terça-feira, 31 de março de 2026
A contradição entre o moderado Flávio e o radicalismo no palco dos EUA
A política brasileira é fértil em espetáculos, mas raramente no picadeiro da subserviência. Porém, o que se viu recentemente nos Estados Unidos ultrapassa os limites do razoável.
Flávio Bolsonaro, que muitos tentam empacotar e vender como a face “moderada” do clã, resolveu chutar o balde e a lógica em um evento conservador no Texas.
Ao microfone, com um inglês claudicante e um esforço visível para agradar, o senador não apenas pediu socorro, ele ofereceu o Brasil de bandeja.
Não é de hoje que os Bolsonaro buscam no estrangeiro a validação que o voto popular lhes retirou. Mas Flávio foi além do pai. Enquanto Jair se limitava a cochichos de pé de ouvido com autoridades americanas, o filho resolveu escancarar a serventia em público, diante de câmeras e de uma plateia ávida por retórica reacionária.
O senador chegou ao ponto de sugerir que Brasil e EUA nasceram um para o outro e que temos muito para dar em troca de… “ajuda”. Minerais Críticos, por exemplo. É a entrega total da soberania por um afago político.
Mais grave ainda é o ataque sistemático às nossas instituições. Flávio foi dizer lá fora que não temos democracia por aqui, ignorando (ou fingindo ignorar) que rankings internacionais seríssimos, como o da Universidade de Gotemburgo, colocam o Brasil hoje à frente dos próprios Estados Unidos em solidez democrática. Ele joga com a dúvida, tenta sabotar a confiança nas urnas e sinaliza que, se perder a eleição, é por contagem errada de votos.
Ao atacar a China, nosso maior parceiro comercial, e se colocar como um “vendedor” das riquezas nacionais, Flávio mostra um amadorismo perigoso.
É o velho método bolsonarista de dar tiro no próprio pé, mas, desta vez, o cano da arma está apontado para os interesses estratégicos do Estado brasileiro.
A moderação era apenas uma máscara que caiu no Texas. Surpresa? Zero.
Flávio Bolsonaro, que muitos tentam empacotar e vender como a face “moderada” do clã, resolveu chutar o balde e a lógica em um evento conservador no Texas.
Ao microfone, com um inglês claudicante e um esforço visível para agradar, o senador não apenas pediu socorro, ele ofereceu o Brasil de bandeja.
Não é de hoje que os Bolsonaro buscam no estrangeiro a validação que o voto popular lhes retirou. Mas Flávio foi além do pai. Enquanto Jair se limitava a cochichos de pé de ouvido com autoridades americanas, o filho resolveu escancarar a serventia em público, diante de câmeras e de uma plateia ávida por retórica reacionária.
O senador chegou ao ponto de sugerir que Brasil e EUA nasceram um para o outro e que temos muito para dar em troca de… “ajuda”. Minerais Críticos, por exemplo. É a entrega total da soberania por um afago político.
Mais grave ainda é o ataque sistemático às nossas instituições. Flávio foi dizer lá fora que não temos democracia por aqui, ignorando (ou fingindo ignorar) que rankings internacionais seríssimos, como o da Universidade de Gotemburgo, colocam o Brasil hoje à frente dos próprios Estados Unidos em solidez democrática. Ele joga com a dúvida, tenta sabotar a confiança nas urnas e sinaliza que, se perder a eleição, é por contagem errada de votos.
Ao atacar a China, nosso maior parceiro comercial, e se colocar como um “vendedor” das riquezas nacionais, Flávio mostra um amadorismo perigoso.
É o velho método bolsonarista de dar tiro no próprio pé, mas, desta vez, o cano da arma está apontado para os interesses estratégicos do Estado brasileiro.
A moderação era apenas uma máscara que caiu no Texas. Surpresa? Zero.
Cidadãos! Por que fazemos tão pouco uso da democracia?
Num país, após os primeiros anos de introdução da democracia, a percentagem das abstenções não cessa de aumentar, mantendo-se geralmente à volta dos 50%. Os cidadãos de países com modelos de democracia muito pouco democráticos constatam, eleição após eleição, que nenhum governo ou poder local faz aquilo com que se comprometeu durante a campanha eleitoral. Todos eles fazem o que muito bem lhes apetece ou convém, de acordo com os seus interesses particulares ou com os interesses dos grupos que os financiam.
A possibilidade dos cidadãos participarem na tomada de decisões do Poder Central é nula. Pela mesma razão, a participação destes nas assembleias municipais e de freguesia é insignificante. Acresce que absolutamente nada na sociedade tem um caráter democrático: todas as estruturas e organizações do país, sejam elas públicas ou privadas, desde os serviços públicos aos estabelecimentos de ensino, incluindo todas as empresas privadas, hospitais e centros de saúde (que deveriam ser cooperativas), têm uma organização fortemente hierárquica e estão fechadas à democracia e ao cidadão.
Chamem a isto o que quiserem, mas não democracia.
Em toda a Europa, a confiança dos cidadãos nos governos e nas instituições está no seu nível mais baixo de sempre.
Em democracia, o poder máximo e a responsabilidade final das decisões e compromissos tomados pelos órgãos de poder, residem, de facto, no coletivo de todos os cidadãos. É em nome dos cidadãos que as decisões são tomadas, são os cidadãos que encaixam as consequências e tudo pagam.
Quando a administração e a gestão de um país funcionam mal, ou muitíssimo mal, durante um longo período, é expectável que a credibilidade do sistema político seja praticamente nula e que a prevalência da angústia, da depressão e da sensação de revolta sejam elevadas. A sociedade torna-se cruel e doentia, muito penosa e difícil de suportar para a maioria das pessoas, particularmente para as crianças e as mulheres.
Democratizar a sociedade é fazê-la mais humana, social e eficiente, é torná-la menos tóxica e stressante.
