quarta-feira, 8 de abril de 2026
Na encruzilhada entre a civilização e a barbárie
Nesta hora sombria, uma grande escumalha emerge dos subterrâneos: belicistas, fascistas, nazistas; os que querem dar continuidade e revitalizar a escravidão; os que morrem de medo da ideia da igualdade de direitos e de oportunidades para todos os seres humanos; os que temem o outro, os outros, as outras culturas; esses que se sentem ameaçados pelas diferenças humanas, por diferentes modos de ser; os adoradores do dinheiro e os que aceitam de bom grado a servidão consentida; os que são defensores da exploração sem limites dos trabalhadores pelo capital; os que ganham com a economia de guerra; os especuladores e os que querem revitalizar, a qualquer custo, os grandes impérios decadentes. Neste momento sombrio, o império da morte e da aniquilação vem à luz do dia fazer pilhagens, matar sem dó e sem pudor, como se viu na ascensão do nazismo na Alemanha. Hoje, o massacre de crianças, o assassinato de famílias inteiras, a destruição de territórios e o apagamento de culturas milenares são transmitidos em tempo real e festejados com orgulho. O tempo da vergonha não existe mais.
Zombam dos valores civilizatórios que a humanidade construiu; desprezam a empatia e a ética, desrespeitam todos os princípios que sustentam a vida e a convivência em sociedade. Uma horda de rancorosos, que se ufanam de serem os arautos da morte, faz da violência sua única linguagem. À frente estão aqueles que desejam renovar suas relações imperialistas com o resto do mundo. Trump vem fazendo a pilhagem de fontes de energia, de riquezas minerais e de outros ativos econômicos acreditando que, com isso, reverterá a decadência dos Estados Unidos. Não reverterá. Mas a truculência de seus atos está provocando uma trinca profunda na frágil estabilidade do mundo. Ao não reconhecer os direitos das outras nações, Trump estabelece que a pilhagem é uma prerrogativa de países militarmente mais fortes.
Sob a batuta de Trump, “mileis”, “bolsonaros” e que tais, uma escumalha – o que há de pior entre os seres humanos – está sendo mobilizada nos quatro cantos do planeta para tocar o terror. Essa onda semeia o medo, a falta de perspectiva e a desconfiança; promove o terror e o caos. Cresce se alimentando da insegurança geral para se impor e submeter a todos aos seus desmandos.
Nesse contexto assombroso, a fala de Lula nos fóruns mundiais adquire uma grande importância e legitimidade. É um bálsamo, um sopro de vento fresco para os que estão apreensivos, percebendo que a insanidade está conquistando terreno. A voz de Lula se espalha por todas as latitudes e longitudes, indicando alternativas, enquanto os fascistas, nazistas e todos os supremacistas tentam recuperar as energias exauridas na derrota da Segunda Grande Guerra. Estão, neste momento, ameaçando de muitas maneiras as democracias e atacando direitos individuais e coletivos na tentativa de enfraquecer e desmoralizar os Estados nacionais, suas normas e instituições.
São arautos da destruição e inimigos de tudo o que é bom para os seres humanos. Representam a morte e a degradação. Desejam botar fogo, demolir, degradar, até que não reste mais nada do mundo que construímos. São inimigos de todos os direitos, valores e relações civilizadas conquistados com muita luta no decorrer da História.
Atacam sistematicamente a institucionalidade das nações, não para aprimorá-las, mas para aumentar a insegurança e transformar os países em terra sem lei, onde o caos e a insegurança predominem para que escapem de qualquer controle político e social.
Aqui mesmo, no Brasil, temos a dura missão de enfrentar as novas investidas dessa turba que insiste em impor o retrocesso, o entreguismo, a morte, a ignorância, o racismo, a misoginia, a discriminação e o ressentimento cego. Seres alienados, carregam dentro de si o complexo de inferioridade. Como já demonstraram, capazes de destruir todo o patrimônio social, econômico e cultural conquistado pelo povo brasileiro. Paradoxalmente, defendem com orgulho aqueles que lhes desprezam e subestimam. Numa total insanidade, seguem seus verdadeiros algozes, prontos para demolir toda a estrutura de organização, proteção e emancipação social, iludidos por uma falsa ideia de liberdade e de crescimento por mérito pessoal. Caminham alegremente para o cadafalso e, junto com eles, tentam levar toda a sociedade como um tsunami que arrasa a terra por onde passa.
Lula nos representa ao chamar a atenção para o mal que ameaça e se impõe sobre toda a humanidade. Nosso presidente tornou-se uma voz com legitimidade global ao representar os interesses de todos os seres vivos. Ele é a voz lúcida e corajosa que aponta para a urgência e a viabilidade da construção de um ambiente de paz entre as nações. Com sua confiança e sensatez, Lula indica a possibilidade de um futuro feliz para todos. Suas palavras são a faísca de esperança da qual o mundo necessita para resistir e seguir em frente.
A Europa está com dificuldade de mobilizar sua energia vital causando decepção ao se submeter à lógica distópica imposta ao mundo. Da mesma forma, a democracia norte-americana não tem demonstrado ser capaz de deter a marcha insana capitaneada por seu próprio presidente. O sinal inequívoco de que a sanha destruidora segue sem obstáculos e a parceria de Trump, Netanyahu e o Estado sionista de Israel para perpetrar o genocídio calculado do povo palestino e rapinar as fontes de energia dos países do Oriente Médio e da América Latina. Tudo debaixo dos olhos atônitos de um ocidente inerte. Estão impondo a lei do cão.
Não podemos ter ilusões: os Estados nacionais dos países europeus, com honrosas exceções, como a Espanha, foram capturados ou estão submetidos a essa onda reacionária contagiosa. Toda a ordem mundial está ruindo, causando uma reação ao estilo “salve-se quem puder”. Ocorre que, se Trump, Netanyahu e seus assemelhados forem bem sucedidos, somente os países que possuem a bomba atômica e aqueles que têm uma coesão nacional que lhes garanta soberania e resistência terão alguma chance de sobreviver.
Estamos diante de um desafio sem precedentes. Não há exemplo na história da humanidade para o qual possamos olhar em busca de uma inspiração. Teremos que inventar algo novo que nos torne fortes e maleáveis a ponto de vencer um inimigo desgovernado que detém o maior poderio bélico do planeta e conta uma horda de adoradores infiltrados entre nós, atuando nas famílias, nas instituições, nas escolas, nas igrejas, nas redes e nas ruas.
Frente a um cerco dessas proporções, os povos despertos de todo o mundo terão que desenvolver uma espécie de cidadania planetária, sem fronteiras, sem barreiras, no verdadeiro espírito “ninguém larga a mão de ninguém” para resistir ao tsunami de baixo astral que vem crescendo no horizonte.
