terça-feira, 14 de abril de 2026
O fator Estados Unidos terá impacto na eleição brasileira
Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?
Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.
Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.
É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.
Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.
Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.
Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:
— Sounds good.
Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.
Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.
Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.
O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.
Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.
Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.
Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.
É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.
Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.
Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.
Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:
— Sounds good.
Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.
Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.
Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.
O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.
Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.
Humanos no Espaço: Exploradores ou mercadores da última fronteira?
“É um pensamento amargo, mas temos de o enfrentar. Os planetas poderão um dia ser conquistados, mas as estrelas não são para o homem.” O autor dessas palavras é Arthur C. Clarke, um dos mais importantes escritores de ficção científica do séc. XX, e surgem na sua obra O Fim da Infância. As suas histórias sobre exploração espacial e contacto com civilizações alienígenas inspiraram leitores em todo o mundo, atingindo o equilíbrio perfeito entre o deslumbramento e o pensamento crítico. Se estivesse vivo, o autor teria provavelmente acompanhado com entusiasmo a viagem de Artemis II, a primeira missão tripulada à Lua em mais de 50 anos, em que os tripulantes se tornaram os humanos que viajaram mais longe da Terra. Afinal o Espaço ainda é a última fronteira, despertando em nós uma alegria pura de criança sempre que tentamos desbravar rotas em busca de mais conhecimento cósmico.
Graças a Artemis II, o Homem irá regressar à Lua, até ao final da atual década, com o objetivo de construir estações lunares capazes de concretizar o sonho de ir mais além, rumo a Marte. É uma tarefa hercúlea para a Humanidade, e as palavras de Clarke continuam a fazer tanto sentido hoje como então: podemos um dia possuir outros planetas, mas existimos num universo com milhões de estrelas a anos-luz de distância, o que significa que, por mais que possamos sonhar com novas tecnologias, há barreiras interestelares intransponíveis.
A ficção científica nunca parou de nos confrontar com as grandes questões cósmicas. Curiosamente, um dos maiores sucessos cinematográficos do ano é baseado numa obra de ficção científica de Andy Weir e centra-se numa viagem espacial perante a iminente extinção do nosso planeta e da existência humana. O Projeto Hail Mary não contém uma visão desoladora e angustiante perante a vastidão solitária do Universo, como tantas vezes associamos à ficção científica. Lançados na vastidão do cosmos, os humanos sobrevivem através da capacidade de comunicar e da amizade, ajudando a preencher a solidão entre as estrelas. E que falta faz essa visão otimista e esperançosa do ser humano neste admirável planeta velho.
Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA
Ao acompanharmos a missão Artemis II, um projeto de cooperação global entre vários países, até que ponto será otimista a nossa expansão humana no Universo, à semelhança do filme Projeto Hail Mary? Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA. A China irá tentar alcançar o mesmo objetivo até 2030. Ambos os países irão explorar os recursos naturais da Lua e irão aproveitar-se das inúmeras zonas cinzentas em tratados internacionais, que não são claros sobre exploração económica ou a utilização de recursos. No fundo, será uma corrida entre algumas das nações mais poderosas para firmar uma hegemonia económica à escala interplanetária. Mais do que exploradores, serão space merchants, em que empresas se aliam a governos, ou mesmo tomam o lugar de governos, em busca de negócios lucrativos. A frase de Clarke acaba por ser virada do avesso. O que acontece quando conquistamos outros planetas, mas acabamos por levar o capitalismo e a tendência para a colonização à boleia? Aqueles que chegarem primeiro e construírem as primeiras bases terão a última palavra sobre como definir os próximos passos da exploração espacial, numa jogada a longo prazo.
Talvez nunca consigamos alcançar as estrelas, como sugeria Clarke, mas isso pode não ser o nosso maior limite. O verdadeiro teste será libertarmo-nos de uma visão mercantil que pode manchar e subverter as mais belas aspirações humanas. Se a História da Humanidade serve de guia, então a exploração do Espaço dificilmente será imune às mesmas forças que moldaram o nosso passado. E, nesse caso, não estaremos já a cumprir o destino antecipado pelos space merchants, imaginados por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth na década de 50? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa, é que este futuro nunca foi imprevisível, e ignorar o aviso pode sair-nos caro demais.
Graças a Artemis II, o Homem irá regressar à Lua, até ao final da atual década, com o objetivo de construir estações lunares capazes de concretizar o sonho de ir mais além, rumo a Marte. É uma tarefa hercúlea para a Humanidade, e as palavras de Clarke continuam a fazer tanto sentido hoje como então: podemos um dia possuir outros planetas, mas existimos num universo com milhões de estrelas a anos-luz de distância, o que significa que, por mais que possamos sonhar com novas tecnologias, há barreiras interestelares intransponíveis.
A ficção científica nunca parou de nos confrontar com as grandes questões cósmicas. Curiosamente, um dos maiores sucessos cinematográficos do ano é baseado numa obra de ficção científica de Andy Weir e centra-se numa viagem espacial perante a iminente extinção do nosso planeta e da existência humana. O Projeto Hail Mary não contém uma visão desoladora e angustiante perante a vastidão solitária do Universo, como tantas vezes associamos à ficção científica. Lançados na vastidão do cosmos, os humanos sobrevivem através da capacidade de comunicar e da amizade, ajudando a preencher a solidão entre as estrelas. E que falta faz essa visão otimista e esperançosa do ser humano neste admirável planeta velho.
Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA
Ao acompanharmos a missão Artemis II, um projeto de cooperação global entre vários países, até que ponto será otimista a nossa expansão humana no Universo, à semelhança do filme Projeto Hail Mary? Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA. A China irá tentar alcançar o mesmo objetivo até 2030. Ambos os países irão explorar os recursos naturais da Lua e irão aproveitar-se das inúmeras zonas cinzentas em tratados internacionais, que não são claros sobre exploração económica ou a utilização de recursos. No fundo, será uma corrida entre algumas das nações mais poderosas para firmar uma hegemonia económica à escala interplanetária. Mais do que exploradores, serão space merchants, em que empresas se aliam a governos, ou mesmo tomam o lugar de governos, em busca de negócios lucrativos. A frase de Clarke acaba por ser virada do avesso. O que acontece quando conquistamos outros planetas, mas acabamos por levar o capitalismo e a tendência para a colonização à boleia? Aqueles que chegarem primeiro e construírem as primeiras bases terão a última palavra sobre como definir os próximos passos da exploração espacial, numa jogada a longo prazo.
Talvez nunca consigamos alcançar as estrelas, como sugeria Clarke, mas isso pode não ser o nosso maior limite. O verdadeiro teste será libertarmo-nos de uma visão mercantil que pode manchar e subverter as mais belas aspirações humanas. Se a História da Humanidade serve de guia, então a exploração do Espaço dificilmente será imune às mesmas forças que moldaram o nosso passado. E, nesse caso, não estaremos já a cumprir o destino antecipado pelos space merchants, imaginados por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth na década de 50? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa, é que este futuro nunca foi imprevisível, e ignorar o aviso pode sair-nos caro demais.
O poder das palavras: a responsabilidade do discurso dos líderes
Nos últimos tempos, tornou-se recorrente ouvir líderes proferirem declarações de grande carga simbólica e emocional, como a afirmação de que “uma civilização inteira morrerá hoje”, de Donald Trump. Este tipo de enunciado, amplificado por múltiplos canais de comunicação, ilustra o alcance e a rapidez com que a palavra se transforma em instrumento de influência global. Mais do que simples retórica, trata-se de uma manifestação clara do poder — e do risco — associado ao discurso político.
As palavras nunca são neutras. Em particular, quando proferidas por líderes, carregam autoridade, moldam perceções e podem desencadear consequências concretas. A História demonstra que o discurso político tem a capacidade tanto de mobilizar sociedades para o progresso como de as conduzir ao conflito.
Um exemplo paradigmático é o de Winston Churchill, cujo discurso durante a Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na resistência britânica. Expressões como “we shall fight on the beaches” não apenas transmitiam determinação, como reforçavam a coesão nacional num momento de extrema adversidade. Neste caso, a palavra foi instrumento de resiliência e mobilização coletiva.
Em contraste, o uso da linguagem como ferramenta de manipulação e incitamento teve consequências devastadoras em vários momentos da História. O discurso de Adolf Hitler, durante a ascensão do regime nazi, demonstra como a retórica pode ser utilizada para disseminar ideologias extremistas, desumanizar grupos inteiros e legitimar políticas de exclusão e violência. A banalização de certas narrativas abriu caminho a uma das maiores tragédias da humanidade.
Mais recentemente, observa-se um fenómeno de intensificação e aceleração do impacto das palavras, impulsionado pelas redes sociais e pelos meios digitais. Declarações que outrora ficariam circunscritas a determinados contextos são hoje difundidas em segundos, alcançando audiências globais e gerando reações imediatas. Líderes contemporâneos recorrem, com frequência, a uma linguagem mais polarizadora, consciente do seu potencial mobilizador — mas também, muitas vezes, negligenciando os seus efeitos corrosivos no tecido social.
A retórica inflamada, baseada em ameaças, simplificações ou generalizações, contribui para a erosão da confiança nas instituições e para a fragmentação das sociedades. Ao normalizar discursos de confronto, abre-se espaço à radicalização e à intolerância. Por outro lado, a ausência de rigor e responsabilidade no uso da palavra enfraquece o debate público, substituindo a argumentação fundamentada por slogans e emoções.
Importa, por isso, reafirmar a responsabilidade acrescida dos líderes no uso do discurso. A palavra, quando utilizada com ponderação, pode promover diálogo, inspirar confiança e orientar sociedades em momentos de incerteza. Pode também ser um instrumento essencial para a construção de consensos e para a defesa de valores democráticos.
Num contexto global marcado por desafios complexos — desde conflitos geopolíticos a crises económicas e sociais —, a qualidade do discurso político assume um papel determinante. Não se trata apenas do conteúdo das decisões, mas também da forma como estas são comunicadas. A clareza, a verdade e o respeito devem constituir pilares fundamentais da comunicação de qualquer liderança.
