sexta-feira, 10 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


A guerra no horizonte da política internacional

“O velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno surgem os fenômenos mórbidos mais diversos”, disse o teórico marxista Antonio Gramsci, em circunstâncias históricas semelhantes às que enfrentamos. Hoje, podemos dizer que a ordem mundial que conhecemos, desde pelo menos 1945, está mortalmente ferida, e de suas entranhas em decomposição um outro modus operandi vai se consolidando, não necessariamente novo, pelo contrário. Estamos diante de uma configuração política há muito tempo conhecida pelos estudiosos do fenômeno internacional, marcada pela realpolitik, pelo imperialismo e por uma corrida armamentista de guerra típica dos sistemas multipolares.

Sintomático do momento, o termo realpolitik, antes exclusivo aos círculos acadêmicos, começa a se tornar lugar comum em análises até mais rasteiras. De fato, não seria razoável afirmar que esta forma política – baseada no recurso à força como ativo central da política – tenha sido abandonada nas últimas décadas sob uma suposta e idealista hegemonia das instituições internacionais. O que podemos dizer é que ela passou a conviver com constrangimentos legais que impuseram mínimos limites ao uso da violência como instrumento político. E o que presenciamos agora é o recrudescimento do poder bruto sem nenhuma cerimônia.


O fio condutor deste processo é a decadência do soft power dos EUA, após décadas de intervenções desastrosas e degradação social promovida pelo consenso de Washington (1992), que tem levado a cada vez mais fissuras nas instituições democráticas e nos aparelhos de bem-estar social, especialmente entre países historicamente aliados da superpotência norte-americana.

Como qualquer estudioso da política internacional sabe, a arena doméstica é intrinsicamente ligada à externa, e o aprofundamento do déficit democrático, consequente à demolição do welfare state, contribui para destruir ainda mais o aparato legal que dá freios ao uso da força. Se um sistema multipolar já tende a ser mais friccionado – quanto mais bolas de sinuca numa mesa, mais chances de contato entre elas –, um conduzido por líderes antidemocráticos promete ser ainda mais perigoso. Já vimos esse filme.

O rastro do caos aponta para os EUA. Emergentes da Guerra Fria como única superpotência global, os EUA pavimentaram sua hegemonia com uma rara combinação de poder bruto e poder brando. A fórmula classificada por Joseph Nye como “poder inteligente” (smart power) nada mais é que a combinação entre a capacidade de impor a força e gerar atração, representação contemporânea de uma das formulações mais importantes de um texto seminal da ciência política moderna. Em O Príncipe, Maquiavel afirma que entre ser amado ou temido, na impossibilidade da escolha ideal (de ser amado e temido), era preferível ao Príncipe ser temido, “porque os homens mais facilmente ofendem a quem amam do que a quem temem” (Maquiavel, 1987). Com o enfraquecimento do seu poder de atração, a superpotência está partindo para o ataque, em busca de deter os avanços das potências regionais que desafiam sua hegemonia, elevando tensões, incertezas e desestabilizando a ordem internacional.

Assim, para os EUA, as primeiras duas décadas do pós-Guerra Fria foram um período de rara abundância de capital político, aproximando-se da fórmula “ideal” de Maquiavel e Nye. O país era incontestavelmente uma superpotência militar, com capacidade de projeção de força incomparável, e uma nação líder nos principais fóruns internacionais. Em que pese uma política externa marcada por práticas imperialistas, entre as nações do Ocidente político a influência estadunidense ainda gozava de patamares elevados de popularidade até meados da primeira década do século. Foi a sequência de eventos posteriores ao 11/09 que mudou isso, levando os EUA a serem cada vez mais percebidos como uma ameaça à ordem mundial, e não como seus fiadores, como manda a cartilha do bom hegemon.

Hoje, enfim, vivemos as consequências de três processos: as incursões no Oriente Médio, que violaram normas internacionais que significavam mínimas balizas para o uso da força; o avanço da OTAN sobre as fronteiras russas, traindo os acordos que costuraram o fim da Guerra Fria, e; três décadas de acirrada competição com a China tensionando as relações internacionais não só na Ásia Pacífico, mas em diversas regiões sensíveis geopoliticamente.

