segunda-feira, 6 de abril de 2026
A realidade que mina a esperança da Páscoa
A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.

Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.
Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.
— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.
Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.
Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.
— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.
O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.
O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.
Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.
Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.
Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.
— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.
Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.
Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.
— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.
O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.
O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.
Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.
O fim da era dos grupos de mídia nacionais
Está chegando ao fim, no Brasil, a era em que poucos grupos nacionais de comunicação conseguiam se apresentar como intérpretes naturais da nação, árbitros da respeitabilidade pública e fiadores do regime político.
Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas.
Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social.
Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.
Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.
Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.
Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.
Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.
Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?
A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.
Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio.
Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.
Cada tiro era uma bomba.
Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.
Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.
Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.
A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário.
Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.
Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.
Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas.
Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social.
Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.
Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.
Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.
Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.
Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.
Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?
A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.
Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio.
Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.
Cada tiro era uma bomba.
Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.
Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.
Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.
A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário.
Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.
Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.
Mundo indiferente
Estamos nos acostumando com a violência, nos resignando a ela e nos tornando indiferentes.
Indiferentes à morte de milhares de pessoas.
Indiferentes às consequências do ódio e da divisão semeados pelos conflitos.
Papa Leão XIV
A sanha intervencionista do “Grande Irmão” está longe do fim
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países, até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história, desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era a defesa coletiva contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia global dos EUA no pós-guerra.
Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega — fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar Mediterrâneo.
Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a justificativa para ingerência em outros países.
A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.
O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.
Finda uma guerra, começam outras.
As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.
De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.
A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.
As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.
Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965, promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.
No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço), frutificou a barbárie.
Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo imperialismo.
Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência regional.
A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.
Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista (entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.
O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a consciência da classe dominante.
A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade dos EUA.
A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até territórios dos EUA.
Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.
E isto é muito perigoso.
Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega — fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar Mediterrâneo.
Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a justificativa para ingerência em outros países.
A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.
O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.
Finda uma guerra, começam outras.
As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.
De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.
A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.
As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.
Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965, promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.
No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço), frutificou a barbárie.
Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo imperialismo.
Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência regional.
A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.
Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista (entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.
O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a consciência da classe dominante.
A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade dos EUA.
A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até territórios dos EUA.
Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.
E isto é muito perigoso.
O Brasil falha onde tudo começa
O encontro inicial com os livros é um dos momentos mais decisivos na formação de qualquer leitor, mas isso ainda está longe de ser uma realidade no país.
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa.
No Brasil, porém, essa realidade segue longe de ser universal. Milhões de crianças crescem sem contato regular com livros, sem bibliotecas estruturadas e sem mediação qualificada. Trata-se de um déficit silencioso, que compromete desde cedo a trajetória dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educação e ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de letramento observados ao longo da vida escolar.
Play Video
Garantir o acesso ao livro desde a infância é, portanto, uma condição necessária. Mas não é suficiente; além de iniciativas isoladas, o país carece de uma articulação institucional capaz de dar escala, continuidade e coerência a essas ações. A formação de leitores não se sustenta apenas por esforços fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produção, circulação e mediação de forma consistente.
O quadro reflete as desigualdades do país. Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras têm contato com eles apenas de forma episódica, quando o têm. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajetórias cada vez mais desiguais.
Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crianças exige rigor, sensibilidade e domínio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, é um ato de criação que demanda repertório, técnica e intencionalidade. Texto e imagem não ocupam lugares hierárquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura.
Valorizar a produção de livros infantis é, portanto, reconhecer a literatura e a ilustração como dimensões indissociáveis de uma mesma experiência criativa e, no caso brasileiro, reconhecer também a força de uma produção que alcançou alta qualidade e projeção internacional.
O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordenação e visão integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem presença consistente e sem mediação, esse sistema não alcança plenamente quem mais precisa.
A mediação, aliás, é um ponto central. A formação de leitores não acontece de forma espontânea. Professores, bibliotecários e famílias são responsáveis por aproximar a criança do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experiência significativa. É nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna prática.
Por meio dos livros, a criança amplia seu repertório e entra em contato com diferentes realidades, experiências e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferenças e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.
Também é fundamental que as crianças se aproximem de livros que representem a diversidade de experiências, territórios e identidades que compõem a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contemporâneo.
Em um contexto de múltiplos estímulos e formas de oferta de informações, o livro segue sendo uma ferramenta insubstituível. A literatura infantil tem relevância fundamental ao oferecer uma experiência de leitura profunda, estruturada e formadora.
Mais do que marcar o Dia Mundial do Livro Infantil, celebrado em 2 de abril, é preciso investir no acesso, na qualidade e na mediação dos livros para crianças. E isso exige não apenas recursos, mas capacidade de organização e articulação.