Em última análise, o poder das palavras reside na sua capacidade de moldar realidades. Cabe aos líderes reconhecer esse poder e utilizá-lo com responsabilidade, conscientes de que cada declaração pode contribuir para aproximar ou afastar, construir ou destruir.
Inês Pina
As palavras nunca são neutras. Em particular, quando proferidas por líderes, carregam autoridade, moldam perceções e podem desencadear consequências concretas. A História demonstra que o discurso político tem a capacidade tanto de mobilizar sociedades para o progresso como de as conduzir ao conflito.
Um exemplo paradigmático é o de Winston Churchill, cujo discurso durante a Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na resistência britânica. Expressões como “we shall fight on the beaches” não apenas transmitiam determinação, como reforçavam a coesão nacional num momento de extrema adversidade. Neste caso, a palavra foi instrumento de resiliência e mobilização coletiva.
Em contraste, o uso da linguagem como ferramenta de manipulação e incitamento teve consequências devastadoras em vários momentos da História. O discurso de Adolf Hitler, durante a ascensão do regime nazi, demonstra como a retórica pode ser utilizada para disseminar ideologias extremistas, desumanizar grupos inteiros e legitimar políticas de exclusão e violência. A banalização de certas narrativas abriu caminho a uma das maiores tragédias da humanidade.
Mais recentemente, observa-se um fenómeno de intensificação e aceleração do impacto das palavras, impulsionado pelas redes sociais e pelos meios digitais. Declarações que outrora ficariam circunscritas a determinados contextos são hoje difundidas em segundos, alcançando audiências globais e gerando reações imediatas. Líderes contemporâneos recorrem, com frequência, a uma linguagem mais polarizadora, consciente do seu potencial mobilizador — mas também, muitas vezes, negligenciando os seus efeitos corrosivos no tecido social.
A retórica inflamada, baseada em ameaças, simplificações ou generalizações, contribui para a erosão da confiança nas instituições e para a fragmentação das sociedades. Ao normalizar discursos de confronto, abre-se espaço à radicalização e à intolerância. Por outro lado, a ausência de rigor e responsabilidade no uso da palavra enfraquece o debate público, substituindo a argumentação fundamentada por slogans e emoções.
Importa, por isso, reafirmar a responsabilidade acrescida dos líderes no uso do discurso. A palavra, quando utilizada com ponderação, pode promover diálogo, inspirar confiança e orientar sociedades em momentos de incerteza. Pode também ser um instrumento essencial para a construção de consensos e para a defesa de valores democráticos.
Num contexto global marcado por desafios complexos — desde conflitos geopolíticos a crises económicas e sociais —, a qualidade do discurso político assume um papel determinante. Não se trata apenas do conteúdo das decisões, mas também da forma como estas são comunicadas. A clareza, a verdade e o respeito devem constituir pilares fundamentais da comunicação de qualquer liderança.
Em última análise, o poder das palavras reside na sua capacidade de moldar realidades. Cabe aos líderes reconhecer esse poder e utilizá-lo com responsabilidade, conscientes de que cada declaração pode contribuir para aproximar ou afastar, construir ou destruir.
Inês Pina
Missão civilizadora e a pedagogia do desconforto
Em uma sala de aula de Relações Internacionais, um vídeo passado como crítica à missão civilizadora produziu um desconforto inesperado. O incômodo revelou algo maior: as imagens não apenas mostram o mundo; elas organizam hierarquias sobre como olhamos e entendemos quem pode aparecer e quem pode ser salvo.
Existem imagens que pretendem denunciar hierarquias de poder, mas que, ao circular, podem também reativá-las. Em sala de aula, essa contradição aparece com nitidez: uma imagem pensada como crítica pode ser recebida como a repetição da violência que denuncia.
Mesmo quando a intenção é a crítica e a problematização do conhecimento, a imagem impacta antes mesmo de ser decodificada teoricamente. Esse processo pode ativar imediatamente experiencias acumuladas de representação desigual, paternalismo, exotificação. Muitas vezes, materiais críticos produzem exatamente esse atrito porque expõem estruturas que estão operando.
A missão civilizadora constituiu um dos discursos fundamentais mais persistentes da construção do mundo moderno. Desde o século XIX, a expansão imperial europeia foi legitimada por uma linguagem, segundo a qual alguns povos teriam superioridade moral, política e racional, que lhes concederia o direito – e o dever – de conduzir outros povos, atrasados, ao progresso, modernidade e civilização. Essa gramática não operava apenas como justificativa ideológica da ocupação territorial ou da exploração econômica; ela organizava profundamente a própria maneira de compreender quem poderia governar, quem detinha capacidade política legítima e quem aparecia como sujeito incompleto e inferior no cenário global. A colonialidade, nesse sentido, não se limita ao domínio formal dos impérios, mas estruturou classificações duradouras sobre humanidade, racionalidade e autoridade. Ainda que o léxico colonial tenha perdido legitimidade ao longo do século XX, especialmente após a universalização formal da soberania estatal e os processos de decolonização, suas estruturas não desapareceram. Elas foram rearticuladas em novas linguagens, mais compatíveis com a moralidade política contemporânea, particularmente nos campos do humanitarismo, da cooperação internacional, das políticas de desenvolvimento e da filantropia global.
