segunda-feira, 30 de março de 2026

Pensamento do Dia



Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia,

A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.

O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.

Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?

Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.


Donald Trump motivou um capítulo à parte no relatório do V-Dem, da mesma maneira que, em edições anteriores, mereceram destaque o húngaro Viktor Orbán, o indiano Narendra Modi, o polonês Jaroslaw Kaczynski e Jair Bolsonaro.

As eleições constituem o momento central nos regimes de liberdade. Desde pelo menos os anos 1950, no entanto, os cientistas políticos entendem que as democracias são processos contínuos. Entre um pleito e outro, partidos políticos negociam, Legislativos fiscalizam Executivos, ONGs e o poder econômico fazem seus lobbies, a sociedade civil se mobiliza, a academia e a imprensa municiam o debate público —e quanto mais esses atores exercem seus papéis e interagem, mesmo com alto grau de fricção, maior é a qualidade da democracia.

A essa vibração cívica algo caótica, o cientista político Robert Dahl (1915-2014) deu o nome de poliarquia. Resumindo em uma frase uma ideia complexa, poliarquia seria a tradução para o mundo real do conceito original de democracia, um regime em que, em tese, todos teriam o mesmo peso e a mesma influência nas decisões coletivas, um ideal por definição inatingível.

A partir desse insight, Larry Diamond e Leonardo Morlino sistematizaram, na virada do século 21, a ideia de que os regimes de liberdade se aproximariam desse ideal à medida que obedeciam a vários pré-requisitos, indo muito além das eleições livres e justas. Estava dado o alicerce teórico para os rankings de democracia.

O V-Dem reúne dados sobre diversos desses aspectos definidos pelos teóricos da política. Em uma democracia, deve prevalecer a vontade da maioria —a dimensão eleitoral— ao mesmo tempo que são garantidos os direitos de todos —a dimensão liberal.

A alta participação política deve ser valorizada, assim como a capacidade de os cidadãos efetivamente interferirem nos resultados das políticas públicas —os aspectos participativo e deliberativo. Por último, a assimetria de poder e de recursos entre os cidadãos conspira contra o ideal democrático, o que faz o V-Dem valorizar uma quinta dimensão, chamada de igualitária.

O instituto hospedado na cidade sueca de Gotemburgo tabula notas de 4.000 especialistas espalhados pelo mundo. Há sempre, como é óbvio, algo de subjetivo nas avaliações. Os resultados, no entanto, mostram que não há captura política por um ou outro campo ideológico. O processo permite identificar, nos diferentes países, tendências autoritárias de esquerda e de direita, da Venezuela à Índia, da Hungria ao México.

Outra vantagem é que os dados quantitativos permitem acompanhar a evolução dos países. Um artigo publicado em 2019 pelo sueco Staffan Lindberg, diretor do V-Dem, e pela cientista política alemã Anna Lührmann estabeleceu o conceito de autocratização, processo que se verifica empiricamente quando as notas de democracia de um país vão diminuindo recorrentemente.

No artigo, eles propõem que vivemos uma era de autocratização que se segue à terceira onda de democratização definida pelo cientista político americano Samuel Huntington (1927-2008) —a que começou com a Revolução dos Cravos em Portugal e continuou com a queda dos regimes militares latino-americanos e das ditaduras comunistas do Leste Europeu.

Os sucessivos relatórios do V-Dem —e de outros levantamentos similares, como o da Freedom House americana e o da revista britânica The Economist— vêm infelizmente confirmando a tendência.

Os processos de autocratização, no entanto, não começam, como no passado, com quarteladas militares ou revoluções armadas. No livro "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como os autoritarismos modernos se instalam aos poucos, como doenças insidiosas, promovidos na maioria das vezes por forças políticas que, paradoxalmente, chegam ao poder de forma democrática, pelo voto.

É essa precisamente a principal utilidade dos rankings de democracia. Como na metáfora do início deste texto, eles medem os sinais vitais dos regimes de liberdade, rastreando tendências de deterioração em curto e em longo prazo. Identificam também os fatores que levam a essa deterioração.

A sequência dos relatórios chama a atenção para alguns padrões. Sempre que um líder de tendências autoritárias é reeleito, ganha carta branca para aprofundar o processo de autocratização. Isso aconteceu na Índia com Narendra Modi, que, em seu segundo mandato, aprovou leis que praticamente inviabilizam o jornalismo investigativo. Vem também ocorrendo recorrentemente com Viktor Orbán, na Hungria.

