domingo, 12 de julho de 2015

O Papa e nós


O papa Francisco continua a fazer alertas e duras críticas ao capitalismo selvagem. Em sua passagem, nesta quinta-feira, por Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, referiu-se ao capitalismo como fonte de “exclusão social e destruição da natureza”, pedindo mudanças estruturais: “os trabalhadores, os camponeses, a Mãe Terra não aguentam”. Antes, em sua Encíclica Laudato Si, cuja capa traz a imagem de São Francisco de Assis, prega uma “revolução corajosa” para salvar o planeta.

Afinal de contas, o que defende o papa Francisco?

Para começo de conversa, é inimaginável pensar no Chefe da Igreja Católica defendendo o marxismo-leninismo como alguns hermeneutas chegam a sugerir. Nada disso. Ele já chegou a dizer que “Marx não inventou nada” e que “os comunistas roubaram nossa bandeira” (Igreja Católica)

O que está no foco das acusações do cardeal Bergoglio são os desvios e disfunções que se operam no bojo do sistema capitalista, como a especulação financeira, que desvia a função do capital na produção de bens a serviço da coletividade, nova forma de colonialismo.

Ele é contra a opulência, a riqueza a ambição dos poderosos, a promiscuidade com os mais fortes e ricos. Trata-se de um humanista. Que conhece profundamente a realidade latino-americana. Em sua trajetória, conviveu com os mais carentes.

Se fossemos creditar ao papa Francisco um escopo ideológico, este seria próximo aos valores de uma sociedade livre, abrigo dos direitos individuais e sociais, e sob a bandeira da igualdade dos cidadãos, todos tendo acesso aos mecanismos da justiça.

Se a socialdemocracia respira por esses poros, o papa seria, então, um socialdemocrata. Atente-se: com uma visão profundamente religiosa e humana.

Não seria adepto de uma “revolução socialista”, nos termos do socialismo utópico, nem defensor do “neocapitalismo opressor”.

Seria o pregador por excelência de princípios doutrinários extraídos tanto do socialismo como do liberalismo, adaptados às características de cada Nação.

Combinaria com o que pensam nossos atores políticos, partidos e representantes? Vejamos.

Na década de 80, Darcy Ribeiro, senador e antropólogo, chegou a pintar a fusão de princípios, mostrando a Leonel Brizola um “socialismo moreno” como doutrina para o Brasil. O achado linguístico foi esquecido.

Todos os nossos presidentes querem tocar nessa orquestra. Fernando Henrique dizia que o “autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro mina o espírito da democracia constitucional”. Era a acusação que jogava sobre o governo Lula.

Os petistas e tucanos exibem, porém, traços de concordância em alguns aspectos. Suas gramáticas, expurgadas de exageros, descrevem abordagens semelhantes na forma de conceber o papel do Estado e a administração do governo. São parentes na concepção da socialdemocracia.

Em 1989, o tucanato definiu no documento “Os desafios do Brasil e o PSDB” o papel do Estado na condução de programas econômicos e sociais.

Em seu início, em 80, o PT considerou o sistema socialdemocrata inepto para vencer o “capitalismo imperialista”. Mesmo após a queda do Muro de Berlim, cultivou a velha utopia, até aceitar, não sem resistências internas, a realidade imposta por novos paradigmas.


O mundo deu uma guinada ideológica, integrando escopos do reformismo democrático, do realismo econômico e dos avanços do capitalismo. E aí o PT produziu, em junho de 2002, a “Carta ao Povo Brasileiro”, peça chave para a vitória de Lula, pavimentando, assim, sua entrada no território da socialdemocracia.

O documento foi decisivo no processo de descarte de dogmas que não resistiram aos ventos da modernidade. O socialismo utópico evaporou-se nos ares da abstração.

As ideologias cederam lugar aos ismos da modernidade: pragmatismo, capitalismo (mesmo sob um Estado controlador) e liberalismo social.

Os modelos de economias assentadas na solidariedade cedem lugar a programas reformistas, voltados para atender a demandas pontuais e urgentes.

As autonomias nacionais passam a se impregnar de ares globaliza­dos.

O crescimento desordenado e a qualquer preço é balizado por metas de inflação.

Os programas de privatização, tão combatidos pelo PT, hoje fazem parte de suas bandeiras, agora sob a designação de “concessões”.

O nacionalismo, bandeira recorrente na América Latina, abriu espaço para ingresso de capitais internacionais. Gastos a fundo perdido começam a ser regrados por normas de responsabilidade fiscal.

O que significam tais reconfigurações?

Um modelo de gestão responsável e eficaz, compro­metido com crescimento, preservação da estabilidade macroeconô­mica, atendimento às demandas sociais, enfim, administração equi­librada das relações entre Estado, mercado (capital) e sociedade.

Esse é o eixo que o sistema socialdemocrata tenta aprofundar em seu berço, o continente europeu, sendo visto com sim­patia pela maioria dos atores políticos do mundo hodierno.

Mas a modelagem continua a corroer alguns eixos, particularmente o peso do capital financeiro e as carências sociais. Este é o alerta do Papa Francisco. Portanto, senhores políticos, atentem para as palavras, cheias de bom senso, do modesto jesuíta argentino.

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