O Partido dos Trabalhadores, desde os anos 1990, ocupou a liderança isolada na preferência dos eleitores. É o que mostram os levantamentos sistemáticos feitos pelo Datafolha desde a redemocratização. O PT não perdeu o posto nem no auge do Mensalão (2005) ou da Lava Jato (2015/2016). A última pesquisa do instituto, publicada nos últimos dias de 2025, mantinha-o como favorito por 24%, enquanto 12% apontavam o Partido Liberal (PL), associado ao bolsonarismo.
Mas a pesquisa AtlasIntel/Arko de março/abril de 2026 – divulgada há poucos dias – é o primeiro registro metodológico de alto alcance que não mostra o PT no posto que sempre ocupou. O PL agora aparece numericamente à frente: 27% contra 25,4%.
A imprensa tratou isso como empate técnico – que é. Porém, analiticamente, o fato de o PT não estar mais sozinho no topo é um acontecimento político que não pode ser subestimado, ainda mais considerando que sua pontuação, três meses antes, era o dobro do rival.
Enquanto a preferência pelo PT parece ter batido em um teto histórico (oscilando entre 24% e 26%), o PL apresenta uma curva de crescimento, sugerindo que a virada de 2026 pode não ser um ponto fora da curva, mas o início de uma nova era.
O PL fez 516 prefeituras nas eleições de 2024 – atrás do PSD, do MDB, do PP e do União, mas na frente do Republicanos e de todos os partidos de centro-esquerda. Elegeu quase 5 mil vereadores, atrás apenas de MDB, PP, PSD e União.
As eleições de 2022 deram ao PL o maior número de assentos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Com a janela que se fechou há poucos dias, cresceu ainda mais, sendo o que mais ganhou deputados.
Em pesquisa que estou desenvolvendo, o PL demostra ter disciplina interna consistente – embora não tão consistente quando a do PT.
O MDB é o partido com mais filiados no Brasil – mais de 2 milhões, seguido pelo PT, com 1,6 milhão. O PL, depois da janela, passou a ter 930 mil filiados.
Esses números indicam que o PL não é a maior sigla do país. Mas é um partido sólido e em ascensão, que se deve à profunda transformação pela qual passa desde a filiação de Jair Bolsonaro em 2021.
Jair Bolsonaro iniciou seu governo sem utilizar nenhuma das modalidades que um chefe de governo usa nos sistemas presidencialistas. Ele defendia a “nova política”, significando não negociação com o parlamento. Em vários domingos ainda em 2020 Bolsonaro passou a participar de manifestações pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, e até mesmo intervenção militar e a volta do Ato Institucional nº 5, que cassou mandatos em 1964.
Bolsonaro procurou manter diálogo direito com seu eleitorado, ou ao menos com a parcela mais radicalizada e fiel dele. A partir do meio de 2020, porém, houve mudanças importantes. As negociações com os partidos se tornaram necessárias depois dos diversos pedidos de impeachment que foram apresentados com fundamentação nas iniciativas por ruptura constitucional, e no comportamento de Bolsonaro em relação à pandemia.
Em junho de 2020, o então presidente, contrariando seu discurso de redução da máquina pública, recriou o Ministério das Comunicações e o entregou a deputado do PSD. Outros cargos na administração direta e em estatais foram entregues ao PP, ao PL e ao Republicanos. Esse processo seguiu até culminar com sua filiação ao PL no final de 2021, o que foi lido como aliança com a então tão criticada política tradicional.
O Partido Liberal, em sua história, caracteriza-se como uma agremiação fisiológica tradicional. Trata-se do antigo PR, resultado da fusão entre PL e Prona – duas legendas surgidas na redemocratização, cujos quadros eram em boa parte oriundos do PFL e do PDS, herdeiros da Arena. Herdou o enraizamento regional da direita da redemocratização, consolidando presença no interior conservador do país. Tinha, na origem, um entrosamento natural com a família de “partidos do interior” (atuais MDB, PSD, União), na expressão de André Singer.
O partido do interior representa o interior rural e cidades de pequeno porte, onde o voto é frequentemente mediado por relações de clientelismo e dependência de verbas federais. São formações com nítido viés governista, funcionando como o “fiel da balança” no Congresso. O PL, para o autor, é “tradicional componente do Centrão” – e, de fato, esteve na base de todos os governos, exceto do atual.