Marcadas para o próximo dia 12 de abril, as eleições húngaras determinarão se Orbán irá conquistar um quinto mandato. Em quatro períodos consecutivos de quatro anos cada, o premiê húngaro estabeleceu uma espécie de "playbook" da autocratização, tendo entre seus seguidores o próprio Donald Trump.

Orbán consagrou, entre outros, o procedimento de cortar verbas de universidades capazes de produzir conhecimento crítico ao governo, algo que vem ocorrendo nos EUA e é apontado, no relatório deste ano do V-Dem, como um dos indícios mais fortes da deterioração democrática americana.

Lidos em conjunto, os relatórios do V-Dem mostram que as doenças da democracia costumam ter nome e sobrenome: os dos líderes que usam o seu poder para corroer as instituições.

Na visão de outro cientista político, o alemão Yascha Mounk, esses presidentes e primeiros-ministros, em geral classificados como populistas, usam o pilar eleitoral das democracias para solapar os seus aspectos liberais. Em outras palavras, se valem da legitimidade conquistada pelo voto para confiscar direitos, como os de imigrantes e grupos minorizados, e restringir liberdades, como as de expressão, imprensa e pensamento acadêmico.

Os relatórios do V-Dem apontam vários casos em que líderes autoritários pioraram a qualidade da democracia nos países em que governaram. O oposto também ocorreu: quando esses presidentes ou primeiros-ministros saíram do poder, as notas dos seus países melhoraram. À esquerda, um caso bastante estudado é o de Rafael Correa, no Equador. À direita, o de Jair Bolsonaro, no Brasil.

O caso brasileiro aponta para um último e importante aspecto: a capacidade das democracias de identificar a deterioração e punir tentativas de golpe.

Em outro livro, "Como Salvar as Democracias", Levitsky e Ziblatt comparam o processo movido contra Jair Bolsonaro com as alegações jurídicas contra Donald Trump no final do seu primeiro mandato. Ambos os presidentes questionaram as urnas e não reconheceram o resultado das eleições. Um perdeu temporariamente os direitos políticos e, mais tarde, foi julgado, condenado e preso por tentativa de golpe. O outro seguiu o seu caminho político e se reelegeu. O resultado está expresso no relatório atual do V-Dem.

É inegável que a democracia brasileira sofre com escândalos de corrupção e guerra entre Poderes. Como no episódio recente da tentativa de golpe, o país precisa demonstrar maturidade e punir os responsáveis —sejam eles governantes eleitos ou juízes do STF—, de forma a preservar as instituições.

No histórico do V-Dem, as maiores ameaças à saúde das democracias não são episódios de corrupção ou brigas de poder, mas, é preciso frisar, as doenças que têm nome e sobrenome e, paradoxalmente, chegam ao poder pelo voto.

Trump tem agora pouquíssimas opções na guerra no Irã

Algumas velhas verdades sobre a guerra têm batido à porta do Salão Oval no mês desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enviaram aviões de guerra americanos e israelenses para bombardear o Irã.

A incapacidade de aprender com o passado significa que Donald Trump agora enfrenta uma escolha difícil. Se ele não conseguir um acordo com o Irã, pode tentar declarar uma vitória que não enganará ninguém ou intensificar a guerra.

A mais antiga das velhas verdades vem do estrategista militar prussiano Helmuth von Moltke, o Velho: "Nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo". Ele escreveu isso em 1871, o ano em que a Alemanha foi unificada como um império, um momento tão consequente para a segurança da Europa quanto esta guerra pode ser para a segurança do Oriente Médio.

Talvez Trump prefira a versão moderna do boxeador Mike Tyson: "Todo mundo tem um plano até ser atingido". Ainda mais relevantes para Trump são as palavras de um de seus antecessores, Dwight D. Eisenhower, o general americano que comandou o desembarque do Dia D em 1944 e que posteriormente serviu dois mandatos como presidente republicano dos Estados Unidos na década de 1950.

A versão de Eisenhower era: "planos não valem nada, mas o planejamento é tudo". Ele queria dizer que a disciplina e o processo de elaboração de planos para travar uma guerra tornam possível mudar de rumo quando o inesperado acontece.


Para Trump, o elemento inesperado tem sido a resiliência do regime no Irã. Parece que ele esperava uma repetição do sequestro relâmpago, em janeiro, do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, pelas forças armadas americanas. Eles estão agora presos em Nova York, aguardando julgamento. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, o substituiu na presidência e está recebendo ordens de Washington.

Esperar uma repetição da vitória sobre Maduro demonstra uma enorme falta de compreensão das diferenças entre a Venezuela e o Irã.