Os organismos internacionais estão neutralizados. A ONU perdeu a capacidade de contribuir para a solução dos conflitos, desconcertada diante de criminosos que não respeitam as normas internacionais e desprezam qualquer iniciativa de governança global. Cabe aos cidadãos e às nações soberanas, juntos e conscientes da gravidade do momento, desempenhar o papel de defender e zelar pela paz mundial, pelo respeito entre os povos, pelos direitos de todos os seres vivos, pelo futuro da humanidade, pela sobrevivência do planeta e da vida na Terra.
Civilização ou barbárie? Eis o centro da contradição no mundo, neste momento.
Juca Ferreira
Zombam dos valores civilizatórios que a humanidade construiu; desprezam a empatia e a ética, desrespeitam todos os princípios que sustentam a vida e a convivência em sociedade. Uma horda de rancorosos, que se ufanam de serem os arautos da morte, faz da violência sua única linguagem. À frente estão aqueles que desejam renovar suas relações imperialistas com o resto do mundo. Trump vem fazendo a pilhagem de fontes de energia, de riquezas minerais e de outros ativos econômicos acreditando que, com isso, reverterá a decadência dos Estados Unidos. Não reverterá. Mas a truculência de seus atos está provocando uma trinca profunda na frágil estabilidade do mundo. Ao não reconhecer os direitos das outras nações, Trump estabelece que a pilhagem é uma prerrogativa de países militarmente mais fortes.
Sob a batuta de Trump, “mileis”, “bolsonaros” e que tais, uma escumalha – o que há de pior entre os seres humanos – está sendo mobilizada nos quatro cantos do planeta para tocar o terror. Essa onda semeia o medo, a falta de perspectiva e a desconfiança; promove o terror e o caos. Cresce se alimentando da insegurança geral para se impor e submeter a todos aos seus desmandos.
Nesse contexto assombroso, a fala de Lula nos fóruns mundiais adquire uma grande importância e legitimidade. É um bálsamo, um sopro de vento fresco para os que estão apreensivos, percebendo que a insanidade está conquistando terreno. A voz de Lula se espalha por todas as latitudes e longitudes, indicando alternativas, enquanto os fascistas, nazistas e todos os supremacistas tentam recuperar as energias exauridas na derrota da Segunda Grande Guerra. Estão, neste momento, ameaçando de muitas maneiras as democracias e atacando direitos individuais e coletivos na tentativa de enfraquecer e desmoralizar os Estados nacionais, suas normas e instituições.
São arautos da destruição e inimigos de tudo o que é bom para os seres humanos. Representam a morte e a degradação. Desejam botar fogo, demolir, degradar, até que não reste mais nada do mundo que construímos. São inimigos de todos os direitos, valores e relações civilizadas conquistados com muita luta no decorrer da História.
Atacam sistematicamente a institucionalidade das nações, não para aprimorá-las, mas para aumentar a insegurança e transformar os países em terra sem lei, onde o caos e a insegurança predominem para que escapem de qualquer controle político e social.
Aqui mesmo, no Brasil, temos a dura missão de enfrentar as novas investidas dessa turba que insiste em impor o retrocesso, o entreguismo, a morte, a ignorância, o racismo, a misoginia, a discriminação e o ressentimento cego. Seres alienados, carregam dentro de si o complexo de inferioridade. Como já demonstraram, capazes de destruir todo o patrimônio social, econômico e cultural conquistado pelo povo brasileiro. Paradoxalmente, defendem com orgulho aqueles que lhes desprezam e subestimam. Numa total insanidade, seguem seus verdadeiros algozes, prontos para demolir toda a estrutura de organização, proteção e emancipação social, iludidos por uma falsa ideia de liberdade e de crescimento por mérito pessoal. Caminham alegremente para o cadafalso e, junto com eles, tentam levar toda a sociedade como um tsunami que arrasa a terra por onde passa.
Lula nos representa ao chamar a atenção para o mal que ameaça e se impõe sobre toda a humanidade. Nosso presidente tornou-se uma voz com legitimidade global ao representar os interesses de todos os seres vivos. Ele é a voz lúcida e corajosa que aponta para a urgência e a viabilidade da construção de um ambiente de paz entre as nações. Com sua confiança e sensatez, Lula indica a possibilidade de um futuro feliz para todos. Suas palavras são a faísca de esperança da qual o mundo necessita para resistir e seguir em frente.
A Europa está com dificuldade de mobilizar sua energia vital causando decepção ao se submeter à lógica distópica imposta ao mundo. Da mesma forma, a democracia norte-americana não tem demonstrado ser capaz de deter a marcha insana capitaneada por seu próprio presidente. O sinal inequívoco de que a sanha destruidora segue sem obstáculos e a parceria de Trump, Netanyahu e o Estado sionista de Israel para perpetrar o genocídio calculado do povo palestino e rapinar as fontes de energia dos países do Oriente Médio e da América Latina. Tudo debaixo dos olhos atônitos de um ocidente inerte. Estão impondo a lei do cão.
Não podemos ter ilusões: os Estados nacionais dos países europeus, com honrosas exceções, como a Espanha, foram capturados ou estão submetidos a essa onda reacionária contagiosa. Toda a ordem mundial está ruindo, causando uma reação ao estilo “salve-se quem puder”. Ocorre que, se Trump, Netanyahu e seus assemelhados forem bem sucedidos, somente os países que possuem a bomba atômica e aqueles que têm uma coesão nacional que lhes garanta soberania e resistência terão alguma chance de sobreviver.
Estamos diante de um desafio sem precedentes. Não há exemplo na história da humanidade para o qual possamos olhar em busca de uma inspiração. Teremos que inventar algo novo que nos torne fortes e maleáveis a ponto de vencer um inimigo desgovernado que detém o maior poderio bélico do planeta e conta uma horda de adoradores infiltrados entre nós, atuando nas famílias, nas instituições, nas escolas, nas igrejas, nas redes e nas ruas.
Frente a um cerco dessas proporções, os povos despertos de todo o mundo terão que desenvolver uma espécie de cidadania planetária, sem fronteiras, sem barreiras, no verdadeiro espírito “ninguém larga a mão de ninguém” para resistir ao tsunami de baixo astral que vem crescendo no horizonte.
Os organismos internacionais estão neutralizados. A ONU perdeu a capacidade de contribuir para a solução dos conflitos, desconcertada diante de criminosos que não respeitam as normas internacionais e desprezam qualquer iniciativa de governança global. Cabe aos cidadãos e às nações soberanas, juntos e conscientes da gravidade do momento, desempenhar o papel de defender e zelar pela paz mundial, pelo respeito entre os povos, pelos direitos de todos os seres vivos, pelo futuro da humanidade, pela sobrevivência do planeta e da vida na Terra.
Civilização ou barbárie? Eis o centro da contradição no mundo, neste momento.
Juca Ferreira
A 'invasão de Taiwan' segue dentro de momentos…
Ao contrário do que o diretor da CIA tinha alertado, “os líderes chineses não planeiam executar uma invasão de Taiwan em 2027, nem têm um calendário fixo para conseguir a unificação”, diz o relatório anual dos Serviços de Informações dos EUA sobre “os riscos de segurança”, divulgado a 19 de março. Mais: “eles preferem” alcançar a unificação “sem o uso da força”.
