terça-feira, 14 de abril de 2026

Humanos no Espaço: Exploradores ou mercadores da última fronteira?

“É um pensamento amargo, mas temos de o enfrentar. Os planetas poderão um dia ser conquistados, mas as estrelas não são para o homem.” O autor dessas palavras é Arthur C. Clarke, um dos mais importantes escritores de ficção científica do séc. XX, e surgem na sua obra O Fim da Infância. As suas histórias sobre exploração espacial e contacto com civilizações alienígenas inspiraram leitores em todo o mundo, atingindo o equilíbrio perfeito entre o deslumbramento e o pensamento crítico. Se estivesse vivo, o autor teria provavelmente acompanhado com entusiasmo a viagem de Artemis II, a primeira missão tripulada à Lua em mais de 50 anos, em que os tripulantes se tornaram os humanos que viajaram mais longe da Terra. Afinal o Espaço ainda é a última fronteira, despertando em nós uma alegria pura de criança sempre que tentamos desbravar rotas em busca de mais conhecimento cósmico.


Graças a Artemis II, o Homem irá regressar à Lua, até ao final da atual década, com o objetivo de construir estações lunares capazes de concretizar o sonho de ir mais além, rumo a Marte. É uma tarefa hercúlea para a Humanidade, e as palavras de Clarke continuam a fazer tanto sentido hoje como então: podemos um dia possuir outros planetas, mas existimos num universo com milhões de estrelas a anos-luz de distância, o que significa que, por mais que possamos sonhar com novas tecnologias, há barreiras interestelares intransponíveis.

A ficção científica nunca parou de nos confrontar com as grandes questões cósmicas. Curiosamente, um dos maiores sucessos cinematográficos do ano é baseado numa obra de ficção científica de Andy Weir e centra-se numa viagem espacial perante a iminente extinção do nosso planeta e da existência humana. O Projeto Hail Mary não contém uma visão desoladora e angustiante perante a vastidão solitária do Universo, como tantas vezes associamos à ficção científica. Lançados na vastidão do cosmos, os humanos sobrevivem através da capacidade de comunicar e da amizade, ajudando a preencher a solidão entre as estrelas. E que falta faz essa visão otimista e esperançosa do ser humano neste admirável planeta velho.

Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA

Ao acompanharmos a missão Artemis II, um projeto de cooperação global entre vários países, até que ponto será otimista a nossa expansão humana no Universo, à semelhança do filme Projeto Hail Mary? Por maior que seja a nossa excitação por voltar a caminhar na Lua, estas novas missões não escondem uma tensão competitiva, em particular entre a China e os EUA. A China irá tentar alcançar o mesmo objetivo até 2030. Ambos os países irão explorar os recursos naturais da Lua e irão aproveitar-se das inúmeras zonas cinzentas em tratados internacionais, que não são claros sobre exploração económica ou a utilização de recursos. No fundo, será uma corrida entre algumas das nações mais poderosas para firmar uma hegemonia económica à escala interplanetária. Mais do que exploradores, serão space merchants, em que empresas se aliam a governos, ou mesmo tomam o lugar de governos, em busca de negócios lucrativos. A frase de Clarke acaba por ser virada do avesso. O que acontece quando conquistamos outros planetas, mas acabamos por levar o capitalismo e a tendência para a colonização à boleia? Aqueles que chegarem primeiro e construírem as primeiras bases terão a última palavra sobre como definir os próximos passos da exploração espacial, numa jogada a longo prazo.

Talvez nunca consigamos alcançar as estrelas, como sugeria Clarke, mas isso pode não ser o nosso maior limite. O verdadeiro teste será libertarmo-nos de uma visão mercantil que pode manchar e subverter as mais belas aspirações humanas. Se a História da Humanidade serve de guia, então a exploração do Espaço dificilmente será imune às mesmas forças que moldaram o nosso passado. E, nesse caso, não estaremos já a cumprir o destino antecipado pelos space merchants, imaginados por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth na década de 50? Se a ficção científica nos ensinou alguma coisa, é que este futuro nunca foi imprevisível, e ignorar o aviso pode sair-nos caro demais.

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