto" os perseguidos não são dissidentes políticos, mas pessoas comuns, que têm suas vidas reviradas simplesmente por agirem com retidão. Mais uma vez, o sopro de esperança e humanidade vem dos que resistem; de Dona Sebastiana, Armando e Flávia.

Impossível assistir a esses filmes sem pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna, da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda, do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação", de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma indisposição de acatar a lei como regra geral.

É paradoxal que num país em que a imensa maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos direitos mais elementares.

Da cornucópia do Banco Master, com seus tentáculos sobre a Faria Lima e os Poderes do Estado, incluindo a cúpula de tribunais, à explosão de feminicídios; da chacina comandada pelo governo do Rio de Janeiro, com amplo apoio popular, à tentativa de golpe do 8 de Janeiro, sob o comando do ex-presidente e seus generais; o país parece incapaz de respeitar da lei e suas autoridades, de abraçar um código de conduta.

Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças para continuar lutando por justiça e por um país melhor.

'Orwell: 2+2=5': Como chegámos ao futuro que George Orwell quis evitar

Há um certo prazer mórbido em ver Orwell: 2+2=5 numa sala de cinema escura, por isso por favor não esperem pelo streaming. Não aquele prazer cinéfilo de festival de cinema, mas o prazer desconfortável de perceber que o escritor que achámos paranóico era, afinal, só um tipo atento ao que aí vinha. Raoul Peck conduz este documentário como quem levanta um cadáver histórico e constata que, surpresa, o morto está mais vivo do que todos nós juntos. Em 2026, George Orwell (1910-1950) parece indirectamente um influencer involuntário do nosso colapso democrático, só lhe faltou ter contas nas redes sociais e um podcast político.


Peck não faz o clássico documentário de escritor: nada de colecções de depoimentos de especialistas bocejantes ou teses académicas embaladas em música de piano. O cineasta haitiano, residente nos EUA — já mestre em provocar ressacas morais com Eu Não Sou o Teu Negro (2017), a partir da obra do escritor James Baldwin — prefere usar Orwell como lente, espelho e arma. A vida do autor está lá, claro, desde o Eric Blair — o seu verdadeiro nome — colonial ao tuberculoso exilado na ilha de Jura, mas funciona sobretudo como backstage do verdadeiro espectáculo: a forma como o totalitarismo se veste, se adapta e se infiltra até parecer lifestyle. Orwell tinha aquele talento irritante de simplificar o terror: “Liberdade é escravidão”, “Ignorância é força”, “Guerra é paz”. Hoje chamamos-lhe “narrativa”, “spin”, “media training” e “soft power”. Que delicados que somos todos nós.

Orwell: 2+2=5 joga imagens de Basra, Ucrânia, Gaza, Washington e outras geografias do desastre com a voz delicadamente “assassina” do actor britânico Damian Lewis (Homeland) a citar Orwell. A montagem faz o que os noticiários evitam: liga pontos. De repente, a frase sobre “ser corrompido sem viver num regime totalitário” cai em cima de imagens de líderes eleitos com saudades do autoritarismo, dos influencers do ressentimento, e da malta que grita “liberdade!” e diz ser contra o “sistema”, enquanto defende censura, vigilância e deportações. É bonito ver Orwell a constatar, lá do além, que a estupidez moral também evolui, apesar de toda a tecnologia.

Há quem acuse Peck de didatismo e sim, está lá a fúria discursiva, o dedo na ferida, os paralelos explícitos. Mas talvez seja precisamente isso que faltava. O cinema documental político anda há anos a tentar convencer-nos com metáforas, metáforas e mais metáforas. Peck abdica da subtileza e diz: olhem, isto foi o que Orwell escreveu, isto é o que está a acontecer, isto é o que vocês estão a permitir. Podemos discutir depois se é fascismo, proto-fascismo, populismo, capitalismo de vigilância ou apenas a versão tecnológica da velha estupidez humana. Para Peck, o essencial é a mecânica: primeiro distorce-se a linguagem, depois distorce-se a realidade, depois distorce-se a memória, e no fim insiste-se no 2+2=5, como na tortura, e ninguém reclama porque toda a gente está demasiado ocupada a comentar posts das redes sociais, e ler pouco livros, jornais ou revistas.

A certa altura, o documentário deixa de ser sobre George Orwell e passa a ser sobre nós. Sobre a facilidade com que aceitamos tecnologias que monitorizam tudo, governos que reescrevem factos, plataformas que modulam o que vemos, jornais que abdicam de chamar mentira à mentira, e populações que confundem liberdade com impunidade. Orwell imaginou um grande televisor bidirecional na sala, nós pagamos para ter um pequeno no bolso, com GPS, histórico, publicidade personalizada e mera teoria da conspiração que grava tudo que dizemos, para depois aparecerem os produtos nos banners. O Big Brother não precisou de invadir as nossas casas: nós fizemos fila para o comprar nas Apple Store ou da Goggle.

Peck percebe bem que a genialidade de Orwell não estava na previsão dos tiranos — tiranos existem desde que alguém descobriu que o poder é viciante — mas sim na psicologia da servidão voluntária. A verdadeira violência totalitária não é a tortura na Sala 101, é a sensação de que já não vale a pena resistir porque a realidade se fragmentou ao ponto de cada um ter a sua. É a democracia tratada como entretenimento. É o cidadão convertido em consumidor. É a mentira transformada em hábito higiénico.

No fim, Orwell: 2+2=5 funciona como uma espécie de consulta médica: Orwell diagnosticou o tumor, nós ignorámos os sintomas, e Peck aparece a dizer que o cancro já fez metástases. Não é um filme pessimista, é simplesmente realista. O otimismo, esse, ficou para depois do genérico, quando regressa a internet e os mesmos algoritmos que nos serviram propaganda ontem já estão a afinar o que veremos amanhã.

O que sobra é a pergunta que Peck não formula, mas deixa a marinar: se Orwell não era ficção, então de que lado da história estamos nós? Porque de uma coisa Orwell tinha a certeza: o futuro não é escrito pelos que dormem. É escrito pelos que acreditam que 2+2=4, mesmo quando o mundo inteiro jura que dá 5.

Quando os loucos conduzem os cegos

Não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. Le mort saisit le vif!.
Karl Marx, prólogo de "O capital"

Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água, alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.

Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de povo em busca de nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia arcar a decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América.

Éramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa do pequeno Estado português, em trânsito entre o domínio espanhol e o britânico, cuja preeminência nos condicionaria até o fim da Primeira Grande Guerra (1914–1918) e a ascensão dos EUA, que se tornam a unipotência capitalista após a queda do Muro de Berlim e a capitulação da URSS.

Continuávamos na periferia, como se cumpríssemos um determinismo que a leitura dialética da História não justifica. Antes, no nascedouro do século XVI, na periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal. Agora, na periferia do capitalismo pós-industrial, sob a égide de um imperialismo Moloch.

Em 1627, em sua História do Brasil, o sábio e precursor Frei Vicente de Salvador profligava as limitações estratégicas do português: desapetrechado política e economicamente, pugnava salvar-se mediante a conservação da terra apossada sem luta, e salvá-la por meio de tratados negociados com nações mais poderosas: “Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, não aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”.

Vida social, nenhuma. Vida política, tão-só a necessária para assegurar o domínio português: os primeiros agentes do fisco, os primeiros militares, os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justiça reinol; os padres e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando o gentio e o negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando, aportuguesando e construindo, território afora, suas “repúblicas”, seus aldeamentos, suas “missões”, um modelo de colonização clerical que palmilhou quase todo o país daqueles idos; caminhando desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do Sul, à Argentina e ao Paraguai; chegaram a mobilizar entre 250 e 300 mil guaranis, até a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.

Nascemos na periferia do mercantilismo do século XVI, do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal, e nossos donos de então, pais e mães dos donos de hoje, logo se aclimataram no ócio, pois havia índios preados para o trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morte antes do tempo. A história oficial consagrou como “heróis da Pátria” os genocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produção, só o escravo trabalhava, o que não explica tudo, mas sugere um campo de reflexão. Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma dos indígenas e dos negros que os brancos caçavam para produzir e poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algodão, e mais isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui, em se plantando (pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e logramos plantar cana e produzir açúcar para exportar à Europa, de onde importávamos tudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura, visão de mundo, por intermédio dos entrepostos portugueses que nos exploravam como monopólio comercial.

