quarta-feira, 8 de abril de 2026

A 'invasão de Taiwan' segue dentro de momentos…

Ao contrário do que o diretor da CIA tinha alertado, “os líderes chineses não planeiam executar uma invasão de Taiwan em 2027, nem têm um calendário fixo para conseguir a unificação”, diz o relatório anual dos Serviços de Informações dos EUA sobre “os riscos de segurança”, divulgado a 19 de março. Mais: “eles preferem” alcançar a unificação “sem o uso da força”.

Os crónicos prognósticos acerca de uma invasão chinesa de Taiwan tornaram-se mais insistentes depois de a Rússia invadir a Ucrânia, em 2022. Imaginando a liderança chinesa inteiramente alinhada com Moscovo, alguns comentadores anteciparam que Xi Jinping iria imitar o homólogo russo: “Hoje, a Ucrânia; amanhã, Taiwan.” “Sabemos que o Presidente Xi Jinping instruiu o Exército Popular de Libertação (EPL) para estar pronto para invadir Taiwan em 2027”, disse há três anos o então diretor da CIA, William Burns. A data coincide com o centenário do EPL, que é, ainda hoje, o nome oficial das Forças Armadas chinesas.

Taiwan − ou Formosa, como lhe chamaram os navegadores portugueses − entrou no imaginário europeu no século XVI. Situada a cerca de 150 quilómetros do continente chinês, aquela ilha da Ásia-Pacífico está no centro da rivalidade sino-americana. A geografia, fustigada por frequentes sismos e tufões, é conhecida; a História, nem por isso.


Depois dos portugueses, vieram os espanhóis e, a seguir, os holandeses, que dominaram a ilha durante quase 20 anos, até 1662. No século XIX, os franceses também tentaram anexá-la, procurando repetir o que os ingleses fizeram em Hong Kong. A China estava em declínio. Em 1895, teve de ceder Taiwan ao Japão, uma anexação que durou até ao fim da II Guerra Mundial. No continente, o país resistiu unido à ocupação japonesa, mas a seguir entrou de novo em guerra civil.

Após a vitória comunista e a fundação da República Popular, em 1949, o que restava da antiga república, com capital em Nanjing, ficou reduzida a Taiwan e a três pequenos arquipélagos: Penghu, Mazu e Kinmen. Este último fica a meia hora de barco da costa chinesa. A nacionalidade indicada no bilhete de identidade dos seus 23,5 milhões de habitantes é “República da China” (sem o adjetivo “popular”).

Tudo somado, Taiwan vive há 130 anos fora do controlo de Pequim. Nas últimas décadas, a China transformou-se no maior parceiro comercial da ilha, absorvendo mais de um terço das suas exportações. Politicamente, porém, a separação acentuou-se a partir dos anos 90, depois de Taiwan abolir a lei marcial, autorizar o multipartidarismo e eleições por sufrágio direto. Para o Partido Comunista Chinês, o processo de democratização não alterou o estatuto da ilha: trata-se de uma província chinesa e não de uma entidade política soberana. Apenas 12 países, quase todos pequenos Estados do Pacífico, da América Central e da Caraíbas, mantêm relações diplomáticas com aquela “província”.

Mais de uma década antes do colapso da União Soviética e da emergência de um mundo unipolar dominado pelos EUA, a China já defendia a “reunificação pacífica” com Taiwan, só admitindo “usar a força” se as autoridades locais declararem a independência. A ilha, entretanto, passou a ser governada por um partido pró-separatista, cujo atual líder, Lai Ching-te, considera a China “uma força estrangeira hostil”. O principal partido da oposição, pelo contrário, duvida de que a reunificação desejada pelo PCC ocorra por via militar. “Não acredito que Pequim queira isso”, afirmou a presidente do Partido Nacionalista, Cheng Li-wen. “Afinal, eles veem os taiwaneses como compatriotas. Seriam realmente tão tolos que caíssem numa armadilha americana que nos levaria a massacrar-nos uns aos outros e a destruir Taiwan?” Os dois partidos da oposição têm a maioria no Parlamento, mas não conseguiram apresentar uma candidatura comum às eleições de 2024, permitindo que Lai Ching-te fosse eleito com 40% dos votos.

A reação do governo chinês ao último relatório dos EUA também não mudou: “A questão de Taiwan é um assunto interno da China, e a forma de a resolver é da exclusiva competência do povo chinês, não admitindo qualquer interferência de forças externas”, disse um porta-voz dos Negócios Estrangeiros. “Os EUA devem corrigir a sua compreensão acerca da China e parar de exagerar a teoria da ameaça chinesa.”

Todos os países da NATO reconhecem Pequim como “o único representante do povo chinês”. Os EUA, no entanto, nunca deixaram de vender armas a Taiwan e comprometeram-se a assegurar “os meios necessários para a sua defesa”. O antecessor de Donald Trump na Casa Branca, Joe Biden, garantiu que os EUA interviriam se a China invadisse Taiwan. O atual Presidente, neste aspeto, tem-se mostrado menos ameaçador, mas nunca se sabe o que fará a seguir…

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