A filiação de Bolsonaro não significou, entretanto, apenas o bolsonarismo se enquadrando na política tradicional. Significou também a moldagem da política tradicional ao campo emergente de extrema-direita. Desde então, o PL transformou sua natureza e tornou-se a maior força de direita do país.
O PL não só foi o partido que mais cresceu como foi o partido com maior renovação na Câmara nas últimas eleições – ou seja, o maior número de deputados de primeiro mandato. Essa nova safra de parlamentares de direita, segundo os cientistas políticos César Zucco e Thimoty Power – que entrevistaram os deputados –, atua de forma deliberadamente provocativa e antissistema, diferindo da direita anterior, que operava sob a sombra do regime militar.
É uma direita desinibida e orgulhosa de si, ao contrário daquela “direita envergonhada” que se escondia sob o regime militar, e que esteve nas origens do Prona e do antigo PL. O PL atual, que incorpora novíssimos quadros, não busca a sombra. Ele busca o palanque e a mobilização digital.
O PL foi também o partido que mais elegeu deputados ligados ao policialismo/militarismo e pastores, pertencentes a campos políticos também emergentes e muito marcados no Brasil de hoje. Não é surpresa que tenha sido o partido que mais conferiu votos contrários ao governo Lula 3 nessa legislatura.
Com as características atuais – 900 mil filiados, popularidade em ascensão, quebrando o domínio histórico do PT no quesito –, o PL caminha para tornar-se um partido de massas.
Historicamente, partidos de massa estiveram ligados à esquerda, surgindo no final do século XIX como forma de organização do movimento operário e da social-democracia. Diferentemente dos partidos de quadros, baseados em notáveis e influência estatal, esses partidos estruturam-se “de baixo para cima”, apoiando-se na militância ativa e em contribuições disseminadas. Na formulação clássica de Maurice Duverger, não se tratam apenas de máquinas eleitorais, mas de organizações com forte enraizamento social, capazes de mobilizar, formar e sustentar seus membros para além dos períodos eleitorais.
Também no Brasil, a tradição dos partidos de massa foi historicamente consolidada pela esquerda. O PTB de Getúlio Vargas e Jango mobilizou as massas urbanas através da estrutura oficial dos sindicatos, enquanto o PCB introduziu a tecnologia das células e da disciplina ideológica rígida. O PT é o exemplo mais resiliente e estruturado, surgindo na redemocratização com uma base de militância ativa, núcleos de bairro e forte ligação com movimentos sindicais e sociais, mimetizando a função de “instituição total” que acompanha o militante para além do período eleitoral, estrutura que lhe permitiu cinco mandatos presidenciais.
Na Europa, os primeiros partidos de massa de direita surgiram como uma reação defensiva à expansão do sufrágio e ao avanço socialista no final do século XIX, destacando-se as agremiações confessionais, como o Zentrum alemão, e o conservadorismo reformista britânico, que organizaram bases populares em torno da fé e da identidade nacional. Foi após a Primeira Guerra Mundial que essa “tecnologia de massas” atingiu sua face mais agressiva com os movimentos radicais, como o fascismo e o nazismo; estas legendas subverteram a vocação originalmente esquerdista do modelo ao mimetizar sua estética e capilaridade organizacional para promover um nacionalismo totalitário.
Assim, a direita migrou do modelo de elites para o de massas em duas etapas: primeiro para preservar as instituições tradicionais (Igreja e Coroa) e, posteriormente, para mobilizar multidões em uma ofensiva radical contra o próprio sistema liberal.
No Brasil, os partidos de direita, como a UDN e a Arena, foram historicamente partidos de quadros, operando como agremiações de elite que dependiam de lideranças influentes e do controle do aparato estatal, em vez de uma base militante orgânica. A UDN, embora mobilizasse setores da classe média urbana com um discurso moralista e antissistema, nunca estruturou uma organização de amplas bases capilarizadas. Já a Arena, como braço civil da ditadura militar, era o exemplo máximo do “partido de notáveis” regionalizados, cuja força residia no acesso ao orçamento e na manutenção de oligarquias locais – o embrião do “partido do interior”.