O “brasileiro” é o português que vem “fazer a América”, enriquecer e voltar a Portugal para construir igrejas, e será personagem de Camilo Castelo Branco. O proprietário de engenho é um simples feitor muito rico. Não é um empreendedor, não é um pioneiro. É um homem da terra, reacionário, violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado, mantinha em casa uma Capela devotada ao Cristo ou à Imaculada Cinceição onde se casavam os herfeiros com os herdeiros das terras vizinhas.

São essas as nossas raízes, as de um Estado classista moderno na sua abjeta concentração de renda e espoliação social; raízes que explicam ainda o mal de origem que intentam negacear: construído aos trancos e barrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil não é, está sendo; algo permanentemente em elaboração, sem bússola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas jamais dispondo de horizonte de chegada: sem régua e sem compasso, manipulado pela dialética das circunstâncias nas quais não ousa intervir.

Na transição para o capitalismo, a burguesia que nos coube já não era revolucionária quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de seus avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê.

Essas, as nossas circunstâncias perdurantes. Sem noção de si, carecemos da noção de mundo; sem projeto de ser, não temos porto de chegada. Ficamos com os argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E la nave va, mas não nos salva da alienação: a crise é objetiva, material, concreta e nos fisga no contrapé da irrelevância. Assim, quietos, nos escondemos diante da crise, que é uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas está diretamente na América do Sul e no Brasil.

Fruto da formação histórica que acima se tentou resumir, nossa classe dominante, trêfega e traficante, não tem condições de dialogar com a realidade; alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica com a nação, não a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar.

Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedade civil”. Ou a academia, silente, omissa. Não há condições de cobrar o que quer que seja do movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir uma postura digna dos partidos que ainda integram essa larga avenida que reúne progressistas, esquerda e centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigir de nosso governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas notas expedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar do Palácio do Planalto, já lá atrás, reduzindo a agressão imperialista a uma chantagem tarifária, ao fim e ao cabo delegando as negociações de Estado, que haveriam de ser políticas, à intermediação de produtores brasileiros de carne e outras commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e lobby de Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensa sobre o condomínio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza. É preciso salvar a política “ativa e altiva” de Celso Amorim.

A questão, como é sabido, volta para seu campo nuclear, que é a política, de onde, a rigor, jamais saiu.

Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa, Oriente Médio, Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã, Dinamarca/Groenlândia, América Latina e, nela, tanto a América do Sul, onde estamos, convivendo com a ascensão da extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invasão da Venezuela, na nossa fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquer momento e em qualquer circunstância.

Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da Casa Branca anuncia como nova política a retomada do “grande quintal”, proclamados o fim da política, o fim do multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial está na ululante falência do direito internacional; inane.

A nova ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste. Soberania nacional não é um valor moral, nem muito menos jurídico, ensina a doutrina, ensina a vida; é uma força objetiva, concreta, palpável, que depende exclusivamente de si. A esse predicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuasão. De que carecemos. Porque nossas forças não estão adequadamente armadas, porque sua formação ideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo ainda não conseguiu construir com a sociedade sua política de defesa.

Porque, ao final, carecemos de um projeto para o país.

Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que já aspirou papel de liderança no plano internacional, vê-se reduzido à condição de objeto: peão em meio a outros peões que se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano imóvel, decidindo os destinos do mundo.

Lamentavelmente, vítimas de crassa falência analítica — como se a história não estivesse à nossa disposição para ensinar aos que querem saber —, não nos damos conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é único, a representação é única, o elenco é único, a plateia é única: somos nós. Os tempos de hoje trazem os tempos sempre contemporâneos de Shakespeare e seu Rei Lear, na fala de Gloucester (Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quando os loucos conduzem os cegos”.

Entre sombras e permanências: quando a pobreza cai, mas permanece

Quase 25 anos após o início do século XXI, os indicadores sociais sugerem avanços importantes: a pobreza recua em certos períodos, o acesso à educação se amplia e políticas públicas produzem efeitos mensuráveis. Ainda assim, algo resiste. Quando o foco se desloca para as desigualdades raciais e de gênero, as hierarquias sociais revelam uma notável estabilidade. Os números se movem, mas as estruturas permanecem.

Graças a Amartya Sen, economista indiano, ganhador do prêmio Nobel de economia em 1998, é reconhecido que a pobreza é um fenômeno multidimensional: o problema não está apenas no valor do dinheiro, mas no que ele permite fazer na vida real. Sen afirma que não basta olhar para a renda; é preciso observar o que a pessoa consegue, de fato, fazer com ela, o que ele chama de “funcionamentos”, como se alimentar bem, ter saúde e morar com dignidade.


No entanto, em sociedades atravessadas por desigualdades históricas, a pobreza não se manifesta como falha de capacidades individuais, mas como resultado de estruturas de dominação que limitam a conversão de recursos em liberdade real. Tratar a pobreza apenas como insuficiência de meios corre o risco de naturalizar políticas paliativas que não interrogam as bases excludentes da sociedade.

Ao longo das últimas três décadas, o Brasil registrou movimentos significativos de redução da pobreza, alcançando, em 2024, os níveis mais baixos desde meados da década de 1990. A extrema pobreza diminuiu de patamares próximos a 25% para níveis inferiores a 5%, impulsionada pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela expansão de políticas como o Bolsa Família.

Contudo, emerge uma questão central: quem permanece pobre quando a pobreza muda? A desagregação dos indicadores por sexo e pertencimento étnico-racial revela que homens e mulheres afrodescendentes apresentam, de forma sistemática, taxas de pobreza superiores, sendo as mulheres negras as últimas a se beneficiarem dos ciclos de recuperação.


No Brasil, pessoas pretas e pardas representam 57% da população, mas concentram mais de 70% dos pobres e extremamente pobres. Em 2024, enquanto pouco mais de 2% da população branca vivia em extrema pobreza, esse percentual era de aproximadamente 5% entre pessoas pardas, evidenciando que a pobreza está associada a hierarquias que limitam o acesso a oportunidades.

Essas desigualdades de rendimento permanecem marcantes: em 2024, trabalhadores brancos apresentavam rendimentos por hora superiores aos de pretos ou pardos em todos os níveis de instrução. A maior disparidade ocorre no ensino superior completo: enquanto brancos recebiam, em média, R$ 43,20 por hora, pessoas pretas ocupadas recebiam cerca de R$ 29,90. Entre 2012 e 2024, a renda domiciliar per capita da população negra manteve-se em torno da metade daquela observada para a população branca. Embora a renda de todos os grupos tenha crescido, o avanço não foi suficiente para alterar a posição relativa de cada grupo; em termos analíticos, todos melhoraram, mas a distância entre eles permanece.

O sistema tributário brasileiro é caracterizado pela forte incidência de impostos indiretos sobre o consumo, que recaem proporcionalmente mais sobre os grupos de menor renda. Como a população negra está sobrerepresentada nos estratos mais baixos da distribuição de renda, esse modelo fiscal produz um efeito regressivo racializado. No interior desse grupo, as mulheres negras são particularmente afetadas, pois concentram rendimentos mais baixos, inserção ocupacional precária e responsabilidade quase exclusiva pela reprodução material dos domicílios, o que faz com que uma parcela maior de sua renda seja absorvida por tributos embutidos em bens essenciais.

Apesar dos avanços observados nas últimas décadas – como a ampliação do acesso à educação superior, a consolidação de políticas de ação afirmativa, o aumento da presença de pessoas negras nas universidades públicas e no serviço público, bem como melhorias graduais nos indicadores de escolarização e renda – persistem desigualdades raciais profundas. Essas desigualdades se expressam, sobretudo, na pós-graduação, na produção científica, nos cargos de prestígio e no mercado de trabalho qualificado. O racismo sistêmico restringe a conversão dos ganhos educacionais em mobilidade social duradoura, evidenciando que o acesso, por si só, não garante a conversão de recursos em capacidades efetivas.

Para compreender essa persistência, o conceito de lócus fraturado da pobreza evidencia que o empobrecimento é uma experiência social situada que escapa unicamente à lógica da mensuração monetária. Problematizar a pobreza a partir desse lugar significa reconhecer que ela é atravessada simultaneamente pela privação material e pela produção de práticas de vida que os números convencionais não conseguem capturar.