Hoje, dificilmente se enuncia de forma aberta a ideia de civilizar povos considerados inferiores. Entretanto, a lógica segundo a qual alguns atores internacionais aparecem como portadores legítimos de solução, enquanto outros são representados prioritariamente por sua vulnerabilidade, continua operando de forma sofisticada. O discurso humanitário contemporâneo constitui uma das expressões mais evidentes dessa transformação. A linguagem não se organiza em torno da superioridade civilizacional explícita, mas em torno da urgência moral, da responsabilidade internacional, do dever de ajudar. . Campanhas humanitárias, programas de desenvolvimento e narrativas filantrópicas frequentemente mobilizam imagens de sofrimento extremo: crianças subnutridas, corpos deslocados, populações em situação de desastre, territórios marcados por ruína e carência. Essas imagens produzem forte mobilização emocional e cumprem função política decisiva: sensibilizam públicos, legitimam transferências de recursos, organizam consensos e justificam intervenções. No entanto, também produzem uma distribuição desigual de lugares morais e políticos, em que determinados sujeitos aparecem como aqueles que agem, protegem, financiam, decidem e salvam, enquanto outros aparecem como destinatários da ação, corpos sobre os quais recai o gesto internacional de cuidado.
É nesse ponto que a noção de colonialidade do olhar se torna particularmente fecunda para pensar as Relações Internacionais contemporâneas. A colonialidade não se reproduz apenas em instituições, normas e discursos; ela também organiza formas de ver. O olhar sobre o internacional não é neutro. Ele é historicamente constituído por regimes visuais que atribuem inteligibilidade desigual aos sujeitos, aos territórios e às experiências políticas. Certos corpos aparecem recorrentemente associados à vulnerabilidade, à infância, à insuficiência ou à necessidade de tutela; outros aparecem vinculados à competência, à proteção, ao conhecimento técnico ou à capacidade de intervenção. Antes mesmo que uma política seja formulada conceitualmente, a imagem já distribui posições de poder. Em inúmeras campanhas internacionais, por exemplo, corpos negros africanos continuam sendo visualmente associados à fome, ao abandono, à dependência e à espera, enquanto corpos brancos aparecem como portadores da ação moral, do cuidado e da solução. Essa repetição não é trivial. Ela sedimenta uma gramática visual na qual a desigualdade internacional se naturaliza afetivamente.Crédito:
A colonialidade do olhar permite compreender, portanto, que os regimes visuais sobre o internacional participam ativamente da produção de hierarquias globais. Não se trata apenas de representação; trata-se de um regime político de visibilidade. Certos espaços do mundo continuam sendo apresentados prioritariamente como lugares de crise permanente, de escassez estrutural ou de incapacidade institucional, enquanto outros aparecem como centros legítimos de expertise, racionalidade e resposta. O continente africano, em particular, frequentemente é capturado por esse regime visual do internacional por meio de imagens que reiteram carência, urgência e vulnerabilidade, mesmo quando suas realidades políticas, econômicas e sociais são muito mais complexas e heterogêneas. Essa repetição histórica produz efeitos duradouros: consolida imaginários globais, organiza expectativas políticas e afeta inclusive a forma como sujeitos oriundos desses contextos percebem sua própria inserção em debates internacionais.
A questão torna-se ainda mais complexa quando a própria crítica à colonialidade utiliza imagens produzidas dentro dessa tradição visual. Muitas vezes, para denunciar a persistência de hierarquias coloniais, recorre-se precisamente a imagens que condensam a gramática que se deseja criticar: a mulher branca acolhendo uma criança negra, o corpo africano apresentado como destinatário de cuidado, o gesto humanitário dramatizado em chave moral. Surge então um paradoxo analítico e pedagógico importante: a crítica depende da imagem cuja violência simbólica procura desestabilizar. Isso significa que a recepção crítica nunca está plenamente controlada. Uma imagem pode ser intelectualmente transparente para alguns observadores como denúncia de uma lógica civilizatória persistente, mas emocionalmente dolorosa para outros, especialmente quando ativa experiências e memórias históricas de inferiorização, exotificação ou tutela. O ponto é que o elemento crítico não neutraliza automaticamente a força histórica da imagem. Ao contrário, por vezes revela como essa força continua viva.
Esse ponto é fundamental porque mostra que a colonialidade do olhar não é apenas um problema externo ao debate acadêmico; ela também atravessa o próprio ato pedagógico. Quando uma imagem crítica produz desconforto, isso não necessariamente indica fracasso analítico, mas revela precisamente a permanência das estruturas que estão sendo discutidas. A sala de aula torna-se, então, espaço onde a teoria se manifesta de forma performativa: a colonialidade não está apenas no objeto de estudo, mas emerge na própria recepção do objeto e nas relações de poder da sala de aula. Isso exige do professor, e da professora, uma mediação particularmente cuidadosa, capaz de explicitar que o objetivo não é reafirmar a hierarquia visual, mas desnaturalizá-la. A dificuldade reside em que imagens carregam historicidades que antecedem sua explicação. O olhar reage antes da teoria.