Portanto, vivemos um processo de desgaste das estruturas institucionais, políticas e comerciais que mediavam as relações internacionais, e de consolidação de potências regionais capazes de desafiar a supremacia global dos EUA, processos que se articulam e indicam um descompasso político que traz a sombra da guerra de novo para mais perto da política internacional.

A guerra é em um dos principais problemas da humanidade, talvez mesmo o principal. Através dela, cidades, Estados, Impérios e civilizações apareceram e desapareceram. Modos de vida foram consolidados e destruídos. Isso significa que a guerra tem sido – para muitos é – um elemento constitutivo das relações humanas, muitas vezes descrita como uma “sombra” permanente no horizonte da política internacional. Segundo Domingos Neto (2005, p. 1), a guerra é uma “forma de compatibilizar os meios de sobrevivência com o crescimento demográfico, processo de aniquilamento-fusão-afirmação de etnias, culturas e línguas, fonte alimentadora de avanços científicos e tecnológicos, momento de ruptura de ordenamentos socioeconômicos e deformação de valores. Exprimindo disputas por mercados, vontades dominadoras ou projetos libertários, o militar efetiva os banhos de sangue que resultam em grandes mudanças sociais e desenham incessantemente o mapa político mundial. A civilização é impensável sem a guerra e o militar”.

Portanto, compreender a guerra é essencial para analisar o fenômeno internacional.

Para oferecer uma explicação à dialética guerra/paz, a teoria do Realismo Político tem sido, desde os primórdios do estudo das RI, a principal fonte de interpretações para lidar com o problema da guerra na política internacional. Esse modelo teórico emula a premissa do estado de natureza hobbesiano para a política internacional e reitera o paradigma que confere a pretensão do monopólio do uso legítimo da violência aos Estados, entidades autônomas e dotadas de direitos uns em relação aos outros em uma comunidade formada por distintas nações, todas imersas em um estado de insegurança e tensão permanentes que as constrange a disputas violentas entre si, produzindo um equilíbrio baseado no poder e, por isso, sempre volátil.

Essa volatilidade tem sido a marca do sistema internacional moderno, cujo amadurecimento se deu pari passu com a consolidação do Estado Nação, ambos resultantes das guerras totais que devastaram o velho mundo entre os séculos XVII-XX. As relações internacionais foram, durante esse recorte, uma sucessão de conflitos cada vez mais abrangentes e violentos, à medida que a tecnologia e o engajamento social na guerra evoluíam, e de tratados que se tornavam cada vez mais sofisticados para encerrar as contendas e tentar permear as relações interestatais com algo além da pólvora. Mas o conhecido aforisma presente nos canhões de Luiz XIV, “ultima ratio regum” (último argumento dos reis), jamais deixou de traduzir com realismo a estrutura do sistema internacional, consubstanciando a também famosa afirmação de Henry Kissinger, segundo a qual uma diplomacia sem o respaldo de um forte poder militar seria “mero exercício de retórica”.

Assim, o emprego da violência é uma sombra no horizonte da política internacional. Em Politics Among Nations, Hans Morgenthau (2003), uma das obras mais importantes da corrente Realista, estabelece um conjunto de premissas para entender o mundo da política. Seriam Maquiavel e Hobbes os melhores tradutores desse universo, sujeito a uma lógica egoísta, e a política internacional seria baseada em cálculos de custo/benefício à beira da guerra.

No mesmo sentido, enquanto fenômeno político a guerra se apresenta, segundo Clausewitz, como “um ato de força para obrigar o inimigo a fazer a nossa vontade”. E daí tiramos que a guerra é a continuação da política por outros meios. Ela não se trata de um fenômeno independente, mas subordinado à política, que deve determinar o caráter da guerra ao estabelecer as condições e os objetivos pelos quais ela será travada. Depreende-se desse raciocínio que a guerra não tem um fim em si mesma, não tem uma lógica própria, mas uma “gramática” própria que confere à política internacional uma ontologia estratégica.

Decompondo mais sistematicamente o problema, Kenneth Waltz, em O homem, o Estado e a Guerra, estratificou a política internacional em três esferas – ou “imagens”, como anota o autor – e identificou uma razão estrutural para o fenômeno da guerra.