Os municípios e as juntas de freguesia têm todo o interesse em se tornarem entidades legítimas, do ponto de vista social e ético. Para tal precisam de pedir, de suplicar aos cidadãos que ajudem a definir e a implementar o que acham que é, realmente importante. Sem uma sociedade civil viva e sem cidadãos independentes e ativos, não há uma democracia que mereça esse nome.
A sociedade civil, viva e livre, é o motor e o coração da democracia, é o garante da justiça, da liberdade e do bem-estar de todos os cidadãos.
O que as freguesias e os municípios têm de fazer:
Democracia representativa. As reuniões do executivo das freguesias e dos municípios são presenciais e abertas a todos os cidadãos. O executivo organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Nestas reuniões, existe sempre um ponto da ordem de trabalhos reservado às intervenções dos cidadãos;As reuniões da assembleia das freguesias e dos municípios são mensais, presenciais e abertas a todos os cidadãos. A assembleia organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Em cada reunião da assembleia há um tema, acordado de antemão e tornado público, de discussão e debate aprofundado entre todos os presentes, membros da assembleia e cidadãos. A assembleia prepara o debate e faculta a informação necessária. Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem ou participam individualmente. O debate encerra com conclusões e um plano de ação.
Democracia direta. O executivo das freguesias e dos municípios elabora e coordena a discussão pública de um plano anual para motivar, apoiar e facilitar reuniões, não partidárias, de cidadãos, incentivar e facilitar a constituição de grupos de trabalho de cidadãos, a criação de organizações de cidadãos, cooperativas e associações, a organização de debates e palestras entre cidadãos (À conversa com …). Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem (por ex. associações informais) ou participam individualmente, onde e quando quiserem. Estas são iniciativas independentes, de cidadãos, abertas a todos os cidadãos, de todas as idades, particularmente aos jovens e às mulheres. Os cidadãos elaboram, de forma autónoma, as suas respostas, aos seus problemas e integram-nas na vida democrática da sociedade através de ações cívicas, locais ou nacionais.
Formar, nas organizações cívicas locais, as novas gerações de políticos, autarcas e governantes.
A possibilidade dos cidadãos participarem na tomada de decisões do Poder Central é nula. Pela mesma razão, a participação destes nas assembleias municipais e de freguesia é insignificante. Acresce que absolutamente nada na sociedade tem um caráter democrático: todas as estruturas e organizações do país, sejam elas públicas ou privadas, desde os serviços públicos aos estabelecimentos de ensino, incluindo todas as empresas privadas, hospitais e centros de saúde (que deveriam ser cooperativas), têm uma organização fortemente hierárquica e estão fechadas à democracia e ao cidadão.
Chamem a isto o que quiserem, mas não democracia.
Em toda a Europa, a confiança dos cidadãos nos governos e nas instituições está no seu nível mais baixo de sempre.
Em democracia, o poder máximo e a responsabilidade final das decisões e compromissos tomados pelos órgãos de poder, residem, de facto, no coletivo de todos os cidadãos. É em nome dos cidadãos que as decisões são tomadas, são os cidadãos que encaixam as consequências e tudo pagam.
Quando a administração e a gestão de um país funcionam mal, ou muitíssimo mal, durante um longo período, é expectável que a credibilidade do sistema político seja praticamente nula e que a prevalência da angústia, da depressão e da sensação de revolta sejam elevadas. A sociedade torna-se cruel e doentia, muito penosa e difícil de suportar para a maioria das pessoas, particularmente para as crianças e as mulheres.
Democratizar a sociedade é fazê-la mais humana, social e eficiente, é torná-la menos tóxica e stressante.
Os municípios e as juntas de freguesia têm todo o interesse em se tornarem entidades legítimas, do ponto de vista social e ético. Para tal precisam de pedir, de suplicar aos cidadãos que ajudem a definir e a implementar o que acham que é, realmente importante. Sem uma sociedade civil viva e sem cidadãos independentes e ativos, não há uma democracia que mereça esse nome.
A sociedade civil, viva e livre, é o motor e o coração da democracia, é o garante da justiça, da liberdade e do bem-estar de todos os cidadãos.
O que as freguesias e os municípios têm de fazer:
Democracia representativa. As reuniões do executivo das freguesias e dos municípios são presenciais e abertas a todos os cidadãos. O executivo organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Nestas reuniões, existe sempre um ponto da ordem de trabalhos reservado às intervenções dos cidadãos;As reuniões da assembleia das freguesias e dos municípios são mensais, presenciais e abertas a todos os cidadãos. A assembleia organiza-se de forma a obter uma elevada presença e participação dos cidadãos, particularmente dos jovens e das mulheres. Em cada reunião da assembleia há um tema, acordado de antemão e tornado público, de discussão e debate aprofundado entre todos os presentes, membros da assembleia e cidadãos. A assembleia prepara o debate e faculta a informação necessária. Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem ou participam individualmente. O debate encerra com conclusões e um plano de ação.
Democracia direta. O executivo das freguesias e dos municípios elabora e coordena a discussão pública de um plano anual para motivar, apoiar e facilitar reuniões, não partidárias, de cidadãos, incentivar e facilitar a constituição de grupos de trabalho de cidadãos, a criação de organizações de cidadãos, cooperativas e associações, a organização de debates e palestras entre cidadãos (À conversa com …). Os cidadãos organizam-se como muito bem entenderem (por ex. associações informais) ou participam individualmente, onde e quando quiserem. Estas são iniciativas independentes, de cidadãos, abertas a todos os cidadãos, de todas as idades, particularmente aos jovens e às mulheres. Os cidadãos elaboram, de forma autónoma, as suas respostas, aos seus problemas e integram-nas na vida democrática da sociedade através de ações cívicas, locais ou nacionais.
