sexta-feira, 20 de março de 2026

Pensamento do Dia

 

O espelho que nos rouba o rosto

Há algo de profundamente paradoxal na imagem que nos chega da Universidade de Aveiro, Instituição onde me formei em 1993: o Reitor Paulo Ferreira, que muito respeito, e os estudantes erguem a Inteligência Artificial como estandarte da modernidade educativa, como se nela coubesse a salvação do pensamento. Mas pergunto: quando um algoritmo escreve por nós, quem pensa? Quando uma máquina responde às nossas dúvidas antes mesmo de as formularmos, quem aprende? Nas minhas crónicas tenho insistido numa verdade incómoda: a IA não é um prolongamento do espírito humano — é, muitas vezes, a sua quietude antecipada.

Os defensores da integração acrítica da IA nas universidades falam em “ferramenta”, em “personalização do ensino”, em “competências para o futuro”. Soa bem. Soa a moderno. Mas esconde uma traição silenciosa ao ato educativo. Como escrevi em outubro passado, inspirando-me nas reflexões de Hannah Arendt sobre a vita activa, educar não é transferir informação — é cultivar a capacidade de parar, de duvidar, de formular a pergunta certa. E aqui reside o perigo: a IA satisfaz a resposta antes que a pergunta amadureça na alma do estudante. Transforma o laborioso caminho do pensamento — esse território onde nascem a ética e a criatividade — numa auto-estrada lisa, rápida e vazia de significado. O aluno não percorre a estrada; é transportado nela, de olhos vendados.

Lembro as palavras do neurocientista António Damásio, que tantas vezes citei: “As emoções não são ruído no pensamento; são a sua matéria-prima”. Ora, a IA não sente a hesitação diante de um conceito difícil; não experimenta a alegria súbita da compreensão; não carrega a angústia produtiva da dúvida. Quando delegamos na máquina a mediação do saber, roubamos ao estudante a experiência corporal do aprender — essa dimensão sensorial e afetiva sem a qual o conhecimento permanece letra morta. Os estudantes de Aveiro falam em “eficiência”; eu pergunto: eficiência para quê? Para formar técnicos rápidos ou seres pensantes?


E há um segundo engano, mais grave ainda: a crença na neutralidade algorítmica. Nas minhas crónicas de 2025, baseadas nos relatórios do Comité de Ética da União Europeia, demonstrei que os modelos de linguagem são espelhos distorcidos da cultura que os alimenta — reproduzem vieses, hierarquias e silêncios históricos. Quando um estudante confia cegamente na “resposta” da IA para compreender Foucault ou Arendt, não está a dialogar com o pensamento crítico; está a ingerir uma síntese pasteurizada, filtrada por lógicas comerciais e ocidentais. A verdadeira educação exige confronto com a complexidade, não com a sua simplificação algorítmica.

O Reitor fala em “não privar os alunos das competências modernas”. Concordo — mas as competências mais urgentes do século XXI não são saber operar uma interface; são saber resistir à pressão da instantaneidade, cultivar o silêncio interior necessário ao juízo ético, e discernir entre informação e sabedoria. Como escrevi, inspirando-me nos Padres do Deserto: “Quem não aprende a escutar o próprio silêncio, nunca ouvirá a voz do outro.” A IA, na sua voracidade de resposta imediata, ensina-nos a temer o silêncio — e assim mata a escuta, essa arte primeira do encontro humano.

Não sou tecnófobo, antes pelo contrário, fui um dos pioneiros em Portugal na utilização das TIC no Ensino e na Aprendizagem. Sou pensamento-fóbico — fóbico da sua substituição silenciosa. A tecnologia deve servir a pedagogia, nunca substituí-la. Que usemos a IA para traduzir textos, sim; para mapear fontes, sim; para simular cenários, sim. Mas que nunca permitamos que ela ocupe o lugar do Professor que, com os seus silêncios e as suas perguntas incómodas, nos ensina que pensar é um ato de coragem — não de comodidade.