A leitura da pobreza oscila, assim, entre a intuição do filósofo Heráclito de Éfeso (tudo muda: as taxas caem) e a de seu opositor Parmênides de Eléia (nada essencial se transforma: as hierarquias ficam). Como na Alegoria da Caverna de Platão, presente no livro VII do diálogo A República, as estatísticas registram o movimento das sombras, mas as formas que geram essas imagens persistem. O desafio é transcender a gestão técnica da escassez para confrontar as estruturas de dominação e as hierarquias que sustentam a economia política das desigualdades.

Os EUA caminham para um confronto interno grave

Uma guerra civil anuncia-se através de múltiplos sinais. Numa primeira fase, as partes em confronto questionam o patriotismo umas das outras; acusam-se mutuamente de servir a interesses estrangeiros e enumeram os motivos que justificariam o encarceramento — ou mesmo a eliminação — dos adversários.

Num estádio mais avançado, instituições do Estado passam a duvidar da legitimidade de outras instituições do Estado. Quando diferentes corpos armados — polícia, exército, forças federais — começam a ameaçar-se mutuamente, a guerra pode estar à distância de um breve sopro.


Foi o que se viu após o assassinato de uma mulher desarmada por agentes dos Serviços de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA. A chefe da polícia de Filadélfia, Rochelle Bilal, afirmou que, caso esses agentes voltassem a cometer crimes na cidade, não escapariam à justiça local. Acrescentou ainda que Donald Trump — a quem se referiu como “o criminoso na Casa Branca” — não poderia impedir a aplicação da lei contra agentes federais que violassem a legislação municipal.

Trump, por seu lado, vem ameaçando prender governadores e outras autoridades que o contrariem. No dia 16, a Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Tim Walz, governador do Minnesota, e Jacob Frey, presidente da Câmara de Mineápolis, alegando que ambos teriam atentado contra operações policiais federais.

Toda a guerra civil começa pela palavra. A escalada retórica entre figuras centrais da vida política e social promove e amplia o ódio público. As pessoas enfrentam-se primeiro em casa, em família, antes de se confrontarem nas ruas: vizinhos contra vizinhos, de forma progressivamente mais brutal.

Convém lembrar que tudo isto ocorre num país onde é legal adquirir armamento de guerra e onde prosperam grupos paramilitares extremistas.

O ICE, criado em 2003 com objetivos claros e legítimos, vem se transformando numa entidade sombria — uma espécie de “camisas castanhas” de Donald Trump. Nos últimos meses, a instituição tem recrutado centenas de extremistas e multiplicado as suas ações, numa teatralização da violência cujo objetivo, mais do que aterrorizar imigrantes ilegais, parece ser o de preparar o terreno para confrontos mais amplos. Trump gosta de brincar com a ideia de cancelar as eleições intercalares de novembro. Uma dessas ocasiões ocorreu num encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky: “Você diz que durante a guerra não é possível realizar eleições. Então, se estivermos em guerra com alguém, não há mais eleições? Acho isso bom.”

Donald Trump sabe que, se nas eleições intercalares de novembro o Partido Democrático conquistar as duas câmaras, corre o risco de ser rapidamente removido do cargo. Assim, a menos que o Partido Republicano encontre um fôlego novo e inesperado — hipótese que hoje parece remota —, os Estados Unidos caminham para um confronto interno grave, que poderá explodir nos próximos meses.

As guerras civis infiltram-se no cotidiano, grito a grito, desmando a desmando, conflito a conflito. Quando reparamos, já a casa está em chamas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O eco perigoso das palavras que ameaçam

Vivemos um tempo em que a política internacional parece ter regressado a uma forma primitiva de comunicação: a da ameaça disfarçada, da insinuação violenta e da agressividade lançada como instrumento de poder. Um líder mundial, nos seus mais recentes discursos públicos, tem dado voz a um estilo de intervenção que mistura desprezo, intimidação e hostilidade aberta — uma linguagem que não apenas perturba, mas que altera o ambiente estratégico global. Há momentos em que se sente, quase fisicamente, o mundo a encolher perante certas palavras; não por serem novas, mas porque reaparecem num tempo que já não tem margem para erros.

A História ensina-nos que a linguagem política nunca é inocente. No século XIX e início do século XX, antes de qualquer declaração formal, um Estado podia enviar uma mensagem inequívoca simplesmente ao deslocar uma frota de guerra para junto da costa de outro país. Era a chamada gunboat diplomacy: uma retórica feita de aço e vapor. Os navios comunicavam mais do que qualquer nota diplomática: diziam “cedam” sem uma única palavra, mostrando que a ameaça não era abstrata, mas física, material, pronta a agir. O analista britânico James Cable estudou exaustivamente esta prática e demonstrou como a presença militar funcionava como linguagem coerciva — eficaz precisamente porque conjugava silêncio e intimidação. Um navio, ali parado, dizia tudo.

Com o pós‑Segunda Guerra Mundial, a exibição de poder mudou de forma, mas não de essência. Já não eram as canhoneiras a pairar no horizonte; era a ameaça, calculada ao milímetro, de destruição total. No auge da Guerra Fria, o teórico Thomas Schelling viria a descrever esta lógica como “diplomacia da violência”: não a violência exercida, mas a violência anunciada. A ameaça torna‑se um instrumento de regateio, uma peça no tabuleiro que permite a cada ator “fazer saber” o custo de uma provocação. Daí que as palavras — mais do que os mísseis, mais do que as tropas — tenham passado a carregar o peso de possíveis catástrofes. A linguagem transformou‑se em arma: cada frase pode aproximar ou afastar o conflito, cada tom pode abrir portas ou fechá‑las para sempre. Schelling dizia que, numa relação tão delicada, a firmeza não podia dispensar a contenção. Um líder que não mede a voz pode, involuntariamente, desencadear aquilo que mais teme.


A Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, tornou esta verdade impossível de ignorar. Quando o mundo esteve a poucos centímetros de uma catástrofe nuclear, não foram gritos, nem bravatas, nem insultos que evitaram o desastre. Foram cartas cuidadosamente redigidas, firmes mas controladas, escritas com a precisão de quem sabe que cada palavra transporta consequências irreversíveis. A correspondência entre Kennedy e Khrushchev tornou‑se exemplar, porque uniu a clareza da exigência ao reconhecimento da vulnerabilidade mútua. Não havia teatralidade; havia responsabilidade. A linguagem, nesse momento, salvou vidas — possivelmente milhões.

É à luz desta História que devemos observar o presente. Nos discursos recentes daquele líder global que tantos ouvem — e muitos temem — surgem elementos que ecoam os piores capítulos da comunicação internacional: a personalização da ofensiva, o desprezo pelos parceiros, o enaltecimento da força como ferramenta natural de relação e a ameaça sugerida como forma de pressão. Não estamos perante meras frases soltas, mas perante um estilo comportamental que fragiliza o sistema internacional, que confunde aliados, que encoraja adversários e que, sobretudo, normaliza a ideia de que a política externa pode ser conduzida ao ritmo do impulso e da humilhação. De uma certa demência, provavelmente.

Num mundo hiperligado, onde cada declaração se transforma em ação potencial, a agressividade verbal já não é apenas um gesto simbólico: é um risco real. Os Estados observam, avaliam e reagem não apenas ao que é feito, mas ao que é dito — e ao modo como é dito. Quando um líder fala como se o mundo fosse um ringue, uma arena, o mundo começa a comportar-se como tal.

Perante isto, a Europa tem uma responsabilidade histórica — talvez a mais importante das últimas décadas. Um continente que nasceu da memória da devastação e que construiu a sua identidade política sobre o primado do direito, da cooperação e da previsibilidade, não se pode dar ao luxo de ceder à tentação de imitar o estilo hostil que hoje se alastra. O que se exige não é silêncio; é altura, elevação. Não é aquiescência; é firmeza sem estridência. A Europa deve responder com a força tranquila das instituições que criou, com a disciplina do discurso que preserva pontes, com a clareza moral de quem sabe que a paz começa na forma como se fala.