Os crónicos prognósticos acerca de uma invasão chinesa de Taiwan tornaram-se mais insistentes depois de a Rússia invadir a Ucrânia, em 2022. Imaginando a liderança chinesa inteiramente alinhada com Moscovo, alguns comentadores anteciparam que Xi Jinping iria imitar o homólogo russo: “Hoje, a Ucrânia; amanhã, Taiwan.” “Sabemos que o Presidente Xi Jinping instruiu o Exército Popular de Libertação (EPL) para estar pronto para invadir Taiwan em 2027”, disse há três anos o então diretor da CIA, William Burns. A data coincide com o centenário do EPL, que é, ainda hoje, o nome oficial das Forças Armadas chinesas.
Taiwan − ou Formosa, como lhe chamaram os navegadores portugueses − entrou no imaginário europeu no século XVI. Situada a cerca de 150 quilómetros do continente chinês, aquela ilha da Ásia-Pacífico está no centro da rivalidade sino-americana. A geografia, fustigada por frequentes sismos e tufões, é conhecida; a História, nem por isso.
Depois dos portugueses, vieram os espanhóis e, a seguir, os holandeses, que dominaram a ilha durante quase 20 anos, até 1662. No século XIX, os franceses também tentaram anexá-la, procurando repetir o que os ingleses fizeram em Hong Kong. A China estava em declínio. Em 1895, teve de ceder Taiwan ao Japão, uma anexação que durou até ao fim da II Guerra Mundial. No continente, o país resistiu unido à ocupação japonesa, mas a seguir entrou de novo em guerra civil.
Após a vitória comunista e a fundação da República Popular, em 1949, o que restava da antiga república, com capital em Nanjing, ficou reduzida a Taiwan e a três pequenos arquipélagos: Penghu, Mazu e Kinmen. Este último fica a meia hora de barco da costa chinesa. A nacionalidade indicada no bilhete de identidade dos seus 23,5 milhões de habitantes é “República da China” (sem o adjetivo “popular”).
Tudo somado, Taiwan vive há 130 anos fora do controlo de Pequim. Nas últimas décadas, a China transformou-se no maior parceiro comercial da ilha, absorvendo mais de um terço das suas exportações. Politicamente, porém, a separação acentuou-se a partir dos anos 90, depois de Taiwan abolir a lei marcial, autorizar o multipartidarismo e eleições por sufrágio direto. Para o Partido Comunista Chinês, o processo de democratização não alterou o estatuto da ilha: trata-se de uma província chinesa e não de uma entidade política soberana. Apenas 12 países, quase todos pequenos Estados do Pacífico, da América Central e da Caraíbas, mantêm relações diplomáticas com aquela “província”.
Mais de uma década antes do colapso da União Soviética e da emergência de um mundo unipolar dominado pelos EUA, a China já defendia a “reunificação pacífica” com Taiwan, só admitindo “usar a força” se as autoridades locais declararem a independência. A ilha, entretanto, passou a ser governada por um partido pró-separatista, cujo atual líder, Lai Ching-te, considera a China “uma força estrangeira hostil”. O principal partido da oposição, pelo contrário, duvida de que a reunificação desejada pelo PCC ocorra por via militar. “Não acredito que Pequim queira isso”, afirmou a presidente do Partido Nacionalista, Cheng Li-wen. “Afinal, eles veem os taiwaneses como compatriotas. Seriam realmente tão tolos que caíssem numa armadilha americana que nos levaria a massacrar-nos uns aos outros e a destruir Taiwan?” Os dois partidos da oposição têm a maioria no Parlamento, mas não conseguiram apresentar uma candidatura comum às eleições de 2024, permitindo que Lai Ching-te fosse eleito com 40% dos votos.
A reação do governo chinês ao último relatório dos EUA também não mudou: “A questão de Taiwan é um assunto interno da China, e a forma de a resolver é da exclusiva competência do povo chinês, não admitindo qualquer interferência de forças externas”, disse um porta-voz dos Negócios Estrangeiros. “Os EUA devem corrigir a sua compreensão acerca da China e parar de exagerar a teoria da ameaça chinesa.”
Todos os países da NATO reconhecem Pequim como “o único representante do povo chinês”. Os EUA, no entanto, nunca deixaram de vender armas a Taiwan e comprometeram-se a assegurar “os meios necessários para a sua defesa”. O antecessor de Donald Trump na Casa Branca, Joe Biden, garantiu que os EUA interviriam se a China invadisse Taiwan. O atual Presidente, neste aspeto, tem-se mostrado menos ameaçador, mas nunca se sabe o que fará a seguir…
Os crónicos prognósticos acerca de uma invasão chinesa de Taiwan tornaram-se mais insistentes depois de a Rússia invadir a Ucrânia, em 2022. Imaginando a liderança chinesa inteiramente alinhada com Moscovo, alguns comentadores anteciparam que Xi Jinping iria imitar o homólogo russo: “Hoje, a Ucrânia; amanhã, Taiwan.” “Sabemos que o Presidente Xi Jinping instruiu o Exército Popular de Libertação (EPL) para estar pronto para invadir Taiwan em 2027”, disse há três anos o então diretor da CIA, William Burns. A data coincide com o centenário do EPL, que é, ainda hoje, o nome oficial das Forças Armadas chinesas.
Taiwan − ou Formosa, como lhe chamaram os navegadores portugueses − entrou no imaginário europeu no século XVI. Situada a cerca de 150 quilómetros do continente chinês, aquela ilha da Ásia-Pacífico está no centro da rivalidade sino-americana. A geografia, fustigada por frequentes sismos e tufões, é conhecida; a História, nem por isso.
Depois dos portugueses, vieram os espanhóis e, a seguir, os holandeses, que dominaram a ilha durante quase 20 anos, até 1662. No século XIX, os franceses também tentaram anexá-la, procurando repetir o que os ingleses fizeram em Hong Kong. A China estava em declínio. Em 1895, teve de ceder Taiwan ao Japão, uma anexação que durou até ao fim da II Guerra Mundial. No continente, o país resistiu unido à ocupação japonesa, mas a seguir entrou de novo em guerra civil.
Após a vitória comunista e a fundação da República Popular, em 1949, o que restava da antiga república, com capital em Nanjing, ficou reduzida a Taiwan e a três pequenos arquipélagos: Penghu, Mazu e Kinmen. Este último fica a meia hora de barco da costa chinesa. A nacionalidade indicada no bilhete de identidade dos seus 23,5 milhões de habitantes é “República da China” (sem o adjetivo “popular”).
Tudo somado, Taiwan vive há 130 anos fora do controlo de Pequim. Nas últimas décadas, a China transformou-se no maior parceiro comercial da ilha, absorvendo mais de um terço das suas exportações. Politicamente, porém, a separação acentuou-se a partir dos anos 90, depois de Taiwan abolir a lei marcial, autorizar o multipartidarismo e eleições por sufrágio direto. Para o Partido Comunista Chinês, o processo de democratização não alterou o estatuto da ilha: trata-se de uma província chinesa e não de uma entidade política soberana. Apenas 12 países, quase todos pequenos Estados do Pacífico, da América Central e da Caraíbas, mantêm relações diplomáticas com aquela “província”.
