Muitos pássaros se recusam até a levantar voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso. Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho. Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles. Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou cinismo.
Enquanto o mundo só se revela por meio do nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga. Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente — o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton, na Inglaterra — e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair de uma prisão em Melbourne.
— De certa forma, meu trabalho se tornou uma rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos. — Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.
Cave ainda acredita numa “espécie de corrente subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.
Um homem corpulento em júbilo, quipá na cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita, comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a execução se dará por enforcamento.
— Em breve vamos contá-los um por um — garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.
O inverso não foi sequer cogitado: pena semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos. Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.
O editorial do diário Haaretz que tratou do assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa assim: Céus — tende piedade de mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro sangrento do serviço prisional.
Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.
Nenhum comentário:
Postar um comentário