A linguagem europeia deve ser ancorada no direito internacional, precisa na descrição dos factos, firme na defesa das normas e, sobretudo, imune à retórica da intimidação. Sempre que a agressividade surgir, a resposta não deve ser subir de tom, mas subir de nível. A serenidade, quando sustentada pela lei e pela convicção, não é fraqueza; é estratégia. A diplomacia não vive de volume — vive de autoridade. E a autoridade, na política internacional, conquista‑se pela capacidade de não perder a cabeça quando outros a perdem.

Se há algo que a história confirma, é isto: as palavras podem precipitar desastres — ou evitá‑los. Hoje, mais do que nunca, precisamos da segunda hipótese.

A língua portuguesa que aprendi

A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza e nada
nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares
Hipócrates

A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá:
A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL.

Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e terei entrado em qualquer departamento bizantino do Além?

Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora. É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel...Tão distinguished! Tão internacional!

Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês, o marido da falecida rainha do Reino Unido.

O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Criptomoedas – O novo calcanhar de Aquiles das sanções internacionais?

Drones, sistemas antiaéreos, mísseis, todos disponíveis para venda na página de internet da Mindex, o centro de exportação do Ministério da Defesa do Irão. Como forma de pagamento, são aceites criptomoedas. E assim, sem esforço, se ludibria o sistema de sanções internacionais.

Embora as sanções isoladamente, no caso iraniano e nos demais, não resolvam os problemas subjacentes, são um instrumento importante para assegurar uma ordem mundial mais segura, sem recurso a intervenções armadas. As sanções são hoje dirigidas a pessoas, empresas e setores.

As democracias ocidentais têm utilizado os bancos para implementar o sistema de sanções. A lei impõe que verifiquem a identidade dos titulares de contas e a proveniência dos fundos, devendo bloquear transações e informar as autoridades sempre que detetem operações suspeitas ou haja coincidência com os nomes e atividades elencados nas listas de sanções.

Um sistema fraco permite a criminosos comuns e oligarcas utilizar fundos ilegalmente obtidos para proveito próprio, adquirindo propriedades no Ocidente. Mansões em Londres e na Riviera Francesa, clubes de futebol, obras de arte…

A efetividade do sistema vinha sendo promovida, em grande parte, pelos Estados Unidos da América que, até 2024, multaram, severamente, instituições bancárias sempre que detetaram incumprimento de sanções. O valor elevado das multas – a título de exemplo, em 2014, o BNP Paribas foi multado em nove mil milhões de dólares, por processar transações envolvendo o Irão, Cuba e o Sudão – impulsionou os bancos a investir em sistemas de deteção e a colaborar com as autoridades.

A efetividade do sistema (já stressada pelo allure do lucro fácil) está ora minada pelas stablecoins e pela política pró-crypto da Administração Trump.

As criptomoedas permitem transferir fundos sem recurso ao sistema bancário internacional e de forma anónima. A desregulação – dizem-nos… nada pode parar a inovação das fintech, pois é aí que mora o futuro – veio permitir serviços isentos de deveres de identificação e investigação. É o caso das apps no Telegram que permitem transferir criptomoedas entre wallets e oferecem cartões pré-pagos que permitem levantar fundos em caixas automáticas.

Circulando fundos entre wallets anónimas, é possível esconder a origem dos fundos e dificultar investigações criminais. A conversão em moeda, sobretudo dólares, é agora facilitada pela stablecoins. Criptomoedas, em que o emitente deve aplicar montante equivalente ao valor facial das criptomoedas em contas bancárias em dólares americanos e dívida pública americana. Chamaram à legislação que criou o regime das stablecoins “GENIUS Act”, e, na perspetiva da Administração Trump, é certamente genial, pois permite aumentar exponencialmente os clientes de dívida pública americana, libertando da pressão do “bond market” (mercado onde se transacionam os títulos representativos da dívida pública). Este tem um poder imenso, e perante orçamentos do Estado irracionais, faz disparar o custo da dívida pública. No Reino Unido, o governo de Liz Truss, em 2022, durou apenas 49 dias. Em Portugal, no momento da intervenção da Troika, os juros da dívida pública ultrapassavam os 9%.

A par da desregulação – afinal a Administração Trump está apostada em promover o mundo cripto –, o aliviar da pressão penal. Em 2025, as multas aplicadas pelo governo americano foram 64% inferiores a 2024, sendo que, logo após a tomada de posse de Trump, foram suspensas investigações às plataformas de criptomoedas.

No mundo “pós” – pós-Gaza, pós-Venezuela, pós-… – cabe à Europa, e aos seus cidadãos, liderar e assumir os custos de proteger os pilares de uma ordem mundial que (com as suas falhas) permitiu níveis de desenvolvimento humano nunca antes alcançados. Regular as criptomoedas faz parte dessa liderança.
Sofia Santos Machado

Massacre no Irã deixa lições

O Irã é um país distante, eu sei. No entanto não é tão distante quando se sabe que milhares de pessoas são mortas lutando pela liberdade.

Por coincidência, na semana anterior ao massacre eu tinha dado um livro a minha filha: “Lendo Lolita em Teerã”. Sua autora, Azar Nafisi, é uma de minhas referências na tentativa de entender o país. Professora de inglês, autora de ensaios sobre Vladimir Nabokov, ela escreveu uma autobiografia interessante, “Things I've been silent about” (Coisas sobre as quais silenciei).


O livro revela o panorama intelectual do país antes da Revolução Islâmica. Azar Nafisi tinha uma posição privilegiada, pois sua mãe fora parlamentar e o pai, prefeito de Teerã. No livro, ela se preocupa muito com o futuro das filhas criadas numa atmosfera familiar liberal, que poderiam ter um futuro terrível na ascensão dos aiatolás. Interessante ver ilustrações, ainda em 1980, com fotos de mulheres, inclusive a autora, protestando contra o código de vestimentas muçulmano.

Isso me ajudou a entender o forte movimento de mulheres do Irã que mais tarde, em 2022, sacudiu o país. Não só uma jovem foi morta pelo regime na época, como esse tipo de assassinato prosseguiu nos dois anos posteriores. As mulheres são a principal força de oposição ao regime teocrático.

Mas as revoltas de agora trazem fatos novos. O primeiro é a presença dos jovens, aparentemente a maioria dos mortos pela repressão. Seus corpos eram levados de caminhão à morgue de Kahrizak, no sul de Teerã. São dados obtidos pelo jornal Le Monde por meio de testemunhas dos massacres.

Assim como as mulheres são atingidas por um tipo de repressão específica da visão de mundo dos aiatolás, os jovens agora se rebelam contra a falta de perspectiva dramatizada pela crise econômica.

Há outro fator nas revoltas de agora, algo que ainda não era sentido tanto no tempo em que o pai de Azar Nafisi foi prefeito de Teerã: a crise hídrica. Não há água suficiente na cidade e noutros pontos do país. O assunto é de tal gravidade que se chegou a pensar em transferir a capital para outro ponto do país. Mas como fazer a mudança de 10 milhões de pessoas na capital e mais de 4 milhões na área metropolitana? É um problema insuperável, pois os mananciais já estão esgotados. A falta de água, a crise econômica e a permanente opressão das mulheres, num país pressionado por Israel e pelos Estados Unidos, são o cenário de uma crise permanente, apesar da crueldade do sistema teocrático.

A resposta do governo brasileiro ao massacre foi tímida por causa dos laços políticos e comerciais. Os setores progressistas, feministas inclusive, não se comovem quando a opressão e crueldade acontecem no campo adversário dos Estados Unidos. Essa é uma grande vulnerabilidade do campo de esquerda. A sensibilidade seletiva nos leva a caminhos muito perigosos em termos nacionais.

Considera-se a corrupção nas altas esferas como tema sem importância histórica, com isso a credibilidade das instituições vai para o vinagre, até no Supremo Tribunal Federal. Basta dar uma olhada nos comentários nas redes sociais para ver como não só há indignação, como também desalento em relação ao país, pródigo em escândalos. É o prelúdio de aventuras messiânicas.

Como sobreviver em um mundo de ameaça, chantagem e extorsão

Em Aristóteles havia três tipos de falar político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade, a quem se chamava "ironista" (em grego, "εἴρων" ou "eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o "εἴρων" ou "ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade inteira.

Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "ἀλαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "ἀλαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".


