Uma mulher fala à porta de um prédio. Está com um casaco de penas azul-escuro. É negra. Conta-nos que por baixo do casaco está só de pijama. A polícia chegou e obrigou-a a sair de casa à pressa. “Fui surpreendida por um despejo sem aviso… Estava deitada. Entraram mais de 20 polícias em casa. Seguraram-me a mão na parede. Tiraram-me o telemóvel”, conta ela no vídeo publicado no Instagram do movimento Vida Justa. “Estão a despejar-te porque abrigaste alguém?”, pergunta a voz do homem que filma a cena. “Sim, o meu sobrinho. Abriguei-o porque foi despejado com o pai. O pai está num quarto de solteiro (…) Para o miúdo não ficar na rua, abriguei-o.” Desorientada, sem saber o que fazer, a mulher ainda conta que um dos polícias a mandou para a sua terra.
A cena parece inverossímil para quem não sabe que há regulamentos municipais que consideram motivo de despejo a “hospedagem ilegal”. E o que é a “hospedagem ilegal”? Pode ser receber em casa um sobrinho para que ele não vá dormir para a rua ou uma mãe que vem de fora do País para fazer quimioterapia. Quem não está na ficha da casa municipal não pode estar no imóvel, mesmo que os inquilinos paguem todas as rendas e tenham a casa em boas condições. E só isso mostra como as regras que exigimos aos pobres são tão diferentes das que se aplicam a qualquer outra pessoa. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados, agradecidos, de olhos baixos, trabalhadores, esforçados, de preferência invisíveis. E isto é quando toleramos que existam.
Claro que ninguém pensa em como precisa dos pobres. Pelo menos, até precisar de alguém para lhe limpar a casa ou cuidar dos pais ou dos filhos ou cozinhar no restaurante ou lhe construir uma casa. Aí, rapidamente aparece a indignação porque “ninguém quer trabalhar”. Claro, os pobres são sempre suspeitos de serem preguiçosos ou ladrões ou ambos. Os mesmos que os mandam para a terra deles (ainda que esta seja e sempre tenha sido a sua terra) ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis.
Precisamos dos pobres. Mas onde podem eles viver? Não nos centros das cidades, onde trabalham, porque aí manda o mercado e, claro, nem todos podemos viver nas zonas boas, com transportes, serviços e jardins. Poderão então morar nas periferias? Não, porque para aí mudaram-se os trabalhadores que acham que são da classe média porque até têm os filhos no colégio e carros elétricos, mas depois esmifram-se a trabalhar e claro que não podem morar nas zonas chiques onde estão os nómadas digitais, os reformados americanos e toda a sorte de ricos a quem ninguém se lembra de mandar para a terra deles.
Poderão morar nos bairros municipais? Não, porque para aí têm de ir os trabalhadores que também acham que são da classe média, apesar de terem sempre um mês maior do que o salário e de já não conseguirem há anos fazer duas semanas de férias fora de casa e que também já não conseguem morar nas periferias para onde foram os outros expulsos dos centros, apesar de se acharem portugueses de bem.
Poderão morar em bairros autoconstruídos? Não, porque ninguém quer que haja barracas, a macular as paisagens e a ocupar os terrenos por que anseiam os mercados na sua fome insaciável. Dirão, então, que as construções abarracadas são insalubres, inseguras. Já se sabe que os pobres são porcos, sem noção de estética e mal-agradecidos. E é por isso que devem viver em sítios onde não há recolha do lixo nem parques infantis nem centros de saúde e bons transportes, porque estragam tudo, não sabem usar nada. E são perigosos. Os pobres são perigosos e é por isso que vivem em “bairros problemáticos”. E, de qualquer forma, só podem ocupar esses espaços até alguém descobrir que, afinal, aquela zona era ótima para mais uns condomínios, porque até tem uma vista em que nunca ninguém tinha reparado.
Poderão, finalmente, morar nas ruas? Ficar debaixo de arcadas? Deitar-se no chão ou nos bancos de jardim? Claro que não. Ninguém quer andar a tropeçar em gente andrajosa. Isso dá cabo do turismo e incomoda os milionários que vieram do Dubai à procura de luxo e sossego. E é por isso que se cercam as arcadas com grades, se fecham jardins e miradouros, se plantam espigões de ferro nos sítios que poderiam servir para abrigar alguém e se colocam nas ruas bancos públicos que afinal não são bem bancos, são só sítios onde alguém consegue encostar-se por uns minutos, mas nunca deitar-se para dormir algumas horas.
Onde poderão, então, viver os pobres? Viver talvez seja um verbo excessivo. Um luxo mesmo. E já se sabe que os pobres não podem ter acesso a luxos, sob pena de ficarem mal-habituados e descontrolados. É preciso tê-los domesticados, controlados. Como as pragas dos ratos e das baratas, que eles trazem atrás de si.
Este pensamento sobre a possibilidade da existência dos pobres segue o raciocínio de quem sonha erguer resorts de luxo sobre as ruínas e os mortos de Gaza. A conceção utilitária da vida desemboca numa ideia de genocídio. Exterminam-se os pobres e os vulneráveis porque eles não nos interessam, não têm valor. São tolerados apenas quando são necessários como força de trabalho barata, mas estão totalmente ausentes das preocupações de humanidade e dignidade que deviam ser básicas. Os mesmos que se incomodam com a morte de fetos são completamente indiferentes ao sofrimento de crianças a viver em condições precárias de habitação, passando fome ou sob a ameaça de serem retiradas aos pais por serem… pobres. Há poucos crimes mais perseguidos do que a pobreza.
Caso não pretendam matar os pobres, fiquem a saber que eles já são muitos e que a tendência é para aumentarem. A crise da habitação é uma máquina de produzir pobres. Se não for já por nos sabermos todos humanos, que seja por percebermos que a pobreza pode estar mais perto do que se imagina, à distância de um divórcio, do desemprego inesperado ou de uma reforma que não chegará para pagar tudo. Lembrem-se também que há poucas coisas mais fortes do que sermos muitos. Talvez um dia os pobres percebam que são muitos. Rosseau escreveu: “Quando o povo não tiver mais o que comer, comerá os ricos.” E nós só estamos a aumentar-lhes a fome.
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