O ditado de Eisenhower sobre pensar no futuro foi usado em um discurso de 1957. Ele havia sido o responsável pelo planejamento e comando da maior operação militar anfíbia da história, a invasão da Europa Ocidental no Dia D, então ele sabia do que estava falando.

Ele prosseguiu explicando que, quando surge uma emergência inesperada, "a primeira coisa a fazer é pegar todos os planos da prateleira de cima, jogá-los pela janela e começar tudo de novo. Mas se você não planejou, não pode começar a trabalhar, pelo menos não de forma inteligente".

"Essa é a razão pela qual é tão importante planejar, para se manter imerso na natureza do problema que você pode um dia ser chamado a resolver – ou a ajudar a resolver."

Longe de capitular ou entrar em colapso depois que Israel e os EUA mataram o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, no primeiro ataque aéreo da guerra, o regime em Teerã está funcionando e revidando. Está jogando bem com as cartas que tem.

Em contraste, Donald Trump dá a impressão de estar improvisando. Ele segue seus instintos, não as páginas de inteligência e conselhos estratégicos que outros presidentes analisaram minuciosamente.

Treze dias após o início da guerra, Trump foi questionado pela Fox News Radio sobre quando a guerra terminaria. Ele respondeu que não achava que a guerra "seria longa". Quanto ao seu término, seria "quando eu sentir, sentir na pele".

Ele se apoia em um círculo íntimo de assessores que estão em seus cargos para apoiar suas decisões e fazê-las acontecer. Dizer a verdade ao poder não parece estar em suas atribuições. Confiar nos instintos do presidente em vez de um conjunto de planos bem elaborados – mesmo que precisem ser adaptados ou descartados – torna mais difícil travar uma guerra. A falta de uma direção política clara enfraquece o poder de fogo devastador e a eficácia das forças armadas dos EUA.

Quatro semanas atrás, Trump e Netanyahu depositaram sua confiança em uma feroz campanha de bombardeios que matou não apenas o líder supremo, mas também seus conselheiros mais próximos e, até o momento, matou 1.464 civis iranianos, de acordo com a HRANA, um grupo com sede nos EUA que monitora violações de direitos humanos no Irã.

Os dois líderes esperavam uma vitória rápida. Ambos desafiaram os iranianos a darem seguimento aos bombardeios com um levante popular para derrubar o regime.

Mas o regime em Teerã ainda se mantém de pé, ainda luta, e Trump está descobrindo por que seus antecessores nunca estiveram preparados para se juntar a Netanyahu em uma guerra de escolha para destruir a República Islâmica. Os oponentes do regime não se levantaram. Eles sabem muito bem que, em janeiro, as forças do governo mataram milhares de manifestantes. Avisos oficiais foram transmitidos, dizendo a qualquer pessoa que pensasse em repetir os protestos que seria tratada como inimiga do Estado.

O regime iraniano é um adversário obstinado, implacável e bem organizado. Fundado após a revolução de 1979 que derrubou o xá, foi então forjado na miséria mortal da guerra de oito anos com o Iraque.

O regime é construído sobre instituições, não indivíduos, e reforçado por crenças religiosas inabaláveis ​​e uma ideologia de martírio. Isso significa que matar líderes, embora sem dúvida chocante e perturbador, não se torna também uma sentença de morte para o regime.

Após os assassinatos de janeiro, o governo considerará a morte de muitos outros iranianos, seja pelas mãos das próprias forças do regime ou por bombas americanas e israelenses, como um preço aceitável para a sobrevivência.

O regime iraniano não tinha esperança de igualar o poder de fogo dos EUA e de Israel, mas, tal como Moltke, Tyson e Eisenhower, tem feito planos. Ampliou a guerra, atacando os seus vizinhos árabes do Golfo, bem como as bases americanas nos seus territórios e Israel, espalhando o sofrimento o mais amplamente possível.

O encerramento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irã, a estreita entrada para o Golfo, cortou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e abalou os mercados financeiros globais.

O Irã gastou anos e bilhões de dólares construindo a rede de aliados e representantes que o Irã chamou de "Eixo da Resistência", que inclui o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza e na Cisjordânia, para ameaçar e dissuadir Israel.

Os israelenses o atacaram com muita força e eficácia desde o início da guerra em Gaza, com os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Mas o Irã agora está demonstrando que uma característica geográfica, o estreito de Ormuz, pode ser um fator de dissuasão e ameaça ainda mais eficaz do que seu sistema ruinosamente caro de alianças militares. O Irã pode impor seu controle sobre o estreito com drones baratos que podem ser lançados a centenas de quilômetros de distância no interior montanhoso do Irã.