Mais de uma década antes do colapso da União Soviética e da emergência de um mundo unipolar dominado pelos EUA, a China já defendia a “reunificação pacífica” com Taiwan, só admitindo “usar a força” se as autoridades locais declararem a independência. A ilha, entretanto, passou a ser governada por um partido pró-separatista, cujo atual líder, Lai Ching-te, considera a China “uma força estrangeira hostil”. O principal partido da oposição, pelo contrário, duvida de que a reunificação desejada pelo PCC ocorra por via militar. “Não acredito que Pequim queira isso”, afirmou a presidente do Partido Nacionalista, Cheng Li-wen. “Afinal, eles veem os taiwaneses como compatriotas. Seriam realmente tão tolos que caíssem numa armadilha americana que nos levaria a massacrar-nos uns aos outros e a destruir Taiwan?” Os dois partidos da oposição têm a maioria no Parlamento, mas não conseguiram apresentar uma candidatura comum às eleições de 2024, permitindo que Lai Ching-te fosse eleito com 40% dos votos.
A reação do governo chinês ao último relatório dos EUA também não mudou: “A questão de Taiwan é um assunto interno da China, e a forma de a resolver é da exclusiva competência do povo chinês, não admitindo qualquer interferência de forças externas”, disse um porta-voz dos Negócios Estrangeiros. “Os EUA devem corrigir a sua compreensão acerca da China e parar de exagerar a teoria da ameaça chinesa.”
Todos os países da NATO reconhecem Pequim como “o único representante do povo chinês”. Os EUA, no entanto, nunca deixaram de vender armas a Taiwan e comprometeram-se a assegurar “os meios necessários para a sua defesa”. O antecessor de Donald Trump na Casa Branca, Joe Biden, garantiu que os EUA interviriam se a China invadisse Taiwan. O atual Presidente, neste aspeto, tem-se mostrado menos ameaçador, mas nunca se sabe o que fará a seguir…
Estamos todos cansados e não é por acaso
Há uma fila para pagar. Mas não me aproximo das caixas automáticas, vazias àquela hora, evitadas por todos os que vivem no bairro e aproveitam para dar dois dedos de conversa com os operadores enquanto as compras rolam pelo tapete. A senhora que está a atender trabalha ali há muitos anos, conhece quem conta nas mãos as moedas enquanto olha com ansiedade para a soma registada pela máquina, quem se atrapalha com as mãos trémulas pela idade a fazer os trocos, quem tenta gerir as compras e os filhos pequenos ao mesmo tempo que fala ao telefone. Sei de tudo isso e de como ela, e vários outros que aqui trabalham, se tornam figuras reconhecidas com quem se fala de tudo e de nada. Mas tenho quase a certeza de que a senhora que estava à minha frente a ser atendida não a conhecia particularmente. E talvez isso torne ainda mais incrível o que lhe disse. “Como está?”, perguntou a operadora, com um sorriso, fazendo deslizar os códigos de barras pela máquina. Sem grande hesitação, a mulher respondeu: “Muito cansada. Psicologicamente muito cansada.”
Ainda não tinha reparado nela, ocupada que estava a descarregar o carrinho sobre o tapete rolante. Ergui os olhos, procurando a dona desta resposta desabrida e honesta, inesperada o suficiente para provocar uma pausa. A operadora parou também por instantes o que estava a fazer. Apenas um ou dois segundos. Olhou-a. E, sem vestígio de condenação, respondeu com bondade e empatia. “Pois. Isto está muito difícil.” A outra tinha já moedas entre os dedos. Parou de frente para a caixa. Tinha o cabelo em desalinho e a cara demasiado envelhecida para a idade, uma t-shirt puída, gasta sobre a saliência do ventre, as costas tortas debaixo de um casaco de malha. “É uma colega lá do trabalho. Faz-me a vida num inferno”, desabafou, explicando quase de rajada que trabalha numa cozinha. “Não sei se vou aguentar muito tempo”, disse mesmo antes de rodar sobre os pés para sair com os sacos das compras.
Fiquei a pensar naquilo. No cansaço. Em como o carregamos às costas, em como nos verga os ombros, em como nos tolda a compreensão e a paciência. Andamos cansados. Todos. Exaustos. Arrastamo-nos de tarefa em tarefa. Corremos atrás das horas. Sem pausa. Sem um momento que seja em que não estejamos a fazer nada. Existir é uma coisa que demora demasiado tempo. Fazemos. Cumprimos. Resolvemos. A cada passo consultando o telefone, com as mensagens, as notificações, as chamadas, os emails. É tudo urgente. É tudo importante. Temos de responder, temos de aparecer, temos de fazer. Os dias esgotam-se depressa como se os engolíssemos de um trago. São pequenos fósforos a arder entre os dedos até os sentirmos queimar. Chegamos à cama com um misto de alívio e culpa. Este dia já foi, pensamos. Este dia já era, lamentamos. Mas sabemos que temos de adormecer depressa. O relógio já nos engole as poucas horas de descanso, enquanto nos enrolamos nos lençóis e nas ideias do que ficou por fazer. É preciso descansar. O sono tornou-se um imperativo que perseguimos ansiosos e não a resposta de um corpo que procura repousar.
O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados, como antes a religião nos dividia entre os bem-aventurados e os pecadores. A culpa que carregamos faz parte do processo. Sempre fez.
O cansaço que nos tolhe não é individual, dizia eu. Estamos cansados porque temos de vender muitas horas de trabalho só para conseguir viver, num sistema que nos impinge a ideia de que o nosso valor intrínseco se mede pelo que conseguimos fazer e ter e não pelo que somos. Estamos cansados porque vivemos cada vez mais longe do trabalho, dos amigos, da família. Estamos cansados porque ficamos sem rede que nos ajude a cuidar dos filhos e dos pais. Estamos cansados porque a ansiedade da incerteza e da precariedade cansa. Estamos cansados porque até os encontros sociais se tornam um momento de consumo, desligado do prazer simples de estar com aqueles de quem gostamos, transformado em mais uma possibilidade de negócio que faz com que manter amizades custe demasiado dinheiro. Estamos cansados porque parar é um luxo. Estamos cansados porque somos nós o produto final, explorados numa economia da atenção, desenhada para nos manter colados aos ecrãs e às redes, enquanto minera os nossos dados. Estamos cansados porque desligar tem um preço demasiado alto.
Estamos cansados para que nos vendam detox e retiros, férias e massagens, livros de autoajuda e medicação, saídas à noite e entradas no ginásio, escapadinhas e chás, cremes e sonhos.