Sociedades que não formam leitores desde a infância dificilmente formam cidadãos capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E é nas primeiras histórias, feitas de palavras e imagens, que começam, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um país.
Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Hubert Alquéres, Curador do Prêmio Jabuti
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa.
No Brasil, porém, essa realidade segue longe de ser universal. Milhões de crianças crescem sem contato regular com livros, sem bibliotecas estruturadas e sem mediação qualificada. Trata-se de um déficit silencioso, que compromete desde cedo a trajetória dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educação e ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de letramento observados ao longo da vida escolar.
Play Video
Garantir o acesso ao livro desde a infância é, portanto, uma condição necessária. Mas não é suficiente; além de iniciativas isoladas, o país carece de uma articulação institucional capaz de dar escala, continuidade e coerência a essas ações. A formação de leitores não se sustenta apenas por esforços fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produção, circulação e mediação de forma consistente.
O quadro reflete as desigualdades do país. Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras têm contato com eles apenas de forma episódica, quando o têm. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajetórias cada vez mais desiguais.
Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crianças exige rigor, sensibilidade e domínio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, é um ato de criação que demanda repertório, técnica e intencionalidade. Texto e imagem não ocupam lugares hierárquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura.
Valorizar a produção de livros infantis é, portanto, reconhecer a literatura e a ilustração como dimensões indissociáveis de uma mesma experiência criativa e, no caso brasileiro, reconhecer também a força de uma produção que alcançou alta qualidade e projeção internacional.
O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordenação e visão integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem presença consistente e sem mediação, esse sistema não alcança plenamente quem mais precisa.
A mediação, aliás, é um ponto central. A formação de leitores não acontece de forma espontânea. Professores, bibliotecários e famílias são responsáveis por aproximar a criança do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experiência significativa. É nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna prática.
Por meio dos livros, a criança amplia seu repertório e entra em contato com diferentes realidades, experiências e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferenças e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.
Também é fundamental que as crianças se aproximem de livros que representem a diversidade de experiências, territórios e identidades que compõem a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contemporâneo.
Em um contexto de múltiplos estímulos e formas de oferta de informações, o livro segue sendo uma ferramenta insubstituível. A literatura infantil tem relevância fundamental ao oferecer uma experiência de leitura profunda, estruturada e formadora.
Mais do que marcar o Dia Mundial do Livro Infantil, celebrado em 2 de abril, é preciso investir no acesso, na qualidade e na mediação dos livros para crianças. E isso exige não apenas recursos, mas capacidade de organização e articulação.
Sociedades que não formam leitores desde a infância dificilmente formam cidadãos capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E é nas primeiras histórias, feitas de palavras e imagens, que começam, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um país.
Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Hubert Alquéres, Curador do Prêmio Jabuti
Guerra no Irã ameaça segurança alimentar global com mais 45 milhões de pessoas em situação de fome
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam 20% do petróleo e gás do mundo, fez os preços do petróleo dispararem acima de US$ 100 por barril (cerca de R$ 520) e deixou economistas em alerta. Em meio às escaladas retórica e bélica desde o ataque americano-israelense em 28 de fevereiro, porém, especialistas afirmam que uma crise paralela e menos comentada está surgindo simultaneamente: a ameaça à segurança alimentar global, causada em grande parte pela iminente escassez de fertilizantes, essenciais para a produção de alimentos. Para analistas, os desdobramentos do conflito atual, se não forem enfrentados, serão capazes de transformar uma guerra regional em uma emergência humanitária mundial.
— O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta — afirmou ao GLOBO Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. — [Isso] em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.
Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.
— As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo — disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. — Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.
No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.
— A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo — alertou Werz. — Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.
Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu.
Analistas estimam que os reflexos do conflito atual podem ser maiores para a segurança alimentar do que os vistos com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, diz o PMA, os preços dos alimentos subiram rapidamente e demoraram a cair, excluindo famílias vulneráveis do acesso à nutrição básica. Mas alternativas foram encontradas, como o aumento das importações do Oriente Médio — algo que, para Máximo Torero, economista-chefe da Organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, não deve ser possível desta vez:
— Não há uma resposta rápida para a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes. Nenhum país consegue aumentar significativamente a produção desses insumos no curto prazo. Por isso é muito importante que o conflito termine logo — disse ele em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York. — Caso contrário, isso afetará a próxima temporada de plantio e terá consequências sobre os preços dos alimentos, [o que] certamente afetará a segurança alimentar.
Governos e órgãos ao redor do mundo já passaram a recorrer a reservas estratégicas de alimentos e a buscar rotas alternativas para tentar garantir o abastecimento. Nos Emirados Árabes Unidos, as reservas cobrem de quatro a seis meses, e o governo pediu aos moradores que denunciem aumentos injustificados de preços. Na Arábia Saudita, há cerca de quatro meses de estoque de trigo, e a ONU criou uma “força-tarefa” dedicada para “propor mecanismos técnicos” especificamente concebidos para atender às necessidades humanitárias no Estreito.