A passagem da missão civilizatória para o humanitarismo, da tutela colonial para a cooperação técnica, ou da superioridade imperial para a autoridade estatística, não significa superação da colonialidade, mas sua mutação histórica. As hierarquias persistem porque continuam distribuindo legitimidades de fala, capacidades de ação e lugares de enunciação. A colonialidade do olhar ajuda precisamente a compreender esse nível mais profundo em que a política internacional opera: aquele em que imagens, afetos, técnicas e moralidades se entrelaçam para produzir um mundo onde certos sujeitos ainda aparecem como naturalmente autorizados a definir problemas, enquanto outros continuam excessivamente visíveis apenas como problema a ser resolvido.
Por isso, enfrentar essa colonialidade no ensino não significa apenas incluir novos autores ou ampliar referências geográficas, mas interrogar os próprios mecanismos pelos quais certos conhecimentos foram historicamente convertidos em norma disciplinar. Trata-se de deslocar a pedagogia de uma simples transmissão de cânones para uma prática crítica de reabertura do campo visual do conhecimento, capaz de tornar visíveis outras experiências de mundo, outras linguagens políticas e outras formas de elaboração conceitual do internacional. Nesse movimento, o ato pedagógico deixa de ser apenas reprodução e torna-se também intervenção sobre os modos de ver que sustentam as hierarquias globais.
Existem imagens que pretendem denunciar hierarquias de poder, mas que, ao circular, podem também reativá-las. Em sala de aula, essa contradição aparece com nitidez: uma imagem pensada como crítica pode ser recebida como a repetição da violência que denuncia.
Mesmo quando a intenção é a crítica e a problematização do conhecimento, a imagem impacta antes mesmo de ser decodificada teoricamente. Esse processo pode ativar imediatamente experiencias acumuladas de representação desigual, paternalismo, exotificação. Muitas vezes, materiais críticos produzem exatamente esse atrito porque expõem estruturas que estão operando.
A missão civilizadora constituiu um dos discursos fundamentais mais persistentes da construção do mundo moderno. Desde o século XIX, a expansão imperial europeia foi legitimada por uma linguagem, segundo a qual alguns povos teriam superioridade moral, política e racional, que lhes concederia o direito – e o dever – de conduzir outros povos, atrasados, ao progresso, modernidade e civilização. Essa gramática não operava apenas como justificativa ideológica da ocupação territorial ou da exploração econômica; ela organizava profundamente a própria maneira de compreender quem poderia governar, quem detinha capacidade política legítima e quem aparecia como sujeito incompleto e inferior no cenário global. A colonialidade, nesse sentido, não se limita ao domínio formal dos impérios, mas estruturou classificações duradouras sobre humanidade, racionalidade e autoridade. Ainda que o léxico colonial tenha perdido legitimidade ao longo do século XX, especialmente após a universalização formal da soberania estatal e os processos de decolonização, suas estruturas não desapareceram. Elas foram rearticuladas em novas linguagens, mais compatíveis com a moralidade política contemporânea, particularmente nos campos do humanitarismo, da cooperação internacional, das políticas de desenvolvimento e da filantropia global.
Hoje, dificilmente se enuncia de forma aberta a ideia de civilizar povos considerados inferiores. Entretanto, a lógica segundo a qual alguns atores internacionais aparecem como portadores legítimos de solução, enquanto outros são representados prioritariamente por sua vulnerabilidade, continua operando de forma sofisticada. O discurso humanitário contemporâneo constitui uma das expressões mais evidentes dessa transformação. A linguagem não se organiza em torno da superioridade civilizacional explícita, mas em torno da urgência moral, da responsabilidade internacional, do dever de ajudar. . Campanhas humanitárias, programas de desenvolvimento e narrativas filantrópicas frequentemente mobilizam imagens de sofrimento extremo: crianças subnutridas, corpos deslocados, populações em situação de desastre, territórios marcados por ruína e carência. Essas imagens produzem forte mobilização emocional e cumprem função política decisiva: sensibilizam públicos, legitimam transferências de recursos, organizam consensos e justificam intervenções. No entanto, também produzem uma distribuição desigual de lugares morais e políticos, em que determinados sujeitos aparecem como aqueles que agem, protegem, financiam, decidem e salvam, enquanto outros aparecem como destinatários da ação, corpos sobre os quais recai o gesto internacional de cuidado.