Estou a pensar nisso enquanto saio do supermercado. Tenho à frente um parque infantil. Passa pouco das quatro da tarde e a praceta enche-se de mulheres e crianças pequenas. Olhando com atenção, percebo que as mulheres que ali estão são todas negras e as crianças brancas e loiras. Algumas das mulheres estão fardadas. É evidente que não são as mães. Vigiam as crianças, mais ou menos atentas, enquanto elas brincam. Algumas delas, distraindo-se com conversas entre si, outras olhando para os telefones, outras ainda enchendo os pequenos de mimos e atenção.
Esta é uma das primeiras tardes de primavera e as árvores enchem o ar de um cheiro doce. Devia ser uma alegria apanhar este sol seguindo os pequenos passos curiosos destas crianças. Mas há uma evidência que me esmaga: estas não são as mães. Noutro ponto da cidade, hão de estar mulheres, talvez esmagadas pela culpa, trabalhando fechadas longe desta brisa primaveril. Noutro ponto da cidade, hão de estar crianças, vigiadas por outros olhos, enquanto os braços das suas mães carregam os filhos das outras. E todos andam nesta mesma roda-viva que transforma a vida num ato de sobrevivência e a afasta do prazer que todos devíamos instintivamente procurar. Temos mesmo de desligar.
Ainda não tinha reparado nela, ocupada que estava a descarregar o carrinho sobre o tapete rolante. Ergui os olhos, procurando a dona desta resposta desabrida e honesta, inesperada o suficiente para provocar uma pausa. A operadora parou também por instantes o que estava a fazer. Apenas um ou dois segundos. Olhou-a. E, sem vestígio de condenação, respondeu com bondade e empatia. “Pois. Isto está muito difícil.” A outra tinha já moedas entre os dedos. Parou de frente para a caixa. Tinha o cabelo em desalinho e a cara demasiado envelhecida para a idade, uma t-shirt puída, gasta sobre a saliência do ventre, as costas tortas debaixo de um casaco de malha. “É uma colega lá do trabalho. Faz-me a vida num inferno”, desabafou, explicando quase de rajada que trabalha numa cozinha. “Não sei se vou aguentar muito tempo”, disse mesmo antes de rodar sobre os pés para sair com os sacos das compras.
Fiquei a pensar naquilo. No cansaço. Em como o carregamos às costas, em como nos verga os ombros, em como nos tolda a compreensão e a paciência. Andamos cansados. Todos. Exaustos. Arrastamo-nos de tarefa em tarefa. Corremos atrás das horas. Sem pausa. Sem um momento que seja em que não estejamos a fazer nada. Existir é uma coisa que demora demasiado tempo. Fazemos. Cumprimos. Resolvemos. A cada passo consultando o telefone, com as mensagens, as notificações, as chamadas, os emails. É tudo urgente. É tudo importante. Temos de responder, temos de aparecer, temos de fazer. Os dias esgotam-se depressa como se os engolíssemos de um trago. São pequenos fósforos a arder entre os dedos até os sentirmos queimar. Chegamos à cama com um misto de alívio e culpa. Este dia já foi, pensamos. Este dia já era, lamentamos. Mas sabemos que temos de adormecer depressa. O relógio já nos engole as poucas horas de descanso, enquanto nos enrolamos nos lençóis e nas ideias do que ficou por fazer. É preciso descansar. O sono tornou-se um imperativo que perseguimos ansiosos e não a resposta de um corpo que procura repousar.
O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados, como antes a religião nos dividia entre os bem-aventurados e os pecadores. A culpa que carregamos faz parte do processo. Sempre fez.
O cansaço que nos tolhe não é individual, dizia eu. Estamos cansados porque temos de vender muitas horas de trabalho só para conseguir viver, num sistema que nos impinge a ideia de que o nosso valor intrínseco se mede pelo que conseguimos fazer e ter e não pelo que somos. Estamos cansados porque vivemos cada vez mais longe do trabalho, dos amigos, da família. Estamos cansados porque ficamos sem rede que nos ajude a cuidar dos filhos e dos pais. Estamos cansados porque a ansiedade da incerteza e da precariedade cansa. Estamos cansados porque até os encontros sociais se tornam um momento de consumo, desligado do prazer simples de estar com aqueles de quem gostamos, transformado em mais uma possibilidade de negócio que faz com que manter amizades custe demasiado dinheiro. Estamos cansados porque parar é um luxo. Estamos cansados porque somos nós o produto final, explorados numa economia da atenção, desenhada para nos manter colados aos ecrãs e às redes, enquanto minera os nossos dados. Estamos cansados porque desligar tem um preço demasiado alto.
Estamos cansados para que nos vendam detox e retiros, férias e massagens, livros de autoajuda e medicação, saídas à noite e entradas no ginásio, escapadinhas e chás, cremes e sonhos.
Estou a pensar nisso enquanto saio do supermercado. Tenho à frente um parque infantil. Passa pouco das quatro da tarde e a praceta enche-se de mulheres e crianças pequenas. Olhando com atenção, percebo que as mulheres que ali estão são todas negras e as crianças brancas e loiras. Algumas das mulheres estão fardadas. É evidente que não são as mães. Vigiam as crianças, mais ou menos atentas, enquanto elas brincam. Algumas delas, distraindo-se com conversas entre si, outras olhando para os telefones, outras ainda enchendo os pequenos de mimos e atenção.
Esta é uma das primeiras tardes de primavera e as árvores enchem o ar de um cheiro doce. Devia ser uma alegria apanhar este sol seguindo os pequenos passos curiosos destas crianças. Mas há uma evidência que me esmaga: estas não são as mães. Noutro ponto da cidade, hão de estar mulheres, talvez esmagadas pela culpa, trabalhando fechadas longe desta brisa primaveril. Noutro ponto da cidade, hão de estar crianças, vigiadas por outros olhos, enquanto os braços das suas mães carregam os filhos das outras. E todos andam nesta mesma roda-viva que transforma a vida num ato de sobrevivência e a afasta do prazer que todos devíamos instintivamente procurar. Temos mesmo de desligar.
Os pobres pagam pela crise mundial
Para desconsolo de operadores do mercado financeiro, a ganhadora do Prêmio Nobel de Economia de 2019, a francesa Esther Duflo, tem vindo ao Brasil e falado sobre o País com mais frequência do que gostariam. Duflo tem discorrido sobre temas que a tornaram reconhecida mundialmente, como pobres, combate à pobreza, taxação dos muitos ricos, políticas sociais inclusivas. São temas perturbadores aos que se dedicam a acumular riquezas, para si ou para terceiros.
Na sua mais recente vinda ao País, há duas semanas, Duflo participou de eventos ligados à Fundação Lemann, que, em seu slogan, diz: “Por um Brasil que acredita nas pessoas; por pessoas que acreditam no Brasil”. O principal idealizador da Fundação é Jorge Paulo Lemann, provavelmente o mais conhecido dos empresários brasileiros que conquistaram prestígio e poder no mundo e certamente um dos ídolos dos que trabalham na área financeira. Mas Esther Duflo veio para falar sobre os temas de que tem tratado. Pior: ela deu uma aula magna em Brasília na Escola Nacional de Administração Pública, realizada em parceria com a Fundação Lemann. A ação do Estado assusta parte das pessoas que lidam com muito dinheiro; o susto deve aumentar quando uma instituição privada, com palestras como estas, contribui para aperfeiçoar e modernizar a atuação do poder público.