Vocês sabem de quem eu estou falando. Em 2016, Hillary Clinton era um bom exemplo do primeiro tipo, a política que não diz tudo e, por isso, parece dissimulada, e Trump o fanfarrão hiperbólico que ao povo parece refrescante por dizer coisas que não se costumava ouvir da boca de um político.

Mas como sempre com Aristóteles, é no terceiro tipo que está a virtude. Essa a da parrésia (em grego: "παρρησία") ou "falar franco". O substantivo que se usava para o político que "fala franco" é um palavrão: "παρρησιαστής", que em latim se transcrevia como "parrhesiastes". Esse é aquele que não dissimula nem exagera, antes diz as coisas justas na devida proporção, nada ocultando e não ofuscando, mas iluminando.

E a partir desta terça (20) sabemos quem encaixa nesse modelo: o premiê canadense, Mark Carney. Leiam este excerto do discurso que ele pronunciou em Davos. A citação é longa, mas vale a pena:

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

Sem dissimulação nem fanfarronice, Mark Carney fala franco ao mundo sobre o novo mundo que aí vem — aliás, que já está aí. É um mundo em que as grandes potências, e em particular os EUA, deixaram de fingir ter em mente o interesse comum. Em vez disso, dedicam-se descaradamente à ameaça, à chantagem e à extorsão.

O que fazer perante esse mundo? A receita de Carney é simples e acertada: os países médios têm de se proteger trabalhando em conjunto; devem ter a mesma clareza a denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA; e devem manter as suas alianças funcionando com as regras do multilateralismo, sem o poder hegemónico global.

Falou franco. Deveríamos escutar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


As palavras e as coisas

Não é simples passatempo a atenção que dispensamos às tais “palavras do ano” escolhidas por tradicionais publicações e instituições lexicográficas. E não é por acaso, pois as palavras nos moldam como sujeitos, estruturam nossa percepção do mundo, das pessoas e das coisas. Vagando tantas vezes pelas redes, sentimos o efeito das rage baits, as “iscas” que provocam uma raiva impotente. Sofremos o impacto do slop, o lixo digital que escorre com o furor das tempestades. Suportamos a carga negativa de imaginárias parasocial interactions, em que o interlocutor não é um ser corpóreo, real, e sim uma celebridade que nos ignora por completo ou mesmo um agente virtual qualquer.


Palavras existem também em estado de poemas que costumam ser mais cortantes e, por isso, capazes de deixar uma marca ainda mais profunda. Lembrada em vários artigos ao longo do ano, A Segunda Vinda, do irlandês William Butler Yeats, uma pequena joia literária de mais de um século atrás, ressoa com vigor inesperado. Espelho da sucessão de crises que se seguiram à Guerra de 1914, serve também como um dos espelhos do presente – um presente de outras tantas crises, múltiplas e sobrepostas, a ponto de trazer, tal como então, os traços de um “interregno”, de uma transição enigmática.

“Tudo se desfaz: o centro não sustém” – adverte o poeta. Desculpamo-nos previamente por uma certa redução política da leitura, ainda que, decerto, para nós o “centro” seja bem menos uma posição partidária, supostamente equidistante dos extremos, e muito mais a ideia de que anda nos faltando sistematicamente um chão mais firme, com um mínimo de referências comuns e de sentidos compartilhados. Estamos girando no universo da “pós-verdade”, em que as mediações – os saberes, as formas pedagógicas, as instituições da democracia – estão sob ataque direto e, em alguns casos, foram praticamente dissolvidas. Uma circunstância inédita, na qual, como em Yeats e talvez de forma ainda mais intensa, os melhores carecem de toda convicção e os piores se enchem de paixão intensa.

Esta paixão desmedida, desregrada mesmo, é a que hoje move tiranos, ou aspirantes a tirano, a destruir conquistas civilizatórias tão essenciais, como a tolerância, o mundo ordenado segundo regras, a necessidade de consenso para alterar estas mesmas regras. Algumas das correntes mais profundas da modernidade, como o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo, anunciaram a seu modo o caminho possível da unificação do gênero humano – por mais tortuoso e contraditório que ele seja.

As filosofias e as religiões, na sua pluralidade irreprimível e na sua vocação universal, também demarcam este mesmo caminho, dimensões inescapáveis do humano que são. E, em termos profanos, as épocas de globalização econômica dão o fundamento prático de tal unificação, expandindo as trocas, materiais e simbólicas, e aproximando os povos e os confins da Terra.

Bem verdade que os refluxos podem ser poderosos, passando a impressão (real) de que muita coisa subitamente desanda e de que o mundo está irrremediavelmente de ponta-cabeça. Globalizamonos economicamente, mas não conseguimos construir minimamente as instituições políticas à altura deste feito econômico.

Entre as elites internacionalizadas e as populações de cada país, especialmente as parcelas que se sentem marginalizadas cultural ou economicamente, abriram-se brechas aparentemente irreparáveis. E por essas brechas penetraram o discurso e a prática das mais variadas vertentes do nacional-populismo, com a proposição da “primazia das nações” e o fetiche das soberanias, acima e além de valores universalistas, como os direitos humanos e a própria democracia.

No nosso canto “ocidental”, o recuo chega a assustar.

O antigo hegemon norte-americano, que bem ou mal se apresentava como o garante de uma constelação de instituições transnacionais, passou a expressar-se na linguagem bruta dos interesses. Internamente, destrói a plurissecular estrutura de checks and balances, rumo à autocracia; externamente, oscila entre isolacionismo, guerras comerciais e incursões militares. A imagem de mundo que propõe é a de um ajuntamento mecânico de soberanias, sustentadas preferencialmente por populações etnicamente homogêneas e temerosas de sofrer um “apagamento civilizacional”. A agressividade que brota deste patriotismo anacrônico prenuncia, ao mesmo tempo, a perseguição de minorias e a imposição do mais forte.

A Segunda Vinda tem um desfecho catastrófico. O colapso do centro é o sinal de um advento desta vez nada salvífico. No mundo degradado pela carnificina da guerra, uma “fera bruta”, na tradução irretocável de Augusto de Campos, “se arrasta rumo a Belém para nascer”. Os totalitarismos do século 20 ainda iriam acontecer, mas Yeats tinha a premonição do desastre. Quanto a nós, pobres mortais, terminamos 2025 assediados por palavras e coisas nada inocentes. Para impedir o pior, só com a recuperação da bússola da democracia e a obstinada determinação de reunir, respeitadas todas as diferenças, homens e mulheres de boa vontade.

O genocídio laboral de toda uma geração

A maior parte dos trabalhadores por conta própria ou de outrem, com carreiras bem sucedidas, e rendimento líquido satisfatório ou bom sonha com a idade da reforma. A reforma configura-se como uma época de ouro na qual poderemos ser livres e realizar os nossos sonhos de leitura, viagens, e fazer aquilo de que realmente gostamos.

E a pergunta impõe-se: passamos as décadas da nossa juventude e vida ativa fazendo aquilo de que não gostamos? Vivemos contrariados para conseguir viver com conforto? Resposta: na maior parte dos casos, sim! Há muito poucos capazes de escapar a esta sina: os que encaram a sua carreira como uma missão ou uma arte: artistas, naturalmente, e professores, médicos e outras profissões carregadas de oportunidades de altruísmo. Interessam-me particularmente os primeiros, por serem um exemplo evidente e reconhecido deste tipo de percurso. A Paula Rego continua a pintar, o Lobo Antunes a escrever, o Leonard Cohen e o Manuel de Oliveira caminharam até ao último suspiro. Os artistas param quando a doença os impede, o que me leva a pensar que não encaram o trabalho como trabalho. Ou seja, o trabalho não existe em oposição à vida. Ele e a vida formam uma amálgama que se funde e completa a cada momento. Para os artistas o lazer faz parte do processo de labor e o momento de trabalho, sendo seriíssimo, é vivido com o prazer do lazer. Uma reforma que correspondesse a uma retirada de atividade corresponderia, para eles, a uma anulação da sua vitalidade, pensamento e criatividade. Ser-lhes-ia insuportável.

Se compararmos o exemplo artístico de envolvimento entre labor e lazer com a nossa própria experiência percebemos que algo está errado com a forma como trabalhamos. Se desejamos que termine porque nos está a destruir, não trabalhamos de forma correta nem saudável. Provavelmente o que está mais profundamente errado no sistema laboral tradicional prende-se com a exigência de elevadíssima produtividade. Esta não é amiga da perfeição porque não respeita o amadurecimento das ideias nem o resultado do processo laboral. Precisamos de trabalhar mais lentamente, com menos pressão, para que o trabalho não nos transforme numa bigorna do mercado.