Na primeira “imagem”, temos o sujeito, o animal político nos termos aristotélicos. No domínio do sujeito, a razão divide espaço com pulsões como egoísmo, vingança e ganância. A razão é um “dever ser” que jamais se realiza plenamente, porque as pulsões humanas são, em sua totalidade, irrepreensíveis. Muitos pensadores debruçados sobre o problema identificaram nesta dimensão individual as causas da guerra. Numa pergunta simples: sem Hitler, sem guerra?

A segunda “imagem” é o Estado, estrutura política, social e econômica moderna gestada durante a transição do feudalismo para o modo de produção capitalista, na Europa, mas que poderíamos tomar como qualquer organização política. Em uma palavra, a pólis. Nesta esfera, a política obedece a padrões institucionalizados que devem transcender o sujeito. Outro “dever ser” racional. Mas, na medida em que a política é operada por pessoas, está sujeita às vicissitudes humanas. Razão pela qual teóricos, por séculos, adotaram tom antropomórfico para se referirem ao Estado. Ato contínuo, muitas análises sobre a guerra tratam o Estado em associação orgânica com a primeira imagem. Seguindo este raciocínio, a causa da guerra estaria associada à natureza dos regimes políticos e aos cálculos individuais dos governantes. Nas duas “imagens”, as causas da guerra poderiam ser superadas com transformações no nível político e moral, ou seja, com progressos em direção a uma cultura institucional mais voltada para o império da Lei e da Razão. De forma simplificada, chega-se a uma pergunta tão antiga quanto a teoria política moderna: regimes democráticos tendem à paz?

Por fim, na terceira “imagem” temos o sistema internacional em si. E é aqui que mora, para Waltz e toda a tradição realista que lhe segue, o X do problema.

Segundo Aron (2018), sistema internacional é “o conjunto constituído pelas unidades políticas que mantêm relações regulares entre si e que são suscetíveis de entrarem em uma guerra geral”. O atual SI tem origem com o fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-48), que engendrou um notável desenvolvimento da musculatura dos Estados. Expressão disso são as cláusulas do Tratado de Westphalia, que encerrou o conflito, como a criação de embaixadas permanentes – dando à política externa um caráter mais perene e estável –, a definição de limites territoriais entre os Estados e, a partir destes, do conceito de soberania, segundo o qual nenhum Estado tem o direito de intervir nos demais. Foi o começo de um direito internacional público e de um sistema de relações que passou a ser mediado de modo a equilibrar os interesses e gerenciar os conflitos.

Apesar dessa evolução institucional, o uso da força jamais deixou de ser um recurso ativo. E, segundo Waltz, há uma razão estrutural para isso: a anarquia sistêmica, que consiste numa força que compele os Estados à guerra, independente de seus líderes ou regimes políticos. O raciocínio é simples: o fato de não haver uma centralidade política nas relações internacionais, isto é, uma entidade capaz de impor a ordem (como fazem os Estados perante suas sociedades civis), significa que todos se encontram vulneráveis à conquista e precisam, pois, manterem-se em estado de prontidão para a beligerância. Essa situação, eventualmente, ao sabor das oscilações dos equilíbrios de poder tão voláteis quanto imprevisíveis são os cursos do processo histórico, produz dilemas de segurança inegociáveis diplomaticamente que obrigam os atores a travarem guerras independentemente das vontades objetivas que os conduzem. O problema é conhecido na literatura como “dilema de segurança”, e há diversos casos ao longo da História, como o de Esparta, durante a Guerra do Peloponeso (séc. V a.C.), que dá nome caricatural ao dilema: “armadilha de Tucídides”. Ameaçada pelo avanço do Império ateniense, a cidade-estado da Lacedemônia se viu obrigada a entrar numa guerra que não desejava. Algo semelhante ocorre hoje entre Irã x Israel, Rússia x OTAN e EUA x China.

“Tudo na guerra é muito simples, mas a mais simples das coisas é difícil… Incontáveis incidentes menores – do tipo que nunca se pode realmente prever – combinam-se, degradando o desempenho, de tal sorte que se fica sempre aquém do pretendido”. A citação é do general prussiano Carl von Clausewitz (2010), autor de uma das obras mais determinantes do campo dos Estudos Estratégicos.