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Duflo afirmou que os pobres pagam a conta das guerras, como a que hoje envolve Estados Unidos, Israel e Irã. O impacto do conflito sobre o orçamento dos pobres vem pelo aumento dos combustíveis (que afeta os demais preços) e dos alimentos (impacto direto). “São sempre os pobres que pagam. A guerra da Ucrânia é um resumo disso: levou a um grande aumento dos preços de alimentos, o que foi ruim para todos e um desastre para o custo de vida das pessoas pobres da África”, lembrou.
Em outra entrevista, esta para o Estadão há cerca de um ano (26/4/2025), Duflo falou do papel dos ricos no agravamento das mudanças climáticas e dos que arcam com os custos ambientais. Referindo-se à sua proposta de taxação das 2 mil ou 3 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 bilhão, que a tem levado a viajar o mundo, disse que os recursos arrecadados seriam destinados aos mais pobres do planeta afetados por eventos extremos, pois essas pessoas são “as maiores vítimas das mudanças climáticas e não contribuíram em nada para que o aquecimento global acontecesse”.
Uma justificativa sobre a proposta foi apresentada por ela em entrevista que concedeu em 2024 à BBC News Brasil. Eis o que disse: “A dupla crueldade das alterações climáticas é que as emissões responsáveis por elas, tanto historicamente como ainda hoje, se devem às pessoas ricas do mundo, que se encontram majoritariamente em países ricos, embora haja pessoas ricas em países de renda média. Mas as principais vítimas são as pessoas pobres do mundo, que se encontram majoritariamente em países pobres, embora haja pessoas pobres nos países ricos”. E completou: “Você não pode seguir em frente e dizer que está tudo bem”.
Daí ela falar em “dívida moral” dos bilionários que poluem mais do que ninguém, mas em nada arcam com os custos da degradação ambiental e, sobretudo, mal pagam impostos, quando pagam. E daí mais um argumento para sua proposta de taxação dos bilionários.
Quanto ao Brasil, Duflo disse que o País tem posição destacada no debate das mudanças climáticas, mas, quanto à questão socioeconômica, precisa evoluir na taxação dos muitos ricos para avançar no combate à pobreza. “Há uma coisa com que, eu acho, todos concordam: a situação fiscal do Brasil é complexa”, disse.
De fato, o equilíbrio das contas públicas é a grande preocupação que tem alimentado o debate entre economistas de prestígio no País – e tem colocado o governo na defensiva. São frequentes projeções de crise das finanças públicas em futuro próximo, com risco para a sustentação de importantes programas, especialmente na área social, o que afetaria os que mais necessitam do apoio do governo, os pobres. Evitar isso exige aumento de arrecadação, com a taxação maior sobre quem pode muito e paga pouco.
O sistema tributário brasileiro, como observou Duflo, é incapaz de enfrentar esse problema. De forma mais direta, seria necessário dizer que o sistema é socialmente injusto. Duflo lembrou que o Bolsa Família, grande responsável pela redução da pobreza no Brasil, foi basicamente financiado pela classe média, que por isso faz restrições ao programa. E a origem dessa conta para a classe média, como provam muitos estudos, vários citados nesses artigos, é o fato de que os ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os demais contribuintes. E os muito ricos pagam proporcionalmente menos ainda. Não é tema que interesse parte das pessoas com poder de decisão. Isso torna difícil a melhora do quadro. A conta não mudará de mãos.
Na sua mais recente vinda ao País, há duas semanas, Duflo participou de eventos ligados à Fundação Lemann, que, em seu slogan, diz: “Por um Brasil que acredita nas pessoas; por pessoas que acreditam no Brasil”. O principal idealizador da Fundação é Jorge Paulo Lemann, provavelmente o mais conhecido dos empresários brasileiros que conquistaram prestígio e poder no mundo e certamente um dos ídolos dos que trabalham na área financeira. Mas Esther Duflo veio para falar sobre os temas de que tem tratado. Pior: ela deu uma aula magna em Brasília na Escola Nacional de Administração Pública, realizada em parceria com a Fundação Lemann. A ação do Estado assusta parte das pessoas que lidam com muito dinheiro; o susto deve aumentar quando uma instituição privada, com palestras como estas, contribui para aperfeiçoar e modernizar a atuação do poder público.
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Duflo afirmou que os pobres pagam a conta das guerras, como a que hoje envolve Estados Unidos, Israel e Irã. O impacto do conflito sobre o orçamento dos pobres vem pelo aumento dos combustíveis (que afeta os demais preços) e dos alimentos (impacto direto). “São sempre os pobres que pagam. A guerra da Ucrânia é um resumo disso: levou a um grande aumento dos preços de alimentos, o que foi ruim para todos e um desastre para o custo de vida das pessoas pobres da África”, lembrou.
Em outra entrevista, esta para o Estadão há cerca de um ano (26/4/2025), Duflo falou do papel dos ricos no agravamento das mudanças climáticas e dos que arcam com os custos ambientais. Referindo-se à sua proposta de taxação das 2 mil ou 3 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 bilhão, que a tem levado a viajar o mundo, disse que os recursos arrecadados seriam destinados aos mais pobres do planeta afetados por eventos extremos, pois essas pessoas são “as maiores vítimas das mudanças climáticas e não contribuíram em nada para que o aquecimento global acontecesse”.
Uma justificativa sobre a proposta foi apresentada por ela em entrevista que concedeu em 2024 à BBC News Brasil. Eis o que disse: “A dupla crueldade das alterações climáticas é que as emissões responsáveis por elas, tanto historicamente como ainda hoje, se devem às pessoas ricas do mundo, que se encontram majoritariamente em países ricos, embora haja pessoas ricas em países de renda média. Mas as principais vítimas são as pessoas pobres do mundo, que se encontram majoritariamente em países pobres, embora haja pessoas pobres nos países ricos”. E completou: “Você não pode seguir em frente e dizer que está tudo bem”.
Daí ela falar em “dívida moral” dos bilionários que poluem mais do que ninguém, mas em nada arcam com os custos da degradação ambiental e, sobretudo, mal pagam impostos, quando pagam. E daí mais um argumento para sua proposta de taxação dos bilionários.
Quanto ao Brasil, Duflo disse que o País tem posição destacada no debate das mudanças climáticas, mas, quanto à questão socioeconômica, precisa evoluir na taxação dos muitos ricos para avançar no combate à pobreza. “Há uma coisa com que, eu acho, todos concordam: a situação fiscal do Brasil é complexa”, disse.
De fato, o equilíbrio das contas públicas é a grande preocupação que tem alimentado o debate entre economistas de prestígio no País – e tem colocado o governo na defensiva. São frequentes projeções de crise das finanças públicas em futuro próximo, com risco para a sustentação de importantes programas, especialmente na área social, o que afetaria os que mais necessitam do apoio do governo, os pobres. Evitar isso exige aumento de arrecadação, com a taxação maior sobre quem pode muito e paga pouco.