No outro dia li na Imprensa que dos jovens trabalhadores recentemente entrados para o mercado de trabalho se exige que sejam capazes de trabalhar sob grande pressão, argumentado que esse tipo de exercício desenvolve as capacidades de raciocínio. Esbocei um sorriso cínico e doído. As organizações económicas e sociais sabem produzir os discursos que melhor servem os seus objetivos. Os discursos funcionam porque as ideias muito repetidas tornam-se verdades para quem ouve, sem tempo para pensar nas consequências, quanto mais nas origens, mas uma verdade-falsa nunca passará de uma mentira, por vezes de um crime de genocídio de toda uma geração.
Isabela Figueiredo

A história do leão e da vaca

Tenho um amigo que gosta de contar histórias. Gosta tanto que, às vezes, entusiasma-se e perde a noção de que o que está a contar pode chocar os filhos ainda pequenos. Foi o que aconteceu quando começou a falar-lhes de como as boas intenções de proteção animal nos Estados Unidos da América fizeram disparar a população de leões da montanha. “Os leões começaram a andar à procura de comida e foram-se aproximando cada vez mais das manadas de gado”, contou-lhes, explicando como, depois de várias investidas bem-sucedidas, os felinos começaram a ser cada vez mais ousados. A certa altura, relatava às crianças, os leões estavam tão à vontade que um deles se lançou sobre uma vaca e começou a comê-la ainda viva. “Nem sequer se deu ao trabalho de a matar. Começou a comer o lombo, e a vaca a gritar. Fazia um barulho horrível. Vieram várias pessoas. Mataram a vaca.” Ah, suspirei eu, mataram a vaca. “E mataram o leão.” E foi aí que o filho mais novo começou num pranto. “O leão é o animal preferido dele”, confessou-me depois o pai.


Fiquei a pensar na história do leão e da vaca. O normal é que os predadores matem as suas presas antes de as comerem. Mas este leão da montanha americano, por algum motivo, achou que já nem era preciso matar a vaca. Atirou-se sobre ela de garras lançadas e boca aberta e começou a desfazê-la enquanto ela ainda se debatia e mugia, aflita, produzindo sons lancinantes que fizeram as pessoas em redor vir em seu auxílio para lhe dar o golpe de misericórdia que o seu predador lhe tinha negado, mas também para matar o leão que tinha ficado demasiado à vontade.

O leão tinha-se esquecido das regras milenares que regem as cadeias alimentares. Sendo o mundo animal o reino da lei do mais forte, não deixa de haver algumas regras não escritas que todos cumprem: os que comem e os que são comidos. Começar a comer a vaca sem a matar foi a infração que valeu a morte do leão.


O meu amigo contou-me a história para ilustrar a forma como se perde em pormenores quando se entusiasma a falar, esquecendo-se até de que às vezes a audiência são filhos pequeninos que, por acaso, adoram leões e podem acabar em lágrimas à conta do relato apaixonado (mas insensível) do pai. Mas não foi isso que me fez ficar a pensar nesta história.

O que me fez ficar a pensar no leão e na vaca foi o que aconteceu poucas horas antes do jantar com este meu amigo em Lisboa. Os Estados Unidos da América decidiram montar uma operação para bombardear vários alvos (incluindo infraestruturas civis) em Caracas e sequestrar o Presidente da Venezuela e a sua mulher. Levados à força e feridos, foram exibidos numa carrinha com as portas abertas, enquanto circulavam por Nova Iorque, a cidade onde foram presentes a um juiz. Entretanto, Donald Trump dava uma conferência de imprensa desfazendo as esperanças de quem achou que este golpe podia abrir caminho a eleições livres ou ao regresso da líder da oposição ao país e assumindo abertamente aquilo que moveu esta operação: a vontade de controlar as reservas de petróleo venezuelanas, impedindo a Venezuela de vender o produto a países como a China ou a Rússia e, sobretudo, de o vender em qualquer divisa que não o dólar (um pormenor fundamental que garante aos EUA a possibilidade quase infinita de imprimir moeda para se financiar).

Donald Trump deixou claro que ele é que vai mandar na Venezuela e foi avisando que também precisa da Gronelândia (que faz parte da Dinamarca) e que, na verdade, todo o continente americano é o seu quintal. Trump começou a desfazer a vaca sem sequer se dar ao trabalho de a matar.

Essa ideia ficou ainda mais evidente quando, uns dias mais tarde, vi um vídeo no qual, perante uma plateia de congressistas republicanos, o Presidente dos EUA relatava uma conversa com o Presidente francês. Imitando a voz de Macron, Trump explicou como o vergou em minutos. “100% vai fazer o que eu quero. Vai fazer o que eu quero e vai gostar”, gabava-se de ter dito a Macron. O truque foi fácil: ameaçar com tarifas que tornariam impossivelmente caros produtos como o vinho, o queijo ou o champanhe francês no mercado americano. Para o evitar, Macron aceitou subir os preços dos medicamentos. Trump explica como usou exatamente a mesma fórmula para conseguir o que queria noutras partes do mundo. “Em média, demoraram três minutos e 22 segundos”, diz, alarve, o bully, consciente não só da sua força, mas da cobardia dos outros.

Enquanto na Europa os líderes europeus pareciam baratas desorientadas, pensei que esta situação não era muito diferente daquela em que a queda do Muro de Berlim apanhou alguns. O muro caiu. Este muro, feito de NATO e ONU e primado da lei e de convenções internacionais, ruiu. Estava cheio de brechas e foi ao chão. No meio dos cacos, a maioria dos líderes políticos não sabe o que fazer. Não entende sequer que o mundo mudou. Agarra-se às antigas alianças e finge que nada aconteceu. Resta saber até quando.

Esta semana, almocei com um político brasileiro que estava, ao contrário de muitos dos políticos portugueses, aterrado com a quebra de soberania na Venezuela. “Isto é terrível”, repetia, garantindo que o Brasil não espera nada da China, que “não tem em conta se não os seus próprios interesses”, e que os BRICS, na verdade, estão longe de ter uma unidade que os faça agir em comum. “Índia, China e Rússia não têm os mesmos interesses”, explicava-me enquanto me dizia que lhe parecia que restava ao seu país “navegar nesta conjuntura”. Mas sem qualquer dúvida de que a ideia de soberania na América Latina (tantas vezes ameaçada no passado) está agora por um fio.

No final do almoço, ele disse-me uma frase que me ficou a ecoar na cabeça. “No outro dia, estava falando com a minha mulher e ela me disse: ‘Essa ideia da social-democracia era muito confortável até os ricos ficarem loucos.’” Rimos muito com a blague. Mas talvez tenha sido um riso nervoso. Esta loucura não dá vontade de rir. Há uma oligarquia descontrolada que está a desmantelar a democracia e a impor como lei a pirataria e o terrorismo. E isso não é para rir.

Até porque não sabemos quem poderá vir matar o leão. Será que alguém se atreve? 

Nobel fajuto para Trump causa vergonha alheia

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.


Duas semanas antes, ele descartara apoiar a mesma “María” como futura presidente da Venezuela pós-sequestro de Nicolás Maduro, porque “ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o apoio ou o respeito dentro do país”. Balela. Trump sabe que o partido da oposicionista proibida de participar da vida nacional obteve maioria ampla em 2024, e o resultado foi atropelado por imposição de Maduro. Trump queria dizer, e não disse, que Machado não conta nem com o apoio, ainda menos com o respeito, das Forças Armadas forjadas no chavismo, até agora leais a Maduro. Sem esse apoio, os planos atuais da Casa Branca para a Venezuela sob sua tutela teriam menos chances de fluir. Preferiu aliar-se à força decapitada da presidente interina Delcy Rodríguez, militante raiz do regime, com décadas de serviços prestados ao chavismo. A incongruência é explicável. Trump entende melhor cabeças e regimes autoritários, por congenialidade. Reserva seu colossal desprezo aos meandros e complexidades do pensamento democrático, para o qual se sabe despreparado. Mas é justo na esfera democrática, e só ali, que se consegue um Nobel não fajuto.