Clausewitz descreveu o curso da guerra como imerso em uma “névoa”, alegoria que emprega para dar a dimensão do caráter contingente das ações em conflito. Em seu famoso modelo de análise, o acaso e a probabilidade constituem o terreno operacional no qual atuam as forças armadas. É através do conceito de “fricção” que nosso autor traduz todo tipo de intempérie capaz de comprometer uma missão, desvirtuando fins de meios, propósitos de resultados, intenções de ações. A elevação da “fricção” ao patamar de categoria essencial do conflito rompe com uma ampla tendência de cientificizar a guerra, tornando-a controlável, previsível. Ilusão que acometeu e ainda acomete muitas análises.

O imponderável “governa” a guerra porque ela consiste numa dialética de vontades em luta de vida ou morte, essência que lhe confere singularidade sobre todos os demais fenômenos humanos. Todas as ações em circunstâncias de combate, por mais simples que pareçam, podem padecer com imprevistos diversos produzidos pelo engajamento ou pela necessidade de evitar o engajamento inimigo. A melhor estrada passa a ser a pior estrada; o melhor momento para um ataque passa a ser o de piores condições atmosféricas. Tudo para atingir a surpresa que possa deslocar a balança a favor dos seus planos e contra os do inimigo. Todas as ações assumem, assim, um caráter paradoxal que implica em dificuldades desconhecidas fora do terreno do conflito. O planejamento de uma ofensiva pode funcionar perfeitamente na carta de operações, mas encontrar dificuldades impostas pelo inimigo que não puderam ser antecipadas, colocando tudo a perder. O que nos leva a outro aspecto central da obra de Clausewitz, o moral. Os fatores psicológicos, desde os governantes até os soldados, passando pelos comandantes, também são cruciais e explicam porque forças aparentemente superiores muitas vezes não logram o êxito esperado.

A guerra é um confronto, em primeiro lugar, de vontades e está sujeita a toda sorte (ou azar) de circunstâncias impossíveis de controlar. A névoa da guerra começa no exato momento em que ela deixa de ser sombra e se torna situação concreta. Pois, parafraseando um dito comum entre os militares, até os melhores planos podem perecer no primeiro contato com o inimigo.

A guerra jamais deixou de ser um elemento constitutivo das relações internacionais. O que podemos afirmar é que, desde 1945, grandes guerras, do tipo que envolvem grandes potências, se tornaram muito improváveis em função da dissuasão nuclear. As armas nucleares outorgaram uma limitação às fricções entre as potências, o que levou a mudanças substantivas na estratégia e nas categorias do conflito. A Guerra Fria foi, assim, uma era reconhecida por conflitos de natureza não convencional, baixa intensidade e via atores terceirizados – “por procuração” –, com um espraiamento da violência do centro para as regiões mais periféricas do SI. Hoje, a situação, do ponto de estratégico, é a mesma: dissuasão nuclear e conflitos regionais terceirizados pelas grandes potências, que precisam evitar o confronto direto. A diferença é a configuração geopolítica do sistema internacional, que vive uma transição da hegemonia unipolar dos EUA em direção a uma estrutura multipolar.

Como a guerra “irá se comportar” nesse cenário? Será que veremos algo semelhante à Guerra Fria, ou corremos o risco de uma grande guerra entre potências novamente? E, se for este o caso, poderiam elas engajaram-se num conflito limitado, convencional, recusando o emprego de armas nucleares? Isso, além de desafiar sem nenhuma prudência a “névoa da guerra”, contrariaria uma máxima de Clausewitz empiricamente observável ao longo da História: a guerra tende a escalar.

Impossível saber. É razoável, apenas, supor que, se a racionalidade que tem conduzido a estratégia das grandes potências não ceder terreno a aventuras irracionais, há poucas chances de uma guerra entre grandes potências acontecer, pelo risco inerente de destruição mútua assegurada. Mas que há bons sinais para pelo menos suspeitarmos dessa possibilidade, há. Afinal, tudo está muito volátil e a dissuasão nuclear, no limite, não deixa de ser outro “dever ser”. Com a volatilidade pela qual passamos, é preciso ter o cuidado de não tomar o passado como determinação do futuro. Os próximos tempos serão de intensos movimentos internacionais e não é mais possível antever sequer o horizonte de uma década. Onde estaremos em 2036?