É nesse ponto que a noção de colonialidade do olhar se torna particularmente fecunda para pensar as Relações Internacionais contemporâneas. A colonialidade não se reproduz apenas em instituições, normas e discursos; ela também organiza formas de ver. O olhar sobre o internacional não é neutro. Ele é historicamente constituído por regimes visuais que atribuem inteligibilidade desigual aos sujeitos, aos territórios e às experiências políticas. Certos corpos aparecem recorrentemente associados à vulnerabilidade, à infância, à insuficiência ou à necessidade de tutela; outros aparecem vinculados à competência, à proteção, ao conhecimento técnico ou à capacidade de intervenção. Antes mesmo que uma política seja formulada conceitualmente, a imagem já distribui posições de poder. Em inúmeras campanhas internacionais, por exemplo, corpos negros africanos continuam sendo visualmente associados à fome, ao abandono, à dependência e à espera, enquanto corpos brancos aparecem como portadores da ação moral, do cuidado e da solução. Essa repetição não é trivial. Ela sedimenta uma gramática visual na qual a desigualdade internacional se naturaliza afetivamente.Crédito:
A colonialidade do olhar permite compreender, portanto, que os regimes visuais sobre o internacional participam ativamente da produção de hierarquias globais. Não se trata apenas de representação; trata-se de um regime político de visibilidade. Certos espaços do mundo continuam sendo apresentados prioritariamente como lugares de crise permanente, de escassez estrutural ou de incapacidade institucional, enquanto outros aparecem como centros legítimos de expertise, racionalidade e resposta. O continente africano, em particular, frequentemente é capturado por esse regime visual do internacional por meio de imagens que reiteram carência, urgência e vulnerabilidade, mesmo quando suas realidades políticas, econômicas e sociais são muito mais complexas e heterogêneas. Essa repetição histórica produz efeitos duradouros: consolida imaginários globais, organiza expectativas políticas e afeta inclusive a forma como sujeitos oriundos desses contextos percebem sua própria inserção em debates internacionais.
A questão torna-se ainda mais complexa quando a própria crítica à colonialidade utiliza imagens produzidas dentro dessa tradição visual. Muitas vezes, para denunciar a persistência de hierarquias coloniais, recorre-se precisamente a imagens que condensam a gramática que se deseja criticar: a mulher branca acolhendo uma criança negra, o corpo africano apresentado como destinatário de cuidado, o gesto humanitário dramatizado em chave moral. Surge então um paradoxo analítico e pedagógico importante: a crítica depende da imagem cuja violência simbólica procura desestabilizar. Isso significa que a recepção crítica nunca está plenamente controlada. Uma imagem pode ser intelectualmente transparente para alguns observadores como denúncia de uma lógica civilizatória persistente, mas emocionalmente dolorosa para outros, especialmente quando ativa experiências e memórias históricas de inferiorização, exotificação ou tutela. O ponto é que o elemento crítico não neutraliza automaticamente a força histórica da imagem. Ao contrário, por vezes revela como essa força continua viva.
Esse ponto é fundamental porque mostra que a colonialidade do olhar não é apenas um problema externo ao debate acadêmico; ela também atravessa o próprio ato pedagógico. Quando uma imagem crítica produz desconforto, isso não necessariamente indica fracasso analítico, mas revela precisamente a permanência das estruturas que estão sendo discutidas. A sala de aula torna-se, então, espaço onde a teoria se manifesta de forma performativa: a colonialidade não está apenas no objeto de estudo, mas emerge na própria recepção do objeto e nas relações de poder da sala de aula. Isso exige do professor, e da professora, uma mediação particularmente cuidadosa, capaz de explicitar que o objetivo não é reafirmar a hierarquia visual, mas desnaturalizá-la. A dificuldade reside em que imagens carregam historicidades que antecedem sua explicação. O olhar reage antes da teoria.
A passagem da missão civilizatória para o humanitarismo, da tutela colonial para a cooperação técnica, ou da superioridade imperial para a autoridade estatística, não significa superação da colonialidade, mas sua mutação histórica. As hierarquias persistem porque continuam distribuindo legitimidades de fala, capacidades de ação e lugares de enunciação. A colonialidade do olhar ajuda precisamente a compreender esse nível mais profundo em que a política internacional opera: aquele em que imagens, afetos, técnicas e moralidades se entrelaçam para produzir um mundo onde certos sujeitos ainda aparecem como naturalmente autorizados a definir problemas, enquanto outros continuam excessivamente visíveis apenas como problema a ser resolvido.
Por isso, enfrentar essa colonialidade no ensino não significa apenas incluir novos autores ou ampliar referências geográficas, mas interrogar os próprios mecanismos pelos quais certos conhecimentos foram historicamente convertidos em norma disciplinar. Trata-se de deslocar a pedagogia de uma simples transmissão de cânones para uma prática crítica de reabertura do campo visual do conhecimento, capaz de tornar visíveis outras experiências de mundo, outras linguagens políticas e outras formas de elaboração conceitual do internacional. Nesse movimento, o ato pedagógico deixa de ser apenas reprodução e torna-se também intervenção sobre os modos de ver que sustentam as hierarquias globais.
Manual do barraco: o plenário virou ringue
No meu Brasil brasileiro havia quem achasse que o Congresso Nacional ainda mantinha algum resquício de compostura. Na recente cena envolvendo o deputado Lindbergh Farias, o deputado Alfredo Gaspar além da senadora Soraya Thronicke, resolveram atualizar o diagnóstico: estamos na fase do “vale-tudo político com plateia pagante”.