Formar, nas organizações cívicas locais, as novas gerações de políticos, autarcas e governantes.
Fazer IA é caro mesmo para fortunas do Vale do Silício
Na planilha, a Anthropic planeja chegar ao azul em 2028 — daqui a dois anos. A OpenAI, em 2030. Para chegar ao azul, a primeira companhia espera gastar US$ 22 bilhões de seus investidores. Fazer inteligência artificial é bastante caro. A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões. Fazer IA pode ser até muito mais que bastante caro. E, até aqui, os dois modelos das duas companhias, Claude e GPT, são equivalentes. É virtualmente impossível, para quem usa ambos pesadamente, dizer que um é realmente melhor que o outro. Então onde está a diferença? O que se compra com US$ 200 bi que US$ 20 bi não pagam?
Na última semana, a OpenAI tirou do ar o Sora, seu modelo de vídeo por inteligência artificial. Quando foi lançado, há um ano, era o mais revolucionário sistema para criar vídeos. Hoje, pelo menos dois modelos chineses são superiores, e o VEO, do Google, é melhor em alguns aspectos. Mas, graças ao Sora, a Disney havia se comprometido a investir US$ 1 bilhão na companhia. Ainda assim, os números não fecham.
O negócio da inteligência artificial gasta dinheiro de duas maneiras. Uma é treinando um modelo — qualquer modelo. Modelo de texto, de música, de imagem, de vídeo. Muito caro e, quanto mais sofisticado, mais caro. Mas esse é o custo pequeno. O custo realmente alto está no uso. Uma pergunta a uma IA de ponta pode custar até 50 vezes uma pergunta feita ao Google. E o preço já caiu. Em 2023, chegava a cem vezes. Esse valor é uma soma de eletricidade para processamento e refrigeração, custo do equipamento e o necessário para operar um data center.
Então, qual a diferença entre OpenAI e Anthropic? A diferença é que todo mundo já ao menos ouviu falar do ChatGPT, mas só quem está um pouco mais atento conhece o Claude. No fim, é isso que US$ 180 bilhões compram. A OpenAI teve sorte e, dentro dessa sorte, desenhou uma estratégia. A sorte foi o ChatGPT.
Um modelo de linguagem pode ter muitos usos distintos. Poderia ser um botão para resumir textos, uma janela de busca para encontrar respostas. Quando ligou seu modelo GPT a uma janela de chat, a OpenAI bolou um truque para demonstrar o potencial da tecnologia. Só que o ChatGPT deu muito certo. O jeito de demonstrar se tornou tão popular que, para muita gente, IA só existe na forma de chat. E o termo ChatGPT virou uma marca com a força de Gilette ou Google. É sinônimo de uma tecnologia.
A maneira tradicional de empresas do Vale do Silício crescerem é pegar dinheiro dos investidores e usar para atrair uma base extensa de clientes. A esperança é que, quando reunir gente o suficiente, via propaganda ou assinatura, o investimento se paga. Busca virou negócio assim, redes sociais idem. Só que IA é muitas vezes mais cara.
Ainda assim, nos primeiros dois anos, a OpenAI não economizou recursos. Desenvolveu um excelente modelo de linguagem, um excelente modelo de imagem, um excelente modelo de vídeo e fez bastante para que todos pudessem usar de graça. Gastou ainda outro tanto comprando uma empresa que desenhará máquinas de IA — para os ouvidos, para as mãos, para pendurar no pescoço ou colocar na cara. Ninguém sabe bem como serão.
Enquanto isso, a Anthropic foi crescendo devagarinho, buscando principalmente clientes corporativos. Investindo quase inteiramente num modelo de linguagem, sem imagem, sem vídeo. Com o objetivo principal não de resolver as dúvidas de pessoas físicas, mas de encarar os dilemas de grandes empresas. Sua aposta foi no mercado corporativo. Assim, tendo gastado incrivelmente menos, com uma conta gratuita muito limitada, o Claude chega a 2026 tão bom quanto o GPT, e a Anthropic muito mais competitiva que a OpenAI.
Não está dado que a empresa mais famosa perderá a partida, mas ela está em maus lençóis. Tentou oferecer um GPT gratuito com propaganda — e a concorrente fez propaganda ironizando. Pegou tão mal a ideia de pôr publicidade na IA que a OpenAI voltou atrás. Ao menos por enquanto.
O dinheiro do Vale do Silício é enorme, mas tem limite. A OpenAI depende, como nunca, de o mundo adotar IA o mais rápido possível.
Na última semana, a OpenAI tirou do ar o Sora, seu modelo de vídeo por inteligência artificial. Quando foi lançado, há um ano, era o mais revolucionário sistema para criar vídeos. Hoje, pelo menos dois modelos chineses são superiores, e o VEO, do Google, é melhor em alguns aspectos. Mas, graças ao Sora, a Disney havia se comprometido a investir US$ 1 bilhão na companhia. Ainda assim, os números não fecham.
O negócio da inteligência artificial gasta dinheiro de duas maneiras. Uma é treinando um modelo — qualquer modelo. Modelo de texto, de música, de imagem, de vídeo. Muito caro e, quanto mais sofisticado, mais caro. Mas esse é o custo pequeno. O custo realmente alto está no uso. Uma pergunta a uma IA de ponta pode custar até 50 vezes uma pergunta feita ao Google. E o preço já caiu. Em 2023, chegava a cem vezes. Esse valor é uma soma de eletricidade para processamento e refrigeração, custo do equipamento e o necessário para operar um data center.
Então, qual a diferença entre OpenAI e Anthropic? A diferença é que todo mundo já ao menos ouviu falar do ChatGPT, mas só quem está um pouco mais atento conhece o Claude. No fim, é isso que US$ 180 bilhões compram. A OpenAI teve sorte e, dentro dessa sorte, desenhou uma estratégia. A sorte foi o ChatGPT.