Em meio a tanta incerteza, apenas uma coisa é certa: onde já não estamos mais.
João Rafael Gualberto de Souza Morais

O dilema machista

O senhor já quis comer a mulher de um amigo? – perguntou o motorista que me levava ao aeroporto. Surpreendido, tergiversei e tentei dialogar sobre problemas muito mais fáceis de resolver, tipo: se era possível julgar casos nos quais a esposa era advogada do réu; se a última novidade no campo da corrupção era esse banco que rouba dinheiro; sobre a crise climática e a arrogância de Trump.

– Você diz trair uma amizade por machismo?

– Isso mesmo. Comer a mulher do melhor amigo. Ela me contou que o marido entrou numa seita religiosa e não comparecia mais em casa...


– Não vinha para casa? – Não, doutor, ele não trepava! Deixava um baita mulherão sem amor.

– E como você sentiu que dava pé? – perguntei.

– Num almoço, ela passou o tempo todo passando o pé no meu pé. Naquela noite, não dormi e, o pior, é que pensava mais no amigo do que nela. No dia seguinte, voltei e, na varanda, dei um beijo nela, o que só piorou as coisas, porque, com o beijo, eu tinha me obrigado a comer a mulher do meu melhor amigo.

– Você ficou entre a amizade e o amor – resumi.

– Um lado meu queria, mas a amizade me bloqueava.

Na semana dessa confusão do Banco Master e do Supremo, ela disse que ficaria sozinha. O marido ia viajar em penitência. – E aí?

– Bem, doutor – disse o taxista, olhando-me com olhos aflitos, realçados pelo espelho retrovisor –, não era um convite, era uma ordem: se você é homem, venha cá e me coma! Mas, em vez de ficar alegre, fiquei na covardia da dúvida. Como é que eu ia comer a mulher do meu melhor amigo?

– Você foi?

– Fui com muito medo. Consolei-me porque ouvi dizer que o ex-presidente Bolsonaro é imbrochável, mas, ora bolas, eu sou comum!

Parados no estacionamento do aeroporto, perguntei:

– A dúvida passou?

– Que nada. Fui salvo pelo meu anjo da guarda. Bati na porta, ela abriu e foi logo dizendo, meio sem graça, que a peregrinação tinha sido suspensa, e o marido estava em casa. Meu risinho de alívio a deixou com raiva. E, para piorar as coisas, soltei um: “Ótimo, então vamos ver o jogo Brasil x Croácia!”.

– Ótimo, né, seu putinho – ela disse entre dentes –, a merda do jogo é melhor que eu?

Olhei o relógio, paguei e, mais uma vez, vi um brasileiro afligido pelo machismo.

– Será, doutor, que, se eu trair meu amigo, o Lula perde a eleição? – perguntou o patético taxista quando saí do carro.

Aliviado e no avião, pensei em fazer uma crônica sobre o pensamento dos chamados selvagens, uma visão de mundo encantada que liga tudo com tudo. Foi quando me dei conta de que o dilema do meu amigo – adultério ou lealdade, mentira ou honra – era a questão nacional.

O avião levantou voo roncando. Eu, calado, fiquei com essa história.

Vamos matar os pobres?

Uma mulher fala à porta de um prédio. Está com um casaco de penas azul-escuro. É negra. Conta-nos que por baixo do casaco está só de pijama. A polícia chegou e obrigou-a a sair de casa à pressa. “Fui surpreendida por um despejo sem aviso… Estava deitada. Entraram mais de 20 polícias em casa. Seguraram-me a mão na parede. Tiraram-me o telemóvel”, conta ela no vídeo publicado no Instagram do movimento Vida Justa. “Estão a despejar-te porque abrigaste alguém?”, pergunta a voz do homem que filma a cena. “Sim, o meu sobrinho. Abriguei-o porque foi despejado com o pai. O pai está num quarto de solteiro (…) Para o miúdo não ficar na rua, abriguei-o.” Desorientada, sem saber o que fazer, a mulher ainda conta que um dos polícias a mandou para a sua terra.