O episódio foi digno de uma briga do Maguila. Foi aula prática de como transformar um simples debate político em espetáculo de confronto — com direito a acusações pesadas, dedo em riste e, segundo relatos, até uma espécie de “coach de briga” nos bastidores da cena. Sobrou poeira branca para todos os paletós e ouvidos. Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!
Sim, cidadãos: não basta mais discutir. Agora temos direção de cena.
A troca de acusações entre Lindbergh e Gaspar não surgiu do nada. Ela persegue um padrão cada vez mais comum: tensão acumulada, provocações estudadas, ambiente polarizado e ação calculada para gerar impacto na nação fortemente dividida.
É aí que entra o elemento interessante da história: a atuação da elegante senadora Soraya Thronicke. A Érica Hilton lamentou a ausência e não se perdoa pelo erro.
A parlamentar não foi só uma participante direta do embate físico ou verbal principal, mas alguém que, segundo interpretações políticas correntes, atua estimulando e orientando o enfrentamento. Traduzindo para quem prefere linguagem simples: menos bombeira, mais estrategista de incêndio. Uma treinadora ou manager política. E por quê?
Porque, na política moderna — essa que aprendeu mais com redes sociais do que com livros de teoria — visibilidade é dólar, moeda forte. E conflito, meu caro leitor, é o combustível mais barato que existe.
Hoje, muitos parlamentares não estão mais falando apenas para os colegas no plenário. Estão falando para cortes de vídeo, para viralização, para engajamento digital e uso em vários momentos da nossa paupérrima vida política. É tudo para o show!
Um discurso técnico sobre reforma tributária dá 3 mil visualizações.
Uma briga com troca de acusações graves, bate na casa dos milhões. É duro, mas é real. Dentro desse cenário, estimular o embate (dar corda) não é erro, é estratégia. A briga de hoje, sairá nos programas políticos de outubro e com outra purpurinada roupagem.
A senadora Soraya, nesse contexto, aparece como uma espécie de articuladora de narrativa. Ao incentivar o confronto, ajuda a construir um palco onde aliados ganham protagonismo e adversários são expostos.
É política? É. Mas é também marketing. Vai colar? Esperemos.
Agora vem a parte que pouca gente conecta: esse tipo de comportamento não fica restrito ao vídeo viral. Ele afeta a percepção institucional do país.
Vamos recorrer aos velhos mestres. O enorme e genial Carlos Lacerda, excelente faixa-preta de jiu-jitsu, já alertava que estabilidade institucional é um dos pilares da confiança econômica. Quando o ambiente político parece um ringue, a mensagem que se passa é simples: há ruído demais e previsibilidade de menos. E dinheiro, como sabemos, juntamente com empregos, não gostam de barulho.
Roberto Campos completaria: investidores olham para esse tipo de cena e pensam: “Se nem os representantes conseguem dialogar sem se acusar de crimes, como confiar nas regras do jogo?” Resultado: cautela, fuga de capital, desemprego, crescimento mais lento. Os dois lados fazendo marketing e criando o caos. Interessa a alguém?
O desiludido eleitor assiste, boquiaberto, — muitas vezes sem perceber que aquele “entretenimento político” tem impacto direto no preço do supermercado.
Outro ponto importante: a política brasileira apertou o botão do modo de campanha contínua. Não existe mais “tempo de governar” e “tempo de disputar”. Tudo virou palanque para o consumo pelo celular. Nesse ambiente, o conflito não é exceção. É ferramenta.
Lindbergh e Gaspar, cada um à sua maneira, representam polos que se alimentam desse enfrentamento. E quando há incentivo externo — seja explícito ou implícito — o resultado é previsível: escalada. E escalada, em política, raramente termina em diálogo. Termina em mais conflito.
O brasileirinho, desorientado, fica perplexo, no meio do ringue e depara-se com a pergunta que o incomoda, há tempos: qual o meu papel de eleitor nisso tudo? Porque há uma corresponsabilidade silenciosa.
Quando o público recompensa o espetáculo — compartilhando, comentando, escolhendo seus “Galinhos Campeões” — ele reforça o modelo. É como a audiência de um programa de briga: quanto mais gente assiste, mais episódios são produzidos. E aí chegamos ao ponto crítico: a substituição do debate pela performance.
Não importa mais quem tem o melhor argumento. Importa quem rende o melhor corte de vídeo.
Enquanto o mundo discute produtividade, inovação e crescimento, nós discutimos quem chamou quem de quê. É quase uma especialização nacional. É o país do grito alto e resultado baixo.
O episódio entre Lindbergh, Gaspar e Soraya não é isolado. É um sintoma. Sintoma de um sistema que troca, sistematicamente, argumento por acusação, diálogo por performance e política por espetáculo. E enquanto isso continuar funcionando — eleitoralmente e digitalmente — continuará acontecendo.
No fim, fica a imagem que resume tudo: O plenário virou Coliseu. Os parlamentares, gladiadores. E o cansado eleitor virando leão.
Só há um detalhe incômodo: é a plateia de eleitores desanimados que paga o ingresso e ainda financia o espetáculo.