Aliados são mortos. A geografia permanece a mesma. A menos que capturem e ocupem os penhascos em ambos os lados do estreito e uma grande extensão de terra iraniana além deles, os EUA e Israel – e o resto do mundo – estão descobrindo que o regime iraniano exigirá grande influência na reabertura do estreito de Ormuz.

Como observou o ex-vice-comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), General Sir Richard Shirreff, no programa Today da BBC Radio 4, qualquer simulação de guerra que analisasse as consequências de um ataque ao Irã teria demonstrado que a Guarda Revolucionária Islâmica fecharia o estreito de Ormuz.

Isso nos leva de volta à importância de planejar como iniciar uma guerra, como terminá-la e como lidar com o dia seguinte. Donald Trump e seu círculo íntimo, entusiasmados com a perspectiva de uma vitória rápida e fácil, parecem ter ignorado essas etapas.

O "eixo da resistência" também inclui os houthis no Iêmen. Na sexta-feira, eles dispararam uma saraivada de mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início desta guerra, com os ataques aéreos ao Irã em 28 de fevereiro.

Se os houthis retomarem seus ataques à navegação no Mar Vermelho, a Arábia Saudita perderá sua rota marítima ocidental para exportação de petróleo para a Ásia.

O Mar Vermelho tem seu próprio ponto de estrangulamento, o estreito de Bab el-Mandeb, tão importante para o comércio mundial quanto o estreito de Ormuz. Se os houthis decidirem intensificar o conflito atacando navios em Bab al-Mandab e mais ao sul, como fizeram durante a guerra em Gaza, eles cortariam a rota da Ásia para a Europa através do Canal de Suez.

Isso criaria uma crise econômica global ainda pior.

Netanyahu, ao contrário de Trump, vem pensando detalhadamente sobre esta guerra desde o início de sua carreira política, que o tornou o primeiro-ministro que mais tempo serviu em Israel.

No primeiro dia completo da guerra contra o Irã, Netanyahu gravou uma declaração em vídeo no telhado do prédio em Tel Aviv conhecido como Kirya, que abriga o quartel-general militar de Israel. Ele falou com uma clareza sobre os objetivos de guerra de Israel que escapou a Trump.

Isso não deveria ser uma surpresa. Entrar em guerra com o Irã é uma proposta mais direta para Israel do que para os EUA. As preocupações de uma potência regional são diferentes dos desafios globais muito mais amplos enfrentados pelos EUA.

Netanyahu está convencido de que pode garantir a segurança futura de Israel causando o máximo de danos possível à República Islâmica. A guerra, disse ele no vídeo, era "para garantir nossa existência e nosso futuro".

Netanyahu sempre considerou o Irã o inimigo mais perigoso de Israel. Seus críticos dizem que essa preocupação foi um dos motivos pelos quais Israel não conseguiu detectar e impedir os ataques do Hamas vindos de Gaza em 7 de outubro de 2023.

Ele agradeceu aos militares dos EUA e a Trump por sua "assistência" e passou ao ponto que, para ele, é o cerne da questão.

"Esta coalizão de forças nos permite fazer o que eu anseio fazer há 40 anos: aniquilar o regime terrorista. Isso é o que eu prometi – e é isso que faremos."

Netanyahu e o establishment militar de Israel, em diferentes momentos ao longo de seus muitos anos no cargo, analisaram maneiras de entrar em guerra com o Irã, destruindo suas instalações nucleares e mísseis balísticos, e tudo o mais que o tornava uma ameaça para eles.

A conclusão em Israel sempre foi que, embora pudessem causar sérios danos ao Irã, isso representaria apenas um revés para o regime. Tornou-se consenso que a única maneira de destruir a capacidade militar do Irã por uma geração ou mais seria por meio de uma aliança com os EUA.

Mas isso exigia um presidente na Casa Branca que estivesse preparado para ir à guerra ao lado de Israel, algo que nunca havia acontecido, apesar da estreita relação entre os dois países e da dependência de Israel do apoio militar e diplomático dos EUA. Netanyahu nunca conseguiu persuadir um presidente americano de que era do interesse dos Estados Unidos entrar em guerra com o Irã – até o segundo mandato de Donald J. Trump.

Apesar da relação amarga e tóxica entre os Estados Unidos e o Irã desde que o xá, um aliado fiel dos EUA, foi deposto em 1979, os sucessivos presidentes americanos acreditavam que a melhor maneira de lidar com a República Islâmica do Irã era contê-la.

