sábado, 11 de abril de 2026

O PL está se tornando um partido de massas?

O Partido dos Trabalhadores, desde os anos 1990, ocupou a liderança isolada na preferência dos eleitores. É o que mostram os levantamentos sistemáticos feitos pelo Datafolha desde a redemocratização. O PT não perdeu o posto nem no auge do Mensalão (2005) ou da Lava Jato (2015/2016). A última pesquisa do instituto, publicada nos últimos dias de 2025, mantinha-o como favorito por 24%, enquanto 12% apontavam o Partido Liberal (PL), associado ao bolsonarismo.

Mas a pesquisa AtlasIntel/Arko de março/abril de 2026 – divulgada há poucos dias – é o primeiro registro metodológico de alto alcance que não mostra o PT no posto que sempre ocupou. O PL agora aparece numericamente à frente: 27% contra 25,4%.

A imprensa tratou isso como empate técnico – que é. Porém, analiticamente, o fato de o PT não estar mais sozinho no topo é um acontecimento político que não pode ser subestimado, ainda mais considerando que sua pontuação, três meses antes, era o dobro do rival.

Enquanto a preferência pelo PT parece ter batido em um teto histórico (oscilando entre 24% e 26%), o PL apresenta uma curva de crescimento, sugerindo que a virada de 2026 pode não ser um ponto fora da curva, mas o início de uma nova era.


O PL fez 516 prefeituras nas eleições de 2024 – atrás do PSD, do MDB, do PP e do União, mas na frente do Republicanos e de todos os partidos de centro-esquerda. Elegeu quase 5 mil vereadores, atrás apenas de MDB, PP, PSD e União.

As eleições de 2022 deram ao PL o maior número de assentos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Com a janela que se fechou há poucos dias, cresceu ainda mais, sendo o que mais ganhou deputados.

Em pesquisa que estou desenvolvendo, o PL demostra ter disciplina interna consistente – embora não tão consistente quando a do PT.

O MDB é o partido com mais filiados no Brasil – mais de 2 milhões, seguido pelo PT, com 1,6 milhão. O PL, depois da janela, passou a ter 930 mil filiados.

Esses números indicam que o PL não é a maior sigla do país. Mas é um partido sólido e em ascensão, que se deve à profunda transformação pela qual passa desde a filiação de Jair Bolsonaro em 2021.

Jair Bolsonaro iniciou seu governo sem utilizar nenhuma das modalidades que um chefe de governo usa nos sistemas presidencialistas. Ele defendia a “nova política”, significando não negociação com o parlamento. Em vários domingos ainda em 2020 Bolsonaro passou a participar de manifestações pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, e até mesmo intervenção militar e a volta do Ato Institucional nº 5, que cassou mandatos em 1964.

Bolsonaro procurou manter diálogo direito com seu eleitorado, ou ao menos com a parcela mais radicalizada e fiel dele. A partir do meio de 2020, porém, houve mudanças importantes. As negociações com os partidos se tornaram necessárias depois dos diversos pedidos de impeachment que foram apresentados com fundamentação nas iniciativas por ruptura constitucional, e no comportamento de Bolsonaro em relação à pandemia.

Em junho de 2020, o então presidente, contrariando seu discurso de redução da máquina pública, recriou o Ministério das Comunicações e o entregou a deputado do PSD. Outros cargos na administração direta e em estatais foram entregues ao PP, ao PL e ao Republicanos. Esse processo seguiu até culminar com sua filiação ao PL no final de 2021, o que foi lido como aliança com a então tão criticada política tradicional.

O Partido Liberal, em sua história, caracteriza-se como uma agremiação fisiológica tradicional. Trata-se do antigo PR, resultado da fusão entre PL e Prona – duas legendas surgidas na redemocratização, cujos quadros eram em boa parte oriundos do PFL e do PDS, herdeiros da Arena. Herdou o enraizamento regional da direita da redemocratização, consolidando presença no interior conservador do país. Tinha, na origem, um entrosamento natural com a família de “partidos do interior” (atuais MDB, PSD, União), na expressão de André Singer.

O partido do interior representa o interior rural e cidades de pequeno porte, onde o voto é frequentemente mediado por relações de clientelismo e dependência de verbas federais. São formações com nítido viés governista, funcionando como o “fiel da balança” no Congresso. O PL, para o autor, é “tradicional componente do Centrão” – e, de fato, esteve na base de todos os governos, exceto do atual.

A filiação de Bolsonaro não significou, entretanto, apenas o bolsonarismo se enquadrando na política tradicional. Significou também a moldagem da política tradicional ao campo emergente de extrema-direita. Desde então, o PL transformou sua natureza e tornou-se a maior força de direita do país.

O PL não só foi o partido que mais cresceu como foi o partido com maior renovação na Câmara nas últimas eleições – ou seja, o maior número de deputados de primeiro mandato. Essa nova safra de parlamentares de direita, segundo os cientistas políticos César Zucco e Thimoty Power – que entrevistaram os deputados –, atua de forma deliberadamente provocativa e antissistema, diferindo da direita anterior, que operava sob a sombra do regime militar.