— O potencial para desencadear uma crise alimentar global está em grande parte ligado à duração [do conflito] — disse Joseph Glauber, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI) e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA, indicando que, para ele, a crise não deverá ter “efeitos dramáticos” sobre a produção de alimentos neste ano. — Custos mais altos de energia são provavelmente o maior risco. [Eles] já elevaram os custos de transporte, [o que] pode significar inflação dos preços dos alimentos.
As preocupações ocorrem enquanto grupos de ajuda enfrentam dificuldades. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR), que estima que 3,2 milhões de pessoas do Irã e 1 milhão de pessoas no Líbano tenham sido deslocadas em pouco mais de um mês de guerra, lançou um apelo urgente por doações, observando que apenas no Líbano o órgão precisa de mais mais US$ 61 milhões (R$ 316 milhões) para apoiar 600 mil pessoas nos próximos três meses — e que “as necessidades estão aumentando mais rapidamente do que os recursos”.
— Há a possibilidade de pressionar pela criação de um corredor humanitário no Estreito de Ormuz para produtos relacionados a alimentos e medicamentos, semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a escoar grãos da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia em 2022. Talvez navios com bandeira chinesa ou paquistanesa possam ser autorizados a transportar alimentos ou fertilizantes para os países mais necessitados — disse ao GLOBO Noah J. Gordon, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.
A decisão do presidente americano, Donald Trump, de dissolver a agência de ajuda internacional dos EUA (Usaid) no ano passado forçou grupos assistenciais em todo o mundo a demitir milhares de funcionários e encerrar programas que salvavam vidas. Embora Washington gastasse apenas 1% de seu orçamento com o órgão, ele foi desmontado após o então Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado à época por Elon Musk, classificá-lo como desperdício.
À Associated Press, o Departamento de Estado americano disse estar destinando mais de US$ 40 milhões (R$ 207 milhões) em assistência emergencial adicional ao Líbano, incluindo para o PMA. No entanto, trabalhadores humanitários citam a discrepância com o montante gasto na guerra: apenas a primeira semana do conflito custou US$ 11,3 bilhões (R$ 58 bilhões), segundo o Pentágono, que também busca mais de US$ 200 bilhões adicionais para a guerra.
— Cortes de financiamento em 2025 devastaram programas humanitários, incluindo os que trabalham com desnutrição. As agências de ajuda entram nesta crise em desvantagem. O PMA demitiu 25% de sua equipe e perdeu bilhões em financiamento humanitário. Ao mesmo tempo, pouco dinheiro novo foi mobilizado desde o início da guerra — disse Vigersky, que trabalhou no Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros da Usaid de 2014 a 2019.
Para Werz, se o impacto da invasão da Ucrânia e o “uso bem-sucedido dos alimentos como arma” pela Rússia servirem de indicador, é provável que os efeitos sejam de longo prazo. O impacto da guerra na Ucrânia sobre os mercados de fertilizantes, disse, gerou efeitos econômicos duradouros, reestruturou o comércio global e manteve os preços elevados bem acima dos níveis pré-guerra. Segundo ele, mesmo após o fim do conflito com o Irã, produtores no Golfo precisariam de garantias de segurança antes de retomar os envios pelo Estreito, e “efeitos cascata” poderão ser vistos “a milhares de quilômetros de distância”.
— Há uma série de ações que poderiam ser tomadas, mas que provavelmente serão prejudicadas por um sistema internacional cada vez mais disfuncional, no qual as grandes potências frequentemente perseguem interesses nacionais estreitamente definidos — afirmou. — Em última análise, o desafio é sistêmico: a política externa no século XXI envolve resolver problemas nacionais, regionais e globais que afetam grandes partes do mundo. No entanto, as instituições nas quais decisões são tomadas em nível nacional ou internacional muitas vezes ainda se assemelham a um ambiente da Guerra Fria que já não existe mais.
— O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta — afirmou ao GLOBO Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. — [Isso] em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.
Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.
— As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo — disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. — Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.
No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.
— A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo — alertou Werz. — Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.
Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu.
Analistas estimam que os reflexos do conflito atual podem ser maiores para a segurança alimentar do que os vistos com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na época, diz o PMA, os preços dos alimentos subiram rapidamente e demoraram a cair, excluindo famílias vulneráveis do acesso à nutrição básica. Mas alternativas foram encontradas, como o aumento das importações do Oriente Médio — algo que, para Máximo Torero, economista-chefe da Organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, não deve ser possível desta vez:
— Não há uma resposta rápida para a oferta de petróleo, gás natural e fertilizantes. Nenhum país consegue aumentar significativamente a produção desses insumos no curto prazo. Por isso é muito importante que o conflito termine logo — disse ele em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York. — Caso contrário, isso afetará a próxima temporada de plantio e terá consequências sobre os preços dos alimentos, [o que] certamente afetará a segurança alimentar.