Um modelo de linguagem pode ter muitos usos distintos. Poderia ser um botão para resumir textos, uma janela de busca para encontrar respostas. Quando ligou seu modelo GPT a uma janela de chat, a OpenAI bolou um truque para demonstrar o potencial da tecnologia. Só que o ChatGPT deu muito certo. O jeito de demonstrar se tornou tão popular que, para muita gente, IA só existe na forma de chat. E o termo ChatGPT virou uma marca com a força de Gilette ou Google. É sinônimo de uma tecnologia.
A maneira tradicional de empresas do Vale do Silício crescerem é pegar dinheiro dos investidores e usar para atrair uma base extensa de clientes. A esperança é que, quando reunir gente o suficiente, via propaganda ou assinatura, o investimento se paga. Busca virou negócio assim, redes sociais idem. Só que IA é muitas vezes mais cara.
Ainda assim, nos primeiros dois anos, a OpenAI não economizou recursos. Desenvolveu um excelente modelo de linguagem, um excelente modelo de imagem, um excelente modelo de vídeo e fez bastante para que todos pudessem usar de graça. Gastou ainda outro tanto comprando uma empresa que desenhará máquinas de IA — para os ouvidos, para as mãos, para pendurar no pescoço ou colocar na cara. Ninguém sabe bem como serão.
Enquanto isso, a Anthropic foi crescendo devagarinho, buscando principalmente clientes corporativos. Investindo quase inteiramente num modelo de linguagem, sem imagem, sem vídeo. Com o objetivo principal não de resolver as dúvidas de pessoas físicas, mas de encarar os dilemas de grandes empresas. Sua aposta foi no mercado corporativo. Assim, tendo gastado incrivelmente menos, com uma conta gratuita muito limitada, o Claude chega a 2026 tão bom quanto o GPT, e a Anthropic muito mais competitiva que a OpenAI.
Não está dado que a empresa mais famosa perderá a partida, mas ela está em maus lençóis. Tentou oferecer um GPT gratuito com propaganda — e a concorrente fez propaganda ironizando. Pegou tão mal a ideia de pôr publicidade na IA que a OpenAI voltou atrás. Ao menos por enquanto.
O dinheiro do Vale do Silício é enorme, mas tem limite. A OpenAI depende, como nunca, de o mundo adotar IA o mais rápido possível.
Fazendo retrospectiva de um país complicado
Esta é a minha última coluna para a Deutsche Welle Brasil. Por causa de cortes impostos pelo governo alemão à DW, minha contribuição mensal foi encerrada.
Durante cerca de oito anos, escrevi, em média, uma coluna por mês – e sou sinceramente grato por isso. Esse trabalho sempre me fez pensar sobre o Brasil, esse país que não é para iniciantes. E também me deu a chance de compartilhar minhas impressões como um alemão que vive aqui, com um público às vezes maior, às vezes menor – sempre curioso pelas reações. Algumas colunas circularam bastante. Recebi apoio, mas também fui xingado: já fui chamado de comunista que deveria ir para Cuba e de nazista que deveria voltar para a Alemanha. Fiquei no Brasil.
De vez em quando – e essas eram as mensagens que eu mais gostava – havia leitores que realmente liam o texto inteiro (e não só o título, como parece ser o padrão hoje em dia), apontavam erros ou acrescentavam algo interessante. Algumas colunas chegaram até a provocar reações na política brasileira: o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por exemplo, se irritou com um texto; já Fernando Haddad, então candidato à presidência, concordou com outro – o que levou Jair Bolsonaro a contestá-lo.
Ao longo desses anos, algumas coisas ficaram claras para mim. Uma delas: bastava aparecer o nome Bolsonaro para os cliques e comentários dispararem. Já quando o assunto era meio ambiente ou povos indígenas o interesse costumava ser bem menor. Outra constatação curiosa: há certas ideias que unem direita e esquerda, como a convicção de que os parlamentos brasileiros estão cheio de figuras corruptas. Mas apesar desse consenso, nada muda – e os eleitores continuam escolhendo essas mesmas figuras, de novo e de novo.
Vivo aqui há mais de 13 anos e viajei por quase todo o país: de aldeias indígenas isoladas na Amazônia aos vinhedos do Rio Grande do Sul, do Pantanal a Salvador. Para mim, como jornalista, o Brasil sempre foi um lugar generoso, porque sempre havia algo acontecendo, algo que valia a pena contar – e que despertava interesse na Europa.
Quando cheguei, o Brasil ainda era visto como "o país do futuro". Era aqui que o século 21 iria acontecer. Falava-se de uma futura superpotência econômica, de um país com peso crescente na política internacional, com influência cultural e esportiva em expansão – e de uma sociedade miscigenada que poderia servir de exemplo para o mundo.
Naquela época, o Brasil era o país convidado da maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, e o novo papa argentino vinha ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estavam a caminho. O mundo inteiro olhava para o Brasil.
Então vieram, de repente, as manifestações de 2013 – e todo mundo, inclusive os próprios brasileiros, se perguntava: o que está acontecendo aqui? De onde vem tanta insatisfação? Por que esse levante às vésperas da Copa? E por que tanta violência, especialmente por parte da polícia militar? A partir daí, passei boa parte do tempo tentando explicar aos leitores na Alemanha, Áustria e Suíça como o Brasil funciona – bem mais conservador do que muitos imaginam, sobretudo aqueles que conhecem apenas os clichês do Carnaval, que têm bossa nova e samba no ouvido e talvez tenham visto um filme de Walter Salles. Para mim também foi um aprendizado ver como protestos que começaram à esquerda, impulsionados por estudantes, acabaram desembocando em pedidos por um golpe militar.