O sistema tributário brasileiro, como observou Duflo, é incapaz de enfrentar esse problema. De forma mais direta, seria necessário dizer que o sistema é socialmente injusto. Duflo lembrou que o Bolsa Família, grande responsável pela redução da pobreza no Brasil, foi basicamente financiado pela classe média, que por isso faz restrições ao programa. E a origem dessa conta para a classe média, como provam muitos estudos, vários citados nesses artigos, é o fato de que os ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os demais contribuintes. E os muito ricos pagam proporcionalmente menos ainda. Não é tema que interesse parte das pessoas com poder de decisão. Isso torna difícil a melhora do quadro. A conta não mudará de mãos.
Pesadelo judeu
A identidade, tanto de um indivíduo como de um povo, é uma construção atualizada historicamente. Nomes, então, são variáveis aleatórias. No Leste Europeu, onde meus antepassados viveram por um milênio, as fronteiras moviam-se quase que por encanto – ia-se dormir em um país e acordava-se em outro. O idioma oficial variava entre o polonês, o alemão falado na Prússia, no Império Austro-húngaro, o russo etc. Meu nome poderia variar, ir e vir, entre Szmil Kilsztajn, Samuel Külstein ou Самуил Кильштейн.
Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.
Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.
O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).
Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.
No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.
Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.
Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.
Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.
O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano.
Nasci em Jaffa, uma cidade que, mesmo de acordo com o despótico Plano de Partilha das Nações Unidas, estava reservada aos palestinos. Para me manter íntegro, hoje me identifico como palestino budista e assumi o nome Samy El Khalili. E como, além de budista, sou anarquista, não vou me dar ao trabalho de alterar o nome no registro civil. Para todos os efeitos, sou eu que determino a minha identidade e o meu nome – e não os outros. Então é como humanista, internacionalista e pacifista que me atrevo a discorrer sobre o pesadelo judeu que ora se descortina diante de nós.
Com a aprovação do Plano de Partilha da Palestina em novembro de 1947, enquanto o pai de Amós Oz comemorava a profecia de Herzl, “o Estado Judeu bate à porta”, sua mãe dizia, “não bate, não há porta alguma, o que há é um precipício.” Em 1948, às vésperas da criação do Estado de Israel, Hannah Arendt publicou um artigo prenunciando a possibilidade de uma ruptura entre os judeus israelenses e os da diáspora. As relações dos israelenses “com o judaísmo mundial se tornariam problemáticas, já que seus interesses de defesa poderiam entrar em conflito a qualquer momento com os de outros países onde vivem grandes contingentes de judeus. O judaísmo palestino acabaria por se separar do corpo maior do judaísmo mundial e, em seu isolamento, se desenvolveria em um povo inteiramente novo.” Mas a realidade foi muito mais cruel – o sionismo capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade tanto em Israel quanto na diáspora, apesar dos protestos de algumas organizações judaicas antissionistas.
O artigo reflete o clima entre os judeus anterior à criação do Estado de Israel, em que “o terrorismo e o crescimento de métodos totalitários são tolerados silenciosamente e secretamente aplaudidos”. Hannah Arendt, embora considere que os palestinos “em vez de concluir pelo menos acordos de trégua locais, decidiram evacuar cidades e vilas inteiras a permanecer em território dominado por judeus”, cita, no decorrer do texto, o lançamento de uma bomba contra uma fila de trabalhadores árabes em Haifa, o ataque a Jaffa e o massacre de Deir Yassin, em que aldeões, embora tenham feito acordos com os judeus, foram atacados e assassinados, “incutindo na população árabe o medo aos judeus” (episódios anteriores a 14 de maio de 1948).
Por ocasião da criação do Estado de Israel, as autoridades acharam por bem que seus cidadãos esquecessem a Segunda Guerra Mundial e se desfizessem da cultura da diáspora e de seu “jargão”, o Yiddish. O Holocausto exterminou os pais dos sobreviventes; mas como Israel poderia exterminar a sua língua materna? Como poderiam eles se desfazer de sua língua, a língua na qual expressavam seus sentimentos, a língua em que pensavam, a língua na qual sonhavam? Em Israel, falar yiddish nas ruas era mal visto, quase uma contravenção. O poeta Menke Katz, depois de ter sido conduzido à prisão em Israel por falar yiddish com seu filho na rua, fez as malas mais uma vez e remigrou para os Estados Unidos.
No início dos anos 1950, milhares de sobreviventes do Holocausto, que foram levados a acreditar que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra, começaram a abandonar a Terra Prometida. Para estancar esse êxodo, os Estados Unidos, a Alemanha e Israel arquitetaram um escândalo internacional em Munich. O Brasil, na época, foi chamado a cooperar e abrir os portos para esses refugiados indesejados tanto na Europa como nos Estados Unidos. E lá estavam eu e meus pais, encalhados em Munich, alcunhados como Returnees e presos como imigrantes ilegais – testemunhas oculares dessa história. Ancoramos em Santos sem nunca ter ouvido falar que existisse um país com o nome de Brasil.
Neste período, os sionistas, que achavam que os sobreviventes deveriam se esquecer de sua cultura humanista, internacionalista e pacifista, resolveram ainda instrumentalizar o Holocausto em favor do Estado de Israel. Em 1960, o Mossad capturou e contrabandeou o nazista Eichmann. Seu julgamento foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto. Em 1963, tanto os israelenses como os judeus da diáspora amaldiçoaram Hannah Arendt por seu texto publicado em The New Yorker, Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.
Seguiu-se a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 e, depois do Massacre de Sabra e Chatila de 1982, o militante sobrevivente Primo Levi declarou que Israel foi um erro em termos históricos e que “Como judeu da diáspora, que se sente muito mais italiano do que judeu, eu preferiria que o centro de gravidade do judaísmo ficasse fora de Israel… acredito que a principal corrente do judaísmo está mais bem preservada em outros lugares do que em Israel.” Contudo, efetivamente, o judaísmo da diáspora foi oficialmente capturado pelo sionismo.
Em Pesadelo palestino, mencionei que a Torah e a história do povo judeu foram moldadas e redigidas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos, e que qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. O artigo foi postado em 23 de fevereiro de 2026, às vésperas da atual ofensiva de Israel contra o Iran, em conjunto com os Estados Unidos, que já transformou o genocídio palestino em guerra regional e corre ainda o risco de se alastrar para além do Oriente Médio.
O verdadeiro inimigo de Israel e do povo judeu não é o Hamas, o Hezbollah, o povo palestino ou os iranianos. O verdadeiro inimigo não é um oponente externo, é aquele que vive dentro de nós. A última vez que estive na Palestina foi em abril de 2023, seis meses antes da investida de Israel em 7 de outubro do mesmo ano.