É uma direita desinibida e orgulhosa de si, ao contrário daquela “direita envergonhada” que se escondia sob o regime militar, e que esteve nas origens do Prona e do antigo PL. O PL atual, que incorpora novíssimos quadros, não busca a sombra. Ele busca o palanque e a mobilização digital.

O PL foi também o partido que mais elegeu deputados ligados ao policialismo/militarismo e pastores, pertencentes a campos políticos também emergentes e muito marcados no Brasil de hoje. Não é surpresa que tenha sido o partido que mais conferiu votos contrários ao governo Lula 3 nessa legislatura.

Com as características atuais – 900 mil filiados, popularidade em ascensão, quebrando o domínio histórico do PT no quesito –, o PL caminha para tornar-se um partido de massas.

Historicamente, partidos de massa estiveram ligados à esquerda, surgindo no final do século XIX como forma de organização do movimento operário e da social-democracia. Diferentemente dos partidos de quadros, baseados em notáveis e influência estatal, esses partidos estruturam-se “de baixo para cima”, apoiando-se na militância ativa e em contribuições disseminadas. Na formulação clássica de Maurice Duverger, não se tratam apenas de máquinas eleitorais, mas de organizações com forte enraizamento social, capazes de mobilizar, formar e sustentar seus membros para além dos períodos eleitorais.

Também no Brasil, a tradição dos partidos de massa foi historicamente consolidada pela esquerda. O PTB de Getúlio Vargas e Jango mobilizou as massas urbanas através da estrutura oficial dos sindicatos, enquanto o PCB introduziu a tecnologia das células e da disciplina ideológica rígida. O PT é o exemplo mais resiliente e estruturado, surgindo na redemocratização com uma base de militância ativa, núcleos de bairro e forte ligação com movimentos sindicais e sociais, mimetizando a função de “instituição total” que acompanha o militante para além do período eleitoral, estrutura que lhe permitiu cinco mandatos presidenciais.

Na Europa, os primeiros partidos de massa de direita surgiram como uma reação defensiva à expansão do sufrágio e ao avanço socialista no final do século XIX, destacando-se as agremiações confessionais, como o Zentrum alemão, e o conservadorismo reformista britânico, que organizaram bases populares em torno da fé e da identidade nacional. Foi após a Primeira Guerra Mundial que essa “tecnologia de massas” atingiu sua face mais agressiva com os movimentos radicais, como o fascismo e o nazismo; estas legendas subverteram a vocação originalmente esquerdista do modelo ao mimetizar sua estética e capilaridade organizacional para promover um nacionalismo totalitário.

Assim, a direita migrou do modelo de elites para o de massas em duas etapas: primeiro para preservar as instituições tradicionais (Igreja e Coroa) e, posteriormente, para mobilizar multidões em uma ofensiva radical contra o próprio sistema liberal.

No Brasil, os partidos de direita, como a UDN e a Arena, foram historicamente partidos de quadros, operando como agremiações de elite que dependiam de lideranças influentes e do controle do aparato estatal, em vez de uma base militante orgânica. A UDN, embora mobilizasse setores da classe média urbana com um discurso moralista e antissistema, nunca estruturou uma organização de amplas bases capilarizadas. Já a Arena, como braço civil da ditadura militar, era o exemplo máximo do “partido de notáveis” regionalizados, cuja força residia no acesso ao orçamento e na manutenção de oligarquias locais – o embrião do “partido do interior”.

PL seria o primeiro partido de massas de direita da história do Brasil – tendo como principal líder uma figura de extrema-direita, Jair Bolsonaro. Ao fazê-lo, o partido alinha-se a fenômenos globais contemporâneos, como o Fidesz (Hungria) e o Rassemblement National (França), que se consolidaram como verdadeiras máquinas de guerra cultural dotadas de vasta capilaridade popular; máquinas de mobilização popular permanente. Não se trata de uma nova UDN, trata-se de uma força maior e mais enraizada.

O PSD é maior em prefeituras, o PL é maior em popularidade e em congressistas. Eles dividem o trabalho. O PL tem o voto de opinião e o eleitor fidelizado, o PSD tem a máquina, as prefeituras. O PL aposta na sucessão dinástica com a candidatura de Flávio Bolsonaro para manter acesa a chama do bolsonarismo em grande escala. O PSD tem tentado vender a ideia de direita de resultados. Assim, o partido de Kassab oscila: busca autonomia do bolsonarismo, mas lançou como candidato Ronaldo Caiado que, como primeiro ato, promete anistiar Jair Bolsonaro, tentando capturar a alma do PL enquanto oferece o corpo da máquina do PSD.

O xadrez das estratégias eleitorais, porém, é secundário. O avanço da extrema-direita e o recuo da esquerda são fenômenos generalizados no mundo capitalista e o Brasil não escapa. A AtlasIntel/Arko mostra que a vantagem do PT só é expressiva entre eleitores com mais de 60 anos, enquanto o PL domina as faixas jovens e economicamente ativas. Quadro semelhante repete-se sistematicamente nos levantamentos estatísticos com o eleitorado. E o problema não é de comunicação. Décadas de destruição da classe trabalhadora organizada, financeirização das políticas públicas e o avassalador imaginário neoliberal (progressista ou conservador) cobram seu preço.

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