PL seria o primeiro partido de massas de direita da história do Brasil – tendo como principal líder uma figura de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Ao fazê-lo, o partido alinha-se a fenômenos globais contemporâneos, como o Fidesz (Hungria) e o Rassemblement National (França), que se consolidaram como verdadeiras máquinas de guerra cultural dotadas de vasta capilaridade popular; máquinas de mobilização popular permanente. Não se trata de uma nova UDN, trata-se de uma força maior e mais enraizada.
O PSD é maior em prefeituras, o PL é maior em popularidade e em congressistas. Eles dividem o trabalho. O PL tem o voto de opinião e o eleitor fidelizado, o PSD tem a máquina, as prefeituras. O PL aposta na sucessão dinástica com a candidatura de Flávio Bolsonaro para manter acesa a chama do bolsonarismo em grande escala. O PSD tem tentado vender a ideia de direita de resultados. Assim, o partido de Kassab oscila: busca autonomia do bolsonarismo, mas lançou como candidato Ronaldo Caiado que, como primeiro ato, promete anistiar Jair Bolsonaro, tentando capturar a alma do PL enquanto oferece o corpo da máquina do PSD.
O xadrez das estratégias eleitorais, porém, é secundário. O avanço da extrema-direita e o recuo da esquerda são fenômenos generalizados no mundo capitalista e o Brasil não escapa. A AtlasIntel/Arko mostra que a vantagem do PT só é expressiva entre eleitores com mais de 60 anos, enquanto o PL domina as faixas jovens e economicamente ativas. Quadro semelhante repete-se sistematicamente nos levantamentos estatísticos com o eleitorado. E o problema não é de comunicação. Décadas de destruição da classe trabalhadora organizada, financeirização das políticas públicas e o avassalador imaginário neoliberal (progressista ou conservador) cobram seu preço.
sábado, 11 de abril de 2026
A própria liberdade está em jogo nas eleições da Hungria
Tenho idade suficiente para lembrar da revolta húngara contra o comunismo soviético em 1956 e sua subsequente repressão brutal. Quão deprimente é, então, encontrar o governo da Hungria apoiando ferozmente o ataque de Vladimir Putin à Ucrânia e o assalto do governo Trump à União Europeia.
A Hungria é um país pequeno. Mas Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, não é um homem de pouca influência. Para muitos dos chamados "conservadores nacionais", notadamente nos Estados Unidos, ele define uma forma bem-sucedida e admirável de política de direita. Isso até usa o disfarce de servir aos "valores tradicionais". Mas a realidade é o que o ex-ministro Bálint Magyar chama de "Estado máfia".
Isso torna as eleições parlamentares de domingo muito mais importantes do que o tamanho modesto da Hungria sugeriria. A derrota do homem que abraçou a noção de "democracia iliberal" pode significar muito para a sobrevivência da ameaçada versão "liberal". É por isso que o déspota da Rússia, Vladimir Putin, e o aspirante a déspota da América, Donald Trump, estão apoiando Orbán. Este último está até enviando seu vice-presidente, J.D. Vance, à Hungria para enfatizar seu respaldo.
Johan Norberg, um conhecido "liberal clássico", escreveu uma análise devastadora da tomada do Estado húngaro por Orbán para o Cato Institute. O instituto, para seu crédito, acredita em mercados livres e no Estado de direito. Ambos são anátema para os novos autoritários nos EUA (e em outros lugares), que parecem acreditar, em vez disso, em autoritarismo social e despotismo arbitrário.
A descrição de Norberg sobre o método de Orbán para acumular poder é reveladora e assustadora. O líder húngaro desmantelou o Estado de direito pouco a pouco, usando sua maioria para transformar a constituição. Entre outras coisas, isso lhe permitiu preencher o Tribunal Constitucional com aliados leais e simultaneamente reduzir seus poderes.
Mais importante ainda, um novo Escritório Judicial Nacional foi criado "para contratar, demitir, promover e rebaixar todos os juízes da Hungria". Nem é preciso dizer que Orbán também colocou aliados leais no comando de todas as instituições destinadas a fiscalizar o exercício arbitrário do poder pelo governo.