A universidade não existe para formar consumidores eficientes de respostas. Existe para formar seres capazes de habitar a dúvida com dignidade. E nesse território sagrado — onde a pergunta vale mais que a resposta — nenhuma máquina tem lugar. Porque ali, onde o espírito se debate com a sua própria luz e sombra, só o humano pode caminhar. E deve caminhar sozinho.

'1984' versão hoje

Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.


Vide as teletelas. No livro, elas ficam em todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas. Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.

No país de "1984", o culto ao ódio é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque acredita em tudo que lhe injetam.

Como a verdade é agora a mentira, alteram-se textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" – as fake news. O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.

O país de "1984" é a URSS de Stálin. Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.

Jovens cheios de mofo

Está encostada para trás na cadeira. A grande barriga empinada debaixo do vestido com flores garridas. As mãos sobre o ventre, talvez auscultando os movimentos aquáticos do bebé ou tentando medir os tremores das primeiras contrações do fim da gravidez. Tem uns olhos azuis líquidos que chamam a atenção, longo cabelo dourado caído sobre os ombros e uma boca cor-de-rosa de lábios inchados pela gestação. Ele senta-se, pousando o chá, que ela insiste em saber se é de framboesa, por ter visto na internet que era bom para as contrações. “É de frutos vermelhos”, vai repetindo ele, com um ar um pouco perdido, o bigode fino nervoso por cima dos lábios, as mãos fingindo procurar qualquer coisa nos bolsos da parka verde-escura, antes de se sentar diante dela, sem nenhum sinal de intimidade ou carinho. Os dois tensos, com aquela barriga entre ambos e uma pequena mesa redonda, onde ficaram pousados os chás.

Sem mais conversas de circunstância, como se se tivessem ali sentado para aquele exercício, ele começa a debitar o que, vou percebendo à medida que o oiço, são as melhores qualidades dela. “Tens muito sentido de humor… para rapariga. É uma coisa rara nas raparigas.” Ela acena vagamente com a cabeça, a mão ainda afagando o ventre, enquanto ele discorre sobre como ela tem aquela característica que ele acha que falta às mulheres em geral. “És muito boa mãe. Consegues sempre acalmá-la. Não é porque tens muita paciência. Às vezes, também gritas.” Ela encolhe os ombros e lança-se para a frente. “A minha paciência tem limites”, exaspera-se. “Sim, mas tu és melhor a lidar com ela, porque é como se soubesses sempre aquilo de que ela precisa. Tens instinto”, conclui, antes de rematar com a qualidade que deixou para o fim. “Cuidas de ti. Há mulheres que se desleixam depois de serem mães, tu não.”

Fico em suspenso. Estou sentada demasiado perto da mesa deles. É-me impossível não ser testemunha deste momento, que talvez tenha acontecido depois de uma consulta de terapia de casal ou talvez seja, tal como o chá de framboesas, o resultado de uma pesquisa na internet que aconselhou este exercício. Estou sentada ao lado dele, quase como se partilhássemos a mesa os três. Tenho-a à minha frente. E olho-a à espera que ela perceba o mesmo que eu.

Enquanto o ouvia falar, foi-me completamente evidente o desprezo dele pelas mulheres, em geral, e a total ausência de encantamento com aquela que tinha à frente, em particular. Era como se cada elogio que lhe veio à cabeça só o fosse na medida em que a distinguia dessa entidade coletiva una que ele acredita serem “as mulheres” ou “as raparigas”. As suas qualidades resumiam-se ao que a tornava menos próxima do que ele acha serem as mulheres em geral, com exceção apenas para aquele instinto “maternal”, que ele deve achar que vem no pacote biológico. E nesse desenho, feito em negativo, não havia uma única singularidade, uma exaltação, um espanto. Ela era uma sombra recortada de uma amálgama de mulheres. Boa apenas por ser diferente das outras. Não por ser única. Mas por não ser mais uma.