A cena parece inverossímil para quem não sabe que há regulamentos municipais que consideram motivo de despejo a “hospedagem ilegal”. E o que é a “hospedagem ilegal”? Pode ser receber em casa um sobrinho para que ele não vá dormir para a rua ou uma mãe que vem de fora do País para fazer quimioterapia. Quem não está na ficha da casa municipal não pode estar no imóvel, mesmo que os inquilinos paguem todas as rendas e tenham a casa em boas condições. E só isso mostra como as regras que exigimos aos pobres são tão diferentes das que se aplicam a qualquer outra pessoa. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados, agradecidos, de olhos baixos, trabalhadores, esforçados, de preferência invisíveis. E isto é quando toleramos que existam.

Claro que ninguém pensa em como precisa dos pobres. Pelo menos, até precisar de alguém para lhe limpar a casa ou cuidar dos pais ou dos filhos ou cozinhar no restaurante ou lhe construir uma casa. Aí, rapidamente aparece a indignação porque “ninguém quer trabalhar”. Claro, os pobres são sempre suspeitos de serem preguiçosos ou ladrões ou ambos. Os mesmos que os mandam para a terra deles (ainda que esta seja e sempre tenha sido a sua terra) ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis.

Precisamos dos pobres. Mas onde podem eles viver? Não nos centros das cidades, onde trabalham, porque aí manda o mercado e, claro, nem todos podemos viver nas zonas boas, com transportes, serviços e jardins. Poderão então morar nas periferias? Não, porque para aí mudaram-se os trabalhadores que acham que são da classe média porque até têm os filhos no colégio e carros elétricos, mas depois esmifram-se a trabalhar e claro que não podem morar nas zonas chiques onde estão os nómadas digitais, os reformados americanos e toda a sorte de ricos a quem ninguém se lembra de mandar para a terra deles.

Poderão morar nos bairros municipais? Não, porque para aí têm de ir os trabalhadores que também acham que são da classe média, apesar de terem sempre um mês maior do que o salário e de já não conseguirem há anos fazer duas semanas de férias fora de casa e que também já não conseguem morar nas periferias para onde foram os outros expulsos dos centros, apesar de se acharem portugueses de bem.

Poderão morar em bairros autoconstruídos? Não, porque ninguém quer que haja barracas, a macular as paisagens e a ocupar os terrenos por que anseiam os mercados na sua fome insaciável. Dirão, então, que as construções abarracadas são insalubres, inseguras. Já se sabe que os pobres são porcos, sem noção de estética e mal-agradecidos. E é por isso que devem viver em sítios onde não há recolha do lixo nem parques infantis nem centros de saúde e bons transportes, porque estragam tudo, não sabem usar nada. E são perigosos. Os pobres são perigosos e é por isso que vivem em “bairros problemáticos”. E, de qualquer forma, só podem ocupar esses espaços até alguém descobrir que, afinal, aquela zona era ótima para mais uns condomínios, porque até tem uma vista em que nunca ninguém tinha reparado.

Poderão, finalmente, morar nas ruas? Ficar debaixo de arcadas? Deitar-se no chão ou nos bancos de jardim? Claro que não. Ninguém quer andar a tropeçar em gente andrajosa. Isso dá cabo do turismo e incomoda os milionários que vieram do Dubai à procura de luxo e sossego. E é por isso que se cercam as arcadas com grades, se fecham jardins e miradouros, se plantam espigões de ferro nos sítios que poderiam servir para abrigar alguém e se colocam nas ruas bancos públicos que afinal não são bem bancos, são só sítios onde alguém consegue encostar-se por uns minutos, mas nunca deitar-se para dormir algumas horas.

Onde poderão, então, viver os pobres? Viver talvez seja um verbo excessivo. Um luxo mesmo. E já se sabe que os pobres não podem ter acesso a luxos, sob pena de ficarem mal-habituados e descontrolados. É preciso tê-los domesticados, controlados. Como as pragas dos ratos e das baratas, que eles trazem atrás de si.

Este pensamento sobre a possibilidade da existência dos pobres segue o raciocínio de quem sonha erguer resorts de luxo sobre as ruínas e os mortos de Gaza. A conceção utilitária da vida desemboca numa ideia de genocídio. Exterminam-se os pobres e os vulneráveis porque eles não nos interessam, não têm valor. São tolerados apenas quando são necessários como força de trabalho barata, mas estão totalmente ausentes das preocupações de humanidade e dignidade que deviam ser básicas. Os mesmos que se incomodam com a morte de fetos são completamente indiferentes ao sofrimento de crianças a viver em condições precárias de habitação, passando fome ou sob a ameaça de serem retiradas aos pais por serem… pobres. Há poucos crimes mais perseguidos do que a pobreza.