O governo também mudou a lei eleitoral para se favorecer de várias maneiras, incluindo dar 1 milhão de votos a húngaros étnicos que não vivem no país. Atacou a mídia livre, entre outras coisas, assumindo controle político sobre a mídia estatal e organizando o controle por aliados sobre empresas de mídia nominalmente independentes.
Isso é parte de um sistema maior fundado no favorecimento das atividades de empresários leais ao regime e no confisco de propriedade daqueles que não são. Orbán disse uma vez que estava procurando "oito a dez" capitalistas para administrar a economia. Notável e crucialmente, acrescenta Norberg, todo esse sistema foi "turbinado" com dinheiro da UE: "nos anos 2010, os fundos anuais da UE para a Hungria totalizaram até 4% do PIB". Em suma, a UE subsidiou sua própria subversão.
Além disso, argumenta Norberg, o governo assumiu elementos centrais da sociedade civil, notadamente escolas e ensino superior. Notoriamente, forçou a Universidade Centro-Europeia fundada por George Soros a sair do país. Aprovou restrições aos direitos de pessoas LGBT+. Limitou as atividades de ONGs estrangeiras. Ao mesmo tempo, criou "milhares de ONGs organizadas pelo governo" para conduzir campanhas de propaganda pró-governo.
Qual o resultado disso? Em uma medida de liberdade humana do Cato Institute e do Fraser Institute, a classificação da Hungria caiu do 31º lugar em 2010 para o 67º em 2023 —o último entre os países da UE. O país também caiu na maioria dos indicadores de governança do Banco Mundial, notadamente "voz e responsabilização", "qualidade regulatória", "Estado de direito" e "controle da corrupção".
No Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, a classificação da Hungria é agora a mais baixa da UE. Não menos importante, sua classificação pelo V-Dem em várias medidas de democracia caiu dramaticamente.
Despotismo arbitrário turbinado pela corrupção —esse sistema soa familiar? Certamente deveria, já que parece ser precisamente o que o governo Trump está tentando implementar. É fascinante que isso seja o que "conservadorismo" parece significar para muitos que usam esse rótulo hoje em dia. No entanto, na Hungria, como nos EUA (mas diferentemente da Rússia), há uma possível brecha na armadura do autocrata: as eleições.
É possível derrotar um regime que está há 16 anos no poder e manipulou tudo o que pôde contra a chance de uma vitória da oposição? Parece, pelas pesquisas, que a oposição pode ter uma margem tão grande a seu favor que mesmo este governo será incapaz de reverter o voto. A oposição tem três coisas a seu favor: em Péter Magyar, finalmente tem um líder eficaz; após 16 anos, muitos estão fartos de Orbán; e a UE impõe alguns limites ao que o regime pode esperar conseguir. Devemos esperar que isso seja suficiente para mudar o governo democraticamente.
No entanto, duas coisas devem ser lembradas.
Primeiro, uma ditadura plebiscitária do tipo que Orbán tentou criar não é uma democracia propriamente dita (isto é, uma "democracia liberal"), porque está sem os direitos civis, políticos e legais que protegem os eleitores da trapaça daqueles que pretendem manter o poder indefinidamente. Todos esses devem ser restaurados.
Segundo um Péter Magyar vitorioso enfrentaria intensa oposição de todos aqueles que se beneficiaram do chamado Estado máfia —praticamente todos em posição de poder após tanto tempo. Governar contra esses incumbentes será difícil. Mas substituí-los pode ser ainda mais difícil. Uma vitória da oposição seria o fim da primeira batalha em uma longa guerra.
A Hungria é um país pequeno. Mas Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, não é um homem de pouca influência. Para muitos dos chamados "conservadores nacionais", notadamente nos Estados Unidos, ele define uma forma bem-sucedida e admirável de política de direita. Isso até usa o disfarce de servir aos "valores tradicionais". Mas a realidade é o que o ex-ministro Bálint Magyar chama de "Estado máfia".
Johan Norberg, um conhecido "liberal clássico", escreveu uma análise devastadora da tomada do Estado húngaro por Orbán para o Cato Institute. O instituto, para seu crédito, acredita em mercados livres e no Estado de direito. Ambos são anátema para os novos autoritários nos EUA (e em outros lugares), que parecem acreditar, em vez disso, em autoritarismo social e despotismo arbitrário.