Veio então o 7 a 1 – um momento que, de certa forma, resumiu o sentimento de muitos brasileiros: decepção, frustração, raiva. E, ao mesmo tempo, algo muito típico apareceu ali: a capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça. Ainda no intervalo, com 5 a 0 no placar, já circulavam piadas – e até cerveja grátis.
Caixa de Pandora
No ano seguinte, Dilma Rousseff venceu novamente as eleições – apenas para pouco depois enfrentar um processo de impeachment bastante forçado. Era o período em que os enormes escândalos de corrupção envolvendo Petrobras e Odebrecht vinham à tona, revelando mais uma vez a profundidade das relações criminosas entre política e grandes empresas.
O Centrão, que sempre tem grande influência nos bastidores, achou que poderia se beneficiar da queda de Dilma. Na prática, acabou abrindo a caixa de Pandora. Dela saiu, como um personagem improvável, Jair Bolsonaro – um político de extrema direita que, em condições normais, dificilmente seria aceitável – mas que conquistou muitos brasileiros com seu discurso ignorante, violento e de um individualismo radical.
Passei então a explicar aos leitores europeus esse fenômeno. Era preciso falar do crescimento das igrejas evangélicas conservadoras, do peso do agronegócio, da música sertaneja, da visão muitas vezes positiva da ditadura militar e das posições bastante conservadoras de boa parte da sociedade em temas como armas, aborto e direitos LGBTI.
Talvez o momento mais intenso tenha sido em 2019, quando a Amazônia parecia estar em chamas. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo. Bolsonaro parecia disposto a cumprir sua promessa de abrir a floresta a um suposto progresso a qualquer custo. Nunca trabalhei tanto quanto naquela época. E isso também revela um contraste: na Europa, tudo o que envolve a Amazônia interessa muito; no Brasil, nem sempre. No fim, Bolsonaro não caiu por sua política ambiental, mas pela condução desastrosa da pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros e derrubou o real a níveis históricos.
Com a eleição de Lula – que hoje, em certos aspectos, lembra um caudilho que não quer largar o poder – o Brasil voltou a uma certa normalidade. Para jornalistas, isso raramente é boa notícia. E, de fato, o interesse europeu pelo país diminuiu bastante desde então.
Ao longo desses anos, acompanhei inúmeras tragédias: o incêndio da boate Kiss, os desastres – muitos dizem crimes – de Mariana e Brumadinho, o incêndio do Museu Nacional no Rio, as enchentes no Rio Grande do Sul, a crise humanitária do povo Yanomami, entre tantas outras.
Algumas dessas catástrofes também tinham a ver com a tendência brasileira de se contentar com a improvisação, algo que, como alemão, também me chamou atenção repetidas vezes no dia a dia. O proprietário do primeiro apartamento que aluguei, por exemplo, insistia em sempre instalar o mesmo modelo barato de descarga – que não resistia mais do que alguns meses por causa da pressão da água. No fim, acabava gastando mais do que teria gasto se tivesse optado por um produto de qualidade. Ainda assim, não havia meio de convencê-lo disso, e ele continuava comprando o mesmo modelo.
Outra impressão minha é de que o Brasil gira em círculos, condenado a se repetir eternamente. Fui assaltado três vezes no Rio ao longo dos anos como quase todos que vivem aqui: com faca, com arma e à força (cinco contra um). Parece ser uma velha tradição carioca. É claro, já tive o celular roubado no Carnaval. Em várias ocasiões cometi o erro clássico de quem chega ao Brasil: emprestar dinheiro a brasileiros e esperar que, apesar de juramentos solenes, um dia fosse devolvido. Em vez disso, fui bloqueado ou insultado sempre que perguntei pelo dinheiro. Na segurança pública, a rotina parece imutável: operações policiais nas favelas que repetidamente aumentam o número de mortos, sem melhorar a vida de ninguém.
A mesmice domina também quando ligo a televisão ou o rádio: há mais de uma década vejo e ouço na Globo as mesmas faces e vozes que interpretam o mundo para os brasileiros, como se não existissem rostos novos – mais jovens, mais dinâmicos, com perspectivas mais surpreendentes.
Outro círculo eterno: quando chove forte e venta no meu bairro, no Rio, a luz cai com regularidade e os transformadores explodem com um estrondo. A ideia de que os cabos elétricos deveriam estar enterrados parece, em muitos bairros cariocas, um segredo guardado a sete chaves. Nas chuvas intensas, o centro do Rio continua alagando, como pude experimentar pela primeira vez já em 2013, quando o atravessei a rua com água até os joelhos. Falando de ruas: a rua em frente à minha casa foi totalmente recapeada há quatro anos – e já voltou a apresentar buracos, ondulações e incontáveis irregularidades. No trânsito, a regra parece ser não parar na faixa de pedestres quando alguém quer atravessar. Prefere-se correr o risco de atropelar a frear com prudência.
Prosseguindo com as calamidades do cotidiano: a água que sai da minha torneira é, às vezes, amarelada, às vezes acastanhada, apesar de uma conta de água bastante salgada. O brasileiro gosta de ir à praia, gosta de exercícios e de se exibir, gosta de estar ao sol, gosta de uma aparência pessoal e em casa impecável. Mas o espaço público lhe importa bem menos. Em Copacabana e em Ipanema, as praias, após qualquer fim de semana ensolarado, transformam-se em verdadeiros lixões – e só voltam ao que deveriam ser graças aos heróis sem nome da Comlurb.
Reconheço: embora emblemáticas, essas observações são aparentemente irrelevantes e desconexas diante do maior escândalo de todos. Após duas décadas de governos do PT, as escolas públicas brasileiras continuam sendo um desastre – e seus alunos, em sua maioria mais pobres, mal têm chance de chegar à universidade. O fato de Lula jamais ter feito um esforço federal consistente para mudar isso é, para mim, a principal crítica a ser feita. É aí que o potencial do Brasil está soterrado – não no agronegócio, que consome terras e devasta florestas e rios. O volume de talento desperdiçado nas escolas públicas brasileiras é a grande tragédia deste país.