O episódio foi digno de uma briga do Maguila. Foi aula prática de como transformar um simples debate político em espetáculo de confronto — com direito a acusações pesadas, dedo em riste e, segundo relatos, até uma espécie de “coach de briga” nos bastidores da cena. Sobrou poeira branca para todos os paletós e ouvidos. Chegamos até aos gritos de prostíbulos e bares: Por-raaaaaaaaa-da!
Sim, cidadãos: não basta mais discutir. Agora temos direção de cena.
A troca de acusações entre Lindbergh e Gaspar não surgiu do nada. Ela persegue um padrão cada vez mais comum: tensão acumulada, provocações estudadas, ambiente polarizado e ação calculada para gerar impacto na nação fortemente dividida.
É aí que entra o elemento interessante da história: a atuação da elegante senadora Soraya Thronicke. A Érica Hilton lamentou a ausência e não se perdoa pelo erro.
A parlamentar não foi só uma participante direta do embate físico ou verbal principal, mas alguém que, segundo interpretações políticas correntes, atua estimulando e orientando o enfrentamento. Traduzindo para quem prefere linguagem simples: menos bombeira, mais estrategista de incêndio. Uma treinadora ou manager política. E por quê?
Porque, na política moderna — essa que aprendeu mais com redes sociais do que com livros de teoria — visibilidade é dólar, moeda forte. E conflito, meu caro leitor, é o combustível mais barato que existe.
Hoje, muitos parlamentares não estão mais falando apenas para os colegas no plenário. Estão falando para cortes de vídeo, para viralização, para engajamento digital e uso em vários momentos da nossa paupérrima vida política. É tudo para o show!
Um discurso técnico sobre reforma tributária dá 3 mil visualizações.
Uma briga com troca de acusações graves, bate na casa dos milhões. É duro, mas é real. Dentro desse cenário, estimular o embate (dar corda) não é erro, é estratégia. A briga de hoje, sairá nos programas políticos de outubro e com outra purpurinada roupagem.
A senadora Soraya, nesse contexto, aparece como uma espécie de articuladora de narrativa. Ao incentivar o confronto, ajuda a construir um palco onde aliados ganham protagonismo e adversários são expostos.
É política? É. Mas é também marketing. Vai colar? Esperemos.
Agora vem a parte que pouca gente conecta: esse tipo de comportamento não fica restrito ao vídeo viral. Ele afeta a percepção institucional do país.
Vamos recorrer aos velhos mestres. O enorme e genial Carlos Lacerda, excelente faixa-preta de jiu-jitsu, já alertava que estabilidade institucional é um dos pilares da confiança econômica. Quando o ambiente político parece um ringue, a mensagem que se passa é simples: há ruído demais e previsibilidade de menos. E dinheiro, como sabemos, juntamente com empregos, não gostam de barulho.
Roberto Campos completaria: investidores olham para esse tipo de cena e pensam: “Se nem os representantes conseguem dialogar sem se acusar de crimes, como confiar nas regras do jogo?” Resultado: cautela, fuga de capital, desemprego, crescimento mais lento. Os dois lados fazendo marketing e criando o caos. Interessa a alguém?
O desiludido eleitor assiste, boquiaberto, — muitas vezes sem perceber que aquele “entretenimento político” tem impacto direto no preço do supermercado.
Outro ponto importante: a política brasileira apertou o botão do modo de campanha contínua. Não existe mais “tempo de governar” e “tempo de disputar”. Tudo virou palanque para o consumo pelo celular. Nesse ambiente, o conflito não é exceção. É ferramenta.
Lindbergh e Gaspar, cada um à sua maneira, representam polos que se alimentam desse enfrentamento. E quando há incentivo externo — seja explícito ou implícito — o resultado é previsível: escalada. E escalada, em política, raramente termina em diálogo. Termina em mais conflito.
O brasileirinho, desorientado, fica perplexo, no meio do ringue e depara-se com a pergunta que o incomoda, há tempos: qual o meu papel de eleitor nisso tudo? Porque há uma corresponsabilidade silenciosa.
Quando o público recompensa o espetáculo — compartilhando, comentando, escolhendo seus “Galinhos Campeões” — ele reforça o modelo. É como a audiência de um programa de briga: quanto mais gente assiste, mais episódios são produzidos. E aí chegamos ao ponto crítico: a substituição do debate pela performance.
Não importa mais quem tem o melhor argumento. Importa quem rende o melhor corte de vídeo.
Enquanto o mundo discute produtividade, inovação e crescimento, nós discutimos quem chamou quem de quê. É quase uma especialização nacional. É o país do grito alto e resultado baixo.
O episódio entre Lindbergh, Gaspar e Soraya não é isolado. É um sintoma. Sintoma de um sistema que troca, sistematicamente, argumento por acusação, diálogo por performance e política por espetáculo. E enquanto isso continuar funcionando — eleitoralmente e digitalmente — continuará acontecendo.
No fim, fica a imagem que resume tudo: O plenário virou Coliseu. Os parlamentares, gladiadores. E o cansado eleitor virando leão.
Só há um detalhe incômodo: é a plateia de eleitores desanimados que paga o ingresso e ainda financia o espetáculo.
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