A descrição de Norberg sobre o método de Orbán para acumular poder é reveladora e assustadora. O líder húngaro desmantelou o Estado de direito pouco a pouco, usando sua maioria para transformar a constituição. Entre outras coisas, isso lhe permitiu preencher o Tribunal Constitucional com aliados leais e simultaneamente reduzir seus poderes.
Mais importante ainda, um novo Escritório Judicial Nacional foi criado "para contratar, demitir, promover e rebaixar todos os juízes da Hungria". Nem é preciso dizer que Orbán também colocou aliados leais no comando de todas as instituições destinadas a fiscalizar o exercício arbitrário do poder pelo governo.
O governo também mudou a lei eleitoral para se favorecer de várias maneiras, incluindo dar 1 milhão de votos a húngaros étnicos que não vivem no país. Atacou a mídia livre, entre outras coisas, assumindo controle político sobre a mídia estatal e organizando o controle por aliados sobre empresas de mídia nominalmente independentes.
Isso é parte de um sistema maior fundado no favorecimento das atividades de empresários leais ao regime e no confisco de propriedade daqueles que não são. Orbán disse uma vez que estava procurando "oito a dez" capitalistas para administrar a economia. Notável e crucialmente, acrescenta Norberg, todo esse sistema foi "turbinado" com dinheiro da UE: "nos anos 2010, os fundos anuais da UE para a Hungria totalizaram até 4% do PIB". Em suma, a UE subsidiou sua própria subversão.
Além disso, argumenta Norberg, o governo assumiu elementos centrais da sociedade civil, notadamente escolas e ensino superior. Notoriamente, forçou a Universidade Centro-Europeia fundada por George Soros a sair do país. Aprovou restrições aos direitos de pessoas LGBT+. Limitou as atividades de ONGs estrangeiras. Ao mesmo tempo, criou "milhares de ONGs organizadas pelo governo" para conduzir campanhas de propaganda pró-governo.
Qual o resultado disso? Em uma medida de liberdade humana do Cato Institute e do Fraser Institute, a classificação da Hungria caiu do 31º lugar em 2010 para o 67º em 2023 —o último entre os países da UE. O país também caiu na maioria dos indicadores de governança do Banco Mundial, notadamente "voz e responsabilização", "qualidade regulatória", "Estado de direito" e "controle da corrupção".
No Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, a classificação da Hungria é agora a mais baixa da UE. Não menos importante, sua classificação pelo V-Dem em várias medidas de democracia caiu dramaticamente.
Despotismo arbitrário turbinado pela corrupção —esse sistema soa familiar? Certamente deveria, já que parece ser precisamente o que o governo Trump está tentando implementar. É fascinante que isso seja o que "conservadorismo" parece significar para muitos que usam esse rótulo hoje em dia. No entanto, na Hungria, como nos EUA (mas diferentemente da Rússia), há uma possível brecha na armadura do autocrata: as eleições.
É possível derrotar um regime que está há 16 anos no poder e manipulou tudo o que pôde contra a chance de uma vitória da oposição? Parece, pelas pesquisas, que a oposição pode ter uma margem tão grande a seu favor que mesmo este governo será incapaz de reverter o voto. A oposição tem três coisas a seu favor: em Péter Magyar, finalmente tem um líder eficaz; após 16 anos, muitos estão fartos de Orbán; e a UE impõe alguns limites ao que o regime pode esperar conseguir. Devemos esperar que isso seja suficiente para mudar o governo democraticamente.
No entanto, duas coisas devem ser lembradas.
Primeiro, uma ditadura plebiscitária do tipo que Orbán tentou criar não é uma democracia propriamente dita (isto é, uma "democracia liberal"), porque está sem os direitos civis, políticos e legais que protegem os eleitores da trapaça daqueles que pretendem manter o poder indefinidamente. Todos esses devem ser restaurados.
Segundo um Péter Magyar vitorioso enfrentaria intensa oposição de todos aqueles que se beneficiaram do chamado Estado máfia —praticamente todos em posição de poder após tanto tempo. Governar contra esses incumbentes será difícil. Mas substituí-los pode ser ainda mais difícil. Uma vitória da oposição seria o fim da primeira batalha em uma longa guerra.