Fiquei à espera que o esgar que as ligeiras contrações lhe provocavam se transformasse numa expressão de revolta ou enjoo, que lhe atirasse para cima a pequena mesa redonda e saísse carregando com as mãos a pesada barriga dentro do vestido de veludo preto e flores garridas. Mas ela ficou, quase impávida. Talvez colada à cadeira pelo peso daquele ventre, debitou sem emoção qualidades do parceiro, que repetiam mais ou menos o que ele tinha dito, sem a comparação com os outros espécimes do género masculino. “Tens sentido de humor. És bom pai”, dizia, sem expressão, enquanto eu me levantava de olhos baixos, envergonhada por ser testemunha daquela desistência, sabendo que são tantos os momentos em que desistimos e que eles não nos definem, mas devem ser mantidos secretos e, se possível, sem testemunhas que os julguem.

Saí dali com um nó no estômago e a remoer naquilo que tinha ouvido. Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu? Mesmo seguindo dicas de autoajuda pós-modernas, são só uma repetição de uma cena antiga: homem e mulher reproduzem-se em conjunto e desistem do amor. Mas talvez eu esteja enganada e o amor seja uma coisa antiga, inventada para as fotonovelas que encontrei na casa do meu bisavô quando era criança e me davam vontade de rir. Sim, aquele lado mecânico e desistente da conversa tinha-me incomodado. Mas o pior não era isso. O pior era ver aquele rapaz a fazer enunciados sobre as mulheres. No fundo, era isso que me tinha feito mossa. Senti-me traída na ideia de que num futuro qualquer essas ideias gastas sobre o que é ou não feminino fossem só uma caricatura ou, na pior das hipóteses, usadas para teses gerais, nunca para definir a parceira.

Mais uma vez, a realidade mostrou-me que as estatísticas estão certas, contra todas as minhas esperanças. Um estudo do Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, com mais de 23 mil inquiridos em 29 países, revelou que um terço dos homens nascidos entre 1997 e 2012 acredita que as mulheres devem obedecer ao marido, 33% acham que o marido deve ter a palavra final em decisões importantes, quase um quarto acredita que as mulheres não devem parecer independentes e 21% defende que elas não devem tomar a iniciativa sexual. Curiosamente, todas as notícias que encontrei sobre o tema usavam o adjetivo “conservadora” para descrever esta Geração Z. A mim parece-me que “machista” seria muito mais adequado.

Estas visões sobre o papel dos géneros são o reflexo de ideias antigas, sim, mas acima de tudo patriarcais. Elas têm um intuito político e tentam recuperar uma ideia de “guerra dos sexos” que devia estar completamente ultrapassada. A crescer numa sociedade em crise permanente, esmagados pela crescente desigualdade e por uma ausência de horizonte de esperança, os jovens rapazes são iludidos com a ideia de que estão a perder terreno para as mulheres. Vivem precários e sem esperança? A culpa é delas, que passam de seres humanos em pé de igualdade para objetos de consumo para validação pessoal ou inimigas simbólicas, culpadas de todos os males.

No Brasil, a Polícia Federal anunciou, esta semana, a abertura de inquéritos aos autores dos vídeos Treinando caso ela diga não, que basicamente mostram homens ajoelhados com um anel na mão, que começam aos murros e aos pontapés, para treinar a reação violenta à rejeição. O ódio que é semeado, vídeo atrás de vídeo misógino, pelo algoritmo da indignação, garante que ficam suficientemente adormecidos para não se aperceberem de como são explorados e oprimidos por um sistema controlado por um punhado de multimilionários.

Esses machos alfa, inchados de testosterona e creatina, gastam assim contra as mulheres a revolta que devia fazê-los questionar a sua condição, levando-as também a encolher-se e a desaparecer como agentes políticas. Todos domesticados por um sistema que oculta a desigualdade e a injustiça, entretendo-nos com o ódio. Até quando vamos deixar-nos manipular desta forma?

Margarida Davim

Os meninos do Brasil

Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país.


O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.