Às vezes, tenho a impressão de que os brasileiros não percebem isso porque, de algum modo, se habituaram a ser enganados por suas elites arrogantes e culturalmente empobrecidas. Mas também é verdade que a indignação ruidosa com a corrupção alheia, com frequência, não passa de inveja por não estar perto dos cofres.
E ainda assim, nada disso traduz o que o Brasil é em sua essência mais profunda. Para mim, é a musicalidade intensa e difusa dos brasileiros, a imensa alegria de viver, a generosidade tão frequente, a extraordinária capacidade de se comunicar, a criatividade vibrante e a necessidade constante de se expressar, além da abertura ao outro.
É também a resiliência dos mais pobres, a solidariedade espontânea e a disposição de ajudar e a gentileza que muitos brasileiros demonstram nos momentos que realmente importam. E é, sobretudo, esse humor inabalável e a convicção de que o amanhã será melhor – mesmo quando o ontem foi difícil.
E com isso, me despeço.
Durante cerca de oito anos, escrevi, em média, uma coluna por mês – e sou sinceramente grato por isso. Esse trabalho sempre me fez pensar sobre o Brasil, esse país que não é para iniciantes. E também me deu a chance de compartilhar minhas impressões como um alemão que vive aqui, com um público às vezes maior, às vezes menor – sempre curioso pelas reações. Algumas colunas circularam bastante. Recebi apoio, mas também fui xingado: já fui chamado de comunista que deveria ir para Cuba e de nazista que deveria voltar para a Alemanha. Fiquei no Brasil.
De vez em quando – e essas eram as mensagens que eu mais gostava – havia leitores que realmente liam o texto inteiro (e não só o título, como parece ser o padrão hoje em dia), apontavam erros ou acrescentavam algo interessante. Algumas colunas chegaram até a provocar reações na política brasileira: o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, por exemplo, se irritou com um texto; já Fernando Haddad, então candidato à presidência, concordou com outro – o que levou Jair Bolsonaro a contestá-lo.
Ao longo desses anos, algumas coisas ficaram claras para mim. Uma delas: bastava aparecer o nome Bolsonaro para os cliques e comentários dispararem. Já quando o assunto era meio ambiente ou povos indígenas o interesse costumava ser bem menor. Outra constatação curiosa: há certas ideias que unem direita e esquerda, como a convicção de que os parlamentos brasileiros estão cheio de figuras corruptas. Mas apesar desse consenso, nada muda – e os eleitores continuam escolhendo essas mesmas figuras, de novo e de novo.
Vivo aqui há mais de 13 anos e viajei por quase todo o país: de aldeias indígenas isoladas na Amazônia aos vinhedos do Rio Grande do Sul, do Pantanal a Salvador. Para mim, como jornalista, o Brasil sempre foi um lugar generoso, porque sempre havia algo acontecendo, algo que valia a pena contar – e que despertava interesse na Europa.
Quando cheguei, o Brasil ainda era visto como "o país do futuro". Era aqui que o século 21 iria acontecer. Falava-se de uma futura superpotência econômica, de um país com peso crescente na política internacional, com influência cultural e esportiva em expansão – e de uma sociedade miscigenada que poderia servir de exemplo para o mundo.
Naquela época, o Brasil era o país convidado da maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, e o novo papa argentino vinha ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude. Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estavam a caminho. O mundo inteiro olhava para o Brasil.
Então vieram, de repente, as manifestações de 2013 – e todo mundo, inclusive os próprios brasileiros, se perguntava: o que está acontecendo aqui? De onde vem tanta insatisfação? Por que esse levante às vésperas da Copa? E por que tanta violência, especialmente por parte da polícia militar? A partir daí, passei boa parte do tempo tentando explicar aos leitores na Alemanha, Áustria e Suíça como o Brasil funciona – bem mais conservador do que muitos imaginam, sobretudo aqueles que conhecem apenas os clichês do Carnaval, que têm bossa nova e samba no ouvido e talvez tenham visto um filme de Walter Salles. Para mim também foi um aprendizado ver como protestos que começaram à esquerda, impulsionados por estudantes, acabaram desembocando em pedidos por um golpe militar.
Veio então o 7 a 1 – um momento que, de certa forma, resumiu o sentimento de muitos brasileiros: decepção, frustração, raiva. E, ao mesmo tempo, algo muito típico apareceu ali: a capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça. Ainda no intervalo, com 5 a 0 no placar, já circulavam piadas – e até cerveja grátis.
Caixa de Pandora
No ano seguinte, Dilma Rousseff venceu novamente as eleições – apenas para pouco depois enfrentar um processo de impeachment bastante forçado. Era o período em que os enormes escândalos de corrupção envolvendo Petrobras e Odebrecht vinham à tona, revelando mais uma vez a profundidade das relações criminosas entre política e grandes empresas.
O Centrão, que sempre tem grande influência nos bastidores, achou que poderia se beneficiar da queda de Dilma. Na prática, acabou abrindo a caixa de Pandora. Dela saiu, como um personagem improvável, Jair Bolsonaro – um político de extrema direita que, em condições normais, dificilmente seria aceitável – mas que conquistou muitos brasileiros com seu discurso ignorante, violento e de um individualismo radical.
Passei então a explicar aos leitores europeus esse fenômeno. Era preciso falar do crescimento das igrejas evangélicas conservadoras, do peso do agronegócio, da música sertaneja, da visão muitas vezes positiva da ditadura militar e das posições bastante conservadoras de boa parte da sociedade em temas como armas, aborto e direitos LGBTI.