María Corina Machado, por seu lado, jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro. Dedicou boa parte de sua vida pública, que incluiu um ano na clandestinidade, à defesa de liberdades fundamentais. Até revelar-se trumpista a ponto de aplaudir o golpe de força militar dos Estados Unidos contra seu país. Também silenciou sobre os bombardeios em série ordenados por Trump contra embarcações em águas internacionais e compactuou com a versão criada na Casa Branca de que Maduro era o chefe de uma gangue de narcotraficantes. Dedicou a Trump a medalhinha de 200 gramas de ouro de 18 quilates “em reconhecimento por seu compromisso único com nossa liberdade” e nada ganhou em troca. Vida que segue.

Anos atrás o historiador italiano Carlo Ginzburg publicou um ensaio sobre a vergonha — coletiva e individual —, já citado em coluna anterior. Ginzburg sustenta que sabemos a que país pertencemos não pelo amor que a ele dedicamos, mas pelo sentimento de vergonha que ele é capaz de gerar em nós. Também esclarece que não sentimos vergonha por opção ou escolha:

— Ela recai sobre nós, invade nossos corpos, sentimentos, pensamentos como uma doença súbita.

São muitos os pensadores que diferenciam a vergonha, como trauma relacional, da culpa, como agência moral. Primo Levi, em “Os afogados e os sobreviventes”, descreve a vergonha dos sobreviventes de Auschwitz não por atos cometidos, mas por pertencerem a uma espécie cujos membros cometeram atos atrozes — uma culpa difusa pela humanidade compartilhada. Annie Ernaux, em “A vergonha”, explora o conceito como marca social de classe e falha familiar, um peso público que isola o indivíduo, enquanto James Baldwin, em “Da próxima vez, o fogo” trata da vergonha como fardo racial e social imposto ao oprimido.

Quando canalizada em energia transformadora, ou até mesmo revolucionária, como sustenta o filósofo Frédéric Gros, professor de pensamento político na Sciences Po de Paris, a vergonha é sinal inconfundível de nossa responsabilidade em relação ao mundo que habitamos. Compartilhada, ela serve de tábua de transformação e ação. Quando vivenciada de forma solitária, é capaz de paralisar personalidades das mais fortes, garante Gros.

Na cena da medalhinha, nem Donald Trump nem María Corina Machado parecem alcançáveis por qualquer vergonha. Recai sobre nós senti-la.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A neurobiologia do fascismo e da democracia

O bem e o mal, o que é justo e o que é injusto não são aprendizagens: são sensações e perceções de ordem neurobiológica e hormonal.

Sentimo-nos bem ou sentimo-nos mal, desde o início do processo gestacional.

O bebé sente-se bem – descontraído, satisfeito e curioso – num ambiente conhecido, protetor, atentivo e gentil. O bebé sente-se mal – tenso, em estado de alerta, irritado e stressado – quando está sozinho ou num ambiente desconhecido, na presença de pessoas que o ignoram ou que, de qualquer forma, o tratam mal e não o protegem. Estas perceções atuam sobre todo o corpo do bebé.

A perceção de situações agradáveis tais como presenciar algo que nos parece bom e justo, porque não nos fere nem fere o outro, assim como a perceção de situações stressantes – ameaçadoras, maldosas, injustas – invadem continuamente o nosso cérebro, introduzem-se na nossa neurobiologia, no nosso sistema hormonal e modelam-nos.


A nossa neurobiologia e o nosso sistema hormonal, reagem ao que sentimos: a sensação de ver ou de praticar o bem e o que é justo não é a mesma que aquela que temos quando vemos ou praticamos o mal e a injustiça.

Estes processos não são exclusivos dos seres humanos, mas comuns a todos os animais e até às plantas. A semente de uma árvore sente-se bem e desenvolve-se rapidamente e é saudável, quando é bem tratada: preparada antes de ser plantada, plantada no momento adequado, em terra preparada para ela, com luz, calor e humidade cuidadosamente adaptadas às necessidades da semente. A planta é mais resistente e produtiva quando é bem tratada, quando é acarinhada e cuidada. Tal como qualquer animal.

A ditadura e o fascismo são extremadamente desagradáveis: a violência, o desrespeito, a opressão, a manipulação e o medo que incutem, assim como a proibição de pensar e de falar livremente, são perceções extremamente dolorosas e stressantes que se tornam, com o tempo, cada vez mais incapacitantes. A agressão e o medo tiram-nos o prazer da existência, o autorrespeito, a alegria, a criatividade e a produtividade.

A ditadura e o fascismo são comportamentos e estados emocionais doentios, patogénicos, porque assentam e coabitam com a agressão, a violência, a destruição e a morte não natural. O stress, a hiperativação da nossa existência ameaçada agitam e deformam a nossa neurobiologia, o nosso sistema hormonal e anti-inflamatório.

A ditadura e o fascismo não têm possibilidade de coexistir pacificamente com a nossa neurobiologia. A nossa natureza sente-os como uma ameaça e equipara-os a uma infeção. A ditadura e o fascismo são expressões comportamentais de perturbações muito graves da nossa neurobiologia.

A democracia é prazenteira, descontraída e criativa.

A democracia dá-nos satisfação, e alegria, incita-nos a procurar o outro, a perdoar e a amar. A democracia estimula a vida, dá força e saúde ao nosso sistema imunitário e hormonal, ao nosso cérebro: o centro de integração das nossas sensações e emoções.

A má democracia é uma má versão da democracia, é uma má experiência.

Temos forçosamente – mais tarde ou mais cedo – de melhorar a má democracia, por razões de ordem neurobiológica e hormonal.

A direita abusa descaradamente da mentira como estratégia política

Há alguns anos, alertamos sobre o uso e o abuso de mentiras na política pela direita, especialmente pela extrema-direita ( Mentiras como Forma de Ação Política ). Poderíamos compilar uma longa lista de mentiras que foram disseminadas recentemente por representantes da extrema-direita no Brasil e no mundo. De fato, a vertente conservadora radical da direita tem usado mentiras não apenas para enganar cidadãos e eleitores, mas sobretudo para distorcer os fatos, construir uma realidade paralela e desmantelar seus adversários.

Como alerta o sociólogo brasileiro Jessé Souza em seu livro Os Pobres de Direita, “a mentira é uma arma de guerra usada não apenas contra o inimigo do momento, mas com o objetivo de minar a sociedade como um todo, levando-a a um estado de guerra latente e, assim, rompendo todos os acordos morais implícitos sobre os quais se baseia a vida social”. Nesse caso, não se trata de um mero recurso marginal, mas de uma técnica sistemática de dominação simbólica.


Quando Trump anunciou o sequestro do presidente Maduro, alegando que ele era um narcoterrorista e líder do cartel de los Soles, a verdade foi tão grosseiramente distorcida que a maioria das pessoas com um mínimo de senso de realidade ficou perturbada ou paralisada por essas mentiras. Mais tarde, o próprio Departamento de Justiça refutou essa versão dos fatos que justificava o sequestro, afirmando que Nicolás Maduro era simplesmente parte de uma cultura de corrupção dentro do regime venezuelano.

O aspirante a tirano global dedicou-se a mentir persistentemente para seus seguidores e para o resto do mundo, a ponto de, durante seu primeiro mandato, o Washington Post ter se dado ao trabalho de contabilizar todas as mentiras disseminadas durante seus quatro anos de governo, chegando ao número alarmante de 25.000 falsidades propagadas por Trump nesse breve período. A constante e progressiva repetição de afirmações falsas por Trump e seus assessores demonstra que o objetivo de distorcer os fatos não é convencer racionalmente, mas sim polarizar, saturar e confundir. Como observou Hannah Arendt, quando tudo parece mentira, nada pode ser refutado.

A extrema-direita global usa mentiras para desacreditar a própria política, especialmente a política que busca canais democráticos como meio de expressar as opiniões e propostas de toda a comunidade. A ideia de que todos os políticos são corruptos é uma fórmula comum explorada por figuras como Jair Bolsonaro, Javier Milei, Juan Antonio Kast e Nayib Bukele, para citar apenas alguns exemplos desta parte do mundo. Suas visões radicais convergem para a ideia de que a democracia é ineficaz para gerir as diferenças existentes nas sociedades e que os direitos humanos acabam por proteger criminosos. Eles se dizem antipolíticos, mas acabam se transformando em líderes autoritários que usam violência e repressão contra aqueles que pensam diferente.