Clóvis Rossi, Folha de S. Paulo, 30/10/92

Os desafios da direita democrática

Celso Rocha de Barros, do podcast Foro de Teresina e colunista da Folha de S. Paulo, é um dos melhores analistas políticos brasileiros. Ele vem puxando, nas últimas semanas, um debate muito importante. Em sua opinião, não apareceu uma alternativa à família Bolsonaro pelo flanco direito por responsabilidade da própria direita. Para ele, quando seus principais líderes não condenam com clareza o golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surge alternativa.

Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.


Há uma miragem nas pesquisas. A base dura do bolsonarismo circula entre 13% (Quaest) e 12% (Ideia), mas, quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto. É instantâneo. Isso pode ser medido pelas pesquisas espontâneas, quando não são oferecidas opções para os entrevistados. De bate-pronto o entrevistado já logo saca, quero votar neste. Um quinto dos brasileiros já tem o nome Bolsonaro na ponta da língua e responde assim, na lata. Desde 2006, Lula tem 30% de base.

Os números de Lula são sólidos há 20 anos. Não mudarão. Não sabemos o que se dá entre os 12%-13% da base sólida pelas pesquisas e os 20% da espontânea de seu adversário. Essa base, Bolsonaro não teve por boa parte da campanha de 2018, mas já estava lá em 2022 e permanece desde então. Foi toda transferida, agora, para seu filho Flávio.

A provocação de Celso é boa, mas depende da compreensão de como se dá a política. A sociedade dá o tom, e os políticos reagem? Ou os políticos dão o tom, e a sociedade se adéqua? É um debate antigo e que não se resolve apenas na dicotomia. As duas coisas acontecem. Grandes líderes são capazes de convencer a sociedade a ir com eles, mas na maioria das vezes o caminho é o contrário. Políticos sentem o clima e constroem o discurso para que reverbere no sentimento popular já presente. O trabalho de marqueteiros políticos costuma ser justamente este: convencer o eleitor de que seus anseios existentes serão atendidos pelo candidato A ou B.

Se o problema for uma base sólida de 20% da sociedade que é bolsonarista, não há o que qualquer político de direita consiga fazer. Porque dificilmente outro candidato ultrapassará essa marca. E a coisa complica. Segundo a pesquisa Meio/Ideia, que coordeno com o economista Maurício Moura, 54% dos brasileiros não acreditam que Bolsonaro tentou um golpe de Estado em 2022. Acham que ele foi injustiçado. Mais de metade dos brasileiros.

É por isso que os governadores do Paraná, Ratinho Junior (PSD), de Minas, Romeu Zema (Novo), e o próprio Caiado hoje fazem um discurso ambíguo sobre o golpe e defendem anistia. O único que acusa o golpe com clareza é o gaúcho Eduardo Leite (PSD). O cálculo do trio pró-anistia é eleitoral, não tem nada a ver com convicções pessoais. Eles olham as pesquisas, sabem que do eleitorado à esquerda não tirarão votos e concluem que, para ter chance de vitória, precisam dizer essas coisas. Que não está claro se houve tentativa de golpe. Houve. Só que mais de metade do Brasil não entende assim.

Por quê? Nesses 54% tem muita coisa. Por exemplo, antipetismo. Na polarização afetiva, se você está de um lado, já se posiciona com uma coleção de bandeiras contra o outro sem pensar. Há, também, a frustração com o Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Master. O autoritarismo e o corporativismo da Corte estão destroçando a imagem do STF para um pedaço do Brasil que se amplia, e isso contamina a percepção a respeito do julgamento do golpe. A defesa do Supremo pela militância de esquerda e o ataque a jornalistas colaboram mais para a sensação de que autoritário é o outro lado. E tem o tempo. Muitos esqueceram o inferno que foi viver aquele governo. Pois é. E se o problema não forem os políticos de direita? E se o problema estiver na sociedade?