Durante a ocupação americana do Iraque, os EUA não entraram em guerra com o Irã, mesmo quando Teerã estava equipando e treinando milícias iraquianas que matavam tropas americanas. A única justificativa, calcularam eles, seria uma ameaça iminente, especialmente informações de que o Irã estava perto de criar uma arma nuclear.

Trump incluiu uma ameaça nuclear em sua lista crescente de razões para ir à guerra. Mas não há evidências críveis de que o Irã estivesse prestes a obter uma arma ou os meios para lançá-la. Até mesmo a Casa Branca ainda mantém em seu site uma declaração datada de 25 de junho de 2025 com a manchete "As instalações nucleares do Irã foram destruídas – e qualquer sugestão em contrário é notícia falsa".

Trump agora está descobrindo por que seus antecessores decidiram que os riscos de optar pela guerra seriam simplesmente grandes demais.

A guerra parece estar se tornando um exemplo clássico de como uma potência menor e mais fraca pode lutar contra um inimigo maior e mais forte, o tipo de conflito que os estrategistas chamam de guerra assimétrica.

É cedo, após apenas um mês, para compará-la a outras guerras que, no papel, os EUA estavam vencendo em termos de inimigos mortos e bombardeios concluídos no Vietnã, Iraque e Afeganistão. Mas é importante lembrar que, após anos de derramamento de sangue e mortes, todas terminaram de maneiras que representaram uma derrota para os Estados Unidos.

O próximo conjunto de decisões de Trump e Netanyahu pode determinar se a guerra no Irã se tornará outro grande erro dos EUA. Trump já adiou duas vezes sua ameaça de destruir a rede elétrica do Irã – o que, segundo ele, poderia ser considerado um crime de guerra.

Ele afirma que isso ocorre porque o Irã está desesperado para fechar um acordo para encerrar a guerra, já que o regime foi duramente atingido pelos danos e mortes que os EUA já infligiram e teme que isso possa causar ainda mais.

Contatos entre os dois lados, por meio da mediação do Paquistão e outros, estão ocorrendo. Os iranianos negam a afirmação de Trump de que se trata de uma negociação completa.

O texto oficial do plano de paz de 15 pontos do presidente não foi publicado, mas versões vazadas mostram um documento que é uma compilação de todas as exigências que os EUA e Israel fizeram ao Irã ao longo de muitos anos. Ele se assemelha mais a termos de rendição do que a uma base para negociação.

O Irã respondeu com suas próprias exigências, igualmente inaceitáveis ​​para o outro lado, incluindo o reconhecimento de seu controle sobre o Estreito de Ormuz, reparações por danos de guerra e a remoção das bases americanas do Oriente Médio.

A menos que ambos os lados consigam dar um salto gigantesco para um terreno intermediário de compromisso inexplorado, é difícil imaginar que um acordo seja alcançado. Não é impossível. O regime iraniano tem um histórico de negociação.

Fontes diplomáticas árabes corroboraram outros relatos, dizendo-me que o Irã estava oferecendo um caminho para um acordo sobre seu programa nuclear quando os EUA abandonaram abruptamente a diplomacia ao entrar em guerra em 28 de fevereiro. Uma fonte me disse: "Você sabe que os iranianos estavam oferecendo tudo." Isso soa como uma simplificação excessiva, e os americanos negam que estivesse havendo progresso, mas os sinais indicam que havia espaço para mais diplomacia quando os EUA e Israel enviaram bombardeiros.

A guerra está em um ponto crítico. Se não houver acordo entre os americanos e os iranianos, Trump terá poucas opções. Ele poderia declarar vitória, dizendo que os Estados Unidos destruíram as forças armadas do Irã, portanto a missão está cumprida, e que abrir o Estreito de Ormuz não é sua responsabilidade.

Isso poderia desestabilizar os mercados financeiros mundiais e horrorizar seus aliados já descontentes na Europa, Ásia e no Golfo. Um regime iraniano ferido e furioso teria ampla margem para pressionar ainda mais a economia mundial.

Mais provavelmente, Trump decidiria intensificar a guerra. Os americanos têm mais de 4.000 fuzileiros navais em navios a caminho do Golfo, paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada em prontidão e estão discutindo reforços adicionais.

Ninguém está falando de uma invasão em grande escala do Irã, mas é possível que os americanos tentem capturar ilhas no Golfo, incluindo a ilha de Kharg, o principal terminal de petróleo do Irã. Isso envolveria uma série de desembarques anfíbios desafiadores e perigosos. Isso poderia até ser conveniente para o Irã, que quer arrastar os americanos para uma guerra de atrito mais longa. O Irã calcula que a capacidade de sofrimento do regime é maior do que a de Trump.