Em Jaffa, redigido em maio e publicado em junho de 2023, escrevi que os israelenses vivem no primeiro mundo, presos a uma armadilha, ricos, alegres, orgulhosos, arrogantes, escravos de sua opulência e de seu “poder” militar, refestelando-se e rindo-se da pobreza de seus arcaicos vizinhos palestinos e maldizendo os muçulmanos “sanguinários que vivem se esfaqueando uns aos outros em todas as partes do mundo”. Como não achei ninguém que pudesse fazer a apresentação, apresentei o livro eu mesmo, usando como autor o pseudônimo Shmuel e o sobrenome Yored, que significa traidor em hebraico.
E se Trump quiser um golpe para se tornar ditador?
A guerra no Irã está a ser desencadeada em nome de Deus (até o Papa teve que vir mandar calar a Administração Trump. A guerra no Irã tem como objetivo fazer retornar os iranianos à “Idade da Pedra, que é o seu lugar”. O Presidente americano promete o “inferno” ao país que invadiu e ameaça com mais crimes de guerra, além dos já levados a cabo em escolas e outras infraestruturas civis: agora vai rebentar mais pontes.
No momento em que escrevo, domingo de Páscoa, um dia sagrado no calendário cristão, o último post de Trump na sua rede social pode traduzir-se assim: “Terça-feira é o dia das centrais eléctricas e o dia das pontes [que Trump promete destruir]. Abram o maldito [tradução simpática da palavra ‘fucking’] estreito, seus filhos da mãe [também tradução algo benévola de ‘bastards’] loucos, ou viverão no inferno. VÃO VER [assim, em maiúsculas]. Rezem a Alá.” O declínio mental deveria ser obrigatória razão para “impeachment”. Alguém que o faça.
A quadra pascal serviu para o bêbado (e abusador de mulheres, segundo a sua própria mãe) Peter Hegseth, com experiência de defesa ligeiramente acima de zero, “ministro da guerra” de Trump, demitir a todo o vapor o chefe do Estado-Maior e vários outros generais experientes, alegadamente por defenderam as políticas de diversidade de que Trump não gosta, mas porque alguns também se opunham à loucura sem saída à vista que tomou Washington.
O homem que nos Estados Unidos detém os códigos do armamento nuclear levou o país para uma guerra em nome do carniceiro de Telavive, que devia estar a responder por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional, Benjamin Netanyahu. Existe o dinheiro: Trump tem conseguido ficar mais rico e os seus sequazes também (a suspeita de “inside trading”). Mas a quantidade de contradições em que Trump já caiu, dizendo uma coisa e desmentindo-a no mesmo dia, desde as famosas declarações em que afirmava que tinha derrubado o regime logo nos primeiros dias de guerra até à ideia de que os americanos não precisavam do estreito de Ormuz, mostra alguém que não tem a menor ideia do que está a fazer
Trump está a perder a guerra (e a Rússia a ganhar, o que terá repercussões na Ucrânia) e a levar o mundo para uma recessão de proporções ainda impossíveis de imaginar. A popularidade do presidente americano está a bater no fundo. As eleições “midterm”, no próximo novembro, têm todos os ingredientes para se transformarem numa gigantesca humilhação para Trump.
No sábado de Páscoa, Timothy Snyder (historiador, autor do famoso Sobre a Tirania) fez um texto interessantíssimo no Substack onde colocava uma questão que pode mudar o curso daquilo a que ainda se vai chamando “a democracia na América”.
“Estamos a sete meses das mais importantes eleições intercalares na história dos Estados Unidos. Entretanto, estamos em guerra. Estas são condições que podem ser estruturais para uma tentativa de golpe em que o presidente tentará acabar com as eleições e ficar no poder como ditador.” Snyder põe a hipótese de Trump vir a ser bem-sucedido no golpe de Estado que acabaria com a democracia na América. Afinal, como o historiador lembra, Trump já tentou um golpe de Estado, em janeiro de 2021, com o assalto ao Capitólio. Dessa vez, o golpe falhou. Quando regressou ao poder, Trump anistiou os “seus” golpistas.
O mundo de ontem não era perfeito, mas agora entrámos em território desconhecido e imprevisível.
No momento em que escrevo, domingo de Páscoa, um dia sagrado no calendário cristão, o último post de Trump na sua rede social pode traduzir-se assim: “Terça-feira é o dia das centrais eléctricas e o dia das pontes [que Trump promete destruir]. Abram o maldito [tradução simpática da palavra ‘fucking’] estreito, seus filhos da mãe [também tradução algo benévola de ‘bastards’] loucos, ou viverão no inferno. VÃO VER [assim, em maiúsculas]. Rezem a Alá.” O declínio mental deveria ser obrigatória razão para “impeachment”. Alguém que o faça.
A quadra pascal serviu para o bêbado (e abusador de mulheres, segundo a sua própria mãe) Peter Hegseth, com experiência de defesa ligeiramente acima de zero, “ministro da guerra” de Trump, demitir a todo o vapor o chefe do Estado-Maior e vários outros generais experientes, alegadamente por defenderam as políticas de diversidade de que Trump não gosta, mas porque alguns também se opunham à loucura sem saída à vista que tomou Washington.
O homem que nos Estados Unidos detém os códigos do armamento nuclear levou o país para uma guerra em nome do carniceiro de Telavive, que devia estar a responder por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional, Benjamin Netanyahu. Existe o dinheiro: Trump tem conseguido ficar mais rico e os seus sequazes também (a suspeita de “inside trading”). Mas a quantidade de contradições em que Trump já caiu, dizendo uma coisa e desmentindo-a no mesmo dia, desde as famosas declarações em que afirmava que tinha derrubado o regime logo nos primeiros dias de guerra até à ideia de que os americanos não precisavam do estreito de Ormuz, mostra alguém que não tem a menor ideia do que está a fazer
Trump está a perder a guerra (e a Rússia a ganhar, o que terá repercussões na Ucrânia) e a levar o mundo para uma recessão de proporções ainda impossíveis de imaginar. A popularidade do presidente americano está a bater no fundo. As eleições “midterm”, no próximo novembro, têm todos os ingredientes para se transformarem numa gigantesca humilhação para Trump.
No sábado de Páscoa, Timothy Snyder (historiador, autor do famoso Sobre a Tirania) fez um texto interessantíssimo no Substack onde colocava uma questão que pode mudar o curso daquilo a que ainda se vai chamando “a democracia na América”.
“Estamos a sete meses das mais importantes eleições intercalares na história dos Estados Unidos. Entretanto, estamos em guerra. Estas são condições que podem ser estruturais para uma tentativa de golpe em que o presidente tentará acabar com as eleições e ficar no poder como ditador.” Snyder põe a hipótese de Trump vir a ser bem-sucedido no golpe de Estado que acabaria com a democracia na América. Afinal, como o historiador lembra, Trump já tentou um golpe de Estado, em janeiro de 2021, com o assalto ao Capitólio. Dessa vez, o golpe falhou. Quando regressou ao poder, Trump anistiou os “seus” golpistas.
O mundo de ontem não era perfeito, mas agora entrámos em território desconhecido e imprevisível.