quarta-feira, 8 de abril de 2026

Estamos todos cansados e não é por acaso

Há uma fila para pagar. Mas não me aproximo das caixas automáticas, vazias àquela hora, evitadas por todos os que vivem no bairro e aproveitam para dar dois dedos de conversa com os operadores enquanto as compras rolam pelo tapete. A senhora que está a atender trabalha ali há muitos anos, conhece quem conta nas mãos as moedas enquanto olha com ansiedade para a soma registada pela máquina, quem se atrapalha com as mãos trémulas pela idade a fazer os trocos, quem tenta gerir as compras e os filhos pequenos ao mesmo tempo que fala ao telefone. Sei de tudo isso e de como ela, e vários outros que aqui trabalham, se tornam figuras reconhecidas com quem se fala de tudo e de nada. Mas tenho quase a certeza de que a senhora que estava à minha frente a ser atendida não a conhecia particularmente. E talvez isso torne ainda mais incrível o que lhe disse. “Como está?”, perguntou a operadora, com um sorriso, fazendo deslizar os códigos de barras pela máquina. Sem grande hesitação, a mulher respondeu: “Muito cansada. Psicologicamente muito cansada.”


Ainda não tinha reparado nela, ocupada que estava a descarregar o carrinho sobre o tapete rolante. Ergui os olhos, procurando a dona desta resposta desabrida e honesta, inesperada o suficiente para provocar uma pausa. A operadora parou também por instantes o que estava a fazer. Apenas um ou dois segundos. Olhou-a. E, sem vestígio de condenação, respondeu com bondade e empatia. “Pois. Isto está muito difícil.” A outra tinha já moedas entre os dedos. Parou de frente para a caixa. Tinha o cabelo em desalinho e a cara demasiado envelhecida para a idade, uma t-shirt puída, gasta sobre a saliência do ventre, as costas tortas debaixo de um casaco de malha. “É uma colega lá do trabalho. Faz-me a vida num inferno”, desabafou, explicando quase de rajada que trabalha numa cozinha. “Não sei se vou aguentar muito tempo”, disse mesmo antes de rodar sobre os pés para sair com os sacos das compras.

Fiquei a pensar naquilo. No cansaço. Em como o carregamos às costas, em como nos verga os ombros, em como nos tolda a compreensão e a paciência. Andamos cansados. Todos. Exaustos. Arrastamo-nos de tarefa em tarefa. Corremos atrás das horas. Sem pausa. Sem um momento que seja em que não estejamos a fazer nada. Existir é uma coisa que demora demasiado tempo. Fazemos. Cumprimos. Resolvemos. A cada passo consultando o telefone, com as mensagens, as notificações, as chamadas, os emails. É tudo urgente. É tudo importante. Temos de responder, temos de aparecer, temos de fazer. Os dias esgotam-se depressa como se os engolíssemos de um trago. São pequenos fósforos a arder entre os dedos até os sentirmos queimar. Chegamos à cama com um misto de alívio e culpa. Este dia já foi, pensamos. Este dia já era, lamentamos. Mas sabemos que temos de adormecer depressa. O relógio já nos engole as poucas horas de descanso, enquanto nos enrolamos nos lençóis e nas ideias do que ficou por fazer. É preciso descansar. O sono tornou-se um imperativo que perseguimos ansiosos e não a resposta de um corpo que procura repousar.

O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados, como antes a religião nos dividia entre os bem-aventurados e os pecadores. A culpa que carregamos faz parte do processo. Sempre fez.

O cansaço que nos tolhe não é individual, dizia eu. Estamos cansados porque temos de vender muitas horas de trabalho só para conseguir viver, num sistema que nos impinge a ideia de que o nosso valor intrínseco se mede pelo que conseguimos fazer e ter e não pelo que somos. Estamos cansados porque vivemos cada vez mais longe do trabalho, dos amigos, da família. Estamos cansados porque ficamos sem rede que nos ajude a cuidar dos filhos e dos pais. Estamos cansados porque a ansiedade da incerteza e da precariedade cansa. Estamos cansados porque até os encontros sociais se tornam um momento de consumo, desligado do prazer simples de estar com aqueles de quem gostamos, transformado em mais uma possibilidade de negócio que faz com que manter amizades custe demasiado dinheiro. Estamos cansados porque parar é um luxo. Estamos cansados porque somos nós o produto final, explorados numa economia da atenção, desenhada para nos manter colados aos ecrãs e às redes, enquanto minera os nossos dados. Estamos cansados porque desligar tem um preço demasiado alto.

Estamos cansados para que nos vendam detox e retiros, férias e massagens, livros de autoajuda e medicação, saídas à noite e entradas no ginásio, escapadinhas e chás, cremes e sonhos.

Estou a pensar nisso enquanto saio do supermercado. Tenho à frente um parque infantil. Passa pouco das quatro da tarde e a praceta enche-se de mulheres e crianças pequenas. Olhando com atenção, percebo que as mulheres que ali estão são todas negras e as crianças brancas e loiras. Algumas das mulheres estão fardadas. É evidente que não são as mães. Vigiam as crianças, mais ou menos atentas, enquanto elas brincam. Algumas delas, distraindo-se com conversas entre si, outras olhando para os telefones, outras ainda enchendo os pequenos de mimos e atenção.

Esta é uma das primeiras tardes de primavera e as árvores enchem o ar de um cheiro doce. Devia ser uma alegria apanhar este sol seguindo os pequenos passos curiosos destas crianças. Mas há uma evidência que me esmaga: estas não são as mães. Noutro ponto da cidade, hão de estar mulheres, talvez esmagadas pela culpa, trabalhando fechadas longe desta brisa primaveril. Noutro ponto da cidade, hão de estar crianças, vigiadas por outros olhos, enquanto os braços das suas mães carregam os filhos das outras. E todos andam nesta mesma roda-viva que transforma a vida num ato de sobrevivência e a afasta do prazer que todos devíamos instintivamente procurar. Temos mesmo de desligar.

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