A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam 20% do petróleo e gás do mundo, fez os preços do petróleo dispararem acima de US$ 100 por barril (cerca de R$ 520) e deixou economistas em alerta. Em meio às escaladas retórica e bélica desde o ataque americano-israelense em 28 de fevereiro, porém, especialistas afirmam que uma crise paralela e menos comentada está surgindo simultaneamente: a ameaça à segurança alimentar global, causada em grande parte pela iminente escassez de fertilizantes, essenciais para a produção de alimentos. Para analistas, os desdobramentos do conflito atual, se não forem enfrentados, serão capazes de transformar uma guerra regional em uma emergência humanitária mundial.
— O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta — afirmou ao GLOBO Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. — [Isso] em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.
Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.
— As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo — disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. — Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.
No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.
— A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo — alertou Werz. — Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.
Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu.
Analistas estimam que os reflexos do conflito atual podem ser maiores para a segurança alimentar do que os vistos com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, diz o PMA, os preços dos alimentos subiram rapidamente e demoraram a cair, excluindo famílias vulneráveis do acesso à nutrição básica. Mas alternativas foram encontradas, como o aumento das importações do Oriente Médio — algo que, para Máximo Torero, economista-chefe da Organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, não deve ser possível desta vez:
— Não há uma resposta rápida para a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes. Nenhum país consegue aumentar significativamente a produção desses insumos no curto prazo. Por isso é muito importante que o conflito termine logo — disse ele em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York. — Caso contrário, isso afetará a próxima temporada de plantio e terá consequências sobre os preços dos alimentos, [o que] certamente afetará a segurança alimentar.
Governos e órgãos ao redor do mundo já passaram a recorrer a reservas estratégicas de alimentos e a buscar rotas alternativas para tentar garantir o abastecimento. Nos Emirados Árabes Unidos, as reservas cobrem de quatro a seis meses, e o governo pediu aos moradores que denunciem aumentos injustificados de preços. Na Arábia Saudita, há cerca de quatro meses de estoque de trigo, e a ONU criou uma “força-tarefa” dedicada para “propor mecanismos técnicos” especificamente concebidos para atender às necessidades humanitárias no Estreito.
— O potencial para desencadear uma crise alimentar global está em grande parte ligado à duração [do conflito] — disse Joseph Glauber, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI) e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA, indicando que, para ele, a crise não deverá ter “efeitos dramáticos” sobre a produção de alimentos neste ano. — Custos mais altos de energia são provavelmente o maior risco. [Eles] já elevaram os custos de transporte, [o que] pode significar inflação dos preços dos alimentos.
As preocupações ocorrem enquanto grupos de ajuda enfrentam dificuldades. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR), que estima que 3,2 milhões de pessoas do Irã e 1 milhão de pessoas no Líbano tenham sido deslocadas em pouco mais de um mês de guerra, lançou um apelo urgente por doações, observando que apenas no Líbano o órgão precisa de mais mais US$ 61 milhões (R$ 316 milhões) para apoiar 600 mil pessoas nos próximos três meses — e que “as necessidades estão aumentando mais rapidamente do que os recursos”.
— Há a possibilidade de pressionar pela criação de um corredor humanitário no Estreito de Ormuz para produtos relacionados a alimentos e medicamentos, semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a escoar grãos da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia em 2022. Talvez navios com bandeira chinesa ou paquistanesa possam ser autorizados a transportar alimentos ou fertilizantes para os países mais necessitados — disse ao GLOBO Noah J. Gordon, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.
A decisão do presidente americano, Donald Trump, de dissolver a agência de ajuda internacional dos EUA (Usaid) no ano passado forçou grupos assistenciais em todo o mundo a demitir milhares de funcionários e encerrar programas que salvavam vidas. Embora Washington gastasse apenas 1% de seu orçamento com o órgão, ele foi desmontado após o então Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado à época por Elon Musk, classificá-lo como desperdício.
À Associated Press, o Departamento de Estado americano disse estar destinando mais de US$ 40 milhões (R$ 207 milhões) em assistência emergencial adicional ao Líbano, incluindo para o PMA. No entanto, trabalhadores humanitários citam a discrepância com o montante gasto na guerra: apenas a primeira semana do conflito custou US$ 11,3 bilhões (R$ 58 bilhões), segundo o Pentágono, que também busca mais de US$ 200 bilhões adicionais para a guerra.
— Cortes de financiamento em 2025 devastaram programas humanitários, incluindo os que trabalham com desnutrição. As agências de ajuda entram nesta crise em desvantagem. O PMA demitiu 25% de sua equipe e perdeu bilhões em financiamento humanitário. Ao mesmo tempo, pouco dinheiro novo foi mobilizado desde o início da guerra — disse Vigersky, que trabalhou no Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros da Usaid de 2014 a 2019.
Para Werz, se o impacto da invasão da Ucrânia e o “uso bem-sucedido dos alimentos como arma” pela Rússia servirem de indicador, é provável que os efeitos sejam de longo prazo. O impacto da guerra na Ucrânia sobre os mercados de fertilizantes, disse, gerou efeitos econômicos duradouros, reestruturou o comércio global e manteve os preços elevados bem acima dos níveis pré-guerra. Segundo ele, mesmo após o fim do conflito com o Irã, produtores no Golfo precisariam de garantias de segurança antes de retomar os envios pelo Estreito, e “efeitos cascata” poderão ser vistos “a milhares de quilômetros de distância”.
— Há uma série de ações que poderiam ser tomadas, mas que provavelmente serão prejudicadas por um sistema internacional cada vez mais disfuncional, no qual as grandes potências frequentemente perseguem interesses nacionais estreitamente definidos — afirmou. — Em última análise, o desafio é sistêmico: a política externa no século XXI envolve resolver problemas nacionais, regionais e globais que afetam grandes partes do mundo. No entanto, as instituições nas quais decisões são tomadas em nível nacional ou internacional muitas vezes ainda se assemelham a um ambiente da Guerra Fria que já não existe mais.
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