Governos e órgãos ao redor do mundo já passaram a recorrer a reservas estratégicas de alimentos e a buscar rotas alternativas para tentar garantir o abastecimento. Nos Emirados Árabes Unidos, as reservas cobrem de quatro a seis meses, e o governo pediu aos moradores que denunciem aumentos injustificados de preços. Na Arábia Saudita, há cerca de quatro meses de estoque de trigo, e a ONU criou uma “força-tarefa” dedicada para “propor mecanismos técnicos” especificamente concebidos para atender às necessidades humanitárias no Estreito.
— O potencial para desencadear uma crise alimentar global está em grande parte ligado à duração [do conflito] — disse Joseph Glauber, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI) e ex-economista-chefe do Departamento de Agricultura dos EUA, indicando que, para ele, a crise não deverá ter “efeitos dramáticos” sobre a produção de alimentos neste ano. — Custos mais altos de energia são provavelmente o maior risco. [Eles] já elevaram os custos de transporte, [o que] pode significar inflação dos preços dos alimentos.
As preocupações ocorrem enquanto grupos de ajuda enfrentam dificuldades. A agência da ONU para os refugiados (ACNUR), que estima que 3,2 milhões de pessoas do Irã e 1 milhão de pessoas no Líbano tenham sido deslocadas em pouco mais de um mês de guerra, lançou um apelo urgente por doações, observando que apenas no Líbano o órgão precisa de mais mais US$ 61 milhões (R$ 316 milhões) para apoiar 600 mil pessoas nos próximos três meses — e que “as necessidades estão aumentando mais rapidamente do que os recursos”.
— Há a possibilidade de pressionar pela criação de um corredor humanitário no Estreito de Ormuz para produtos relacionados a alimentos e medicamentos, semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a escoar grãos da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia em 2022. Talvez navios com bandeira chinesa ou paquistanesa possam ser autorizados a transportar alimentos ou fertilizantes para os países mais necessitados — disse ao GLOBO Noah J. Gordon, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace.
A decisão do presidente americano, Donald Trump, de dissolver a agência de ajuda internacional dos EUA (Usaid) no ano passado forçou grupos assistenciais em todo o mundo a demitir milhares de funcionários e encerrar programas que salvavam vidas. Embora Washington gastasse apenas 1% de seu orçamento com o órgão, ele foi desmontado após o então Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado à época por Elon Musk, classificá-lo como desperdício.
À Associated Press, o Departamento de Estado americano disse estar destinando mais de US$ 40 milhões (R$ 207 milhões) em assistência emergencial adicional ao Líbano, incluindo para o PMA. No entanto, trabalhadores humanitários citam a discrepância com o montante gasto na guerra: apenas a primeira semana do conflito custou US$ 11,3 bilhões (R$ 58 bilhões), segundo o Pentágono, que também busca mais de US$ 200 bilhões adicionais para a guerra.
— Cortes de financiamento em 2025 devastaram programas humanitários, incluindo os que trabalham com desnutrição. As agências de ajuda entram nesta crise em desvantagem. O PMA demitiu 25% de sua equipe e perdeu bilhões em financiamento humanitário. Ao mesmo tempo, pouco dinheiro novo foi mobilizado desde o início da guerra — disse Vigersky, que trabalhou no Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros da Usaid de 2014 a 2019.
Para Werz, se o impacto da invasão da Ucrânia e o “uso bem-sucedido dos alimentos como arma” pela Rússia servirem de indicador, é provável que os efeitos sejam de longo prazo. O impacto da guerra na Ucrânia sobre os mercados de fertilizantes, disse, gerou efeitos econômicos duradouros, reestruturou o comércio global e manteve os preços elevados bem acima dos níveis pré-guerra. Segundo ele, mesmo após o fim do conflito com o Irã, produtores no Golfo precisariam de garantias de segurança antes de retomar os envios pelo Estreito, e “efeitos cascata” poderão ser vistos “a milhares de quilômetros de distância”.
— Há uma série de ações que poderiam ser tomadas, mas que provavelmente serão prejudicadas por um sistema internacional cada vez mais disfuncional, no qual as grandes potências frequentemente perseguem interesses nacionais estreitamente definidos — afirmou. — Em última análise, o desafio é sistêmico: a política externa no século XXI envolve resolver problemas nacionais, regionais e globais que afetam grandes partes do mundo. No entanto, as instituições nas quais decisões são tomadas em nível nacional ou internacional muitas vezes ainda se assemelham a um ambiente da Guerra Fria que já não existe mais.