No dia em que foi publicado o decreto-lei do Governo que “aprova o programa de oferta de assinaturas digitais de publicações periódicas a jovens entre os 15 e os 18 anos”, o projeto de cidadania digital YouNDgital revelou os dados de um inquérito feito a 1362 jovens residentes em Portugal sobre o modo como encaram as notícias.
A maioria dos inquiridos considera que as notícias são “tendenciosas” e “aborrecidas”, em especial quando se referem a temas como a política — os preferidos são desporto, tecnologia, entretenimento e saúde. Foram ouvidos jovens entre os 15 e os 24 anos (um pouco além da idade abrangida pelas assinaturas grátis de jornais).
O estudo divide os participantes em quatro categorias reveladoras: “exploradores digitais centrados no lazer”; “exploradores digitais de temas variados”; “as notícias não são a minha praia” e “vislumbre dos media à antiga”.
A conclusão mais óbvia e transversal é esta: grande parte dos inquiridos de qualquer um dos grupos considera que as notícias existem para entreter e não cumprem a sua missão — são “aborrecidas”. Pior, “têm um impacto negativo” na sua vida e no estado de espírito. Acresce que são consideradas “tendenciosas”, o que muito naturalmente decorre do fato de serem fabricadas por youtubers, instagrammers e outros influenciadores digitais que nada devem ao rigor ou à objetividade.
Se a função das notícias, à semelhança das redes sociais que mais sucesso fazem entre os jovens, fosse exclusivamente entreter ou divertir — em vez de informar, ensinar, alimentar o pensamento, antecipar tendências, ajudar a formar opiniões e contextualizar —, seria justo dizer que são apenas “aborrecidas”. Mas essa não é a sua única função, e os jornais também têm outros formatos menos sisudos e estão em esforço constante (nem sempre bem-sucedido) para falar linguagens inovadoras e surpreendentes, responder aos desafios dos leitores e captar novos públicos.
Os resultados do estudo revelam hábitos de consumo que estão a mudar há vários anos e aos quais “os media à antiga” não têm conseguido dar uma resposta adequada e satisfatória. Mas também há uma notícia moderadamente positiva que é, em simultâneo, uma prova de confiança: quando se trata de recolher informações para fazer os trabalhos da escola ou conversar, os jovens procuram a informação na comunicação social tradicional, como a rádio ou os jornais. Procuram um selo de qualidade. É isso que os media (ainda) têm para oferecer, e não é pouco.
Sónia Sapage
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