Talvez o momento mais intenso tenha sido em 2019, quando a Amazônia parecia estar em chamas. A fumaça chegou a escurecer o céu de São Paulo. Bolsonaro parecia disposto a cumprir sua promessa de abrir a floresta a um suposto progresso a qualquer custo. Nunca trabalhei tanto quanto naquela época. E isso também revela um contraste: na Europa, tudo o que envolve a Amazônia interessa muito; no Brasil, nem sempre. No fim, Bolsonaro não caiu por sua política ambiental, mas pela condução desastrosa da pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil brasileiros e derrubou o real a níveis históricos.
Com a eleição de Lula – que hoje, em certos aspectos, lembra um caudilho que não quer largar o poder – o Brasil voltou a uma certa normalidade. Para jornalistas, isso raramente é boa notícia. E, de fato, o interesse europeu pelo país diminuiu bastante desde então.
Ao longo desses anos, acompanhei inúmeras tragédias: o incêndio da boate Kiss, os desastres – muitos dizem crimes – de Mariana e Brumadinho, o incêndio do Museu Nacional no Rio, as enchentes no Rio Grande do Sul, a crise humanitária do povo Yanomami, entre tantas outras.
Algumas dessas catástrofes também tinham a ver com a tendência brasileira de se contentar com a improvisação, algo que, como alemão, também me chamou atenção repetidas vezes no dia a dia. O proprietário do primeiro apartamento que aluguei, por exemplo, insistia em sempre instalar o mesmo modelo barato de descarga – que não resistia mais do que alguns meses por causa da pressão da água. No fim, acabava gastando mais do que teria gasto se tivesse optado por um produto de qualidade. Ainda assim, não havia meio de convencê-lo disso, e ele continuava comprando o mesmo modelo.
Outra impressão minha é de que o Brasil gira em círculos, condenado a se repetir eternamente. Fui assaltado três vezes no Rio ao longo dos anos como quase todos que vivem aqui: com faca, com arma e à força (cinco contra um). Parece ser uma velha tradição carioca. É claro, já tive o celular roubado no Carnaval. Em várias ocasiões cometi o erro clássico de quem chega ao Brasil: emprestar dinheiro a brasileiros e esperar que, apesar de juramentos solenes, um dia fosse devolvido. Em vez disso, fui bloqueado ou insultado sempre que perguntei pelo dinheiro. Na segurança pública, a rotina parece imutável: operações policiais nas favelas que repetidamente aumentam o número de mortos, sem melhorar a vida de ninguém.
A mesmice domina também quando ligo a televisão ou o rádio: há mais de uma década vejo e ouço na Globo as mesmas faces e vozes que interpretam o mundo para os brasileiros, como se não existissem rostos novos – mais jovens, mais dinâmicos, com perspectivas mais surpreendentes.
Outro círculo eterno: quando chove forte e venta no meu bairro, no Rio, a luz cai com regularidade e os transformadores explodem com um estrondo. A ideia de que os cabos elétricos deveriam estar enterrados parece, em muitos bairros cariocas, um segredo guardado a sete chaves. Nas chuvas intensas, o centro do Rio continua alagando, como pude experimentar pela primeira vez já em 2013, quando o atravessei a rua com água até os joelhos. Falando de ruas: a rua em frente à minha casa foi totalmente recapeada há quatro anos – e já voltou a apresentar buracos, ondulações e incontáveis irregularidades. No trânsito, a regra parece ser não parar na faixa de pedestres quando alguém quer atravessar. Prefere-se correr o risco de atropelar a frear com prudência.
Prosseguindo com as calamidades do cotidiano: a água que sai da minha torneira é, às vezes, amarelada, às vezes acastanhada, apesar de uma conta de água bastante salgada. O brasileiro gosta de ir à praia, gosta de exercícios e de se exibir, gosta de estar ao sol, gosta de uma aparência pessoal e em casa impecável. Mas o espaço público lhe importa bem menos. Em Copacabana e em Ipanema, as praias, após qualquer fim de semana ensolarado, transformam-se em verdadeiros lixões – e só voltam ao que deveriam ser graças aos heróis sem nome da Comlurb.
Reconheço: embora emblemáticas, essas observações são aparentemente irrelevantes e desconexas diante do maior escândalo de todos. Após duas décadas de governos do PT, as escolas públicas brasileiras continuam sendo um desastre – e seus alunos, em sua maioria mais pobres, mal têm chance de chegar à universidade. O fato de Lula jamais ter feito um esforço federal consistente para mudar isso é, para mim, a principal crítica a ser feita. É aí que o potencial do Brasil está soterrado – não no agronegócio, que consome terras e devasta florestas e rios. O volume de talento desperdiçado nas escolas públicas brasileiras é a grande tragédia deste país.
Às vezes, tenho a impressão de que os brasileiros não percebem isso porque, de algum modo, se habituaram a ser enganados por suas elites arrogantes e culturalmente empobrecidas. Mas também é verdade que a indignação ruidosa com a corrupção alheia, com frequência, não passa de inveja por não estar perto dos cofres.
E ainda assim, nada disso traduz o que o Brasil é em sua essência mais profunda. Para mim, é a musicalidade intensa e difusa dos brasileiros, a imensa alegria de viver, a generosidade tão frequente, a extraordinária capacidade de se comunicar, a criatividade vibrante e a necessidade constante de se expressar, além da abertura ao outro.
É também a resiliência dos mais pobres, a solidariedade espontânea e a disposição de ajudar e a gentileza que muitos brasileiros demonstram nos momentos que realmente importam. E é, sobretudo, esse humor inabalável e a convicção de que o amanhã será melhor – mesmo quando o ontem foi difícil.
E com isso, me despeço.