Trump descobriu no Irã que está se deparando com os limites de seu poder. O regime iraniano tem uma definição diferente de vitória e derrota da dele. Para eles, a mera sobrevivência já é uma vitória.

Mas agora eles esperam mais, acreditando que o controle do estreito de Ormuz lhes dá uma nova vantagem para fazer exigências, talvez até mesmo para obter ganhos estratégicos.

Os iranianos exigiram, entre outras coisas, uma promessa de não serem atacados no futuro e o reconhecimento de seu controle sobre o estreito de Ormuz como preço para abri-lo a toda a navegação.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse na quarta-feira  que "o presidente Trump não blefa e está preparado para desencadear o inferno. O Irã não deve errar nos cálculos novamente".

"Se o Irã não aceitar a realidade do momento atual, se não entender que foi derrotado militarmente e continuará sendo, o presidente Trump garantirá que seja atingido com mais força do que jamais foi atingido antes."

Ser derrotado em uma guerra não é uma escolha. Se o Irã tivesse sido tão duramente derrotado quanto Trump e seus aliados afirmam, o regime em Teerã já teria entrado em colapso. Ele não precisaria ameaçá-los para que aceitassem seu destino.

Os Estados Unidos e Israel podem causar muito mais danos e matar muito mais pessoas no Irã. No Líbano, Israel está prosseguindo com sua ofensiva contra o Hezbollah, principal aliado do Irã.

Na ausência de um cessar-fogo, eles calculam que podem aumentar o nível de força até que os iranianos não tenham outra escolha senão ceder.

Isso está longe de ser certo.

Quanto mais a guerra se prolongar, maiores serão as consequências para a região e para o mundo em geral. Um importante analista do Irã, Ali Vaez, do International Crisis Group, disse-me que elas poderiam ser "catastróficas".

Em 1956, o Reino Unido e a França entraram em guerra ao lado de Israel depois que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, uma via navegável global que era um ponto de estrangulamento tão importante para a economia mundial quanto o estreito de Ormuz é hoje. Eles alcançaram todos os seus objetivos militares, mas foram forçados a se retirar pelo presidente Eisenhower, dos Estados Unidos.

Para os britânicos, foi o começo do fim de seu domínio imperial no Oriente Médio.

Os Estados Unidos enfrentam a ascensão da China. Quando a história da competição entre eles para se tornarem a maior potência mundial for escrita, a guerra mal planejada de Trump contra o Irã poderá ser vista como um ponto de virada, uma etapa de declínio, assim como Suez foi para o Reino Unido.

Brasil 2026: o país do bingo permanente

O Brasil inicia 2026 como se estivesse diante de uma cartela de bingo cívico. A cada semana, uma nova bola é sorteada — e, não raro, repete-se o número que já conhecemos: crise, tensão, incerteza. O cidadão acompanha o sorteio com uma mistura de cansaço e resignação. Não se trata mais de surpresa, mas de rotina.

A polarização continua sendo o eixo estruturante da vida política. Não há debate, há trincheiras. De um lado e de outro, narrativas fechadas, impermeáveis ao diálogo. O adversário deixou de ser apenas opositor; transformou-se em inimigo moral. Nesse ambiente, a política perde densidade programática e ganha contornos de guerra simbólica. O país não discute soluções — disputa versões.

Como se não bastasse, escândalos insistem em frequentar o noticiário. O chamado “Caso Master” soma-se a uma sequência de episódios que envolvem agentes públicos, partidos e instituições. A corrupção, que deveria ser exceção, parece estrutural. Espraia-se como mancha de óleo, atingindo Executivo, Legislativo e até setores do Judiciário. A percepção social é devastadora: para muitos brasileiros, o sistema não falha — ele funciona assim.


No plano econômico, o cotidiano pesa. A gasolina orbitando a casa dos oito reais não é apenas um número; é símbolo de um custo de vida que comprime a renda e amplia o desalento. A inflação, ainda que tecnicamente sob controle em alguns indicadores, corrói silenciosamente o poder de compra. O carrinho de supermercado encolhe, o orçamento doméstico estica até o limite. E os impostos, elevados e complexos, reforçam a sensação de que o Estado cobra muito e entrega pouco.

O cenário internacional adiciona mais incerteza ao quadro. Guerras e tensões geopolíticas reconfiguram cadeias produtivas, pressionam preços e afetam mercados. O Brasil, inserido nesse tabuleiro, sente os efeitos indiretos: volatilidade cambial, instabilidade nos custos de energia, insegurança para investimentos. Em um mundo em ebulição, a margem de erro das políticas internas diminui.

