Um ensaio fotográfico divulgado horas depois da posse pelo Wall Street Journal revelou as mudanças mais óbvias. De volta ao Salão Oval estão algumas das peças defenestradas por Biden quando sucedeu a Trump quatro anos atrás. Entre elas, as três imensas bandeiras das armas militares, um lugar de honra para seu ídolo Andrew Jackson (o sétimo presidente americano, que dizia “Nasci para a tempestade, a calmaria não me cai bem”), a popular escultura de bronze de um caubói domando sua montaria, “Bronco Buster”, de Frederic Remington. De serventia mais imediata, foi ressuscitada também a famosa caixa de madeira com campainha, que Trump aciona quando quer mais uma Diet Coke. Saíram de cena o gigantesco retrato do democrata Franklin D. Roosevelt e o busto do líder trabalhista chicano César Chávez.
Nenhum descarte ou inclusão é desprovido de significado político, sabemos. Nada é trivial. Desde que existe — como cenário de pronunciamentos à nação e para a recepção formal de lideranças mundiais —, o Salão Oval da Casa Branca sempre teve como função espelhar tanto a grandeza da Presidência como a alma e o gosto de seu ocupante. As duas coisas acabam se enfronhando na consciência cultural da nação.
A escolha da foto oficial do 47º presidente americano, monitorada nos mínimos detalhes pelo próprio Trump, também se infiltrará na consciência visual do país. Ao contrário de seus antecessores, o Trump de 2025 tem na expressão uma intensidade estranhamente agressiva, feita para causar incômodo. Não há vestígio de transparência, afabilidade ou esboço de sorriso. “Cuidadosamente coreografada”, escreveu o historiador e crítico de arte Kelly Grovier para a BBC. “Cada aspecto está calibrado para um impacto máximo, desde a luz quase metálica e crepuscular que ilumina o rosto de Trump, de baixo, até seu olhar severo e assimétrico.” Grovier diz ser necessário vasculhar na História da Arte para encontrar paralelo convincente à postura aguerrida no olhar de Trump. Sua intencionalidade é triunfante. O crítico só encontrou semelhança num autorretrato do artista barroco Salvator Rosa, que integra o acervo da National Gallery de Londres.
Foi no apagar de seu primeiro mandato, em dezembro de 2020, no meio da pandemia que causou mais de 1 milhão de mortos nos Estados Unidos, que Trump emitiu um decreto sobre... arte e arquitetura. O documento determinava que a edificação de qualquer prédio novo do governo federal deveria seguir “o estilo clássico“ da “arquitetura tradicional”. E elogiava as edificações da Grécia e de Roma na Antiguidade, por “duradouras” e “úteis”. Condenava em particular a arquitetura brutalista e desconstrutivista então em moda, que a seu ver ofendia a “representação dos ideais americanos”.
Seguiu-se uma gritaria de várias correntes artísticas contra a apropriação nostálgica desse estilo arquitetônico, por meio da ficcionalização de suas raízes nacionais. Como apontou uma associação de arquitetos à época, o neoclassicismo nos Estados Unidos está diretamente ligado à edificação da branquitude. Com a justificativa de emular a cultura grega, muitos donos de plantações sulistas construíam suas mansões em busca de branquitude, de forma a realçar sua superioridade moral.
Enterrado por Joe Biden em 2021, o malfadado decreto retornou com força logo na primeira leva assinada por Trump nesta semana. Em memorando dirigido ao Administrador dos Serviços Gerais, com o título de “Promover a bela arquitetura cívica federal”, Trump dá 60 dias para a entidade que gerencia os prédios do governo alinhar a arquitetura oficial aos princípios “clássicos”.
O conceito do que é “belo” ou “clássico” para Trump é elástico. Vale lembrar que a polêmica construção do arranha-céu de 58 andares da Quinta Avenida, em Nova York, com seu grandioso átrio e imponente queda-d’água, exigiu a demolição do histórico prédio art déco que abrigava a loja de departamentos Bonwitt Teller. À época, Trump concordou em doar duas frisas da fachada original ao Metropolitan Museum, mas desistiu diante do custo.
— Mandei meus caras arrancarem tudo — contou, orgulhoso, no livro “A arte da negociação”.
“O intelecto arruína o cérebro”, garantia Joseph Goebbels às massas na Alemanha de 1935. Ciência pura, dissenso, intelecto, arte, humor, diversidade cultural têm pouca utilidade para o projeto Maga de Trump. É bom ter medo de sua “arte cívica”.
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