O nacionalismo trumpista e a colonização do espaço doméstico dos EUA

Pode parecer contraditório descrever o processo de controle migratório de um Estado com território historicamente consolidado como uma dinâmica de construção nacional, ou mesmo de colonização interna. Todavia, a hipótese que quero avançar neste texto é exatamente esta: o que observamos contemporaneamente nos EUA, sobretudo a partir da atuação do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (United States Immigration and Customs Enforcement – ICE) no segundo governo de Donald Trump, configura um projeto de redefinição da nação estadunidense.

Tradicionalmente, a política de imigração dos EUA é analisada sob a ótica da gestão de fronteiras, da regulação do mercado de trabalho ou da segurança nacional –perspectivas que podem ser consideradas normais para a maioria dos Estados contemporâneos. No entanto, o movimento de controle migratório desencadeado na segunda gestão de Trump representa uma mudança significativa neste panorama: não é apenas um processo de endurecimento do controle das fronteiras ou da administração de imigrantes que já se encontram no país, mas, efetivamente, uma tentativa deliberada de redefinir a própria composição étnico-racial da nação estadunidense.

As políticas migratórias do trumpismo representam um deslocamento sísmico de um nacionalismo cívico, tradicionalmente observado nos EUA (ao menos em termos formais), para um nacionalismo étnico e agressivo. Mais do que proteger as fronteiras nacionais, este projeto político opera por meio de uma lógica de colonização interna: um esforço do governo para reconfigurar o espaço doméstico, purificando-o de elementos considerados exógenos à nação dos EUA e buscando homogeneizar aquela sociedade. Para além da orientação para o espaço doméstico, esta obsessão pela reconstrução de uma nação etnicamente pura projeta-se para o internacional, reconfigurando também a política externa dos EUA, que passa a apresentar, de forma mais explícita, uma postura internacional de hostilidade e isolacionismo beligerante.

Para compreender a magnitude desta mudança, é necessário revisitar o consenso do pós-Segunda Guerra Mundial sobre a identidade nacional estadunidense. Durante décadas, os EUA projetaram-se como uma nação proposicional, fundamentada em um nacionalismo cívico. Nesta concepção, ser estadunidense não dependia de sangue, raça ou religião, mas sim da adesão, do compartilhamento e da participação a um credo político comum: a Constituição, a democracia e o Estado de Direito, ou seja, as instituições fundadas no pós-independência (1776) e estabelecidas no pós-Guerra Civil (1861-1865). O Caldeirão Cultural estadunidense (Melting Pot), que preconizava a construção daquela nação a partir da fusão voluntária de pessoas de diferentes origens e tradições culturais, embora falho na prática e permanentemente desafiado por grupos supremacistas de extrema direita, era o ideal normativo que pautava a organização institucional da sociedade dos EUA.

O trumpismo rompe com essa tradição ao introduzir, com vigor renovado, um nacionalismo étnico como princípio central da identidade nacional dos EUA. Nesta visão, a nação não é um projeto político aberto à adesão voluntária, mas uma entidade cultural e demográfica fixa, enraizada em uma herança étnica específica (branca e europeia) que precisa ser protegida contra a diluição e a poluição (ou seja, a assimilação de minorias culturais e a miscigenação com outros grupos étnico-raciais).

A retórica da invasão é uma peça central para a compreensão desta proposta. Quando lideranças políticas enquadram a migração como uma invasão, alteram fundamentalmente a natureza do debate. O imigrante deixa de ser um potencial cidadão ou um ator econômico para se tornar um invasor. Esta linguagem beligerante legitima medidas de exceção. Se o país está sendo invadido, então a resposta não é o processo legal administrativo, mas a defesa territorial militar. Assim, a presença do imigrante, documentado ou não, é reconfigurada como uma ameaça existencial à soberania popular, pavimentando o caminho para que o governo atue não apenas contra estrangeiros presentes em seu território, mas também, como observado nos últimos meses, contra cidadãos que não se encaixam nos critérios de pertencimento nacional agora então redefinidos a partir da chave étnico-racial.