As terras raras e o discurso de soberania
O risco à democracia não é o único problema criado pela existência de um candidato de extrema direita com chances de chegar ao Palácio do Planalto. Ao levar à cena uma agenda para lá de retrógrada, ele manda para o fundo do poço a discussão política, aprisionada entre a entranhada ignorância dos fatos e a diminuta capacidade intelectual, ambas marcas da família golpista e de seu círculo mais próximo.
É o caso da proposta feita por Flávio Bolsonaro de oferecer aos Estados Unidos acesso irrestrito aos minerais críticos e às terras raras brasileiras em troca do apoio do trumpismo à sua candidatura e, por via das dúvidas, à campanha preventiva de descrédito do processo eleitoral que se avizinha, se o incumbente Lula crescer nas pesquisas. O assunto é importante demais para ficar limitado aos termos em que foi posto pelo Bolsonaro-2 e ali mantido pelas críticas que vem recebendo, assentadas em defesa abstrata da soberania nacional.
O Brasil é bem-dotado de terras raras —cerca de 18% das reservas globais— e de alguns minerais críticos, como nióbio, grafite, níquel e lítio, uns e outros indispensáveis à transição energética e à economia digital.
De forma incipiente, eles já são aqui explorados —ou estão em fase de pesquisa— por empresas nacionais, estrangeiras ou associadas entre si. Os investimentos externos vêm do Canadá, do Reino Unido e da China.
Além desta, União Europeia e EUA são o destino das exportações brasileiras de minérios em estado bruto.
Aqui e agora, são pelo menos dois os desafios a merecer debate intenso e informado. O primeiro é como o país quer entrar nessa seara: reforçará sua vocação de grande exportador de commodities valiosas ou deseja integrar de alguma forma cadeias de valor na produção de bens que incorporam os cobiçados minérios? Qualquer dessas escolhas envolverá legislação reguladora, políticas de incentivo e diplomacia econômica.
O segundo desafio é de natureza socioambiental. Parte importante das estratégicas reservas, ao que tudo indica, está na Amazônia —especialmente no Pará, no Amazonas e em Roraima— e, muitas, em unidades de conservação e territórios indígenas. Ambos já vêm sofrendo com a mineração ilegal e o que ela acarreta de degradação ambiental, criminalidade e desorganização dos modos de vida tradicionais e das culturas originárias.
A revelação da importância das terras raras e dos minerais críticos só acrescenta urgência a um problema que vem de muito antes. Quem não se lembra da exploração do ouro de Serra Pelada, cuja catástrofe Sebastião Salgado registrou em fotos notáveis?
Dadas as muitas utilidades dos minerais estratégicos, fica difícil imaginar que uma posição puramente preservacionista possa prevalecer. Insustentável, também, é a situação atual, que favorece a ilegalidade e o crime. Entre uma e outra, há diferentes soluções possíveis que reduzem danos ambientais e dão às comunidades indígenas participação nas decisões e nos frutos da exploração econômica. Mas os remédios não nascem por geração espontânea; demandam ciência aplicada, intenção política e compromisso democrático.
Em questão tão importante, a extrema direita não pode ditar a pauta, muito menos os termos da discussão.
É o caso da proposta feita por Flávio Bolsonaro de oferecer aos Estados Unidos acesso irrestrito aos minerais críticos e às terras raras brasileiras em troca do apoio do trumpismo à sua candidatura e, por via das dúvidas, à campanha preventiva de descrédito do processo eleitoral que se avizinha, se o incumbente Lula crescer nas pesquisas. O assunto é importante demais para ficar limitado aos termos em que foi posto pelo Bolsonaro-2 e ali mantido pelas críticas que vem recebendo, assentadas em defesa abstrata da soberania nacional.
O Brasil é bem-dotado de terras raras —cerca de 18% das reservas globais— e de alguns minerais críticos, como nióbio, grafite, níquel e lítio, uns e outros indispensáveis à transição energética e à economia digital.
De forma incipiente, eles já são aqui explorados —ou estão em fase de pesquisa— por empresas nacionais, estrangeiras ou associadas entre si. Os investimentos externos vêm do Canadá, do Reino Unido e da China.
Além desta, União Europeia e EUA são o destino das exportações brasileiras de minérios em estado bruto.
Aqui e agora, são pelo menos dois os desafios a merecer debate intenso e informado. O primeiro é como o país quer entrar nessa seara: reforçará sua vocação de grande exportador de commodities valiosas ou deseja integrar de alguma forma cadeias de valor na produção de bens que incorporam os cobiçados minérios? Qualquer dessas escolhas envolverá legislação reguladora, políticas de incentivo e diplomacia econômica.
O segundo desafio é de natureza socioambiental. Parte importante das estratégicas reservas, ao que tudo indica, está na Amazônia —especialmente no Pará, no Amazonas e em Roraima— e, muitas, em unidades de conservação e territórios indígenas. Ambos já vêm sofrendo com a mineração ilegal e o que ela acarreta de degradação ambiental, criminalidade e desorganização dos modos de vida tradicionais e das culturas originárias.
A revelação da importância das terras raras e dos minerais críticos só acrescenta urgência a um problema que vem de muito antes. Quem não se lembra da exploração do ouro de Serra Pelada, cuja catástrofe Sebastião Salgado registrou em fotos notáveis?
Dadas as muitas utilidades dos minerais estratégicos, fica difícil imaginar que uma posição puramente preservacionista possa prevalecer. Insustentável, também, é a situação atual, que favorece a ilegalidade e o crime. Entre uma e outra, há diferentes soluções possíveis que reduzem danos ambientais e dão às comunidades indígenas participação nas decisões e nos frutos da exploração econômica. Mas os remédios não nascem por geração espontânea; demandam ciência aplicada, intenção política e compromisso democrático.
Em questão tão importante, a extrema direita não pode ditar a pauta, muito menos os termos da discussão.
A oligopolização da economia e da política
Uma das poucas certezas que podemos ter, no momento, é que aquilo que o Europeu chamava de “o povo”, e aquilo que o Anglo Saxão chamava de “o cidadão”, dançaram. A Revolução Francesa, e a Constituição Americana do “We the People”, esvaíram em seus conteúdos e propósitos. Hoje, a economia está mais oligopolizada, e a política, por decorrência, também. Poucas pessoas mandam no “money” e no “politics”.
Na economia, os ideais de Adam Smith, de que o mercado traria a distribuição de renda e prosperidade para todos, falharam. Até 1980, o crescimento da economia capitalista foi redistributivo entre as classes sociais. De 1980 para cá, entretanto, a participação relativa no PIB mundial das classes médias e baixas diminuiu significativamente, conforme o “World Inequality Report”. Como exemplo, o americano que ganhava US$ 3 mil mês em 1960 ganha hoje US$ 3,1 mil mês corrigidos pela inflação, enquanto o PIB dos Estados Unidos cresceu de US$ 0,5 trilhão para US$ 29 trilhões, no mesmo período. Hoje, estudo do Banco UBS mostra que 2.500 pessoas no mundo concentram em patrimônio, o equivalente a 12% do PIB mundial.
Na política, a democracia e o “Contrato Social” de Rousseau também falharam, na representatividade e mediação dos interesses que iria gerar a redistribuição da renda. A expectativa era a de que os melhores valores da sociedade seriam eleitos, em prol das classes e grupos sociais, o que não ocorreu. Hoje, o grau de concentração política devido ao aparato de controle e repressão é tão grande, que todos os movimentos em prol da representatividade são facilmente controlados e reprimidos.
Por volta de 1848, com a edição do Manifesto Comunista, no adensamento da Revolução Industrial, os movimentos sociais eram mais difíceis de serem contidos. Já no Prefácio da edição do Manifesto Comunista de 1872, Marx e Engels afirmavam que “Embora os princípios gerais deste Manifesto conservam, ainda hoje, a sua plena correção, este programa está hoje, de certa forma, antiquado, devido ao imenso desenvolvimento da grande indústria, e à (derrota) da Comuna de Paris”. O próprio desenho da planta de Paris de 1853 a 1870, de Napoleão III, na concepção de uma rede simétrica e centralizada de largas avenidas, facilitava a rápida locomoção e intervenção em rebeliões populares. A Primeira Internacional de 1866 na Inglaterra seguiu a linha reivindicatória do sindicalismo, e a Segunda Internacional de 1889 em Paris veio a resultar na Social Democracia, nos termos de Kautsky, da negociação e alternância entre as classes com benefícios para a classe trabalhadora, em oposição às propostas de revolução de Rosa Luxemburgo. Os experimentos socialistas da União Soviética e de outros países falharam, com a negociação, ao invés da radicalização, como o único caminho a se seguir.