Líbano, o próximo reality show
Israel alega buscar o controle militar de 10% do Líbano. Fala em “zona de segurança”, “medida defensiva” e “operação de estabilização” para evitar nomear o que todos podemos ver: a invasão de um Estado soberano reconhecido pela comunidade internacional, com seu próprio governo, seu próprio exército e que declarou explicitamente não querer essa guerra. O Líbano não atacou Israel. O Hezbollah atacou, mas o Hezbollah não é o Estado libanês. E esta não é a primeira vez. Agora sabemos que Gaza não é apenas um genocídio: é um laboratório. Israel aprendeu que demolir um território, deslocar uma população, ocupar a Faixa de Gaza e ignorar as resoluções do Conselho de Segurança, da Corte Internacional de Justiça e da Assembleia Geral pode ser feito sem consequências. O custo político é administrável. O Ministro da Defesa israelense afirma isso abertamente: o objetivo é aplicar “o modelo de Gaza” no Líbano. E o que isso significa exatamente? Primeiro, destruir a infraestrutura essencial, depois forçar o deslocamento da população e, finalmente, ocupar um território esvaziado. Não se trata de uma operação militar; é engenharia demográfica: a segunda fase de uma experiência cuja primeira fase ninguém interrompeu.
E por que não o impedimos? A escritora turca Ece Temelkuran tem uma resposta perturbadora. Não é que não tenhamos visto o que estava acontecendo. Gaza é o primeiro genocídio transmitido ao vivo, por mais de dois anos, em nossos celulares. Vimos tudo, e todos viram. Como escreveu Maruja Torres do Líbano: “Todos sabíamos que algo ia acontecer. Agora todos sabemos que algo aconteceu”. O problema, como Temelkuran aponta, é que construímos um sistema tão eficaz para normalizar o horror que ordens e censura não são mais necessárias. Ninguém nos diz para ignorar; simplesmente nos oferecem distrações enquanto “a ideia de humanidade é despedaçada”. A questão não é tanto a falta de consciência, mas um ambiente saturado de estímulos triviais que dispersam nossa atenção moral. O terrível não está escondido; está diluído em meio a milhares de conteúdos banais. É a distração como mecanismo para enfraquecer nossa capacidade de reagir ao sofrimento alheio. Não é que estejamos distraídos pelo meme do momento: o sistema gera uma nova crise todos os dias justamente para que não vejamos a conexão.
Gaza, porém, não fica impune por indiferença passiva. Fica impune porque o Ocidente optou pela cumplicidade ativa: o veto, o armamento, a cobertura diplomática. Agora, o Líbano está trilhando o mesmo caminho pelo mesmo motivo: o Irã já capturou os holofotes , e todos aguardamos ansiosamente o próximo reality show . Porque a cadeia de atrocidades não é uma tragédia: é uma técnica. O acúmulo de conflitos não funciona apenas como uma série de dramas independentes; é uma dinâmica que fragmenta a atenção e reduz a pressão pública sobre cada caso individual. E a resposta não pode ser simplesmente mais indignação.
Judith Butler destacou isso em relação a Trump: a indignação é precisamente o que essa técnica consome e neutraliza com uma eficiência surpreendente. O que precisamos é exatamente o oposto: nomear a conexão. Não enxergar cada atrocidade separadamente, mas sim ver e denunciar o padrão que as une. Gaza, Líbano, Cisjordânia. Essas não são três crises. São três aplicações do mesmo método, sustentadas pela mesma impunidade, financiadas pelos mesmos atores e toleradas pelo mesmo silêncio. O deles, mas também o nosso.
E por que não o impedimos? A escritora turca Ece Temelkuran tem uma resposta perturbadora. Não é que não tenhamos visto o que estava acontecendo. Gaza é o primeiro genocídio transmitido ao vivo, por mais de dois anos, em nossos celulares. Vimos tudo, e todos viram. Como escreveu Maruja Torres do Líbano: “Todos sabíamos que algo ia acontecer. Agora todos sabemos que algo aconteceu”. O problema, como Temelkuran aponta, é que construímos um sistema tão eficaz para normalizar o horror que ordens e censura não são mais necessárias. Ninguém nos diz para ignorar; simplesmente nos oferecem distrações enquanto “a ideia de humanidade é despedaçada”. A questão não é tanto a falta de consciência, mas um ambiente saturado de estímulos triviais que dispersam nossa atenção moral. O terrível não está escondido; está diluído em meio a milhares de conteúdos banais. É a distração como mecanismo para enfraquecer nossa capacidade de reagir ao sofrimento alheio. Não é que estejamos distraídos pelo meme do momento: o sistema gera uma nova crise todos os dias justamente para que não vejamos a conexão.
Gaza, porém, não fica impune por indiferença passiva. Fica impune porque o Ocidente optou pela cumplicidade ativa: o veto, o armamento, a cobertura diplomática. Agora, o Líbano está trilhando o mesmo caminho pelo mesmo motivo: o Irã já capturou os holofotes , e todos aguardamos ansiosamente o próximo reality show . Porque a cadeia de atrocidades não é uma tragédia: é uma técnica. O acúmulo de conflitos não funciona apenas como uma série de dramas independentes; é uma dinâmica que fragmenta a atenção e reduz a pressão pública sobre cada caso individual. E a resposta não pode ser simplesmente mais indignação.
Judith Butler destacou isso em relação a Trump: a indignação é precisamente o que essa técnica consome e neutraliza com uma eficiência surpreendente. O que precisamos é exatamente o oposto: nomear a conexão. Não enxergar cada atrocidade separadamente, mas sim ver e denunciar o padrão que as une. Gaza, Líbano, Cisjordânia. Essas não são três crises. São três aplicações do mesmo método, sustentadas pela mesma impunidade, financiadas pelos mesmos atores e toleradas pelo mesmo silêncio. O deles, mas também o nosso.
Assinar:
Comentários (Atom)