Nesse contexto, eles invariavelmente criam inimigos fictícios, contra os quais dirigem todo o seu ódio e desprezo. Esses inimigos são desumanizados e transformados em uma ameaça à suposta paz e harmonia social. Entre eles, incluem-se migrantes, feministas e sua ideologia de gênero, minorias sexuais, sindicatos, organizações ambientalistas, movimentos indígenas, estudantes, partidos de esquerda, intelectuais críticos ou até mesmo, no caso do Brasil, ministros do Supremo Tribunal Federal.

Eles usam a mídia e as redes sociais para disseminar ataques e construir cenários artificiais. Esse verdadeiro ecossistema de comunicação apela para sentimentos de raiva, impotência e ressentimento para atrair seguidores entre segmentos vulneráveis ​​da sociedade: trabalhadores precários, membros de famílias desestruturadas e indivíduos frustrados pela falta de oportunidades. Invocam slogans fáceis de memorizar, como "Deus, família e pátria", para seduzir públicos carentes de identidade e reconhecimento. Com mensagens emocionais, breves e agressivas, conseguiram atrair massas de eleitores com promessas de realização pessoal, prosperidade e trabalho autônomo que se provaram totalmente vazias, mas que continuam a gerar esperança entre os desesperados.

Eles normalizam mentiras e transformam fenômenos ou situações falsas em verdades. Para isso, baseiam-se em um axioma brevemente enunciado pelo sociólogo americano William I. Thomas, que apontou há quase um século que "se uma situação é definida como real, ela é real em suas consequências". Esse teorema revela o alto potencial que uma crença pode ter para determinar o comportamento das pessoas sem a necessidade de evidências demonstráveis. Dessa forma, as mentiras incansavelmente proferidas são capazes de criar realidades para aqueles que as ouvem, e a tênue linha entre verdade e pós-verdade obscurece os fatos como eles são. A extrema direita dissemina a narrativa de que existem muitas verdades, criando um manto de incerteza e desconfiança generalizada entre os cidadãos. Assim, a verdade deixa de ser um terreno comum e se torna mais um campo de batalha, favorecendo aqueles com maior poder de comunicação e controle da mídia.

As mentiras levaram a uma simplificação grotesca das complexidades da vida política, econômica, social e cultural em nossos países. O discurso sobre meritocracia tornou-se a grande falácia de nosso tempo, e gurus da extrema direita se dedicaram a disseminar a ideia de que habilidades e competências são distribuídas igualmente entre a humanidade; trata-se simplesmente de querer e se esforçar para ser um vencedor e alcançar o sucesso na vida.

Em última análise, as mentiras servem para ocultar o que muitos não conseguem ver devido à sua maior complexidade: a existência de relações de poder que moldam desigualdades estruturais, as quais não podem ser contornadas sem confrontar diretamente as elites que concentram riqueza e poder, juntamente com as formas de racismo, classismo e opressão patriarcal que sustentam essa hegemonia. Portanto, mentir não é um erro; é uma estratégia para preservar a ordem social.

No Brasil, o bolsonarismo tornou-se um verdadeiro laboratório de mentiras como ferramenta política. Isso foi alcançado não apenas por meio de centenas de notícias falsas, mas principalmente pelo estabelecimento de um caminho sistemático para se tornar uma força dominante, convencendo os eleitores de que a estrutura partidária e o sistema político vigentes levariam inevitavelmente à destruição do país. Assim, uma das principais promessas de campanha do ex-capitão o posicionava como um político anti-establishment que confrontaria a corrupção e a imoralidade da classe política, pondo fim à complacência representada pelos partidos do " Centrão " (centro-direita). Tudo isso foi um engano ao eleitorado. No fim, Bolsonaro foi o melhor cúmplice desse conglomerado e, durante sua presidência, ocorreu a maior transferência de recursos para parlamentares que condicionaram seu apoio a esse governo regressivo. Por meio de uma série de transferências do governo central para legisladores corruptos — o nefasto "orçamento secreto" —, a extrema-direita quase garantiu a reeleição para um segundo mandato.

Anteriormente, Bolsonaro havia se aproveitado da crise sistêmica herdada do governo ilegítimo de Michel Temer para criar a falsa ilusão de que um "antipolítico" poderia tirar o país do atoleiro. E, de fato, ele conseguiu unificar um bloco social heterogêneo que emergiu nos protestos de 2013, canalizando o descontentamento e o cansaço acumulados com expressões de ódio e virulência contra o Estado, a política e os políticos. Eleito no final de outubro de 2018, o (des)governo de Bolsonaro foi uma sucessão interminável de horrores e da destruição de políticas públicas em todas as áreas da vida nacional. Na área da saúde, ele foi o principal instigador do negacionismo em relação à pandemia do Coronavírus, causando dezenas de mortes adicionais ao atrasar a compra das vacinas necessárias para combater esse flagelo. Ele também incentivou o desmatamento ilegal na Amazônia, na Mata Atlântica, no Serrado e em outros ecossistemas, com consequências ambientais devastadoras. Descontinuou ou eliminou programas de combate à fome implementados por governos anteriores, recolocando o Brasil no mapa da fome. Ele aumentou significativamente a pobreza e a extrema pobreza, que haviam sido drasticamente reduzidas durante os governos do Partido dos Trabalhadores. Promoveu a posse de armas entre a população e incentivou o uso excessivo da força pela polícia. No final de seu mandato, questionou a adequação das urnas eletrônicas perante embaixadores de diversos países e, por fim, recusou-se a reconhecer os resultados das eleições de 2022, tentando um golpe de Estado com setores das Forças Armadas, da Polícia e grupos radicais acampados em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília. Por isso, cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão.

Atualmente, os advogados de Bolsonaro estão mentindo descaradamente ao afirmarem que Bolsonaro jamais tentou contestar os resultados da eleição que perdeu e que as conversas claramente sediciosas ocorridas no apartamento do General Braga Netto não passaram de um bate-papo informal entre amigos em um bar. Além disso, seus defensores argumentam que, se a tentativa de golpe fracassou, dificilmente podem acusar o ex-capitão de liderar uma organização criminosa que supostamente trabalhava para alcançar algo que, no fim, não se concretizou. Em outras palavras, segundo esses profissionais do direito, uma tentativa fracassada não é crime. Trata-se de um argumento absurdamente simplista que, apesar de todas as evidências em contrário, ainda é aceito como verdadeiro por uma parcela significativa da população brasileira.

Mas, no fim, as mentiras desmoronam sob o próprio peso. Basta ver o destino patético de Jair Bolsonaro, aquele personagem que surgiu como o "mito", o macho alfa sempre empunhando um fuzil para confrontar a ameaça vermelha; o presidente que disse que a Covid-19 era apenas uma gripezinha ou um resfriado leve e que seu histórico atlético o tornava imune; o governante sem coração que menosprezou o povo que chorava seus mortos porque ele não era coveiro; o indivíduo grosseiro que afirmou que o Brasil precisava parar de ser um país de maricas, e assim por diante. Bem, esse mesmo ser nefasto agora reclama porque está sob custódia da Polícia Federal com todos os privilégios de um ex-presidente. Ele exige prisão domiciliar porque não consegue dormir, cai da cama e é constantemente atormentado por soluços e azia.

Esse é o verdadeiro Bolsonaro, um covarde disfarçado que nunca assumiu a responsabilidade por suas opiniões, sua natureza despótica, seu comportamento sinistro e sua falta de empatia pelos outros. Neste momento, com tudo o que se sabe, a extrema-direita brasileira continua apoiando Bolsonaro e seu clã, mentindo sobre seu passado como um militar incompetente e sua biografia como um político medíocre. Seu filho, Flávio, assumiu o manto, mas a maioria do país deixou de acreditar no mito fabricado e se depara com o homem real, desprovido de qualidades, a mentira criada por seus propagandistas, o personagem que, em última análise, representa o epítome do charlatão oportunista que se aproveitou da conspiração jurídico-política perpetrada pela extrema-direita contra o atual presidente, Lula da Silva, que suportou com dignidade e sabedoria a injusta sentença que lhe foi imposta.