A manifestação prática deste processo pode ser compreendida como uma colonização do espaço doméstico e descreve a inversão da lógica estatal: o governo deixa de proteger os habitantes do seu território para tratar o próprio interior do país como uma fronteira hostil a ser domada. Sob a lógica trumpista, a fronteira deixa de ser uma linha estática demarcada geograficamente e passa a ser móvel, seguindo as redefinições étnico-raciais do governo sobre a população presente no território. Ela se move para o interior, reconfigurando o espaço público por meio de quatro mecanismos principais: o emprego de tecnologia digital para o rastreamento de pessoas e grupos, o estabelecimento de um complexo de centros de detenção, a consolidação de uma força policial para a ocupação e o controle do espaço doméstico e a instauração de uma política do medo.

A primeira ferramenta desta colonização é tecnológica. A construção do muro, tão anunciada durante a campanha eleitoral de 2016, não é apenas física, mas agora também é digital. Por meio da expansão massiva de tecnologias de vigilância, como o reconhecimento facial, a coleta de dados biométricos e o monitoramento de redes sociais, o governo cria um panóptico digital voltado às comunidades imigrantes e às minorias étnico-raciais. O uso de tornozeleiras eletrônicas e de aplicativos de rastreamento para imigrantes em processo judicial transforma o próprio corpo do indivíduo na fronteira. Onde quer que o imigrante vá, a fronteira o acompanha. Esta vigilância de dados permite ao governo exercer controle sem a necessidade de encarceramento físico imediato, criando uma prisão a céu aberto em que a liberdade de movimento é ilusória.

Paralelamente à vigilância, ocorre uma expansão física da infraestrutura de detenção, que funciona como enxertos coloniais na metrópole. O sistema de detenção de imigrantes nos EUA (frequentemente gerido por empresas privadas com fins lucrativos) tende a ser localizado em áreas rurais e remotas. Esta geografia isola os detidos do acesso a advogados, à visibilidade da mídia e às redes de apoio comunitário. Tais centros constituem espaços no território nacional em que os direitos constitucionais são suspensos. Ao segregar fisicamente milhares de pessoas, o governo realiza uma higienização étnico-racial do espaço social, tratando seres humanos como excedentes indesejáveis a serem armazenados antes da expulsão.

A colonização do espaço doméstico exige uma força de ocupação. Isto é alcançado por meio da fusão entre o direito penal e o direito migratório, um fenômeno conhecido como crimigração. Programas como o 287(g), que conferem a policiais locais capacidades de agentes de imigração, dissolvem a distinção entre a polícia civil e a polícia de imigração. Quando a polícia local atua como braço do ICE, qualquer infração de trânsito pode se tornar um gatilho para a deportação. Isso militariza a sociedade civil: escolas, igrejas e hospitais, tradicionalmente zonas de segurança, tornam-se locais de risco.

Por fim, a colonização interna também articula uma dimensão emocional. A ameaça constante de revogação de status legais (como o ataque ao Dream Act e a retórica contra a cidadania por nascimento) serve para produzir novas ilegalidades, convenientes ao processo de homogeneização nacional. O governo remove ativamente o tapete jurídico que protege residentes legais, transformando vizinhos em invasores por decreto administrativo. Este mecanismo aposta na criação de um ambiente doméstico hostil. O medo torna-se uma ferramenta de governança, maximizando ameaças (frequentemente imaginárias) para fins políticos pouco democráticos.

Subjacente a estas iniciativas de reengenharia da sociedade dos EUA está a lógica da Grande Substituição (Great Replacement), uma teoria conspiratória de movimentos supremacistas brancos de que elites globais estão orquestrando a substituição da população branca e cristã dos países do Norte por imigrantes do Sul Global. Embora nem sempre explicitada, essa teoria orienta a rejeição ao multiculturalismo. O veto a viajantes de países muçulmanos (Muslim Ban) e a preferência declarada por imigrantes de países como a Noruega, em detrimento de “países de merda” (a forma como Trump escolheu se referir ao Haiti e ao El Salvador em declaração proferida em janeiro de 2018), revelam um desejo de engenharia social racializada.