Diante desse mosaico, o eleitor brasileiro entra em um novo ciclo eleitoral mais desconfiado e, ao mesmo tempo, mais exigente. A velha lógica do voto emocional começa a ceder espaço a um comportamento mais pragmático. Saúde, segurança e economia voltam ao centro da decisão. O cidadão quer respostas concretas, não apenas discursos inflamados. Quer previsibilidade, não espetáculo.

Mas há um paradoxo. Embora mais crítico, o eleitor ainda está imerso em um ambiente informacional contaminado por desinformação, algoritmos e bolhas digitais. A chamada “telecracia” — o poder das telas e das narrativas instantâneas — molda percepções e amplifica ruídos. A verdade disputa espaço com versões, e o julgamento público torna-se cada vez mais apressado.

O Brasil de 2026 é, portanto, um país tensionado entre a descrença e a esperança. Descrença nas instituições, nos líderes, nas promessas reiteradamente descumpridas. Esperança difusa de que algo, em algum momento, rompa o ciclo. A sociedade parece dizer: “já vimos esse filme”, mas continua assistindo, na expectativa de um final diferente.

O desafio maior não é apenas econômico ou político; é civilizatório. Trata-se de reconstruir confiança — ativo invisível, porém essencial. Sem ela, reformas não prosperam, pactos não se sustentam, e a democracia se fragiliza. Com ela, mesmo cenários adversos podem ser enfrentados com coesão.

Enquanto isso, o bingo segue. As bolas continuam a girar no globo transparente da vida nacional. Resta saber se, desta vez, o país terá a lucidez de não apenas marcar números, mas de mudar as regras do jogo.
Gaudêncio Torquato

EUA usam religião para justificar 'guerra santa' contra Irã

Aconteceu no gélido inverno de 2003 no Palácio do Eliseu. O objetivo da ligação do então presidente americano George W. Bush para Jacque Chirac, à época chefe do Executivo francês, era assegurar o apoio de Paris à iminente invasão americana no Iraque. Cerca de uma hora depois, após um protocolar “até breve”, o sisudo político encarou seus auxiliares mais próximos com ar atipicamente atarantado. E pediu que lhe explicassem quem eram, afinal de contas, os tais Gog e Magog de quem o republicano tanto falara na conversa. Silêncio. O mistério só foi resolvido após a convocação de um teólogo suíço, especializado no Antigo Testamento, que os iluminou sobre os textos bíblicos do profeta Ezequiel em torno das representações do mal.

A história, confirmada anos depois por pessoas diretamente envolvidas no arremedo de incidente diplomático, ressuscitou este mês na mente do professor Juan Cole. O déjà vu se deu quando o catedrático em Religião e Oriente Médio da Universidade de Michigan atentou para as imagens e falas, na Casa Branca e no Pentágono, que, após hiato de duas décadas, mesclavam intencionalmente fervor religioso e conflito bélico, agora em meio ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado há quatro semanas. E, sublinha o acadêmico, com potencial de estrago ainda maior.


No último dia 5, duas dezenas de pastores — 19 homens e duas mulheres — oraram no Salão Oval da Casa Branca pelo presidente Donald Trump. E para “Deus proteger nossos soldados”. Os mais ao centro posicionaram suas mãos no corpo do republicano. Vídeo e foto divulgados viralizaram. Na cena, todas as cabeças, inclusive a de Trump, que, diferentemente de Bush, não é evangélico ou especialmente religioso, estão voltadas para o chão, os olhos fechados, em expressões respeitosas.

Vinte dias depois, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, protagonizou um ato religioso no Pentágono em que citou trechos bíblicos para justificar o ataque. A esta altura, o bombardeio a uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, com a morte confirmada por Teerã de 175 pessoas, já havia se tornado o episódio mais escandaloso do conflito. Na cerimônia em Washington, o veterano militar de missões no Iraque e Afeganistão pediu a Deus que “arrancasse os dentes” e destruísse “os inimigos ímpios”, “não merecedores de misericórdia”. Eles, seguiu, devem ser “lançados à condenação eterna, à qual estão destinados”. Também conclamou o “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”.

— Usa-se novamente no governo americano a linguagem da “guerra santa”, um arremedo de cruzada contemporânea, mas não por um presidente crente, contido por oficiais graduados e auxiliares ciosos em reafirmar a separação de Estado e religião estabelecida na Constituição, como na época de Bush, e, sim, por quem está no comando das operações militares — afirma Cole.