Mas o capital levou à exacerbada concentração de renda.
Hoje, os movimentos sociais “de baixo para cima” são rapidamente controlados, tal o grau de rapidez das decisões e da capacidade de repressão dos governos, na plenitude do controle. E diante das crescentes limitações ecológicas, o poder se exacerba.
No Brasil, nem se fala, na mais completa inversão da ordem democrática, no preceito do velho ditado de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
O controle é completo. A não ser que o sistema à frente se auto imploda, chegando à situação descrita no filme “The Omega Man”, de Boris Sagal com Charlton Heston, de 1971, onde hordas desfiguradas de humanos cercam a elite sobrevivente em ambiente de completa deterioração.
Estamos mal.
Na economia, os ideais de Adam Smith, de que o mercado traria a distribuição de renda e prosperidade para todos, falharam. Até 1980, o crescimento da economia capitalista foi redistributivo entre as classes sociais. De 1980 para cá, entretanto, a participação relativa no PIB mundial das classes médias e baixas diminuiu significativamente, conforme o “World Inequality Report”. Como exemplo, o americano que ganhava US$ 3 mil mês em 1960 ganha hoje US$ 3,1 mil mês corrigidos pela inflação, enquanto o PIB dos Estados Unidos cresceu de US$ 0,5 trilhão para US$ 29 trilhões, no mesmo período. Hoje, estudo do Banco UBS mostra que 2.500 pessoas no mundo concentram em patrimônio, o equivalente a 12% do PIB mundial.
Na política, a democracia e o “Contrato Social” de Rousseau também falharam, na representatividade e mediação dos interesses que iria gerar a redistribuição da renda. A expectativa era a de que os melhores valores da sociedade seriam eleitos, em prol das classes e grupos sociais, o que não ocorreu. Hoje, o grau de concentração política devido ao aparato de controle e repressão é tão grande, que todos os movimentos em prol da representatividade são facilmente controlados e reprimidos.
Por volta de 1848, com a edição do Manifesto Comunista, no adensamento da Revolução Industrial, os movimentos sociais eram mais difíceis de serem contidos. Já no Prefácio da edição do Manifesto Comunista de 1872, Marx e Engels afirmavam que “Embora os princípios gerais deste Manifesto conservam, ainda hoje, a sua plena correção, este programa está hoje, de certa forma, antiquado, devido ao imenso desenvolvimento da grande indústria, e à (derrota) da Comuna de Paris”. O próprio desenho da planta de Paris de 1853 a 1870, de Napoleão III, na concepção de uma rede simétrica e centralizada de largas avenidas, facilitava a rápida locomoção e intervenção em rebeliões populares. A Primeira Internacional de 1866 na Inglaterra seguiu a linha reivindicatória do sindicalismo, e a Segunda Internacional de 1889 em Paris veio a resultar na Social Democracia, nos termos de Kautsky, da negociação e alternância entre as classes com benefícios para a classe trabalhadora, em oposição às propostas de revolução de Rosa Luxemburgo. Os experimentos socialistas da União Soviética e de outros países falharam, com a negociação, ao invés da radicalização, como o único caminho a se seguir.
Mas o capital levou à exacerbada concentração de renda.
Hoje, os movimentos sociais “de baixo para cima” são rapidamente controlados, tal o grau de rapidez das decisões e da capacidade de repressão dos governos, na plenitude do controle. E diante das crescentes limitações ecológicas, o poder se exacerba.
No Brasil, nem se fala, na mais completa inversão da ordem democrática, no preceito do velho ditado de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
O controle é completo. A não ser que o sistema à frente se auto imploda, chegando à situação descrita no filme “The Omega Man”, de Boris Sagal com Charlton Heston, de 1971, onde hordas desfiguradas de humanos cercam a elite sobrevivente em ambiente de completa deterioração.
Estamos mal.
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