Caso não pretendam matar os pobres, fiquem a saber que eles já são muitos e que a tendência é para aumentarem. A crise da habitação é uma máquina de produzir pobres. Se não for já por nos sabermos todos humanos, que seja por percebermos que a pobreza pode estar mais perto do que se imagina, à distância de um divórcio, do desemprego inesperado ou de uma reforma que não chegará para pagar tudo. Lembrem-se também que há poucas coisas mais fortes do que sermos muitos. Talvez um dia os pobres percebam que são muitos. Rosseau escreveu: “Quando o povo não tiver mais o que comer, comerá os ricos.” E nós só estamos a aumentar-lhes a fome.

A era dos crimes de guerra voltou

Duas ex-autoridades da justiça militar norte-americana, Margaret Donovan e Rachel VanLandingham, alertam que o presidente Tramp está colocando os militares do seu país numa sinuca que pode ter consequências gravíssimas. As especialistas – ex-advogadas militares que assessoravam na escolha de alvos -, alertam que as ameaças do presidente de “mandar o Iran de volta à idade da Pedra”, e do seu secretário de “não mostrar nenhuma trégua, nenhuma misericórdia”, são claramente ilegais. Além disso, contrariam os princípios morais e legais em que os militares dos EUA são, há décadas, treinados a seguir em suas carreiras.


A recente demissão do chefe do Estado Maior das forças armadas, ordenada pelo fanático secretário da Guerra, Pete Hegseth, pode ter sido motivada exatamente pelo conflito instalado no seio do comando militar norte-americano em razão do descaso do presidente e seus asseclas quanto às normas internacionais que definem crimes de guerra. Aliás, com relação a praticamente todas as normas internacionais!

Tramp e asseclas expurgaram os comandos militares de pessoas que pudessem se opor a eles. No entanto, a doutrina e os exemplos não deixam dúvida quanto à ilegalidade de certas ordens. Todos sabem que bombardear barcos no Caribe e no Pacífico, sem o devido processo legal e completamente sem provas de que seriam traficantes, é crime de guerra. Alguns oficiais da invencível armada norte-americana, para lembrar aquela do rei da Espanha no século XVI, teriam forças para se recusarem a cumprir ordens ilegais?

No EUA mesmo há exemplos de militares que desobedeceram a ordens ilegais e até mesmo que interferiram para impedir crimes de guerra. No julgamento de um dos comandantes do massacre de My Lay – quando, em 16 de março de 1968 militares dos EUA assassinaram 173 crianças, além de mulheres e idosos indefesos somando 504 civis – o tribunal argumentou que o argumento da defesa, de que ele “apenas cumpria ordens”, era inválido, uma vez que as ordens eram “manifestamente ilegais”.

Também em Nuremberg, após a II Guerra Mundial, oficiais nazistas argumentaram que cometeram as barbaridades que fizeram porque “apenas cumpriam ordens”. E não deixaram de ser punidos. Agora, os vencedores de então se creem sempre vencedores, apesar das evidências do Vietnam, Iraque e Afeganistão.

Há, é certo, dúvidas sobre quem colocará o guiso no gato para condenar aqueles que ora cometem crimes de guerra. Até o momento, nem Netanyahu, nem Putin, nem Tramp se preocupam com tal risco. Mas, sabemos, o mundo gira.

Nos EUA há, ou pelo menos havia, instituições capazes de julgar e condenar criminosos, mesmo poderosos. Será que a destruição generalizada provocada pelo Tramp terá dizimado também aquelas instituições? Cometer crime de guerra passará a merecer medalha de honra?

O Exército dos EUA ocultou o massacre da My Lai, que só foi tornado público mais de um ano mais tarde. Apenas um militar foi condenado. Sua pena era de prisão perpétua. Cumpriu três anos em domiciliar e em seguida teve sua sentença comutada. Como pode a era de crimes de guerra voltar se nunca se foi?