A Fundação Militar para Liberdade Religiosa, organização independente fundada dois anos após a invasão do Iraque, que defende soldados e oficiais americanos às voltas com discriminação religiosa, informou ter recebido, desde o início do ataque ao Irã, mais de 200 reclamações formais de proselitismo coercitivo, inclusive por fuzileiros navais.

No ano em que os EUA se preparam para celebrar 250 anos de independência e a afirmação dos valores democráticos, a contaminação da operação contra o Irã pela religião destilada como ideologia é um sinal amarelo para defensores da Primeira Emenda da Constituição, que assegura a liberdade religiosa no país.

— Os EUA não são um espelho exato para a teocracia iraniana, mas a discussão sobre a invasão da religião na argamassa democrática do país é urgente, uma provocação pertinente — diz Cole. — Esta guerra não tem como razão central o embate religioso, mas ele auxilia a Casa Branca em dois aspectos. Por um lado, escamoteia a falta de estratégia geopolítica, a carência de objetivos claros e factíveis. Por outro, em momento de crescente impopularidade de Trump, dialoga com parte importante de sua coalizão. No cálculo dos governistas, os evangélicos formam um quarto dos que de fato sairão de casa para votar em novembro.

Em sete meses, os americanos escolherão quem comandará o Congresso, além de governadores e Legislativos estaduais. Pesquisas indicam o favoritismo dos democratas para retomarem o comando da Câmara e, ainda que menos provável, o Senado. O que seria, nas palavras do próprio presidente, “o fim de meu governo”, com “mais um impeachment a enfrentar”. E neste caso Trump está coberto de razão.

O ataque ao Irã sem um plano de saída claro pode ter sido o maior passo em falso da segunda temporada do republicano na Casa Branca. Trump hoje amarga 56% de rejeição ao seu governo no monitoramento semanal do YouGov/Economist, responsabilizado pelo aumento da gasolina e do custo de vida como sequela direta de um conflito ainda sem fim no horizonte. E, destaca ao GLOBO Stephen Duncombe, diretor do Centro de Pesquisas de Ativismo e Arte da Universidade de Nova York (NYU), seu desespero se reflete na tentativa de reviver à direita um “messianismo medieval cristão datado e fora de lugar em democracias liberais”.

— E dentre os motivos, além de mais perda de vidas no país, e da eliminação em sequência de líderes, deve-se incluir a retórica da violência, aumentada por todos os lados na esfera religiosa — pondera Duncombe.

Ele lembra ainda que a denúncia do uso de termos como “Grande Satã” pelo Irã, em referência aos EUA, deve ser acompanhada da correspondente condenação a uma “reinterpretação desonesta” do cristianismo, propagada em “neocruzadas contra países com populações majoritariamente muçulmanas”. E que a apropriação desonesta de “imaginários mítico-religiosos” para avançar pautas ideológicas não se restringe ao Irã e ao trumpismo.

Assim como Bush e Hegseth, o premier Benjamin Netanyahu, logo no primeiro dia do conflito, revisitou as origens do Purim, celebrado este ano nos dias 2 e 3 de março. Buscou estabelecer paralelo direto, 2.500 anos depois, entre a ameaça ao povo judeu pelo império dos Aquemênidas, na Pérsia Antiga, e o governo dos aiatolás, que prega a eliminação de Israel.

Cole lembra que há razões terrenas, distantes da mitologia de Gog e Magog revisitadas por Bush, para a atual ênfase no uso da religião como propaganda de guerra pelos governos do Likud, de Netanyahu, e do Partido Republicano, de Trump. O premier israelense depende dos ortodoxos para seguir no poder após as eleições gerais, que é obrigado a convocar até outubro. E o trumpismo “se debate com o número recorde de americanos sem religião no país”, 30% de acordo com pesquisa do Pew Research Center no ano passado, além de crescente oposição ao atrelamento da política externa americana a Israel no Oriente Médio, especialmente após Gaza:

— Este pode ser um dos últimos suspiros da manipulação do imaginário medieval cristão com potencial decisivo de voto. Ainda assim, os aspectos simbólicos e a violência por motivação religiosa precisam ser ainda mais dissecados e combatidos do que em 2003.

Ao mesmo tempo, lembra Duncombe, isso se dá quando o Partido Democrata arrisca traçar novas linhas entre o exercício da fé e a política:

— Zohran Mamdani, muçulmano, venceu com folga a prefeitura de Nova York ano passado apresentando sua ética religiosa como trunfo. E a denúncia de abusos pela comunidade latina, em sua maioria católica, por agentes de imigração, teve enorme eco na Igreja, prenunciando uma disputa pelo voto cristão, especialmente em estrato que parecia migrar para o flanco conservador.