Ao tentar purgar a coletividade de indivíduos e grupos considerados não assimiláveis, o projeto trumpista busca criar uma sociedade em que estadunidense seja sinônimo de um perfil cultural e linguístico específico: branco, cristão, de origem europeia. É uma rejeição frontal ao pluralismo democrático em favor de uma identidade homogênea, forçada pela coerção estatal.

Ainda que a tendência geral seja a de analisar os processos supracitados como uma dimensão puramente interna da política dos EUA, é relevante destacar que, historicamente, observa-se uma correlação entre a forma como uma nação trata os seus residentes internos, estrangeiros ou minorias étnico-raciais, e sua postura no sistema internacional. A lógica de colonização interna e de homogeneização nacional não para na fronteira; ela transborda, gerando uma política externa agressiva e paranoica.

Se a premissa deste processo de colonização interna é que o país está sob cerco de forças estrangeiras que já penetraram o território, a atitude internacional decorrente de tal premissa é de profunda desconfiança. O mundo exterior deixa de ser um espaço de potenciais parcerias mutuamente benéficas para se tornar uma fonte de contaminação e de ameaça. O multilateralismo é substituído por uma visão de soma-zero: para os EUA ganharem, os outros devem perder. Esta mentalidade justifica o abandono de tratados internacionais, o desprezo por organizações como a ONU e a OTAN, e uma abordagem transacional nas relações exteriores. A agressividade interna necessária para deportar milhões requer uma desumanização que, quando projetada externamente, resulta em uma política internacional insensível às crises humanitárias e desdenhosa dos direitos humanos. O nacionalismo de homogeneização étnico-racial parece criar um Estado que se vê como vítima do mundo, justificando, paradoxalmente, que atue como agressor no sistema internacional.

Em suma, as políticas de imigração da era Trump não devem ser vistas como um fenômeno isolado de gestão pública, ou como uma distração para outras questões, mas sim como a ponta de lança de um projeto de reengenharia social de alcance nacional e projeção internacional. Ao transitar formalmente do nacionalismo cívico para o étnico, o atual governo estadunidense adota uma postura de colonização interna, tratando o próprio território do país como um campo de batalha em que a homogeneidade deve ser imposta à força por meio da tecnologia, do encarceramento e da militarização da sociedade civil. Este processo tem custos devastadores. Internamente, corrói o tecido social e os direitos civis, criando uma casta de subcidadãos e normalizando a violência estatal. Externamente, transforma os EUA em uma nação entrincheirada, cuja insegurança identitária se manifesta em agressividade geopolítica, um processo com potencial para reconfigurar as relações internacionais contemporâneas.
Tatiana Vargas-Maia

O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos

Este é um dos mitos cultivados há mais de século: jornalista é imparcial. Ou tem obrigação de ser.

Ninguém é imparcial. Porque você é obrigado a fazer escolhas a todo momento – e, ao fazer toma partido.

Quando destaco mais uma notícia do que outra, faço uma escolha. Tomo partido.

Quando opino a respeito de qualquer coisa, tomo partido.

Cobre-se do jornalista honestidade.

Não posso inventar nada. Não posso mentir. Não posso manipular fatos.

Mas posso errar – como qualquer um pode. E quando erro devo admitir o erro e me desculpar por ele.

Cobre-se do jornalista independência.

Não posso omitir informações ou subvertê-las para servir aos meus interesses ou a interesses alheios.

Se me limito a dar uma notícia, devo ser objetivo. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões.

Se comento uma notícia ou analiso um fato, ofereço minhas próprias conclusões. Cabe aos leitores refletir a respeito, concordar, divergir ou se manter indiferente.

Jornalista é um incômodo. E é assim que deve ser. Se não for, jornalista não é.

O jornalismo serve para afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos.